Portal Terra, 09 de agosto de 2009
Mantega defende que país pode conviver
com juro baixo
O Brasil conseguirá sair da crise com uma imagem mais forte e
capaz de manter a taxa básica de juros no patamar recorde de baixa
que se encontra, em 8,75% ao ano. Esta é a opinião do ministro
da Fazenda Guido Mantega. Em entrevista, Mantega afirmou que o País
deixa a crise como um dos mercados emergentes mais atraentes do mundo,
ao lado da China e elogiou a política anticíclica implementada
pelo governo brasileiro "muito menos dispendiosa do que a dos outros
países e com melhor resultado".
O ministro também comentou que a apreciação
do real não é tão preocupante em função
da desvalorização global do dólar e que a proposta
para taxação da poupança será enviada ao
Congresso. "Não há pressa. Mas quero dizer que tudo
aquilo que foi anunciado será cumprido". Confira a entrevista
na íntegra.
O Brasil conseguiu ganhar em termos de competitividade em
relação aos outros países com a crise mundial?
O Brasil conseguiu, com uma política con\tracíclica
muito menos dispendiosa do que a dos outros países, o melhor
resultado, o que mostra as qualidades da economia brasileira. O nosso
programa contracíclico não gastou mais do que 1% do PIB
(Produto Interno Bruto), contra 13% da China e 7% dos Estados Unidos.
Isso mostra a capacidade de reação da economia brasileira.
Com alguns cortes de impostos estimulamos o setor automobilístico,
o setor de utilidades domésticas e o setor do consumo civil.
Com o programa habitacional oferecido animamos o setor de construção
leve. Os investimentos do governo estão mantendo a indústria
pesada, a construção pesada.
Então, ficou nítida a vantagem do Brasil em relação
aos outros países. Antes da crise, esta vantagem estava difusa,
ela não era vista com tanta nitidez. Mas ela pode ser vista
nos nossos resultados, na nossa capacidade de crescimento.
O Brasil só teve dois trimestres de crescimento negativo. Vários
países apresentaram quatro, cinco ou seis trimestres de crescimento
negativo. Vários países ainda estão apresentando
trimestres negativos. O Brasil já teve resultado positivo no
segundo trimestre de 2009.
O senhor diria que a crise foi vantajosa para o Brasil?
O Brasil sairá da crise mais forte do que quando entrou nela.
Foi um teste de estresse para o Brasil, e o País saiu na frente.
Foi menos afetado pela crise e demonstrou que tem condições
melhores. Quando um investidor for tomar uma decisão quanto à alocação
de investimentos, ele certamente olhará para o Brasil.
O Brasil é hoje considerado o mercado emergente mais atraente,
ou o segundo mais atraente, depois da China. Por causa do mercado e
da economia do Brasil. Portanto, acho que a crise tornou nítidas
as virtudes que a economia brasileira possui.
O Brasil teme que a economia da China volte a desacelerar,
comprometendo o crescimento brasileiro?
Pelo contrário, a China está fazendo a política
contracíclica mais agressiva do mundo. Acabei de mostrar na
minha apresentação (a investidores americanos) que ela
está investindo algo em torno de 13% do seu PIB no seu programa
de recuperação da economia. São US$ 560 bilhões.
Logo, a China mostra-se disposta a acelerar a sua economia. Tanto
isso é verdade, que foram superadas as previsões de que
a economia chinesa estaria crescendo no segundo trimestre deste ano
a 6,5%. Na verdade, o resultado do segundo trimestre foi de quase 8%.
A economia chinesa cresceu no segundo trimestre de 2009 exatamente
7,9%. Anualizado isso dá 16%.
Os chineses estão fazendo fortes investimentos estimulando
o mercado de consumo deles. Estão estimulando o consumo de automóveis
e de moradias. Não tenho dúvida de que a economia chinesa
no ano de 2009 será a mais dinâmica do mundo e continuará importando
os produtos brasileiros.
É possível o Brasil sustentar uma taxa de juros
como a atual, a menor da história da Selic?
O Brasil tem condições de sustentar esta taxa porque
a inflação está baixa. Não fazemos mais
do que cumprir o sistema de metas de inflação. A crise
não mudou nada em relação a isso. O Banco Central
continua olhando para o resultado inflacionário.
Como o resultado inflacionário é bom, ou seja, a inflação
está baixando, o Banco Central pode fazer as reduções
de taxa que está fazendo. Não há novidade alguma
nisso. É apenas um cenário mais positivo da inflação
e que é sustentável, pois, com a queda da demanda mundial,
veremos queda de preços. A tendência é esta para
os próximos anos.
Frequentemente, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
alerta para o fato de que há uma euforia exagerada quanto à recuperação
da economia. O senhor concorda?
Os mercados acionários sempre são mais voláteis
do que outros. É natural que haja uma certa volatilidade e podem
mostrar euforia. Mas é claro que temos de tratar isso com realismo.
Temos de reconhecer que a economia brasileira está saindo da
crise, mas que temos ainda vários problemas a serem resolvidos.
Alguns setores podem estar com euforia exagerada. Não sei exatamente
a quem o Henrique Meirelles se refere. (...) Ainda temos vários
problemas a serem enfrentados e resolvidos. No plano da economia internacional,
o Brasil está melhor. Em compensação, a maioria
dos países avançados está passando por uma recessão
forte que, até agora, não foi superada. Será gradualmente
superada.
Eu diria que, em relação aos mercados externos, não é bom
ter uma visão eufórica, pois, de fato, estes países
continuarão a ter problemas a serem resolvidos nos próximos
anos.
A queda do dólar é fonte de preocupação
para o Brasil?
A queda do dólar afeta um pouco a economia brasileira, mas,
quando se dá uma queda em relação a todas as moedas,
o prejuízo é menor, pois significa que a gente só perde
competitividade de exportação para o mercado americano.
Mas em relação aos outros mercados tudo fica na mesma,
pois o euro valoriza, o iene valoriza. Quando há a valorização
de todas moedas menos do dólar, continuamos com a mesma competitividade
cambial nos outros mercados.
O Executivo já enviou as regras para a taxação
do imposto de renda na poupança? Quando isso será feito?
Ainda não enviou e como isso só deve entrar em vigor
no próximo ano, temos tempo, pois há um semestre inteiro
pela frente para fazer a legislação. Não há pressa.
Mas quero dizer que tudo aquilo que foi anunciado será cumprido
em relação à poupança.
Exatamente tudo que falamos.
Vamos colocar um tributo sobre as poupanças de maior valor
que será cobrado a partir do ano que vem, pois temos de respeitar
a anualidade. Não é possível criar um imposto
de renda em um ano e fazer o mesmo entrar em vigor neste próprio
ano.
A lei é feita em um ano e só entra em vigor no ano seguinte. É o
princípio da anualidade. É por isso que até agora
não mandamos o projeto para o Congresso. O Congresso tem vários
projetos e, mandar mais um agora, serviria somente para atrapallhar
a tramitação.
Há um prazo para isso?
Não há um prazo, mas enviaremos o projeto até o
final deste ano para que a lei entre em vigor no próximo ano.
Quero afirmar que nada mudou. Será feito tudo aquilo que foi
anunciado.