Gazeta do Povo, 28 de junho de 2009
15 anos de estabilidade
Quem ainda se lembra do dragão?
Há 15 anos, o Brasil assistia ao lançamento do sétimo
plano econômico em menos de uma década. Ele vinha com
a promessa de sempre: controlar o dragão inflacionário
que devorava salários e economias. O Plano Real, apesar de todos
os efeitos colaterais
Há três semanas, um sortudo metalúrgico de Taubaté (SP)
protagonizou uma história que, se tivesse ocorrido há 15
anos, teria um final bem mais pobre – ou menos rico. O sujeito
passou três meses sem saber que havia acertado as seis dezenas
da Mega Sena, e só retirou os R$ 5,3 milhões a que
tinha direito no último dia do prazo. Com isso, a fortuna
esquecida deixou de render pelo menos R$ 80 mil, e seu poder de compra
encolheu pouco mais de 1%, uns R$ 60 mil, por causa da inflação.
Uma ninharia, ao menos para o metalúrgico milionário.
Quem cometesse o mesmo descuido nos primeiros meses de 1994, quando
os preços subiam a uma média mensal de 43%, teria de
se contentar com muito menos. Em 90 dias, a inflação “comeria” dois
terços do poder de compra do prêmio. Mais três
meses embaixo do colchão, e seu poder aquisitivo cairia a
um décimo do original.
Antes do Plano Real, que completa 15 anos na próxima quarta-feira,
os brasileiros conviveram por mais de uma década com uma inflação
que superava facilmente a marca de 100% ao ano. Entre 1980 e 1993,
a média anual foi de 428%, coisa de 14% ao mês, ou 0,46%
ao dia. Se causava algum desconforto a milionários desavisados,
o “imposto inflacionário” era um verdadeiro flagelo
para a maior parte da população. Dependendo da época,
os salários demoravam meses a ser reajustados, e pessoas sem
conta bancária simplesmente não tinham direito à correção
monetária e ao “overnight” – instrumentos
que por muito tempo camuflaram ineficiências de bancos, empresas
e do próprio governo.
Sucesso
Fruto de uma sofisticada engenharia política, econômica
e jurídica, o Real não teve apenas o mérito
de derrubar a inflação e mantê-la em níveis
minimamente civilizados – algo que seis pacotes fracassaram
em fazer entre 1986 e 1991. Mais importante, o plano conseguiu enfraquecer
uma “cultura inflacionária”, que por anos incentivou
o lucro meramente financeiro, desestimulando o investimento em produção
e tecnologia e mantendo o país em um resignado (e, para alguns,
confortável) atraso.
O sucesso do plano em acabar com a chamada “memória
inflacionária” – fenômeno em que a inflação
presente se alimenta da inflação passada, provocando
um círculo vicioso – foi tal que, hoje, muita gente
nem lembra de hábitos cultivados à força até 1994. “A
gente vai se esquecendo dos tempos de inflação. Felizmente”,
admite Oswaldo Lazzaris, sócio da panificadora Pote de Mel,
de Curitiba. “Faz quase seis anos que trabalhamos com o pão
francês a R$ 6 o quilo. Antes do Plano Real, tinha que aumentar
a cada dez ou quinze dias, o que irritava o freguês, porque
o salário dele não subia junto.”
Nos últimos 15 anos, os preços monitorados pelo IPCA,
o indicador oficial, subiram a uma média que não chega
a 8% ao ano. As previsões do mercado indicam que, em 2009,
o índice tende a ficar muito próximo da meta perseguida
pelo Banco Central (4,5%). É mais do que em países
desenvolvidos, mas quase nada para o padrão histórico
brasileiro.
Compromisso
Nem tudo o que ocorreu a partir do momento em que o real começou
a circular, em 1º de julho de 1994, agradou – e nunca
faltaram críticas aos efeitos colaterais do método
adotado para derrotar a inflação. Empresas e bancos
quebraram. O desemprego subiu. Exportadores chiaram muito no início
do plano, e ainda reclamam. Ao contrário do prometido, os
gastos do governo não pararam de crescer, elevando o endividamento
público, exigindo uma carga tributária cada vez maior
e impedindo quedas mais fortes na taxa de juros. E o juro alto – que
em nada combina com um país de inflação controlada – limita
o crescimento da economia.
Ainda restam desafios consideráveis ao país do real.
Mas economistas fazem questão de reforçar que, antes
de mais nada, é preciso manter a todo custo o compromisso
de segurar a inflação. Alegam que os eventuais benefícios
de tolerar índices menos comportados, como volta e meia alguém
sugere, não compensariam os custos.
“O combate à inflação continua imprescindível,
por mais que o nível dos juros incomode”, diz Luiz Afonso
Cerqueira, do conselho consultivo do Instituto Brasileiro de Executivos
de Finanças (Ibef-PR), referindo-se ao sistema de metas para
a inflação, adotado em 1999, no qual o país
usa a taxa básica de juros (Selic) para “calibrar” a
evolução dos preços. Para Fernando Antônio
Ribeiro Soares, doutor em Economia pela Universidade de Brasília
(UnB), o governo não deve apenas cumprir as metas de inflação – tem
de sinalizar e reforçar, sempre, que está comprometido
com elas. “Se o comprometimento não persistir, o risco,
e o consequente retrocesso, serão muito grandes.”