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Agência Brasil, 26 de abril de 2009
Crise atual pode ser
mais intensa do que a de 1929, diz sociólogo
Em 1980, o cineasta mineiro João Batista de
Andrade filmou O Homem que Virou Suco para contar as agruras
de um imigrante nordestino confundido com um assassino de
um manager de uma empresa multinacional.
A imagem antecede ao conceito, usado pelo sociólogo Ricardo
Antunes, de "liofilização" organizacional -
tomado de empréstimo da química para explicar o processo
de transformar substância líquida em pó (como acontece
com o leite em pó ou com o veneno).
Para Antunes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e especialista em temas do mercado de trabalho, as empresas, antes
da crise atual, passaram por processos de "liofilização" e
enxugaram suas "substâncias vivas", os trabalhadores,
por meio da modernização tecnológica e da reestruturação
produtiva.
O resultado disso foi o crescimento do chamado desemprego estrutural,
que poderá aumentar em muito com a crise econômica mundial
de hoje.
Ele avaliou que o trabalho está sob enorme ameaça e
o dia 1º de maio deste ano será "digno do século
19".
Nesse contexto, são abandonadas as teses sociológicas
que enxergavam o fim do trabalho ou do trabalhador como categoria de
análise e voltam a circular críticas ao capitalismo e
idéias de uma sociedade assentada em novas relações
de produção.
Ele afirmou que a crise mundial atual poderá ser mais intensa
do que a de 1929, nos Estados Unidos.
Leia a entrevista concedida para a Agência Brasil:
Agência Brasil - Que ameaças a crise econômica
mundial trouxe ao trabalho?
Ricardo Antunes - Não é mais ameaça. A
crise econômica já tem um resultado devastador para a classe
trabalhadora. A OIT (Organização Internacional do Trabalho)
fez a previsão de novos 50 milhões de desempregados em
2009, o que eleva o número de desempregados para até 340
milhões de pessoas no mundo. Este número é uma estimativa
moderada. Só a China anunciou que 26 milhões de ex-trabalhadores
rurais, que estavam ocupados nas cidades, perderam o emprego. A tragédia
que se abateu entre os trabalhadores é monumental, a começar
pelos imigrantes à cata de trabalho nos países do norte
do mundo, mas também a classe trabalhadora em geral, que estava
empregada na indústria metal-mecânica, têxtil, no
setor alimentício. A primeira providência que o empresariado
toma na eminência de uma crise é o corte nos postos de trabalho. É emblemático
que os Estados Unidos, a Inglaterra e o Japão vivem a maior taxa
de desemprego das últimas décadas.
ABr - Qual a versão brasileira dessa situação?
Antunes - O governo tentou nos vender a idéia, completamente
falsa, de que estávamos imunes à crise. A verdade, no entanto, é que
nós, no final do ano, tivemos 640 mil novos desempregados. De
lá para cá, os dados melhoraram, porque o governo tomou
medidas, como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) dos automóveis, para impedir que a recessão
fosse mais dura. Mas essas medidas têm folego curto. A economia
brasileira é muito globalizada. O Brasil depende muito do mercado
externo por causa das commodities. O desfecho da crise brasileira está bastante
atado ao desfecho da crise internacional. Não podemos ter uma
ilusão de que o país é uma ilha rósea em
um mar turbulento.
ABr - Antes da crise essa "ilha" tinha metade dos
seus trabalhadores sem os direitos reconhecidos, não?
Antunes - Chegamos a quase 60% da nossa População
Economicamente Ativa, em meados dos anos 2000, na informalidade, o que é expressão
da tragédia social. Imaginar que o Brasil vai ficar no século
21 fornecendo, por exemplo, cana-de-açúcar com trabalho
semi-escravo e pessoas cortando até 17 toneladas de cana por dia,
sob um regime de mensuração do trabalho que subtrai os
valores de remuneração. Essa não pode ser a alternativa
brasileira. O Brasil não é o pior cenário no contexto
internacional, mas pensar que estamos imune a ele é um completo
equívoco.
ABr - O trabalho no Brasil chegou ao século 21?
Antunes - Estamos vivendo uma situação bastante
contraditória. Embora o mundo produtivo às vezes atinja
um patamar do século 21, as condições de trabalho
estão regredindo às condições verificadas
nos séculos 18 e 19. O trabalho escravo, semi-escravo e infantil,
que nós imaginávamos fazer parte do início da Revolução
Industrial, estão hoje esparramados em vários setores,
e não é só no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos,
também existe trabalho infantil, e o trabalho sujo do imigrante,
que é tratado como um cidadão de quarta categoria. Tudo
isso nos joga a querer ser uma economia do século 21 com condições
pretéritas de trabalho, o que faz com que a luta do 1º de
Maio de 2009 seja semelhante à luta do 1º Maio de 1886, ano
da Revolta de Haymarket, em Chicago, nos Estados Unidos.
ABr - O senhor disse que políticas como a isenção
do IPI têm fôlego curto. Por que os governos optam por
medidas para a indústria automobilística, a despeito
dos problemas ambientais e dos problemas de saúde? Não
há outros setores com maior empregabilidade?
Antunes - O Brasil é uma triste repetição
de governos que representam os interesses dominantes. Por que que a indústria
automobilística joga pesado? Porque seu lobby é decisivamente
forte, assim como os bancos também o são. Os governos olham
para o capital, para o setor produtivo e financeiro, de um modo muito
diferente de como olham para o trabalho. Os trabalhadores só conseguem
alguma medida em seu favor quando lutam de forma consciente. Como muitas
centrais sindicais, hoje, estão prisioneiras de política
oficiais, trabalhadores e sindicatos de base perderam força. Muitas
das centrais oscilam em defender a política do governo e defender
os trabalhadores. Mas sabemos que as conseqüências para o
desemprego, quando a indústria automobilística entra em
recessão, são graves. Se reduz o emprego nessa indústria
aumenta o nível geral de desemprego porque a cadeia produtiva
atinge o fornecedor, toda a rede de autopeças, que existe em função
da montagem do sistema automotivo.
ABr - E quanto à sustentabilidade?
Antunes - Se voltarmos a produzir, recuperaremos o emprego da
indústria automobilística e de sua cadeia produtiva, mas
aumentam os níveis de destruição ambiental e de
poluição global. Se tivermos a retração do
emprego, o desemprego aumenta a barbárie social. Atividades que
são profundamente positivas na medida em que preserva a sociedade,
pela via reciclável, daquela tendência do capitalismo de
destruir as mercadorias para produzir outras, são subvalorizadas
e não recebem incentivos. Isso nos faz ter que pensar um novo
modo de vida e de produção para o século 21. Vamos
querer viver eternamente nesse sistema que exclusão, precarização,
informalidade, desemprego e barbárie social são o predominante?
ABr - As características desse sistema é que
constituem a atual morfologia do trabalho, tratada em um dos novos
artigos de seu livro Adeus Trabalho?, relançado agora?
Antunes - O meu livro foi, desde sua primeira edição
(em 1995), uma resposta à tese do fim do trabalho e de que a classe
trabalhadora não tinha mais sentido. O que venho mostrando desde
então é que é preciso compreender quem é a
classe trabalhadora de hoje. Temos trabalhadores no telemarketing que
não existiam antigamente, de hipermercados, motoboys. Temos uma
nova morfologia, um novo desenho. Não é que acabou o trabalho,
e muito menos as possibilidades da revolução do trabalho.
A nova morfologia é para não ter uma visão restrita
da classe trabalhadora como apenas os operários metalúrgicos.
ABr - Essas idéias do fim do trabalho foram apropriadas
pelas correntes de ciência social aplicada que defendiam a
chamada qualidade total, a eficiência e o aumento da produtividade.
Essas melhorias não foram benéficas à sociedade?
Antunes - Esse conjunto de medidas nasceram no Japão
e depois se ocidentalizaram. Esses processos tiveram como resultado o
aumento da produtividade e dos ganhos do capital, maiores lucros das
empresas e crescimento do desemprego. Com esse processo de liofilização,
digo utilizando um termo cunhado pelo sociólogo espanhol Juan
Jose Castillo, as empresas passaram a produzir dez vezes mais com cinco
vezes menos trabalhadores. Quem perdeu foi o pedaço da humanidade
que depende do trabalho. Foi aí que o desemprego estrutural, em
escala planetária, aumentou. O problema é que as pessoas
afetadas hoje estão no desemprego, informalidade, precarização,
narcotráfico, economia do crime.
ABr - O que o senhor acha da proposta de banco de horas para
evitar o desemprego atual, visando uma extensão de jornada
no futuro?
Antunes - É ruim, descalibra a vida dos trabalhadores.
Fiz uma pesquisa há alguns anos analisando essa situação
e havia trabalhadores que não teriam férias nos três
anos seguintes. Significa que o trabalhador nunca vai poder ter férias
programadas, vai estar sempre devendo. Por que os trabalhadores têm
que pagar o ônus de uma crise sobre a qual não têm
nenhuma responsabilidade?
ABr - Em um dos artigos da última edição
de Adeus Trabalho?, o senhor afirma que "a crise penetra no
centro dos países capitalistas, numa intensidade nunca vista
anteriormente". A atual crise é pior que de 1929?
Antunes - A crise atual é diferente, e seu espectro é de
mais intensidade. A crise de 1929 ainda foi herança de um período
cíclico: ciclo de expansão e ciclo de crise. Há pensadores
muito qualificados que dizem que desde o fim dos anos 1960 entramos em
uma crise estrutural de longa duração, na qual não
teremos mais aqueles ciclos. É uma longa fase depressiva, onde
não há mais como equacionar dentro da lógica do
capital a destruição ambiental e não tem como atender
toda a humanidade que precisa trabalhar para sobreviver. Estamos em um
buraco de proporções razoáveis. Isso não
quer dizer, no entanto, que estamos no fim do capitalismo.
ABr - O senhor diz que o socialismo não morreu. Que
projeto a classe trabalhadora pode ter neste cenário?
Antunes - Se há um pensador que ressurge das cinzas com
vigor explosivo neste momento é o Karl Marx. Nenhum pensador chegou
perto de análise crítica do (livro) O Capital (de 1867).
Um texto escrito há 150 anos se mostra atual, ainda que o capitalismo
tenha mudado bastante. No Manifesto Comunista (de Karl Marx e Frederich
Engels, de 1848) já estava escrito que o capitalismo precisa de
um mercado global. Assim como não há capitalismo em um
só país não há socialismo em um só país.
As revoluções socialistas do século 20 foram derrotadas,
mas àqueles que disseram que o socialismo acabou eu provocaria
dizendo que o socialismo não pôde começar. O século
21 é um laboratório em ebulição.
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Agência Brasil, 26
de abril de 2009
Crise levará mais
de 55 mi à pobreza extrema, prevêem Bird e FMI
Entre 55 e 90 milhões de pessoas passarão à condição
de pobreza extrema ainda este ano devido à recessão
mundial resultante da crise financeira internacional. Mais
de 1 bilhão sofrerão de fome crônica
no mundo todo.
As previsões estão em relatório divulgado na
sexta-feira (24) pelo Banco Mundial (Bird) e pelo Fundo Monetário
Internacional (FMI), às vésperas da reunião de
primavera das duas instituições, que será realizada
neste final de semana em Washington (EUA).
O documento, intitulado Informe sobre Acompanhamento Global 2009:
Uma Emergência de Desenvolvimento, alerta também para
o crescimento do desemprego e constata que dificilmente serão
alcançados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
fixados para 2015.
Estão comprometidas metas estabelecidas para áreas como
fome, mortalidade infantil e materna, educação e a luta
contra o HIV/aids.
A meta de reduzir a pobreza extrema pela metade, considerando-se como
base os níveis de 1990 (41,7%) - o primeiro dos oito Objetivos
do Milênio - é considerada exequível, mas corre
sérios riscos.
Na África subsahariana, por exemplo, não será alcançada,
segundo previsão do Bird e do FMI.
Para garantir as metas de educação e saúde, o
documento pede investimentos urgentes nas redes de proteção
social. Nesse sentido, recomenda mais eficiência nos gastos públicos
e promoção da maior participação do setor
privado.
O relatório sugere ainda investimentos em infra-estrutura e
nas pequenas empresas dos países pobres.
"A crise afetará todos os países em desenvolvimento
nos próximos dois anos, mediante a contração dos
volumes de exportação, a diminuição dos
preços, a desaceleração da demanda interna, a
redução das remessas e dos investimentos estrangeiros,
o menor acesso ao crédito e o retrocesso das receitas",
constatam as instituições.
O Banco Mundial e o FMI apostam nas trocas comerciais como forma de
estimular a economia global.
Por isso, endossam a determinação do G20 finaceiro de
turbinar o financiamento ao comércio e reiteram a necessidade
de uma "firme determinação" para se cumprir
a promessa de evitar a adoção de medidas protecionistas.
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BBC Brasil, 26 de abril de
2009
Para G7, há sinais
de melhora na crise, mas riscos permanecem
Os ministros das Finanças dos países que integram o G7
(o grupo das sete maiores economias do mundo) afirmaram, em um comunicado
conjunto, na sexta-feira (24), que dados recentes indicam que há sinais
de desaceleração da crise econômica global e que
começam a surgir indícios de estabilização.
Mas o documento divulgado pelo bloco acrescenta ainda que, apesar
de a atividade econômica provavelmente começar a se recuperar
no final deste ano, "os riscos de declínio ainda permanecem".
O comunicado do G7 foi divulgado em Washington, onde os titulares
das Finanças dos países que integram o bloco se reuniram
nesta sexta-feira.
Os ministros das Finanças do G7 também participam da
reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional
e do Banco Mundial, que acontece neste final de semana e, ainda na
noite desta sexta-feira, de um encontro do G20 - o fórum que
reúne G7, União Europeia, Argentina, Brasil, México,
Austrália, África do Sul, Rússia, Arábia
Saudita, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia e Turquia.
Após a reunião desta sexta, o secretário do
Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, afirmou que "é apropriado
estar um pouco animado", mas acrescentou que "é cedo
demais para concluir que estamos perto de sair da escuridão
que se abateu sobre a economia mundial".
O relatório World Economic Outlook, divulgado pelo FMI nesta
semana, estima que a economia global sofrerá retração
de 1,3% e que as crise mundial de crédito poderá provocar
prejuízos de até US$ 4 trilhões.
Recursos
Em seu documento, o G7 pediu que o FMI monitore a implementação
de políticas macroeconômicas apropriadas por parte de
diferentes países e que reporte regularmente suas conclusões
ao G7 e ao G20.
O comunicado afirma ainda que os países do bloco seguirão
agindo para promover a liquidez nos mercados financeiros mundiais e
para injetar recursos em instituições financeiras.
O G7 também destacou o compromisso firmado juntamente com
o G20 de injetar recursos para promover a estabilização
das finanças mundiais.
Ao final do encontro do G20, realizado em Londres no início
deste mês, os países integrantes do bloco se comprometeram
em destinar até US$ 1 trilhão ao FMI, montante que seria
usado pelo Fundo em empréstimos a nações mais
pobres.
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Adital, 26 de abril de 2009
Entidades coletam assinaturas
para Campanha por Moradia Digna
Esta semana foi marcada por mobilizações em vários
estados do País para divulgar e buscar apoios para a Campanha
Nacional pela Moradia Digna - Uma Prioridade Social. Realizado por
sindicatos, movimentos ligados à reforma urbana e empresas da
construção civil, a iniciativa quer reunir o máximo
de assinaturas de apoio a uma proposta que defende recursos permanentes
para habitação de interesse social (HIS).
A campanha pressiona pela aprovação, no Congresso Nacional,
da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 285/08, que garante recursos
públicos para a redução do déficit habitacional.
A proposta vincula 2% das receitas orçamentárias da União
e 1% das receitas de estados e municípios aos fundos de habitação
de interesse social. Se aprovada, a medida deve valer por 30 anos ou
até a eliminação do déficit, hoje estimado
em cerca de 8 milhões de moradias.
"A ideia é dar uma animada na campanha, aproveitando
que a habitação está em destaque", afirma
Evaniza Rodrigues, coordenadora da União Nacional de Moradia
Popular (UNMP). A mobilização acontece em quase todos
os estados que têm comitês organizados da campanha, a exemplo
de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Santa Catarina,
Bahia, Paraíba e Ceará.
Essa é a primeira grande atividade depois da última
vitória alcançada pela Campanha há duas semanas,
quando a PEC da Habitação foi aprovada na Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara
dos Deputados. Segundo a coordenadora da UNMP, cerca de 150 deputados
manifestaram apoio à proposta, principalmente aqueles que compõem
a Frente Parlamentar de Reforma Urbana.
Com lançamento do programa "Minha Casa, Minha Vida",
que pretende construir 1 milhão de casas no País, Evaniza
Rodrigues avalia que o Governo Federal deu um passo "importante" no
reconhecimento da habitação como um direito social. "É preciso
um acompanhamento mais forte", cobra. Ela defende que os movimentos
sociais tenham maior controle social na gestão do programa.
Uma das saídas, explica a coordenadora, seria apostar nos
instrumentos que têm sido fortalecidos há pelo menos vinte
anos pelos movimentos populares em torno da HIS, como a autogestão
dos recursos investidos. Evaniza afirma que essa seria uma solução
para garantir a qualidade e o baixo custo das construções,
o que normalmente não é prioridade para os empresários.
Além de conquistar recursos estáveis para a habitação
de interesse social, ponto em que existe a convergência de movimentos
sociais e empresariado, a União Nacional de Moradia Popular
chama a atenção para o aspecto da política fundiária. "[Os
empresários] querem construir na periferia da periferia para
gastar o menos possível no terreno e garantir o ganho",
alerta Evaniza Rodrigues.
Déficit habitacional
De acordo com a Fundação João Pinheiro, o déficit
habitacional estimado em 2006 é de aproximadamente 8 milhões
de domicílios, a maioria localizada nas áreas urbanas
(6,5 milhões). As regiões metropolitanas concentram 28,5%
das carências habitacionais, o que corresponde a 2,263 milhões
de unidades, 13,1% de seus domicílios.
A fundação é a responsável pelas informações
utilizadas pelo Ministério das Cidades para acompanhar a evolução
da demanda de moradias no País. A entidade produziu em 2006
o estudo "Déficit Habitacional no Brasil, com base nos
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)
de 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
Em relação à distribuição entre
as grandes regiões, no Sudeste são encontrados 37% e,
no Nordeste, 33,7% do déficit de habitações do
Brasil. Enquanto na primeira o déficit tem características
eminentemente urbanas, no Nordeste o peso das áreas rurais é mais
significativo.
Em números absolutos, o estado de São Paulo (1,478
milhões) tem o maior déficit do País, seguido
por Minas Gerais (721 mil) e pelo Rio de Janeiro (609 mil). No Nordeste,
o destaque é para Bahia (637 mil), Maranhão (543 mil),
Ceará (414 mil) e Pernambuco (404 mil).
Para saber mais sobre a campanha, acesse: http://www.conam.org.br/moradia_digna_uma_prioridade.html
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Gazeta do Povo, 26 de abril
de 2009
STF em crise
O dia em que o Supremo
perdeu a compostura
O relacionamento difícil
entre os ministros é uma das origens da briga escancarada
entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes na última quarta-feira
Há tempos Joaquim Barbosa não fala com Gilmar Mendes
fora das sessões do Supremo Tribunal Federal (STF). Nem com
Marco Aurélio Mello e Eros Grau. Por outro lado, sobram manifestações
de afeto a Carlos Ayres Britto.
O difícil relacionamento entre os ministros é uma das
origens da briga escancarada entre Barbosa e Mendes na última
quarta-feira. Ao dizer que não era uma dos “capangas do
Mato Grosso” do presidente do Supremo, Barbosa tentou demonstrar
que não era submisso. Protagonizou, porém, um raro momento
de descompostura em um dos ambientes mais formais da República.
Pessoas com vivência nos bastidores do Supremo não estranharam
a explosão dos ministros. Uma ex-funcionária do gabinete
de Barbosa definiu o antigo chefe como alguém “sério
e formal”, mas que não tolera qualquer “incorreção”. “Ele
não dá espaço para ninguém se aproximar.”
Por outro lado, segundo ela, a origem humilde e o fato de ser o primeiro
ministro negro do Brasil despertam admiração entre os
funcionários (a maioria deles com um alto grau de escolaridade). “Nunca
vi preconceito. Muito pelo contrário, as pessoas fazem questão
de demonstrar respeito por tudo o que ele fez e até onde ele
chegou.”
A moça, que não pôde se identificar porque teve
de assinar um termo de confidencialidade ao deixar a função,
destaca também o profissionalismo de Barbosa. Outra característica
marcante: o sofrimento causado pelas dores nas costas, que obriga o
ministro a acompanhar a maior parte das sessões em pé e
agrava o constante mau humor.
Repercussão
Entre os parlamentares paranaenses, um em especial teve uma relação
mais próxima com Barbosa e Mendes. O deputado federal Osmar
Serraglio (PMDB) foi relator da CPI do Mensalão, que ajudou
a embasar o processo que está no STF. Em 2007, Barbosa indiciou
40 envolvidos no esquema de compra de votos no Congresso Nacional,
incluindo o antigo braço direito do presidente Lula e ex-ministro
da Casa Civil, José Dirceu.
“O que eu posso falar do Barbosa? Só posso dizer que
tenho admiração. Afinal ele foi muito correto na condução
do processo e também humilde de me procurar”, diz Serraglio.
Neste ano, o parlamentar aproximou-se de Mendes como interlocutor do
Congresso Nacional na elaboração do pacto republicano
entre os três poderes para melhoria no funcionamento da Justiça
brasileira.
“Não preciso nem dizer que a relação entre
os dois ministros não é muito boa. Mas, do ponto de vista
técnico, não dá para falar que este ou aquele é melhor.
Acho que o Gilmar Mendes tem feito um trabalho muito bom, principalmente
nas questões administrativas do Supremo.”
Serraglio lembra que a trajetória de Mendes cruzou-se com o
Paraná quando ele era advogado-geral da União (2000 e
2002) e ajudou a bancada do estado nas discussões sobre a faixa
de fronteira com a Argentina e o Paraguai. Além disso, o presidente
do STF é professor honorário das Faculdades Integradas
do Brasil (UniBrasil), em Curitiba. Foi ele quem ministrou a aula inaugural
da instituição, em 2000.
O diretor-geral da UniBrasil, Clèmerson Clève, lamentou
o episódio entre Barbosa e Mendes, que também é empresário
do ramo e dono do Instituto Brasiliense de Direito Público. “Foi
lamentável, mas ao menos eu destaco uma virtude de ambos: são
pessoas que defendem fortemente suas opiniões.”
O deputado federal Gustavo Fruet (PSDB), sub-relator da CPI do Mensalão,
diz que a falta de entrosamento entre os dois ministros não
pode ser considerada como algo factual. “É só ver
a carreira dos dois, de onde eles vieram.” Ambos integraram o
Ministério Público Federal e Barbosa ainda manteria os
ensinamentos aprendidos nos 15 anos como procurador. Já Mendes
não esconde as divergências com a linha de atuação
dos procuradores “modernos”, mais atuantes no andamento
das investigações policiais.
Se o passado foi realmente a origem do estremecimento da relação
entre os dois ministros, o futuro tende a piorá-la. Daqui a
um ano, Mendes deixará a presidência do STF, enquanto
Barbosa assumirá o comando do Tribunal Superior Eleitoral às
vésperas de uma das campanhas de sucessão ao Palácio
do Planalto mais acirradas da história brasileira. Sem contar
que esse será apenas mais um dos episódios de uma longa
convivência que ambos ainda devem ter pela frente no Supremo.
Por idade, a aposentadoria de Mendes, aos 70 anos, só ocorrerá em
2026. A de Barbosa, em 2024.
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Folha de S.Paulo, 26 de abril
de 2009
Dilma faz tratamento
para combater câncer linfático
Exames detectaram nódulo,
já retirado, na axila esquerda da ministra da Casa
Civil
Médico diz que chance de recuperação é superior
a 90%; Dilma diz que se sente "muito bem" e que não
vai mudar rotina de trabalho
DA REPORTAGEM LOCAL
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, 61, anunciou ontem, em entrevista,
que está sendo submetida a tratamento contra linfoma, um tipo
de câncer causado por alterações no sistema linfático.
Conforme a Folha adiantou ontem, Dilma colocou um "port cath" -cateter
de longa permanência que facilita o tratamento quimioterápico.
A ministra, que foi ontem ao hospital Sírio-Libanês, em
São Paulo, disse que, há cerca de 30 dias, durante um exame
de rotina coordenado pelo cardiologista Roberto Kalil, foi encontrado
um nódulo em sua axila esquerda, de 2,5 centímetros. Dilma
se submeteu, há três semanas, a uma cirurgia de 45 minutos
para extração e biópsia do nódulo. O diagnóstico
conclusivo saiu na quarta-feira.
" Foi um linfoma que, por sorte, pela ministra estar fazendo exames periodicamente,
foi detectado no estágio mais inicial possível. A chance de cura é altíssima
para esse tipo de situação. Estágio 1A. Não existe
estágio mais precoce do que esse", afirmou o oncologista Paulo Hoff,
que estimou a chance de cura em mais de 90%.
Dilma disse ontem estar confiante no tratamento.
" Obviamente o tratamento de quimioterapia é sempre algo muito desagradável.
Mas assim como tantas mulheres e homens brasileiros que enfrentam esse desafio,
[...] tenho certeza também que vou ter um processo de superação
dessa doença. Aliás, nós, brasileiros, temos esse hábito
de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair
inteiros do lado de lá. Acho que essa é a questão que está na
pauta hoje para mim: enfrentar essa doença, que os médicos garantem
que foi extirpada, e sair mais forte do lado lá", disse Dilma, que
destacou a importância da prevenção.
Para Kalil, é "muito improvável" que a doença
volte. A ministra se submeteu a uma tomografia para mapeamento de células
cancerígenas por todo o corpo, e nenhum outro problema foi localizado.
Ela não tem histórico da doença na família.
Tratamento
Segundo a hematologista Yana Novis, da equipe que cuida da ministra, "as
perspectivas de tratamento são as melhores possíveis".
Novis disse que Dilma fará quimioterapia durante quatro meses,
o que significa quatro ou cinco sessões.
Linfoma é uma proliferação desordenada das células
de defesa do organismo situadas nos linfonodos (gânglios linfáticos).
A multiplicação de linfócitos altera a estrutura
dos linfonodos, deixando os nódulos aumentados, como o encontrado
na axila esquerda da ministra.
"É um linfoma de grandes células. E é por isso que
a ministra será submetida a esse tratamento complementar", afirmou
Novis. "Não esperamos muitos efeitos colaterais."
Durante a entrevista ontem, ao lado dos médicos, Dilma brincou
ao falar sobre possíveis efeitos da quimioterapia: "Meu [cabelo]
ainda não caiu".
Escolhida por Luiz Inácio Lula da Silva para disputar a sucessão
em 2010, Dilma, que intensificou agendas e viagens pelo país nos últimos
meses, deu sinais ontem de que não pretende diminuir o ritmo de
trabalho. "Esse tratamento não implica que eu tenha de me
retrair ou deixar de comparecer à minha atividade. Pelo contrário,
eu acredito que até vai ser um fator para me impulsionar."
Segundo os médicos, a ministra só contou anteontem para
o presidente, para a mãe e para a filha. Dilma deixou o hospital às
14h30, ao lado do ministro da Comunicação Social, Franklin
Martins, e do ex-ministro Marcio Thomaz Bastos.
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Folha de S.Paulo, 26 de abril
de 2009
Fiesp não detalha
despesas de R$ 20 milhões no orçamento
Depois de aprovarem contas,
membros do conselho agora pedem explicações;
federação diz que não precisa detalhar
gastos e que balanço foi auditado
FÁTIMA FERNANDES
CLAUDIA ROLLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Representantes de sindicatos ligados à Fiesp (Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo) aprovaram por
unanimidade, no dia 13 de abril, as contas de 2008 da entidade, mas
agora questionam o fato de gastos de R$ 20.219.553 aparecerem no balanço
financeiro da instituição como "despesas diversas",
sem detalhamento. Os R$ 20 milhões representam 30% dos gastos
da Fiesp em 2008, de R$ 71,7 milhões.
" Como membro do conselho de representantes da Fiesp, votei pela aprovação
do balanço, mas não recebi notas explicativas com relação
ao item de despesas diversas. Entendo que os balanços devam ser publicados
pela entidade com as devidas e necessárias notas explicativas, observando
o princípio da publicidade e da transparência", disse José Henrique
Nunes Barreto, presidente do Sindifumo (Sindicato da Indústria do Fumo
do Estado de São Paulo).
Procurada pela reportagem, a Fiesp afirmou, por meio de sua assessoria
de imprensa, que a federação não é obrigada
a divulgar seu balanço: "A Fiesp é uma entidade sindical
de grau superior, de direito privado, cujo estatuto prevê a aprovação
de balanços por seus afiliados. O balanço foi auditado
internamente, teve parecer favorável de seu conselho fiscal e
de auditoria externa e foi aprovado por unanimidade em assembleia geral
ordinária e nada mais [a Fiesp] tem a informar".
A entidade afirmou ainda que empresários que queiram mais detalhes
do balanço devem "indagar ao delegado que os representa junto
ao conselho de representantes da Fiesp, que analisou, debateu e aprovou,
livre e responsavelmente [as contas de 2008]."
Representantes de sindicatos que estiveram na assembleia disseram que
o que mais motivou a aprovação do balanço foi o
superávit no valor de R$ 20.492.058 em 2008 -a diferença
entre uma receita de R$ 92.264.502 e uma despesa de R$ 71.772.449. A
federação, segundo seu balanço, tem quase R$ 100
milhões em aplicações em bancos e dívidas
da ordem de R$ 10 milhões.
" A federação tem situação financeira saudável",
diz Ariovaldo dos Santos, professor titular de contabilidade da USP e pesquisador
da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis Atuariais
e Financeiras). Mas, para Santos, como o item "despesas diversas" representa
quase 30% da despesa total da Fiesp, "seria adequado divulgar o detalhe
dessa despesa para que as contas se apresentassem de forma mais transparente".
A maior parte da receita da Fiesp do ano passado veio do Sesi (valor de R$ 49.466.135)
e do Senai (R$ 8.081.524). Os recursos do Sesi e do Senai são arrecadados
de forma compulsória da folha de pagamento das indústrias.
O que chama a atenção de Santos é que a federação
detalha despesas menores, como de expediente (R$ 3.412.171), administração
(R$ 8.508.653) e encargos diversos (R$ 4.450.033). A Fiesp, assim como
qualquer outra empresa ou instituição que não tenha
capital aberto, não é obrigada a publicar seus resultados
financeiros.
Em um balanço financeiro, quando o valor das "despesas diversas" ultrapassa
10% do valor da receita, é praxe as empresas anexarem notas explicativas
para detalhar os seus gastos, segundo Alberto Borges Matias, professor
titular de finanças da FEA-RP (Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto). "Essa explicação é obrigatória
para empresas de capital aberto, não para as fechadas. Mas quem
quer ser transparente sempre anexa as notas explicativas com os seus
balanços. De qualquer modo, o balanço da Fiesp demonstra
baixo endividamento, boa liquidez e boa rentabilidade."
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Consultor Jurídico,
26 de abril de 2009
Retenção de
documento
Advogada deve ser indenizada
por banco em R$ 3 mil
Por Gláucia Milício
O Banco da Amazônia, instituição pública federal,
foi condenado a pagar R$ 3 mil de indenização por danos
morais a uma de suas advogadas. Motivo: retenção de sua
carteira de trabalho no departamento de Recursos Humanos. A condenação
foi imposta pela 16ª Vara da Justiça do Trabalho de Belém,
no Pará. Ainda cabe recurso.
A advogada alegou que sofreu assédio moral por parte do seu
novo gerente jurídico. No processo, contou que ele a retirou
da coordenadoria de consultoria de assuntos institucionais e tentou
lotá-la na área de contencioso civil. Ela, contudo, foi
parar na área de contencioso trabalhista. Segundo a autora da
ação, o objetivo do seu gerente era fazer com que renunciasse
de suas funções no banco.
Ela acrescentou que por causa do assédio sofrido, teve problemas
de saúde e ficou de licença durante um ano. E, quando
retornou, foi demitida. O assédio moral, no entanto, é objeto
de outra ação que tramita na 2ª Vara do Trabalho
de Belém. Neste processo remetido para a 16ª Vara, a discussão
era sobre sua carteira de trabalho.
Ainda de acordo com o processo, a advogada — por determinação
do banco, entregou a carteira de trabalho para baixa, mas não
apareceu ao sindicato para homologação da rescisão
contratual, por entender que seu contrato de trabalho estava sub júdice.
A orientação foi dada pelo seu advogado.
“A advogada recebeu carta do banco para que comparecesse ao
setor de recursos humanos para receber a carteira e outros documentos.
Ela, por outro lado, encaminhou carta ao banco, comunicando que não
aceitava a demissão, mas autorizava outra pessoa a receber sua
carteira de trabalho”, afirmou o juiz Raimundo Itamar Lemos Fernandes
Júnior.
O banco, por sua vez, não entregou a carteira de trabalho nem
com a procuração dada pela advogada para que outra pessoa
a retirasse. Para se defender, alegou que não é de costume
a instituição entregar documentos de seus empregados
a terceiros. E, por isso, resolveu depositar a carteira e outros papéis
em juízo.
Assim, a autora alegou que a retenção da sua CTPS, além
de configurar contravenção penal, causou-lhe prejuízo.
Ela argumentou que perdeu uma vaga de emprego em um escritório
de advocacia. Por isso, entendeu que a retenção lhe causou
danos morais.
O juiz destacou que não há provas nos autos de que a
advogada perdeu o emprego por conta da demora na entrega de seu documento
e que ela não deveria ser indenizada por isso. “O único
fato lesivo, refere-se a retenção da CTPS da autora”,
destacou.
Contudo, o juiz ressaltou que está demonstrado no processo
que o banco se negou a entregar o documento pessoal da advogada de
forma injustificada. “Ademais, até a presente dada a autora
não recebeu a carteira pelo fato de a mesma ter sido depositada
em juízo em outro processo”.
Por fim, ao acolher parcialmente o pedido, o juiz embasou sua decisão
em diversos julgados das instâncias superiores da Justiça
do Trabalho e fixou o valor de R$ 3 mil para a indenização.
Ele concedeu, também, o beneficio da Justiça gratuita,
nos termos do parágrafo 3º, artigo 790 da CLT, por entender
que a advogada não litigou de má-fé.
Processo: 00407-2009-016-08-00-5
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