Congresso em Foco, 25 de
julho de 2009
Apesar da crise, Câmara
aprovou bons projetos
Nova interpretação sobre
trancamento da pauta permitiu aos deputados tomar decisões importantes,
como a Lei Capiberibe e a anistia dos imigrantes. Outras, como a minirreforma
eleitoral, recebem críticas pesadas. No total, 124 propostas
passaram pelo plenário
O balanço do primeiro semestre de 2009 na Câmara
tem um divisor de águas: a nova interpretação
sobre o trancamento de pauta provocado pelas medidas provisórias
(MPs). O conceito, elaborado pelo presidente da Casa, Michel
Temer (PMDB-SP), possibilitou que matérias alheias às
MPs pudessem ser votadas na Câmara durante sessões
extraordinárias. Até então, isso não
era possível.
A saída encontrada por Temer permitiu aos deputados
atenuar os efeitos da crise provocada pela farra das passagens
aéreas. Parlamentares elogiam a medida, adotada desde
de maio deste ano após sinal verde do Supremo Tribunal
Federal (STF). Isso porque ela permitiu que propostas de emenda à Constituição,
projetos de lei complementar e projetos de decreto legislativo
pudessem ser apreciados mesmo com a pauta trancada por MPs.
Para tanto, o presidente encerraria a sessão e convocaria
uma extraordinária.
“Foi positiva. Quando disputei a presidência da
Câmara [em 2007], defendi isso. A agenda da Câmara
não pode ser a do Executivo”, afirmou o deputado
Gustavo Fruet (PSDB-PR). “A interpretação
está correta. O trabalho da Câmara foi positivo.
A Casa não ficou parada”, complementou o deputado
José Genoíno (PT-SP).
A interpretação do presidente da Câmara,
contudo, ainda encontra resistências entre cientistas
políticos. Para o professor Leonardo Barreto, da Universidade
de Brasília (UnB), apesar de a nova interpretação
ser o “acontecimento mais importante do semestre”,
ela “não deixa de ser um jeitinho”. Ele
considera que essa análise não reforma a relação
entre o Executivo e o Legislativo. “Temer escolheu um
caminho mais rápido e não comprou briga com o
Planalto. Ele fez um puxadinho.”
Outro professor da UnB que não poupa críticas
a esse entendimento para medidas provisórias é Octaciano
Nogueira. “Ela mascara, mas não resolve a questão... É um
remendo”, avalia o professor, complementando que a medida
deveria ter sido submetida ao plenário da Câmara.
Questionado sobre as críticas em relação à interpretação
de Temer para as MPs, Genoíno lembrou de uma PEC, aprovada
em primeiro turno pela Câmara, que altera o rito das
medidas provisórias no Congresso. “Essa seria
a solução correta”, admitiu o petista.
A proposta, tratada como prioritária pelo antecessor
imediato de Temer, Arlindo Chinaglia (PT-SP), prevê que
uma MP precisa passar pela Comissão de Constituição
e Justiça (CCJ) de cada Casa do Congresso antes de seguir
para o plenário. O colegiado seria a instância
responsável para analisar se a matéria cumpre
os requisitos constitucionais para toda medida provisória:
relevância e urgência.
Genoíno também lembra de um ato da Mesa Diretora
da Câmara, anunciado em junho passado, que proíbe
emendas estranhas ao conteúdo das medidas provisórias
(os chamados “contrabandos”). A mudança
também dá poderes ao presidente de recusar emendas
em determinados casos (leia mais).
Matérias votadas no semestre
Com a nova interpretação, decisões importantes
foram tomadas no plenário da Câmara durante o
primeiro semestre deste ano. Uma delas é o Projeto de
Lei Complementar 217/04 (conhecida como Lei Capiberibe), que
torna obrigatória a divulgação, em tempo
real (internet e veículos públicos), de dados
sobre a execução de despesas e receitas dos governos
federal, estadual e municipal. Além disso, câmaras
municipais, assembléias legislativas, tribunais de justiça
e Ministério Público também ficam obrigados
a prestar contas nos meios eletrônicos de acesso público
(confira a íntegra da lei).
Algumas decisões tomadas, no entanto, provocaram reações
negativas. A minirreforma eleitoral (Projeto de Lei 5.498/09),
aprovada no apagar das luzes do semestre, seguiu para o Senado
debaixo de críticas dentro e fora do Congresso.
Relatada pelo deputado Flávio Dino (PCdoB-MA), a minirreforma
abre aos políticos o uso de qualquer registro na rede
mundial de computadores (e não apenas o “.can”),
além de redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter.
Ficam também liberados os blogs, e-mails e mensagens
de texto, podendo ser mantidas pelos candidatos, partidos ou
eleitores.
Antes mesmo de ser apreciada no Senado, a matéria já recebe
críticas. Parlamentares ouvidos pelo site classificam
o texto como “retrocesso” e “perfumaria”.
Para valer nas próximas eleições, o texto
precisa ser aprovado no Senado até 30 de setembro.
Imigrantes
A lei que anistia imigrantes irregulares no Brasil (Projeto
de Lei 1664/07) tem lugar de destaque nas decisões do
primeiro semestre. A sanção desse projeto foi
lembrada pelo presidente Lula durante seu programa de rádio,
Café com o Presidente, no início do mês. “Essa
ação é mais uma lição que
a gente vai dar ao chamado mundo desenvolvido”, disse
Lula. “O que nós fizemos foi dizer para os imigrantes:
vocês são nossos irmãos, vocês estão
aqui para ajudar o Brasil a crescer, até porque o Brasil é um
país que foi construído por imigrantes”,
complementou.
Em outra votação, os deputados aprovaram o Projeto
de Lei 836/03, que cria o cadastro positivo do consumidor (um
banco de dados com informações sobre os consumidores
que pagam suas contas em dia). A matéria está no
Senado.
Para o deputado Maurício Rands (PT-PE), autor da emenda
substitutiva ao projeto, o cadastro positivo vai aumentar a
oferta de crédito e diminuir a taxa de juros. A partir
da sanção da lei pelo presidente Lula, os consumidores
poderão aderir à proposta. Com a adesão,
empresas especializadas em banco de dados darão notas
aos clientes. Quanto mais contas em dia, maior a nota recebida.
Quem tiver dívidas no comércio ou com empresas
por mais de 30 dias, entrará no cadastro negativo, como
os que já existem atualmente.
MPs e PEC
O programa habitacional do governo “Minha Casa, Minha
Vida” também passou pelo crivo dos deputados (Medida
Provisória 459/09 ). A Câmara e, posteriormente,
o Senado aprovaram a criação do programa cujo
objetivo é construir 1 milhão de casas para famílias
com renda de até dez salários mínimos.
O governo investirá R$ 34 bilhões em parceria
com estados, municípios e a iniciativa privada. Desse
montante, R$ 16 bilhões serão destinados para
construção de casas ou apartamentos ao público
com renda familiar entre 0 e 3 salários mínimos,
nos municípios com mais de 100.000 habitantes e nas
regiões metropolitanas. R$ 12 bilhões serão
destinados ao financiamento de imóveis novos ou em construção
para famílias com renda de até 10 salários
mínimos.
Outra medida provisória relevante no balanço
do semestre balanço é a 458/09 (MP da Amazônia),
que acelera a regularização fundiária
de terras ocupadas na Amazônia Legal. Pela proposta,
aprovada no Senado com o texto da Câmara, a União
poderá transferir, sem licitação, terrenos
com até 1,5 mil hectares a quem ocupava terras públicas
antes de 1º de dezembro de 2004 .
A única proposta de emenda à Constituição
da lista de projetos aprovados pela Câmara é a
que permite a dissolução do casamento civil por
meio do divórcio consensual ou litigioso. Ou seja, a
chamada PEC do Divórcio acaba com o instrumento da separação
judicial (estágio inicial do divórcio, que põe
fim ao regime de bens e a coabitação mas que
não acaba com o casamento).
A proposta, que já aprovada em dois turnos pela Câmara
e agora será analisada no Senado, também elimina
o prazo de dois anos para o divórcio direto, quando
os cônjuges podem se separar definitivamente sem a necessidade
prévia da separação judicial. Atualmente,
o prazo entre a separação judicial e o divórcio é de
um ano. Contudo, se o casal estiver separado de fato (morando
em casas diferentes) por dois anos, o divórcio é direto.
Impacto social
A Câmara também aprovou uma série de matérias
com impacto social. Entres elas estão: o Projeto de
Lei Complementar 59/99, que garante estabilidade provisória
no emprego de cinco meses para quem obtiver a guarda de criança
cuja mãe morreu após o parto; a Medida Provisória
455/09, que estende aos alunos de ensino médio o programa
federal de merenda escolar; e o Projeto de Lei 335/95, que
determina a construção de berçários
e creches em presídios femininos, além de acompanhamento
médico pré-natal e pós parto para a detenta
e seu filho.
Além desses, também se destacam o Projeto de
Lei 4089/98, convertido na Lei 11.664/94, que obriga o Sistema Único
de Saúde (SUS) a oferecer mamografia anual a todas as
mulheres acima dos 40 anos; o Projeto de Lei 1023/95, que proíbe
trotes violentos ou vexatórios em universidades. A matéria
está no Senado.
Outra matéria aprovada pela Câmara e transformada
em lei é o Projeto de Lei 182/07, que obriga as montadoras
de carros a instalar airbags nos veículos produzidos
a partir de 2010. A instalação das bolsas de
ar que protegem os motoristas em colisões no trânsito
será progressiva. Em 2010, 8% dos carros devem ser fabricados
com airbags. Em 2011, 15%; em 2012, 30%; em 2013, 60%. A partir
de 2014, todos os veículos (à exceção
dos que são destinados à exportação)
devem ter as bolsas de ar anticolisão.
Comparação quantitativa
Pouco mais de dois meses da nova interpretação
(de maio a julho) foram insuficientes para que o primeiro semestre
de 2009 fosse, quantitativamente, mais produtivo do que o mesmo
período do ano anterior. De acordo com informações
da Secretaria Geral da Mesa da Câmara, a Casa analisou
129 matérias nos seis primeiros meses de 2008. Em 2009,
deputados apreciaram 124 propostas.
Contudo, o primeiro semestre de 2008 só supera o mesmo
período de 2009 em relação a dois itens:
medidas provisórias analisadas (37 a 18) e mensagens
(1 a 0). Houve um empate em relação às
propostas de emenda à Constituição apreciadas
nos dois períodos: cada qual apreciou uma PEC. Já outras
modalidades de matérias (projeto de lei complementar,
projeto de lei, projeto de decreto legislativo e projeto de
resolução) foram mais analisadas em 2009 do que
no ano passado.
A despeito da comparação quantitativa entre
os dois períodos, o professor da UnB Octaciano Nogueira
lembra que é mais importante a qualidade das propostas
do que a quantidade. “O Congresso tem de votar boas leis,
e não muitas leis.”
Primeiro semestre de 2009
Números de proposições aprovadas
e/ou rejeitadas pelo plenário da Câmara
- Proposta de Emenda à Constituição:
1
- Medida Provisória: 17
- Projetos de Lei Complementar: 3
- Projetos de Lei: 31
- Projetos de Decreto Legislativo: 65
- Projetos de Resolução: 6
TOTAL: 123 + 1 MP rejeitada = 124
Primeiro semestre de 2008
Números de proposições aprovadas
e/ou rejeitadas pelo plenário
- Proposta de Emenda à Constituição:
1
- Medida Provisória: 36
- Projetos de Lei Complementar: 1
- Projetos de Lei: 26
- Mensagem: 1
- Projetos de Decreto Legislativo: 60
- Projetos de Resolução: 3
TOTAL: 128 + 1 MP rejeitada = 129