Agência Diap, 10 de maio de 2009
Vulnerabilidade da baixa classe média,
principalmente entre jovens
Mesmo com escassas informações até o momento,
o economista e professor da Unicamp Waldir Quadros adianta que podemos
esperar que "o desemprego se concentre nas regiões, ocupações
e camadas sociais que mais se beneficiaram com a expansão do
emprego no ciclo de crescimento" brasileiro.
Esse fator aponta para "a maior vulnerabilidade social da baixa
classe média e da massa trabalhadora das regiões metropolitanas,
já comprometidas pela concentração do desemprego".
Além disso, completa o professor, o maior impacto do desemprego
será entre os jovens com segundo grau de escolaridade.
Autor de um recente estudo sobre o tema do desemprego no Brasil,
Waldir Quadros concedeu a entrevista que segue, por e-mail, para
a IHU On-Line, na qual ainda afirma que a nova postura governamental
brasileira "deve ter sido positivamente influenciada pelos contatos
do presidente com os dirigentes das principais economias mundiais,
podendo constatar, pessoalmente, que os dogmas do neoliberalismo
se tornaram obsoletos e foram descartados diante dos primeiros impactos
da crise, legitimando uma abordagem mais ousada".
Waldir José de Quadros possui graduação em
Economia, pela Universidade de São Paulo (USP), e mestrado
e doutorado em Ciência Econômica, pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), onde, atualmente, é professor associado
do Instituto de Economia. (Fonte: Instituto Humanitas Unisinos, no
Vermelho)
Leia a entrevista.
IHU On-Line - Recentemente, discutimos o aumento da classe
média brasileira. Como isso influenciou o quadro de empregos
no país?
Waldir Quadros - O aumento da classe média
no período recente concentrou-se, fundamentalmente,
na expansão da "baixa classe média" (ou "classe
C") e foi resultado direto do ciclo de crescimento
mais robusto da economia no período 2004-2008. Para
termos uma ideia da condição social desta
camada, basta dizer que seu padrão de vida é aquele
dos professores do ensino fundamental, dos balconistas
do comércio, dos auxiliares de escritório
etc. Ou seja, são apenas remediados por escaparem
da situação de massa trabalhadora pobre.
Em relação ao desemprego, em estudo que terminei
de divulgar (Texto para discussão TD - 156), constatei,
com alguma surpresa, que este ciclo expansivo não
foi capaz de reduzir significativamente o estoque de desempregados.
Ou seja, o crescimento do emprego foi da mesma magnitude
que o aumento da população economicamente
ativa. E mais, verificamos que a ascensão social
em direção à condição
de baixa classe média e massa trabalhadora foi acompanhada
de igual deslocamento do desemprego, resultando em 2007
(ano da última PNAD disponível) numa concentração
de 67% da massa de desempregados nas famílias destas
duas camadas sociais. E isto durante a fase de crescimento
que já se encerrou! Assim sendo, este é o
preocupante ponto de partida para acompanharmos o agravamento
do desemprego provocado pela crise atual.
IHU On-Line - Qual a classe social mais atingida pelo desemprego
atualmente, a partir da crise financeira internacional?
Waldir Quadros - Os dados mais atualizados
não são suficientes para captarmos integralmente
o comportamento do mercado de trabalho. O Caged (Cadastro
Geral do Emprego e Desemprego), do Ministério do
Trabalho, é mensal, mas engloba apenas o emprego
formal. E a PME (Pesquisa Mensal do Emprego e Desemprego),
do IBGE, que inclui o trabalho informal, abrange apenas
seis regiões administrativas. Assim sendo, infelizmente
teremos de aguardar a PNAD de 2009, que será realizada
na última semana de setembro e divulgada apenas
em outubro de 2010, para analisarmos o quadro geral. De
qualquer forma, é de se esperar que o desemprego
se concentre nas regiões, ocupações
e camadas sociais que mais se beneficiaram da expansão
do emprego no ciclo de crescimento. O que aponta para a
maior vulnerabilidade social da baixa classe média
e da massa trabalhadora das regiões metropolitanas,
já comprometidas pela concentração
do desemprego anteriormente mencionada. E os últimos
dados da PME indicam este comportamento, com maior impacto
do desemprego entre os jovens com segundo grau de escolaridade.
IHU On-Line - Quais as consequências sociais e econômicas
do aumento do desemprego nas camadas C e D da sociedade? Como a
população vai reagir diante de um possível
retrocesso social novamente?
Waldir Quadros - De fato, este cenário
de provável retrocesso entre as famílias
que mais se beneficiaram recentemente é bastante
preocupante, pois certamente provocará descontentamento
com inevitáveis repercussões políticas.
Agora, o encaminhamento destas inquietações
sociais ainda está indefinido e vai depender, em
grande medida, da efetividade das medidas governamentais
anticíclicas e de proteção social
aos atingidos pela crise.
IHU On-Line - Não é o momento de se pensar
em formas alternativas de trabalho, que não contemplem apenas
o emprego formal? Que políticas públicas e medidas
governamentais podem ser pensadas nesse sentido?
Waldir Quadros - A melhor forma de proteger
o mercado de trabalho e as oportunidades, tanto formais
como informais, é a manutenção de
um patamar mínimo de atividade econômica. É certo
que medidas complementares e emergenciais, do tipo de frentes
de trabalho, mantidas com recursos públicos, também
contribuiriam para amenizar o problema.
IHU On-Line - De forma geral, como o senhor avalia que o
governo Lula tem conduzido a política de empregos a partir
do cenário de crise financeira internacional?
Waldir Quadros - Num primeiro momento,
a crise parece ter surpreendido o governo, e o diagnóstico
inicial subestimou sua gravidade e os possíveis
impactos sobre a economia e sociedade brasileiras. Com
a divulgação dos resultados do último
trimestre de 2008 e as repercussões iniciais na
avaliação da opinião pública,
parece que o governo acordou e começou a enfrentar
a situação com mais determinação. É muito
positivo o programa de construção de moradias
populares, bem como a ação dos bancos públicos
na expansão do crédito, por exemplo. Nestas últimas
semanas, esta nova abordagem do problema avançou
bastante, ao se afastar o dogma da manutenção
a qualquer custo do superávit fiscal para pagar
juros. Isso possibilita libertar a criatividade das autoridades
competentes e técnicos governamentais. Obviamente,
ainda falta a redução mais significativa
da taxa básica de juros pelo Banco Central, que
irá liberar mais recursos para a ação
anticíclica do governo. A nova postura governamental
deve ter sido positivamente influenciada pelos contatos
do presidente com os dirigentes das principais economias
mundiais, podendo constatar, pessoalmente, que os dogmas
do neoliberalismo se tornaram obsoletos e foram descartados
diante dos primeiros impactos da crise, legitimando uma
abordagem mais ousada.
IHU On-Line - Qual a importância do seguro-desemprego
neste momento de crise? A seguridade social ainda é válida
considerando a imensidão de trabalhadores não contemplados
pelo sistema formal de empregos?
Waldir Quadros - O seguro-desemprego é um
importante mecanismo de proteção social e
diante do agravamento da situação deveria
ter ampliado seu âmbito de atuação,
aumentando o número de parcelas e o valor da cobertura.
Algumas iniciativas foram tomadas neste sentido pelo Ministério
do Trabalho, mas ainda um tanto timidamente. Uma ação
mais efetiva, sem dúvida, irá requerer injeção
de recursos do Tesouro, evitando descapitalizar o Fundo
de Amparo do Trabalhador - FAT -, o que recoloca a questão
do superávit fiscal. É verdade que uma parcela
importante dos trabalhadores não está contemplada
no formato vigente do seguro desemprego, sendo necessárias
medidas complementares. Entretanto, se os recursos para
seu financiamento forem disponibilizados, com certeza as
autoridades e técnicos governamentais, bem como
o próprio movimento sindical, serão capazes
de oferecer propostas para enfrentar o problema.
IHU On-Line - Como entender que são os trabalhadores
qualificados que estão perdendo mais empregos?
Waldir Quadros - Como dito anteriormente,
as ocupações que mais cresceram durante o
ciclo expansivo são aquelas que deverão ser
mais afetadas pela crise. E os dados da PME apontam para
o maior agravamento do desemprego entre os trabalhadores
com segundo grau de escolaridade.
IHU On-Line - Se o país não conseguiu reduzir
o índice de desemprego em um período de crescimento
econômico, quais as alternativas para que mais pessoas possam
ter trabalho, considerando que hoje vivemos um momento de crise
internacional?
Waldir Quadros - Este cenário é que
torna extremamente preocupante a situação
atual, reforçando a urgência de arrojadas
medidas governamentais anticíclicas e de proteção
social, igualmente justificando a adoção
de uma postura ousada nas ações emergenciais.
IHU On-Line - Passado o maior turbilhão da crise
internacional, como o senhor imagina que estará constituído
o cenário do emprego/trabalho no mundo? Que tipo de profissional
e de estrutura será mais comum? O que pode vir a desaparecer?
Waldir Quadros - Neste momento dos acontecimentos é verdadeiramente
impossível traçar qualquer cenário
futuro com um mínimo de segurança. Sem dúvida,
a profundidade desta crise deverá alterar substancialmente
o funcionamento do capitalismo. Ou seja, tal como outras
crises da mesma natureza, a atual irá periodizar
o desenvolvimento capitalista, provocando uma ruptura na
sua estruturação e dinâmica. Uma das
dimensões desta crise, com implicação
direta sobre o mercado de trabalho e a estrutura ocupacional,
diz respeito ao fato de que ela torna evidente a profunda
inadequação do padrão americano de
produção e consumo. De fato, é simplesmente
impensável a reprodução e generalização
deste padrão na China e Índia, por exemplo.
O planeta Terra não suportaria. Por outro lado,
avança em amplas parcelas da humanidade o questionamento
sobre a insanidade do consumo compulsivo levado às últimas
consequências. Assim, tanto por razões ambientais
como sociais, a crise da "bolha financeira" abre
a possibilidade histórica para a redefinição
das bases do padrão capitalista de desenvolvimento. É claro
que a orientação que irá presidir
esta redefinição depende do grau de envolvimento
político das forças sociais.
De qualquer forma, está presente a possibilidade de um encaminhamento
progressista que imponha a sustentabilidade ambiental e social, implementando
um welfare state de novo tipo, que harmonize o desenvolvimento econômico
com o respeito ao meio ambiente e a redução das desigualdades
sociais, ou seja, buscando a melhoria da qualidade de vida num sentido
amplo. Nestas condições mais favoráveis, as
ocupações criadas pelo novo estilo de crescimento,
notadamente nas áreas sociais, poderiam compensar, ao menos
em parte, a redução do emprego provocado pelo avanço
do progresso técnico e da produtividade. O que poderia ser
complementado pela redução das jornadas e pela redistribuição
do trabalho na sociedade. Mas aqui já ingressamos no terreno
das utopias "realistas", ou seja, factíveis. E elas
são necessárias, não só para dar sentido às
nossas vidas, mas também por servirem como critério
para acompanharmos o desenrolar dos acontecimentos.