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Portal IG, 20 de setembro de 2009
Pnad mostra retrato de um país que
progride
Meu resumo, ultra-resumido, dos resultados
da PNAD-2008: o bolo está crescendo e, ao mesmo tempo,
sendo distribuído. Na maior parte dos indicadores demográficos,
econômicos e sociais, os avanços, nos últimos
anos, são consistentes, ainda que mais lentos do que
o desejável.
por José Paulo Kupfer
para o portal iG
É um retrato de antes da crise. Os dados, em geral, foram colhidos até setembro
do ano passado. Haverá, quase com certeza, um soluço em 2009. Mas
a expectativa é que, com a retomada do crescimento, os indicadores voltem
ao trilho positivo.
Três aspectos, entre vários outros, me chamaram especialmente
a atenção. O primeiro é o mercado de trabalho,
com destaque para a formalização do emprego. De 2007
a 2008, um aumento de 7% . Indicação claríssima
de quanto vale um período mais sustentado de crescimento.
Um outro é a queda na taxa de fecundidade, com um recuo expressivo.
De seis filhos para dois, em quatro décadas em meia, a redução
leva o Brasil para o limiar da estabilidade demográfica. Um
dado estrutural, que reflete avanços de políticas aplicadas
por vários governos ao longo do tempo.
O terceiro é a declaração de identidade do brasileiro.
Pela primeira vez, o contingente declarado de pardos e pretos supera
o de brancos. Como já se sabia, mas agora as estatísticas
confirmam, somos, orgulhosamente, um país moreno.
Minha conclusão, diante dos indicadores, é a seguinte:
crescimento econômico é o elemento fundamental para a
melhoria das condições de vida, mas não inteiramente
suficiente. É preciso que, aproveitando o ambiente de crescimento,
os governantes promovam políticas ativas de inclusão
social – como é o caso da que resultou na expressiva redução
do trabalho infantil.
Sem elas, os avanços serão lentos e, em alguns casos,
lentos demais. Exemplo: a redução das disparidades regionais.
Outro exemplo: a redução do analfabetismo.
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Agência Brasil, 20 de setembro de 2009
Agricultores do Paraná comemoram
aniversário de 25 anos do MST
Cerca de 1,5 mil agricultores paranaenses são esperados hoje (19),
na Lapa, a 70 km de Curitiba, para a 1ª Feira da Agrobiodiversidade,
que comemora os 4 anos de fundação da Escola Latino- Americana
de Agroecológia (Elaa), os 25 anos do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST) e de dez anos do Assentamento Contestado.
No assentamento, onde fica a sede da escola, vivem 108 famílias
que produzem verduras, legumes e frutas de forma agroecológica,
respeitando o meio ambiente sem o uso de agrotóxicos. Elas produzem
o próprio sustento, vendem para o comércio local e entregam
alimentos para entidades filantrópicas da região, comprados
por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), da
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) do governo federal.
Durante a feira haverá a apresentação da trajetória
de luta do assentamento e da construção da escola agroecológica,
debates sobre a história do MST e sobre a importância
da agrobiodiversidade e agroecológia. A Escola foi criada a
partir de uma parceria entre a Via Campesina, o governo da Venezuela,
governo do Paraná, Universidade Federal do Paraná (UFPR)
e o MST.
Segundo Luiz Clóvis, da coordenação pedagógica,
o projeto tem sido fundamental para a articulação da
Via Campesina na América Latina. “ A escola forma jovens
tecnólogos, filhos de agricultores de vários movimentos
sociais que depois retornam as suas comunidades e aplicam os conhecimentos
adquiridos em três anos de curso. Eles contribuem no avanço
deste modelo de produção no campo.”
No mês de maio deste ano foi realizada a primeira formatura
da escola. Concluíram o curso os primeiros 52 tecnólogos
em agroecologia do Brasil. Atualmente, outros 70 educandos dão
continuidade ao curso e em outubro começa a terceira turma. “São
jovens de vários estados brasileiros e dois são do Paraguai.”
Segundo Luiz Clóvis, hoje à tarde durante a feira, serão
mostradas as experiências das famílias camponesas com
a agrobiodiversidade e discutidos os avanços necessários.
“As famílias camponesas muitas vezes perdem para grandes
empresas multinacionais que se apropriam das leis de patente como no
caso das sementes. Os transgênicos são uma grande ameaça à autonomia
dos agricultores. A dominação da tecnologia está concentrada
nessas empresas.”
Segundo ele, o agricultor tem que retomar sua capacidade de produzir
suas próprias sementes, cultivar e vender de agricultor para
agricultor, ou da cooperativa para os associados.
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Gazeta do Povo, 20 de setembro de 2009
Forças paralelas
Bancadas que mandam no Congresso
Grupos como os formados por ruralistas e
evangélicos demonstram poder e impulsionam a criação
de 84 frentes parlamentares no Legislativo nacional
Brasília - Forças paralelas aos partidos e aos arranjos
entre governo e oposição, as bancadas de interesse têm
ampliado o poder no Congresso Nacional. Em meio à lentidão
do Poder Legislativo, os três grupos mais poderosos – ruralistas,
evangélicos e representantes da área da saúde – conquistam
resultados práticos e imediatos. O desempenho inspira um fenômeno
na política brasileira: a proliferação de frentes
parlamentares, que chegaram a 84 na atual legislatura (2007-2011),
mais do que o triplo das legendas em funcionamento no país (27).
A última demonstração da abrangência dessas
bancadas ocorreu há dez dias, quando os ruralistas conseguiram
barrar parte do texto do Estatuto da Igualdade Racial que tratava da
regularização de terras dos quilombolas. Sem o acordo,
o restante da matéria que se arrastava por uma década
no Congresso Nacional, corria sério risco de ser rejeitada.
Há dois meses, os ruralistas também frustraram a decisão
do governo Lula de mudar o índice de produtividade rural, critério
utilizado para a distribuição de terras na reforma agrária.
Sob pressão do grupo, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes
não assinou (nem deve assinar) o acordo que viabilizaria a mudança.
Já os evangélicos foram fundamentais para a aprovação
do acordo entre o Vaticano e o governo brasileiro. O documento prevê a
instituição do ensino religioso nas escolas públicas,
assim como a manutenção, com dinheiro do Estado, de bens
culturais da Igreja Católica, como prédios e bibliotecas.
Para viabilizar a votação na Câmara dos Deputados,
a base governista teve de aceitar uma negociação para
aprovar um projeto de lei do deputado evangélico George Hilton
(PP-MG), que estendeu os termos do acordo a todas as religiões.
Na mesma linha, a bancada da saúde é a principal defensora
da criação da Contribuição Social para
a Saúde (CSS), que substituiria a extinta CPMF. Além
disso, o grupo tem sido fundamental para emperrar a votação
da reforma tributária, em discussão desde o ano passado.
Origem
As bancadas setoriais atuam de maneira formal como frentes parlamentares
(associações suprapartidárias previstas legalmente
no regimento do Senado e da Câmara dos Deputados). Para serem
oficializadas, dependem do apoio de 198 parlamentares – um terço
dos integrantes das duas Casas. No papel, o objetivo delas é apenas
aprimorar leis referentes a temas específicos de atuação,
mas na prática acabam atuando como instrumento de pressão
política.
“Há um certo modismo nessa história, a maioria
dos grupos não consegue nem se reunir”, afirma o deputado
federal João Campos (PSDB-GO). Delegado da Polícia Civil
e pastor da igreja Assembleia de Deus, ele é o coordenador da
Frente Parlamentar Evangélica. Campos sabe, por experiência
própria, que as bancadas temáticas precisam de tempo
para se fortalecer.
Precursora histórica desses grupos, a bancada ruralista nasceu
durante a Constituinte. Após 1988, ganhou força com a
União Democrática Ruralista e desde 1994 funciona por
meio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Atualmente,
a FPA conta com 214 parlamentares – 36% de todas as cadeiras
do Congresso.
De acordo com um levantamento feito em 2007 pela ONG Instituto de
Estudos Socioeconômicos (Inesc), os ruralistas firmaram-se
como o grupo de interesse mais forte – e temido – do Congresso
Nacional a partir desta Legislatura. “O segredo dos ruralistas é a
coesão. Eles brigam por apenas duas coisas: contra a reforma
agrária e a favor da renegociação da dívida
agrícola dos grandes proprietários de terra”, diz
o responsável pela pesquisa, Edelcio Vigna.
Fundador da bancada, o deputado paranaense Abelardo Lupion (DEM) presidiu
a FPA por duas vezes e, ao lado do goiano Ronaldo Caiado, é a
principal referência entre os ruralistas. Ele explica que, após
duas décadas, o grupo atingiu um grau de organização
superior ao da maioria dos partidos. “Conseguimos isso justamente
porque não nos metemos em assuntos partidários.”
A FPA tem 11 coordenadores que se reúnem semanalmente em Brasília.
Eles definem os pontos em que a bancada precisa atuar e compartem funções – Lupion,
por exemplo, ocupa a coordenação de negociações.
Apesar de tradicionalmente ligada aos partidos de direita, a distribuição
atual dos filiados abrange várias legendas de esquerda, como
PSB e PDT, e está dividida entre governo e oposição.
“Entram e saem presidentes, mas nada abala os ruralistas”,
reforça Vigna.
Evangélicos
Menos numerosos, os evangélicos recuperaram-se de um duro golpe
após as eleições de 2006. A bancada reunia 61
membros até 2006, mas foi reduzida à metade após
o escândalo dos sanguessugas, que envolveu pelo menos 30 membros
do grupo em um esquema de compra de ambulâncias superfaturadas.
Ao longo dos últimos três anos, porém, o número
de participantes subiu para 56.
“Os evangélicos têm atuado em questões bem
mais pontuais depois do caso dos sanguessugas, mas não perderam
a eficiência”, afirma o diretor do Departamento Intersindical
de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto Queiroz. Em 2007,
o Diap divulgou o estudo “Radiografia do Congresso”, que
tratava da nova divisão de poderes no Parlamento e mostrava
tendências que foram se revertendo ao longo dos últimos
três anos.
Segundo Queiroz, a explosão das frentes parlamentares é um
dado marcante. “São tantos grupos que fica até difícil
de identificar.”
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Gazeta do Povo, 20 de setembro de 2009
Em alta
Curitiba com preço de São
Paulo
Curitibano viu disparar o valor dos
imóveis. Em alguns casos eles custam tanto quanto na
capital paulista
Quem quis comprar um imóvel novo nos últimos meses já percebeu
uma mudança no patamar de preços em Curitiba. Os valores
de apartamentos na capital paranaense, em alguns casos, já encostam
nos de São Paulo. O valor do metro quadrado privativo varia
entre R$ 1,8 mil e R$ 3,5 mil, mas pode chegar a R$ 4,5 mil em alguns
bairros, como Batel e Ecoville. Trata-se da mesma faixa praticada em
bairros de classe média alta da capital paulista, como Vila
Mariana e Morumbi.
A combinação entre demanda aquecida, aumento de custos,
recomposição das margens de lucro das construtoras e
disparada dos preços dos terrenos inflacionou a tabela de preços
dos imóveis residenciais novos em até 30% nos últimos
12 meses.
Em média, os apartamentos com um dormitório tiveram
reajuste real – já descontada a inflação – de
25% no último ano. Os lançamentos de dois dormitórios
subiram 14,12%, os de três 9,28% e os de quatro 7%, de acordo
com dados da Associação de Dirigentes de Empresas do
Mercado Imobiliário (Ademi). Segundo o presidente da entidade,
Gustavo Selig, os imóveis de Curitiba devem fechar o ano com
uma valorização real da ordem de 17%. Entre 2007 e 2008,
eles já haviam subido em torno de 25%.
O mercado de Curitiba vem sendo pressionado pelo descompasso entre
a oferta e a procura, segundo Gilmar Mendes Lourenço, coordenador
do curso de Ciências Econômicas da FAE Centro Universitário.
De acordo com a Ademi, a oferta de imóveis hoje no mercado,
de 7 mil unidades por ano, é praticamente metade da procura,
que atinge 14 mil unidades.
João Paulo Galvão, diretor executivo da incorporadora
Lopes para a Região Sul, conta que a cidade vem de um histórico
de lançamentos muito baixo. Em 2004, foram lançadas 1,2
mil unidades. Em 2008, o volume subiu para 6,7 mil, mas ainda assim
inferior ao de cidades do mesmo porte, como Porto Alegre, cuja média é de
10 mil unidades/ano. “Isso deve garantir uma valorização
real (já descontada a inflação) de cerca de 15%
ao ano daqui para frente”, afirma.
Terrenos
Parte da alta de preços também foi provocada pela chegada
de construtoras e incorporadoras de fora, que inflacionaram o mercado
de terrenos. De acordo com Nelson Queiroz, diretor comercial do grupo
Thá, os preços dos terrenos duplicaram nos últimos
três anos, e os custos com mão de obra e insumos também
aumentaram. Ao mesmo tempo, o crédito, os prazos mais longos
de financiamento e a queda na taxa de juros estimularam a demanda.
A Thá acaba de vender, antes mesmo de fazer o lançamento
oficial, 100% de um empreendimento de 42 apartamentos no Água
Verde, com preço médio de R$ 600 mil (R$ 2,2 mil por
metro quadrado útil). Antes desse, a empresa lançou um
outro empreendimento no Batel, com preço de R$ 4,5 mil o metro
quadrado privativo.
Com a demanda em alta, já faltam no mercado alguns imóveis
para pronta entrega, como os na faixa de preços entre R$ 100
mil e R$ 180 mil, segundo Mariano Dynkowski, diretor do Conselho Regional
de Corretores de Imóveis (Creci-PR). A valorização,
de acordo com ele, se dá em bairros com pouca oferta de terrenos,
como Água Verde, Batel, Bigorrilho e Cabral. Em alguns desses
locais, onde o metro quadrado de área privada não superava
R$ 1,6 mil há três anos, os preços batem a casa
dos R$ 3 mil. “Quem comprou apartamento na planta viu o valor
do imóvel pronto dobrar em dois anos, quando pegou as chaves”,
afirma.
“Havia o mito de que Curitiba tinha valores de venda menores
que as demais capitais, que não era um mercado maduro e que
não se vendia imóvel na planta. Mas nos últimos
dois anos o que se viu foi que a construção na cidade
ganhou vigor, acelerou seu crescimento e não foi tão
afetada pela crise como São Paulo”, afirma Vitor Wjuniski,
diretor de incorporação da paulistana Stuhlberger.
A companhia lançou recentemente um empreendimento em parceria
com a construtora curitibana Monarca na avenida Silva Jardim, no Rebouças,
cujo metro quadrado privado foi negociado entre R$ 4,1 mil e R$ 4,2
mil. Em 90 dias, 85% das unidades foram vendidas. Nas próximas
semanas a Stuhlberger lança em São Paulo, na
Vila Mariana, um empreendimento com preços
entre R$ 4,3 mil e R$ 4,7 mil.
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Gazeta do Povo, 20 de setembro de 2009
Negociação
Crédito farto segura as vendas
Preço alto até surpreende quem
procura um imóvel, mas condições de compra melhoraram
nos últimos meses
A alta dos preços está surpreendendo quem procura apartamento
para comprar em Curitiba. O administrador de empresas Rodrigo Ribeiro,
que começou a procurar um imóvel para comprar há cinco
anos, diz que os preços do mercado deram um salto. “Paguei
cerca de 20% mais do que o planejado”, diz ele, que em março
adquiriu, junto com a esposa, um apartamento de R$ 400 mil no Bigorrilho.
A primeira opção era comprar um imóvel novo, mas
ele acabou optando por um usado. “O usado também subiu
muito, mas compramos um com o dobro da área por metade do preço
de um novo. Mas ainda assim, eu, que morava de aluguel, dobrei os meus
custos com moradia”, diz. Ele financiou o apartamento, de 120
metros quadrados, em 360 meses.
Moradora de Curitiba há sete anos, a professora Maria Rosildes
Leite também está contando os dias para deixar o aluguel:
mesmo com a alta do mercado, adquiriu na planta – juntamente
com sua filha – dois apartamentos no Ecoville. “Não
foi barato”, diz ela, que estudou a compra por um ano antes de
assinar contrato. “Eu consegui aproveitar uma sequência
de oportunidades: recebi uma proposta boa, em um local bom, e vou poder
morar próximo da minha filha. No fundo foi uma decisão
familiar”, diz.
Os dois apartamentos, vizinhos de bloco no mesmo condomínio,
estavam orçados, juntos, em R$ 810 mil. Com a negociação
conjunta, fecharam em aproximadamente R$ 715 mil – um desconto
de quase 12% no preço original. “Estudamos as propostas,
as taxas de juros menos exorbitantes também ajudaram, e acabamos
fechando”, avalia.
A perspectiva de valorização dos preços no médio
prazo, por outro lado, trouxe de volta para esse mercado o investidor
que compra para alugar ou revender. A redução da taxa
de juros e as perdas nas bolsas de valores provocadas pela crise também
fizeram com que o imóvel voltasse a ser atrativo para esse público.
Gustavo Schier Rosalinski, que acaba de comprar um imóvel de
R$ 600 mil no bairro Água Verde, diz que achou caro o valor,
mas a remuneração vale a pena. “Paguei, à vista,
cerca de R$ 2 mil o metro quadrado. Quando ficar pronto ele vai valer
R$ 2,7 mil”, afirma. “Além disso, consegui negociar
um desconto para pagamento à vista”.
Segundo o presidente do Sinduscon-PR, Hamilton Franck, o preço
de venda dos imóveis prontos está em média 25%
superior aos de lançamento, o que deve favorecer a opção
do imóvel como investimento. Esse movimento também deve
ganhar força com a poupança se tornando menos atrativa
com as novas regras que o governo pretende adotar para o setor, afirma
o presidente do Sindicato da Habitação e Condomínios
do Paraná (Secovi-PR), Luiz Carlos Borges da Silva.
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Folha de S.Paulo, 20 de setembro de 2009
Mercado projeta "fiasco" fiscal
pela 1ª vez
Desde 1999, bancos e consultorias não
previam descumprimento das metas de superavit primário adotadas
pelo governo
Com queda da arrecadação, avaliação é que
setor público não será capaz de poupar montante
planejado, mesmo com uso de brechas legais
GUSTAVO PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Duas pesquisas feitas entre analistas de bancos e consultorias mostram
que, pela primeira vez desde o início do programa de controle
da dívida pública, na década passada, o mercado
deixou de acreditar no cumprimento das metas fixadas para as contas
do governo.
No levantamento Focus, realizado pelo Banco Central, as previsões
coletadas para o desempenho da política fiscal caem desde abril
e, na semana passada, passaram a apontar a expectativa de um superavit
primário -a parcela das receitas destinada às despesas
com juros- equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruto no ano eleitoral
de 2010.
Com esse resultado, a meta fixada para o próximo ano, de 3,3%
do PIB, não seria atingida nem mesmo com a utilização
da brecha legal que permite descontar do superavit perseguido os gastos
com as obras programadas para o PAC (Programa de Aceleração
do Crescimento), que somam perto de 0,7% do produto.
Pesquisa semelhante feita pela Febraban (Federação Brasileira
de Bancos) encontrou um prognóstico ainda mais pessimista: as
projeções convergem para um superavit de apenas 2,1% do
PIB. Em outras palavras, investidores e economistas já avaliam
que União, Estados, municípios e estatais, juntos, não
serão capazes de poupar o montante prometido pelo governo Luiz
Inácio Lula da Silva, em razão da esperada alta das despesas
com pessoal, previdência, programas sociais e obras de infraestrutura.
Essa descrença do mercado é inédita desde que, em
1999, o Brasil passou a seguir a política de superavit imposta
pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) para deter a escalada
da dívida pública e eliminar os temores de um novo calote
nos credores do país.
Ao longo desse período, todas as metas fixadas para os anos seguintes
foram cumpridas com folga. Não por acaso, a partir de 2000, quando
o BC deu início às pesquisas de projeções
econômicas, as expectativas dos analistas para o resultado fiscal
passaram a reproduzir os compromissos assumidos pelo governo.
O cenário mudou com a derrocada da arrecadação,
que, após anos de recorde, segue em queda há dez meses.
Em vez de um corte de gastos que poderia agravar a crise no país,
o governo optou pela redução da meta de superavit para
2,5% do PIB. O mercado aposta em 2%.
Embora as metas sejam fixadas em lei, o governo não tem por que
temer uma punição inédita a ser definida em julgamento
do Tribunal de Contas da União. Não tem sido difícil
criar novas brechas legais para acomodar os resultados negativos -ainda
anteontem, foi proposta a possibilidade de descontar da meta até despesas
com o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida que nem saíram
do papel.
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Conjur, 20 de setembro de 2009
Pensão assegurada
Aposentadoria não pode
ser cancelada 18 anos depois
Por Flávio Rodrigues
A administração pública não pode deixar de
pagar pensão simplesmente porque resolveu rever o posicionamento
anterior e passou a adotar entendimento oposto. Esta foi a decisão
da juíza Cynthia Thomé, da 6ª Vara de Fazenda Pública
da Comarca de São Paulo. Ela determinou o restabelecimento do
pagamento de pensão à viúva de ex-servidor da extinta
Caixa Econômica do Estado de São Paulo (Nossa Caixa-Nosso
Banco).
A aposentadoria foi concedida ao ex-servidor em 1990. Em 2004, ele
morreu e a pensão foi transformada em pensão por morte,
paga para a sua mulher até o final de 2008. No início
deste ano, o Departamento de Despesas de Pessoal do Estado de São
Paulo (DDPE/CAF) revogou o benefício com o argumento de que
a aposentadoria foi ilegal.
Segundo o advogado que defendeu a viúva, José Jerônimo
Nogueira de Lima, como afirmado na decisão, a administração
não poderia simplesmente rever seu posicionamento após
tantos anos efetuando o pagamento da pensão. “Depois de
tantos anos, o benefício foi incorporado ao patrimônio
do falecido e, posteriormente, ao da viúva. Revogá-lo
dessa forma seria uma ofensa à segurança jurídica.”
De acordo com a decisão da juíza, “revogar benefício
que vinha sendo pago há mais de 18 anos, por mudança
de entendimento, é conduta desarrazoada que afronta a estabilidade
jurídica”. A mudança dos governantes e, por consequência,
o novo entendimento adotado por eles sobre os fatos consumados pelo
tempo não podem alterar a concessão do benefício,
disse a juíza.
“Após o benefício ter sido incorporado ao patrimônio
do autor, pois pago normalmente pela administração, sem
qualquer oposição, não pode ser revisto, em obediência
ao princípio da segurança jurídica”, disse.
A juíza julgou procedente a ação e concedeu a
ordem para anular o ato que suprimiu o benefício, determinando
que a autoridade responsável restabeleça seu pagamento.
Clique aqui para
ler a decisão.
Processo 053.09.019588-7
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Última Instância, 20 de setembro
de 2009
SERVIÇO PÚBLICO
Atestado médico só justifica
falta ao serviço após ser homologado, diz TJ-DF
A 4ª Turma Cível do TJ-DF (Tribunal de Justiça do
Distrito Federal) negou recurso de uma servidora contra sentença
de 1ª instância que considerou legítimo o desconto
efetuado em sua folha de pagamento, em virtude da ausência de homologação
da dispensa médica. A decisão foi unânime.
A servidora propôs ação contra o Distrito Federal,
visando obter o abono de 15 dias de faltas anotadas em sua ficha funcional,
com a consequente devolução do desconto salarial realizado,
sob o argumento de que o afastamento ocorreu por recomendação
médica e de que a licença só não foi homologada
oportunamente em razão de demora da administração
pública.
O Distrito Federal argumentou, no entanto, que para que a licença
possa ser homologada é necessária a realização
de uma inspeção, a qual deverá ser feita por médico
do setor de assistência do órgão de pessoal, se
a dispensa for por até 30 dias; ou por junta médica oficial,
se por prazo superior. No presente caso, como o atestado médico
não foi convalidado pelo médico oficial —que considerou
a servidora apta a desempenhar suas funções—, esta
deveria ter retornado ao trabalho a partir de 28.05.2009, o que não
ocorreu. Daí a anotação das faltas e a implementação
do desconto realizado no contracheque.
Na sentença de 1º grau, o juiz considerou legítimo
o desconto efetuado, em virtude da ausência de homologação
da dispensa médica requerida, entendendo que não houve
qualquer ilegalidade na conduta da Administração.
Em sede de recurso, o relator registrou que "o atestado de médico
particular fornecido a servidor público não garante direito à liberação
do serviço. Ao contrário, a concessão da licença
só é eficaz após a sua homologação
pela autoridade médica competente, conforme se pode extrair
da norma que regula a matéria", qual seja, os artigos 202
e 203 da Lei 8.112/90.
Desta forma, concluíram os magistrados, não tendo sido
o atestado particular devidamente homologado pela Administração,
não há como se considerarem justificadas as faltas anotadas
em seu desfavor. Eles registraram, ainda, que a conduta administrativa
pautada na suspensão do pagamento da autora não carece
de procedimento prévio para a sua concretização,
configurando-se, nessa hipótese, em estrito cumprimento da lei.
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