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Brasília Confidencial, 30 de agosto
de 2009
Eleições
2010: Vox Populi revela que Serra perde e Dilma ganha
força
Pesquisa aplicada de 31 de julho a 4 de agosto
por encomendada da Rede Bandeirantes, informa, sobretudo,
que a popularidade do presidente Lula exigirá um
gigantesco esforço das oposições,
tanto na eleição presidencial quanto nas
eleições estaduais
Desprezada por quase todos os veículos de mídia e
parcialmente ignorada mesmo em círculos políticos e
partidários, a mais recente pesquisa de intenção
de voto feita pelo instituto Vox Populi - um dos três maiores
institutos brasileiros especializados nesse trabalho - contém
mais notícias novas, sobre a eleição presidencial,
do que a forte redução da vantagem do governador paulista
José Serra (PSDB), principal pré-candidato do PSDB,
sobre a pré-candidata do PT, ministra Dilma Rousseff - 30%
a 21%.
Realizadas 2.002 entrevistas em 317 municípios de todas
as regiões, com expansão para 6.970 entrevistas em
sete estados e no Distrito Federal, o relatório de 149 páginas
da pesquisa Vox Populi, aplicada de 31 de julho a 4 de agosto por
encomendada da Rede Bandeirantes, informa, sobretudo, que a popularidade
do presidente Lula exigirá um gigantesco esforço das
oposições, tanto na eleição presidencial
quanto nas eleições estaduais.
A pesquisa Vox Populi indica também uma contínua aproximação
dos índices obtidos por Dilma Rousseff daqueles conferidos
a Serra em alguns colégios eleitorais; como o Rio Grande do
Sul, e vantagens para a pré-candidata do PT na Bahia e em
Pernambuco.
No Rio de Janeiro o Vox Populi atribui 17% para Dilma e 16% para
Serra na disputa de primeiro turno.
Leia, a seguir, o detalhamento da pesquisa Vox Populi/Bandeirantes:
1) a avaliação positiva do Governo Federal aumentou
de 66% em maio para 69% em agosto, enquanto a avaliação
negativa manteve-se baixa, com queda dentro da margem de erro de
2.2 pontos percentuais - 7% em maio e 6% em agosto. A avaliação
positiva do Governo Lula chega a 79% no Nordeste e a 65% nas outras
regiões.
2) 62% dos eleitores votariam com certeza ou poderiam votar no candidato
de Lula à Presidência, dependendo de quem for o candidato.
A certeza foi manifestada por 29%, enquanto 33% condicionaram sua
escolha ao candidato. Apenas 12% disseram que não votariam
no candidato de Lula e outros 22% afirmaram que não levariam
em conta o apoio do presidente;
3) em todas as regiões a influência de Lula sobre a
intenção de voto dos eleitores é maior do que
a dos governadores de estados;
4) disseram que votariam com certeza no candidato apoiado por Lula
44% dos eleitores do Nordeste, 25% das regiões Centro Oeste
e Norte, 23% do Sudeste e 22% do Sul;
5) mais da metade dos entrevistados (53%) manifestaram intenção
de votar com certeza ou a disposição de votar no candidato
de Lula ao Governo estadual. Votariam com certeza 17%, enquanto 36%
condicionaram ao candidato a intenção de voto. Dezoito
por cento disseram que não votariam no candidato a governador
apoiado por Lula, e 25% responderam que não levariam em conta
esse apoio. Novamente neste item da pesquisa a influência do
presidente sobre a intenção de voto do eleitor é maior
do que a dos governadores, em todas as regiões;
6) proibido de concorrer, Lula lidera a intenção espontânea
de voto em todos os estados e regiões, com imensa distância
sobre os pré-candidatos José Serra e Dilma Rousseff.
Em Pernambuco chega a 47% e na Bahia a 38%. Seus piores resultados,
nesse item, foram colhidos pelo Vox Populi em Minas Gerais (12%)
e no Rio Grande do Sul (14%);
7) As intenções de voto apuradas pelo Vox Populi para
o primeiro turno da eleição presidencial somam 30%
para Serra, 21% para Dilma, 17% para Ciro Gomes e 12% para Heloísa
Helena. Mas o relatório da pesquisa informa que Dilma está à frente
de Serra na Bahia (32% a 22%) e em Pernambuco (32% a 24%), alcançou
vantagem dentro da margem de erro no Rio de Janeiro (Dilma 17% e
Serra 16%) e empatou com ele no Distrito Federal (20% para cada um).
As vantagens de Serra frente à pré-candidata do PT
são obtidas em São Paulo (40% a 17%), no Paraná (32%
a 16%) e em Minas (33% a 18%).
Na simulação do segundo turno da eleição
presidencial, a pesquisa Vox Populi aponta 46% para Serra e 32% para
Dilma. O pré-candidato tucano mantém vantagem em todas
as regiões, menos no Nordeste (Dilma 42% e Serra 38%);
9) Considerados os sete estados e o Distrito Federal, onde o Vox
Populi expandiu a pesquisa, Serra venceria em seis unidades da federação
e Dilma na Bahia e em Pernambuco. No Rio de Janeiro a vantagem da
candidatura tucana para o segundo turno está em 3 pontos percentuais
(32% a 29%); no Rio Grande do Sul em 5 pontos (36% a 31%); e no Distrito
Federal é de 6 pontos (Serra 42% e Dilma 36%)
Disputas estaduais
A pesquisa realizada pelo Vox Populi, no período de 31 de julho
a 4 de agosto, apurou as intenções de voto do eleitorado
de sete estados e do Distrito Federal para a escolha do governador.
Em síntese, os resultados apurados são amplamente
favoráveis ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB),
que concorrerá à reeleição; ao ministro
Tarso Genro, pré-candidato do PT no Rio Grande do Sul, e ao
ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), ameaçado pelos aliados
do governador José Serra de ficar sem a vaga de candidato
ao Governo de São Paulo.
Também com vantagem sobre os potenciais adversários,
mas em menor escala do que Eduardo Campos, Tarso Genro e Alckmin,
aparecem o ex-governador Joaquim Roriz (PMDB), no Distrito Federal
e o senador Osmar Dias (PDT) no Paraná.
Ele só perde a primeira posição na disputa
quando a candidatura é confrontada com a de seu irmão
e também senador Álvaro Dias (PSDB). No cenário
mais provável da eleição estadual paranaense,
Osmar Dias venceria o pré-candidato tucano e prefeito de Curitiba,
Beto Richa.
Na Bahia o Vox Populi aponta empate técnico entre o ex-governador
Paulo Souto (DEM) e o atual governador, Jaques Wagner (PT).
Em Minas Gerais, segundo apurou o Vox Populi, o ministro Hélio
Costa (PMDB) tem 30% e o ex-presidente Itamar Franco (PPS) tem 28%.
Eles são seguidos pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando
Pimentel e pelo ministro Patrus Ananias, ambos do PT. Tanto Pimentel
quanto Patrus somam 18% quando a candidatura de cada um deles é confrontada
com as de Hélio Costa e Itamar Franco.
No Rio de Janeiro a pesquisa apontou empate entre o governador Sérgio
Cabral (PMDB) e Wagner Montes (PDT).
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Agência Diap, 30 de agosto de 2009
Construção civil repõe
em julho vagas fechadas na crise, diz SindusCon-SP
A construção civil conseguiu recuperar em julho os postos
de trabalho fechados por conta da crise no último bimestre do
ano passado. Segundo dados do SindusCon-SP, foram abertas 36,5 mil
vagas no setor em todo o país em julho.
Agora, a construção soma 2,22 milhões de empregos
formais no Brasil.
De janeiro a julho, a construção civil abriu 131.079
postos de trabalho no país. O número supera o fechamento
de 109.086 vagas em novembro e dezembro de 2008.
O estado de São Paulo já tinha recuperado as perdas
da crise no mês anterior, segundo dados do SindusCon-SP.
Para o presidente do SindusCon-SP, Sergio Watanabe, o crescimento
do emprego no mês de julho no segmento de preparação
de terreno (2,25%) é uma boa notícia, pois aponta para
o início de novas obras.
Por outro lado, o segmento de infraestrutura trouxe uma retração
no emprego de 0,11% em julho.
Apesar de os dados do emprego na construção civil
apontarem para uma recuperação do setor, Watanabe ressalta
que o ritmo de crescimento ainda é menor que o registrado
no ano passado.
O número de vagas criadas em julho foi 14% menor que no mesmo
mês de 2008.
"O ritmo de aprovações de projetos do programa
Minha Casa, Minha Vida e de contratações do PAC será fundamental
para manter o crescimento do emprego no setor", afirma Watanabe.
O presidente do SindusCon-SP teme que a retração do
volume de lançamentos imobiliários no fim de 2008 e
no começo deste ano ainda provoque impacto negativo na demanda
por mão de obra no setor nos próximos meses.
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Vermelho, 30 de agosto de 2009
Sérgio Cabral e o 'projeto
Robin Hood' de Lula para o pré-sal
O governador Sérgio Cabral (PMDB) – importante
aliado do presidente Lula em 2010 – não tem um pingo
de razão em sua grita de que o Rio de Janeiro vai "perder" com
o "espírito de Robin Hood" das regras para o petróleo
do pré-sal, a serem apropostas pelo Planalto nesta segunda-feira
(31). O Rio não vai perder um centavo. Mas não se
justifica que os estados mais ricos fiquem com todo o dinheiro
de uma riqueza que é da União.
Por Bernardo Joffily
O mapa e a tabela abaixo ilustram o conteúdo da questão:
a megajazida petrolífera descoberta pela Petrobras costeia
justamente os estados com maior renda per capita do Brasil: São
Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Espírito Santo (além
do Paraná, sexto colocado).
Como o pré-sal está a centenas de quilômetros
da costa, não se justifica que se aplique á renda que
virá dele os critérios atuais. Mas estes continuarão
a valer para a extração em terra, e em áreas
da plataforma continental próximas da costa.
A grande mídia, que nunca tratou Cabral com simpatia, dessa
vez parece alinhar-se com o governador. O colunista do Globo Ricardo
Noblat afirmou neste sábado que "nenhum outro estado
perderá tanto quanto o Rio".
Não é verdade. O Rio não perderá um
tostão.
Mas o Brasil pobre precisa ganhar com o pré-sal. Afinal,
o petróleo pertence à União, ou seja, ao Brasil
como um todo. Seria uma perversidade e uma injustiça se essa
riqueza viesse a ser um fator de concentração ainda
maior da renda no país.
Os argumentos do governador
Cabral não concorda. É até compreensível,
para quem deve enfrentar uma concorrida disputa para reeleger-se
em 2010. Mas sob a ótica do país ele não tem
razão.
"Esta discussão virou uma panacéia". É um
espírito de Robin Hood, de tirar dinheiro dos que têm
direito para distribuir para todos os estados", reclamou o governador
nesta sexta-feira (28), insistindo na inverdade de "tirar" dinheiro.
“Que conversa de Robin Hood é essa? Está bom!
Vamos então pegar a riqueza da soja no Rio Grande do Sul e
o minério de Minas Gerais e distribuir”, insistiu, com
ironia.
Petróleo no jantar do Alvorada
Neste domingo, Cabral janta no Palácio da Alvorada, com Lula
e os governadores Paulo Hartung (Espírito Santo) e José Serra
(São Paulo). No seu arroubo anti-Robin Hood, ele chegou a
propor que Lula adiasse o anúncio do novo marco regulatório
para o petróleo do pré-sal, marcado, com pompa e circunstância,
para segunda-feira. O governo federal achou a ideia descabida, uma
tentativa de interferir na agenda do presidente da República.
Lula vai dizer durante o encontro que o anúncio marcará apenas
o início das discussões. Quem quiser modificar alguma
das ideias do governo, poderão fazê-lo durante a tramitação
das propostas no Congresso e o debate com a sociedade brasileira.
Nesse debate, é impensável que a posição
de Sérgio Cabral venha a prosperar.
Atualmente, o estado do Rio de Janeiro – e 87 dos seus 92
municípios – recebe 67% de todos os royaltes pagos pela
exploração de petróleo no país. No caso
das participações especiais (outra forma de remuneração
pela extração), a percentagem sobe para inacreditáveis
95%.
A proposta do presidente Lula não propõe que se "tire" nada
dessa renda. Os royaltes e participações continuarão
ajudando o Rio a se recuperar do esvaziamento que sofreu 50 anos
atrás com a transferência da capital para Brasília.
Mas seria inconcebível que o mesmo viesse a acontecer com
a renda do pré-sal. Esta tem que ajudar o Brasil como um todo,
inclusive na superação das iniquidades regionais e
sociais.

Fonte: IBGE-Wikipédia
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Gazeta do Povo, 30 de agosto de 2009
Educação
Jovens perdem a fé na escola
Estudo mostra que os jovens latino-americanos
das periferias não acreditam que a escola pode melhorar
sua vida
O volume da música é alto no fone de ouvido do iP
od de Juliana (nome fictício*), 15 anos. A jovem caminha pela
rua onde mora, no bairro Pilarzinho, em Curitiba, na busca de um
futuro que nem mesmo ela sabe onde encontrar. Sem trabalho, nem emprego,
Juliana resolveu abandonar seus estudos no ano passado, quando cursava
o 1.º ano do ensino médio, na Escola Estadual Emiliano
Perneta, a mais próxima de sua casa. Caçula de sete
filhos de uma catadora de papel sem estudos, a adolescente até pensa
em voltar para a escola e tentar uma vida melhor. “Não
quero que seja a mesma (escola). Aqui é muito fraco, nunca
vou conseguir passar no vestibular”, diz.
Escolha parecida fez o entregador Cristiano, 21 anos, morador de
Colombo, na região metropolitana. Há quatro anos foi
convidado a trocar de colégio, quando frequentava a 6.ª série,
após ter brigado com o professor. Pai recente de uma menina
de 6 meses e com um emprego que lhe garante o sustento, não
se arrepende de ter abandonado os estudos. “Não acho
que vou ser melhor ou pior se for ou não para a escola.”
Cristiano e Juliana fazem parte de uma juventude que resolveu deixar
os bancos escolares porque não acredita mais que concluir
o ensino básico ajuda a melhorar de vida. Essa tem sido a
visão de mais da metade dos jovens latino-americanos que vivem
na periferia de grandes cidades e abandonaram a escola. É o
que mostra um estudo do professor e pesquisador Gonzalo Saraví,
do Centro de Investigações e Estudos Superiores
em Antropologia Social, no México.
A pesquisa foi publicada neste mês na revista da Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
Criada em 1948, a Cepal é uma das cinco comissões econômicas
regionais das Nações Unidas (ONU) que monitoram políticas
de desenvolvimento.Segundo o estudo, dois em cada dez jovens brasileiros
entre 15 e 24 anos abandonaram a escola e estão sem emprego
(veja mais na tabela). A pesquisa mostra ainda que mais de metade
dos jovens entre 20 e 24 anos não têm 12 anos de estudo.
O tempo é considerado mínimo pela Cepal para evitar
a pobreza.
Abandono
Apesar de avanços conquistados no acesso à educação,
os países da América Latina ainda sofrem com as altas
taxas de evasão escolar. Segundo o autor do estudo, que vive
no México e respondeu às perguntas da Gazeta do Povo
por e-mail, os jovens estão descrentes de que o mercado de
trabalho assegura uma vida melhor, principalmente em função
dos baixos salários e do subemprego. “São vulneráveis.
Nem todos são delinquentes ou usam drogas. São jovens
que não sabem o que fazer e não têm muitas oportunidades”,
afirma.
O assistente de eletricista Tiago Santana da Luz, 20 anos, é um
exemplo típico. Aos 18 anos, resolveu abandonar os estudos
pela terceira vez. Estava na 5.ª série, no início
da adolescência. Resolveu ajudar seu pai, que é eletricista. “O
trabalho não é muito bom, mas é melhor do que
estar na escola.”
Consumo
Saraví ressalta que o desinteresse pela escola por parte
dos jovens gera um quadro de fragmentação social, em
que o individualismo é reforçado e o consumo de bens
materiais tem sido adotado como símbolo de identidade e inserção
na sociedade. “Os jovens menos favorecidos também sofrem
a pressão do consumo, o que gera angústias, frustrações
e outros males, que podem se manifestar como problemas sociais.”
A pressão pelo consumo é outro dos muitos fatores
que explicam a alta taxa de evasão dos jovens no ensino médio.
A diretora da Escola Estadual Emiliano Perneta, Sandra Capelão,
reafirma essa tendência. A escola é a mesma para onde
Juliana não quer retornar. “Não tinha uniforme
e não me sentia bem por causa disso. Minha mãe não
tinha dinheiro para comprar”, diz a adolescente.
Outros fatores também são apontados pelo autor da
pesquisa como responsáveis pela evasão, como a falta
de segurança e ensino pouco atraente. “Sozinha a escola
não resolve o problema. Os governos precisam adotar políticas
de revalorização da educação, de modo
que fortaleça a escola pública para que não
seja sinônimo de lugar para pobres”, diz.
* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados.
O mundo mudou. Mas não na sala de aula
O desinteresse pela escola por parte dos jovens latino-americanos da
periferia é reflexo do valor que a sociedade deposita no trabalho.
Na opinião de especialistas, o modelo formal de educação
não anda em sintonia com as novas formas de aprendizado e das
necessidades do mercado de trabalho no mundo moderno.
A professora do curso de Sociologia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Samira Kauchakje
faz ligação entre o fenômeno do desinteresse
desses jovens pela escola com o movimento em que vive a sociedade
do século 21, chamado por alguns sociólogos, como Robert
Castel, de “fim da sociedade salarial”.
A professora explica que, desde meados do século passado,
houve uma transformação da ética do trabalho
e cita a cultura pelo ócio, já existente na Europa. “Esses
jovens não são esdrúxulos, mas estão
antenados com algo bastante recente. São inteligentes
e perceberam que não basta ter anos de escolaridade para conseguir
um trabalho estável”, afirma.
O professor do departamento de filosofia da Universidade Federal
do Paraná (UFPR) Luiz Damon Moutinho não
vê relação de oposição entre o
desprezo à escola e o consumismo. “A escola passa por
uma espécie de transformação na maneira pela
qual as pessoas se educam agora. A escola como o único centro
de formação é uma visão tradicionalista.”
Moutinho nega que exista uma patologia do consumismo, que geraria
desinteresse pela escola. “O mundo é isso
aí. Inócuo. Gera necessidade o tempo todo
pelo modelo do sistema econômico capitalista. A escola tradicional
tem dificuldade de assimilar novas formas de aprender. É isso
que a coloca em xeque”, diz. (TD)
Apesar de esforços, contraturno não atrai
O menino Lúcio (nome fictício), 11 anos, prefere passar
as tardes na rua empinando pipa a permanecer na escola no turno contrário
em que frequenta a 6ª série do ensino fundamental. Lúcio
mora na rua da Escola Estadual Emiliano Perneta e desistiu das
atividades de contraturno oferecidas porque era obrigado a também
frequentar as aulas de Português.
Além de aulas de capoeira, judô e oficinas de rádio-escola,
os alunos também participam de aulas de letramento, que funciona
como um reforço à alfabetização. A diretora
Sandra Capelão diz perceber que seus alunos não estão
muito interessados em atividades relacionadas ao estudo fora do horário
formal de aulas. “Parece que eles fogem do ensino”, diz.
O trabalho da direção e professores da escola para
tirar as crianças e adolescentes das ruas é no corpo
a corpo. Mesmo assim, o número de participantes caiu muito,
segundo relata a diretora, sem detalhar números.
Apesar de receber verbas de dois programas – um federal e
outro estadual – para realizar as atividades, é preciso
algumas complementações. “No início do
ano tínhamos parcerias com empresas e conseguíamos
oferecer um lanche mais reforçado. A merenda que vem não é suficiente
para que eles passem o dia todo na escola”, diz Sandra.
Outra dificuldade é para lidar com a falta de estrutura física
da própria escola. Parte do muro caiu em dezembro e até agora
não foi consertado, o que impede de realizar algumas atividades
ao ar livre. Não há quadra coberta para oferecer oficinas
de judô e capoeira, que são dadas no improviso de uma
sala de aula vazia. (TD)
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Gazeta do Povo, 30 de agosto de 2009
Indicadores
Metade das cidades do PR tem retrocesso
socioeconômico
Estado teve desempenho geral ruim,
mas manteve o segundo lugar no ranking nacional, no índice
da Firjan
Em vez de melhorar, piorou. O novo Índice Firjan de Desenvolvimento
Municipal (IFDM), divulgado na semana passada, mostra que a maior
parte dos municípios paranaenses passou por um retrocesso
entre 2005 e 2006 – anos mais recentes, cujos dados de saúde,
renda, emprego e educação já foram computados.
Fenômeno semelhante só foi observado em outros três
estados brasileiros: Santa Catarina, Rondônia e Roraima. Em
todos os outros 22 estados, o número de municípios
que cresceu na escala de desenvolvimento de um ano para o outro é superior
ao daqueles em que houve retrocesso. No mesmo período, 59%
dos municípios brasileiros evoluíram.
O Paraná teve o pior desempenho entre os quatro estados em
que o número de municípios que retrocedeu na escala
do desenvolvimento foi maior. Dos 399 municípios paranaenses,
215 tiveram queda no IFDM, entre 2005 e 2006. Mesmo com redução
de desenvolvimento em 54% dos municípios, o estado, no resultado
geral, apresentou variação positiva, com aumento no
IFDM de 0,5%. O índice mantém o Paraná na segunda
posição, atrás apenas de São Paulo, entre
os estados mais desenvolvidos do país.
De acordo com o chefe da divisão de estudos econômicos
da Firjan, Patrick Carvalho, na comparação ano a ano, é possível
que o índice mostre algum retrocesso nas cidades, mas é na
comparação a longo prazo que se verifica o desenvolvimento
propriamente dito. “Às vezes, damos dois passos para
trás para dar um à frente. Um retrocesso não
significa uma mudança na tendência de desenvolvimento
a longo prazo”, explica Carvalho. Por outro lado, segundo a
Firjan, a análise ano a ano traz uma fotografia real de determinado
momento.
O presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento
Econômico e Social (Ipardes), Carlos Manuel dos Santos, ressalta
que a variação no índice de desenvolvimento
sofrida por maior parte dos municípios entre 2005 e 2006 não
chegou a significar mudança de patamar – o índice
Firjan vai de 0 a 1, sendo que de 0 a 0,4 refere-se a um desenvolvimento
baixo; 0,4 a 0,6 é regular; 0,6 a 0,8, moderado;
e 0,8 a 1, alto.
A análise dos indicadores no período entre 2000 e
2006 mostra outra realidade. Neste intervalo, o Paraná deu
um salto em desenvolvimento, na avaliação de Santos. “Foi
bastante significativo. No mapa, percebemos que passamos de uma situação
crítica para uma de equanimidade entre os municípios”,
opina.
Avanço
De 2000 para 2006, o estado passou de 166 municípios com
desenvolvimento regular para 30, enquanto o número de municípios
com desenvolvimento moderado saltou de 232 para 356. O número
de municípios com índice de desenvolvimento alto saltou
de 1, em 2000, para 13, em 2006, ainda que em 2005 fossem 17 municípios
nesta escala.
“De 2005 para 2006, diminuiu o número de municípios
com alto índice de desenvolvimento de 17 para 13, mas isso
foi compensado pelo aumento de municípios com desenvolvimento
moderado, de 346 para 356”, explica Santos. “É,
por isso, que mesmo com a queda do índice em vários
municípios, como um todo, o Paraná melhorou”,
completa.
Na decomposição do índice de desenvolvimento
da Firjan 2005 e 2006, o setor que puxou para baixo o IFDM 2006 da
maior parte dos municípios paranaenses foi emprego e renda. “São
variáveis que se alteram mais facilmente”, explica Santos.
Dos 399 municípios, 242 (61%) tiveram variação
negativa no IFDM-Emprego & Renda. Rosário do Ivaí,
no Norte Central do estado, por exemplo, chegou a ter o IFDM-Emprego & Renda
diminuído em 61% no período.
Reflexos
Para a professora de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Olga Firkowski, o índice de emprego e renda é um ponto
chave no desenvolvimento. “Esse é o nosso maior problema,
porque o emprego e renda afetam a saúde e educação”,
explica. O presidente do Ipardes esclarece que a queda da variável
ocorreu apesar do aumento de empregos no estado. “O que pode
não ter crescido tanto é o salário médio”,
pondera.
De acordo com Santos, ainda, uma seca ocorrida em 2005, com desdobramentos
em 2006, pode ter afetado o índice também. “Os
municípios que têm relação direta com
a agricultura ou que têm uma estrutura industrial concentrada
nisso podem ter sido afetados”, opina. “A retração
do PIB em 2005 pode ter sido sentida em 2006 também.”
Diferenças
IFDM x IDH-M
Elaborado a partir de dados dos ministérios da Educação,
Saúde e Trabalho, o Índice Firjan de Desenvolvimento
Municipal (IFDM) foi criado pela Federação das Indústrias
do Estado do Rio de Janeiro para tentar suprir a inexistência
de um parâmetro para medir periodicamente o desenvolvimento socioeconômico
dos municípios. O mais bem-sucedido entre os indicadores, o Índice
de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), criado pela ONU, baseia-se
em dados do censo demográfico, realizado a cada dez anos. Além
da periodicidade, os dois indicadores se diferenciam também
pelas variáveis utilizadas em sua composição (veja
no gráfico). “O IFDM é anual, enquanto o IDH-M é censitário.
Com o IFDM é possível ver o filme ao invés de
fotos esparsas a cada dez anos do IDH-M”, diz o texto do estudo
da Firjan.
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Gazeta do Povo, 30 de agosto de 2009
Tributo
Nova CPMF nas mãos de Lula
PMDB espera sinal do Planalto para colocar
a CSS em votação; tucanos e democratas já preparam
ofensiva para derrubar a matéria
Brasília - A criação de um novo imposto nos
moldes da extinta CPMF (Contribuição Provisória
sobre Movimentação Financeira) dependerá do
empenho pessoal do presidente Lula. Após anunciar que encamparia
o tema, o PMDB espera pelo socorro do Palácio do Planalto
para colocar a Contribuição Social para a Saúde
(CSS) em votação na Câmara dos Deputados. A proposta
está pronta para ser colocada em pauta, o que já movimenta
a contraofensiva da oposição.
“Essa não pode ser uma questão de um ministro
solitário ou de apenas um partido. Tem de ser uma decisão
de governo”, disse o líder do PMDB na Câmara,
Henrique Eduardo Alves (RN). O discurso é um retrocesso em
relação ao apoio da legenda às cobranças
do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, peemedebista
e principal defensor da CSS.
Há dez dias, ele havia conseguido o compromisso das lideranças
do PMDB e do PT de levar o assunto ao plenário. Na prática,
porém, a maioria dos deputados dos dois partidos prefere não
assumir isoladamente o desgaste de apoiar a criação
de mais um imposto. “Quem decide para valer é o presidente
Lula”, complementa Alves.
A entrada do presidente no jogo deve ocorrer na próxima quinta-feira,
quando deve ser convocada uma reunião do Conselho Político.
No encontro, Temporão terá oportunidade para explicar
o assunto para todos os partidos da base aliada no Congresso. E Lula
conseguirá determinar o empenho coletivo para o projeto.
Mágoa
Em julho, durante encontro com prefeitos em Brasília, Lula
afirmou que guardava apenas uma mágoa da oposição – o
fim da CPMF, decretado por uma votação no Senado em
dezembro de 2007. Ele voltou a tocar no assunto durante as últimas
semanas e criticou o posicionamento dos empresários, que não
teriam repassado o desconto da alíquota de 0,38% por transação
financeira ao consumidor. Do outro lado, DEM e PSDB consideram a
extinção do tributo um dos marcos positivos do Congresso
durante a gestão Lula.
“Tudo o que pudermos fazer para impedir que essa matéria
volte à tona será feito. É guerra total”,
disse o deputado paranaense Eduardo Sciarra (DEM). O partido anunciou
na semana passada que irá obstruir todas as votações
em plenário e nas comissões caso a proposta seja colocada
novamente em apreciação. “Aumentar imposto não
resolve, o que adianta é capacidade de gestão, de saber
como aplicar o dinheiro público.”
Emenda 29
A ideia de criar a CSS foi incorporada no ano passado ao projeto
de lei complementar que regulamenta a Emenda 29, matéria que
fixa os porcentuais mínimos de investimento anual em saúde
da União, estados e municípios. A regulamentação
já foi aprovada no Senado e está em tramitação
na Câmara. Os deputados aprovaram o texto básico do
projeto em 2008, mas a decisão final depende da apreciação
de um destaque feito pelo DEM sobre a CSS.
Em linhas gerais (ver gráfico), a CSS é apresentada
como uma CPMF menos “salgada” para o contribuinte. A
alíquota prevista é de 0,1% por movimentação
financeira, contra 0,38% do antigo imposto do cheque. Além
disso, os recursos seriam destinados apenas para a saúde.
Em palestra à bancada do PMDB, Temporão disse que
o novo tributo geraria R$ 12 bilhões para o
setor em 2010. “É inegável que essa alíquota é bem
menos agressiva ao contribuinte, mas o problema é garantir
que esse recurso seja realmente aplicado em saúde”,
avalia o economista e professor da Universidade de Brasília
(UnB), Roberto Piscitelli.
Segundo ele, é pertinente lembrar que a CPMF foi criada originalmente
para a saúde, mas depois os recursos acabaram distribuídos
entre outras áreas. “Não dá para tapar
um buraco abrindo outro. Se a proposta não estiver bem amarrada,
nem adianta seguir a discussão.”
Outro argumento contrário é o crescimento da carga
tributária, aliado ao aumento das despesas do governo. Na
mesma reunião do Conselho Político para debater a CSS,
Lula apresentará aos aliados o acordo feito com as centrais
sindicais para garantir aumento real aos aposentados nos próximos
dois anos. A negociação prevê, para 2010, um
reajuste 2,5% acima da inflação.
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Gazeta do Povo, 30 de agosto de 2009
Negócios
Setor madeireiro passa por fusões
Em meio à queda nas vendas, indústria
de painéis de madeira para fabricação de móveis
vive momento de consolidação
A compra da Tafisa Brasil, ligada ao grupo português Sonae,
pela chilena Arauco, anunciada na semana passada, promete
agitar o mercado de painéis de madeira nos próximos
meses. Esse é o segundo grande negócio do
setor neste ano. Em junho, a Duratex, do grupo Itaúsa, e a
Satipel anunciaram a unificação das operações,
criando a maior indústria do setor no Hemisfério Sul
e a quinta maior do mundo.
“Esse movimento vai forçar mais consolidações
nos próximos meses”, aposta o consultor Marco Tuoto,
da STCP Engenharia de Projetos, especializada no mercado
madeireiro. Juntas, Duratex e Satipel passam
a deter cerca de 40% do mercado brasileiro. Na disputa pelo segundo
lugar ficam Arauco/Tafisa e a Berneck – ambas com fábricas
no Paraná –, com cerca de 12% cada uma. Muito próxima
está a chilena Masisa, com fábrica em Ponta Grossa
(Campos Gerais) e Montenegro (RS).
O mercado de painéis de madeira – usados na indústria
de móveis –, no entanto, não vive seus melhores
dias. O forte ritmo de investimentos – entre 2007 e 2010 estão
previstos aportes de US$ 1 bilhão – deve elevar
a capacidade de produção de 6 milhões de metros
cúbicos por ano para 10,2 milhões de metros cúbicos,
de acordo com a Associação Brasileira da Indústria
de Painéis de Madeira (Abipa). Mas as vendas de 2009 devem
representar entre 4,5 milhões de metros cúbicos e 5
milhões de metros cúbicos. “A demanda só deve
absorver toda essa capacidade dentro de cinco anos”, afirma
Gilson Berneck, presidente da Berneck, que tem fábrica em
Araucária, região metropolitana de Curitiba.
A venda de painéis nos três primeiros meses de 2009
foi 20% menor do que no último trimestre do ano passado. O
mesmo aconteceu com as exportações, que tiveram queda
de 30% na mesma base de comparação, de acordo com Rosane
Donati, superintendente executiva da Abipa.
A crise econômica pegou o setor no contrapé ao
diminuir as vendas da indústria de móveis – seu
principal cliente. Afetada pela queda nas exportações
e nas vendas no mercado interno, a indústria moveleira reduziu
o ritmo de encomendas e forçou a queda no preço
do produto em cerca de 25%, em média.
O freio no mercado fez a Berneck segurar a construção
de uma nova fábrica em Santa Catarina, orçada em R$
300 milhões. Embora as vendas tenham começado
a reagir em junho, o presidente da empresa acredita que o setor ainda
deve fechar o ano com uma queda de 15% nos negócios.
Jorge Hillmann, diretor geral da Masisa Brasil, acredita que a queda
deve ficar entre 5% e 10%. “Muitos imóveis
fruto do ‘boom imobiliário’ ainda não foram
equipados, o que representa uma demanda que terá que
ser atendida no futuro”. Para ele, o fato de o setor de móveis
não ter sido beneficiado com a redução do Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI), como aconteceu com outros
setores, também dificulta as vendas. “As pessoas preferiram
comprar eletrodomésticos.” A Masisa colocou em funcionamento,
em maio, a fábrica de Montenegro, que vai triplicar a capacidade
de produção (para 1,05 milhão de metros cúbicos). “Esperamos
um equilíbrio de mercado entre demanda e oferta
com as novas fábricas dentro de dois anos.”
Para as empresas do setor, o movimento de fusões
e aquisições deve provocar o fechamento de
fábricas mais antigas. No mercado, comenta-se que é o
que a Arauco deverá fazer a partir da compra da
Tafisa – deve ser fechada a fábrica
da Placas do Paraná em Curitiba, considerada obsoleta
e pouco produtiva. O foco seria concentrar a produção
na Tafisa, que tem unidade em Piên, a 90 quilômetros
de Curitiba, e na unidade da Placas em Jaguariaíva (Campos
Gerais). A empresa não comentou o assunto.
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Folha de S.Paulo, 30 de agosto de 2009
Só 3,7% das casas prometidas
saem do papel
Burocracia e divergências
com mercado atrasam meta para famílias de baixa
renda 5 meses após anúncio do Minha Casa,
Minha Vida
Principal dificuldade está nas obras para
as famílias com renda de até R$ 1.395, que são
alvo de 40% do programa habitacional
SHEILA D'AMORIM, RANIER BRAGON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
VERENA FORNETTI, DA REDAÇÃO
Cinco meses depois de lançar oficialmente o programa habitacional
Minha Casa, Minha Vida (MCMV), o governo Lula só conseguiu
iniciar as obras de 36,6 mil casas -3,7% do total de 1 milhão
de imóveis prometidos pelo presidente Lula. Uma das principais
bandeiras do Planalto e do PT para as eleições de 2010,
o MCMV tem encontrado mais dificuldade, segundo empresários,
para colocar de pé as unidades voltadas para a população
mais pobre, alvo de 40% do programa.
Essas casas atenderão as famílias que ganham até R$
1.395 (três salários mínimos) e serão integralmente
subsidiadas pelo Tesouro Nacional. De acordo com o balanço da
Caixa Econômica Federal, até o dia 20 foram contratados
223 empreendimentos no MCMV, em um total de 36.633 imóveis.
Desse volume, 40 projetos (e 14.488 casas) serão destinados às
famílias de baixa renda.
O programa é uma aposta para fazer deslanchar a candidatura
da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) para a Presidência -os
estrategistas do Planalto consideram que o MCMV tem mais visibilidade
que o PAC, que tem obras mais longas e difíceis de executar.
Porém, até agora o governo não conseguiu nem sequer
registrá-lo no Orçamento. Por causa da falta de regulamentação
após as mudanças na tramitação do texto
que cria o programa no Congresso, ainda não houve nenhum centavo
de desembolso do Orçamento para construção de
imóveis bancados totalmente pelo governo.
Até aqui as obras são financiadas pelo dinheiro dos trabalhadores
depositado no FGTS e pelos recursos do FAR (Fundo de Arrendamento Residencial).
Segundo o governo, esse caixa será ressarcido assim que sair
a nova regulamentação. O FAR já liberou R$ 35,8
milhões para evitar que os projetos voltados às famílias
com renda até R$ 1.395 ficassem parados.
O FGTS por ora é a principal fonte de recursos. Por determinação
do governo, receberá o selo do MCMV todo imóvel novo
financiado pelo fundo e com habite-se (documento que atesta que a construção
segue as exigências legais) expedido após 26 de março.
O foco do FGTS, no entanto, não é a população
com renda até três mínimos, e sim a que precisa
de menos subsídios. Não à toa, os projetos do
MCMV concentrados nas famílias com renda mais alta (o público-alvo
do FGTS) avançam mais rapidamente. Dos 223 contratos em andamento,
183 são destinados para faixa de R$ 1.395 a R$ 4.650. São
22.145 unidades em obras, somando aí também as compras
individuais de pessoas físicas.
Mesmo nos Estados com maior quantidade de projetos já contratados,
a oferta de unidades é bastante inferior à demanda. Diante
dessa realidade, muitas famílias com renda de até três
mínimos continuam recorrendo a financiamentos subsidiados parcialmente
pelo FGTS. Isso apesar de elas se enquadrarem nas condições
anunciadas pelo governo para ter o imóvel quase de graça.
Nem sempre, também, os empreendimentos do MCMV são do
agrado das famílias. Muitas preferem escolher onde vão
morar, não querem esperar serem selecionadas nos cadastros das
prefeituras e, por isso, optam por imóveis que ficarão
prontos mais rapidamente, mesmo que tenham um custo, como os financiados
pelo FGTS. Isso ajuda a explicar por que a linha do FGTS voltada para
a baixa renda, mas com custo para o mutuário, tem um número
maior de empreendimentos do que a do MCMV: 90.
Mercado
Para o setor da construção, outra razão para a
lentidão do MCMV na renda mais baixa é o valor estimado
pelo projeto para os terrenos. "A Caixa estipulou valores-teto
para a compra de unidades e isso está gerando dificuldades",
disse Sérgio Watanabe, presidente do SindusCon-SP. Nos grandes
centros, diz ele, o preço do terreno dificulta a viabilização
de projetos.
Para Watanabe, as prefeituras deveriam contribuir "com algum tipo
de benefício para viabilizar obras para esse segmento da população".
Do contrário, diz, não haverá como atingir, no
primeiro semestre de 2010, a meta de entregar 400 mil unidades direcionadas às
famílias de menor renda.
Sidnei Borges, dono da BS Construtora, que apresentou projetos em Mato
Grosso, Rondônia e no Acre, diz, ainda, que a Caixa demora mais
tempo do que ele previa para analisar as propostas. Com método
de fabricação diferente, diz que tem condições
de construir em 11 meses. "É impossível fazer [o
número prometido pelo governo] em pouco tempo usando o sistema
convencional."
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Folha de S.Paulo, 30 de agosto de 2009
Programa inflaciona terreno e escasseia
mão de obra
Preço de propriedades para
empreendimentos de baixa renda até dobra de preço
Já o preço do material de construção,
que conta com componentes importados, ficou mais baixo devido à queda
da cotação do dólar
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DA REDAÇÃO
O anúncio de que o governo irá construir 1 milhão
de casas para famílias que ganham até R$ 4.650 aqueceu
o mercado imobiliário e fez subir o preço de imóveis
e de terrenos destinados a empreendimentos para baixa renda. Com
isso, a especulação imobiliária está consumindo
boa parte do subsídio que será dado pelo governo.
Fenômeno que afetava inicialmente apenas os grandes centros urbanos,
a alta dos preços nesse setor já atinge também
cidades menores, do interior de São Paulo e arredores de Brasília.
Pelo programa, fora os empreendimentos bancados integralmente pela
União, há subsídios que variam entre R$ 23 mil
e R$ 2.000, dependendo da renda e da cidade onde o imóvel será construído.
Em Valparaíso, município goiano de 123 mil habitantes
no entorno do Distrito Federal, áreas disponíveis para
construção se tornaram raridade nos últimos meses.
O resultado, diz Nixon Gutemberg, delegado do Creci (Conselho Regional
de Corretores de Imóveis) da região e dono de uma imobiliária
na cidade, é que um terreno que ele comprou no final do ano
passado por R$ 17 mil e onde podem ser construídas duas casas
populares foi vendido recentemente por R$ 35 mil. Aumento de 106%.
Outro lote com as mesmas características que estava anunciado
por R$ 21 mil em janeiro chegou a R$ 35 mil após o lançamento
do programa Minha Casa, Minha Vida. "Se eu tivesse cem terrenos
hoje, venderia todos, porque a demanda aumentou em função
do incentivo do governo para atender a baixa renda", afirma Gutemberg,
ressaltando que está à procura de lotes.
Em Campinas (a 93 quilômetros de São Paulo), Paulo Roberto
Júlio, proprietário de imobiliária, conta que
a maior procura por imóveis na faixa de R$ 80 mil a R$ 120 mil
fez subir os preços das propriedades. "A dificuldade é que
não temos muitos imóveis para trabalhar nesse patamar." De
acordo com ele, desde o início do ano houve um aumento de, no
mínimo, 10% no preço. "Infelizmente não tem
tanta mercadoria."
Transferência do subsídio
Presidente da Aneac (Associação Nacional dos Engenheiros
e Arquitetos da Caixa Econômica Federal), Luiz Guilherme Zigmantas
afirma que "o risco de o subsídio do governo se transferir
para o dono dos terrenos com o aumento dos preços é grande".
Com isso, os parâmetros de valores registrados pela Caixa nas
suas análises acabam acompanhando a alta. Zigmantas afirmou
que, a partir do momento em que o governo fixou tetos para os imóveis,
as unidades de valor mais baixo desapareceram do mercado.
Para a secretária nacional de Habitação do Ministério
das Cidades, Inês Magalhães, as prefeituras têm
um papel importante para regular o uso do solo e estabelecer áreas
de interesse social. Caso contrário, diz, valerão as
regras de mercado. "É do capitalismo."
Material e mão de obra
Além dos imóveis, o custo da mão de obra está em
alta. Antonio de Souza Ramalho, presidente do Sindicato da Construção
Civil de São Paulo, diz que faltam profissionais. "Temos
mais de 5.000 pedidos e não achamos gente para trabalhar." Com
isso, quem trabalha por conta própria aproveita para subir o
seu preço.
Já o preço do material de construção está em
queda, segundo Salomão Quadros, coordenador de Análises
Econômicas do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getulio Vargas). A queda da cotação do dólar explica
parte da redução, porque muitos itens têm componentes
importados. "A queda do dólar, que já recuou 20%
neste ano, segurou os preços."
(SHEILA D'AMORIM e VERENA FORNETTI)
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Conjur, 30 de agosto de 2009
Dano moral
Súmula manda indenizar por
devolução de cheque
A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano
moral, independentemente de prova do prejuízo sofrido pela vítima. É o
que diz súmula editada pelo Superior Tribunal de Justiça,
na última quarta-feira (26/8), que teve como precedentes diversos
recursos julgados pela Corte.
Segundo o STJ, a devolução do cheque causa desconforto
e abalo tanto à honra quanto à imagem do emitente.
Para a corte, a devolução indevida do cheque por culpa
do banco prescinde da prova do prejuízo, e independe que tenha
sido devidamente pago quando reapresentado, ou ainda que não
tenha ocorrido a inscrição do correntista nos serviços
de proteção ao crédito.
Num dos precedentes, o Banco do Brasil teve que pagar indenização
de três vezes a quantia de um cheque devolvido de um servidor
público. O cheque tinha um valor de pouco mais de R$ 1 mil.
O depósito em dinheiro, que fora efetuado na conta do servidor,
não foi compensado em data pertinente. O banco argumentou
que não havia saldo no momento da apresentação
do cheque à câmara de compensação, mas
foi condenado assim mesmo a indenizar o correntista por danos morais.
Noutro caso julgado pelo Tribunal, o Banco ABN Amro Real teve que
pagar a um comerciante do Rio de Janeiro cerca de R$ 3 mil, também
pela devolução indevida de cheques. Esses foram cancelados
por medida de segurança, segundo o banco, causando constrangimento
para o comerciante perante fornecedores. O banco alegou, em defesa,
que o comerciante sofrera mero dissabor, um aborrecimento natural
pelo episódio, e não seria justo uma condenação
por danos morais.
As decisões do STJ observam, no entanto, que esse tipo de
condenação deva ser sem excessos, de forma a não
causar enriquecimento ilícito. Nos processos analisados, as
indenizações giram em torno de R$ 3 mil.
Segundo a nova súmula, não é necessário
demonstrar a humilhação sofrida para requerer a indenização,
ainda mais quando se verifica a difícil constatação
em se provar o dano moral. O dano existe no interior de cada indivíduo
e a ideia é reparar de forma ampla o abalo sofrido. Com informações
da assessoria de imprensa do Superior Tribunal de Justiça.
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