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Vermelho, 27 de setembro de 2009
Emir Sader: Duas trajetórias
distintas
Em que mãos você gostaria
que estivesse o Brasil? Qual o verdadeiro diploma que cada
um tem e que conta para construir um país justo, soberano
e humanista?
Nas horas mais difíceis se revela a personalidade – as
forças e as fraquezas - de cada um. Os franceses
puderam fazer esse teste quando foram invadidos e tinham
que se decidir entre compactuar com o governo capitulacionsista
de Vichy ou participar da resistência. Os italianos
podiam optar entre participar da resistência clandestina
ou aderir ao regime fascista. Os alemães perguntam
a seus pais onde estavam no momento do nazismo.
No Brasil também, na hora negra da ditadura militar,
formos todos testados na nossa firmeza na decisão
de lutar contra a ditadura, entre aderir ao regime surgido
do golpe, tentar ficar alheios a todas as brutalidades
que sucediam ou somar-se à resistência. Poderíamos
olhar para trás, para saber onde estava cada um
naquele período.
Dois personagens que aparecem como pré-candidatos à presidência
são casos opostos de comportamento e daí podemos
julgar seu caráter, exatamente no momento mais difícil,
quando não era possível esconder seus comportamentos,
sua personalidade, sua coragem para enfrentar dificuldades,
seus valores.
José Serra era dirigente estudantil, tinha sido
presidente do Grêmio Politécnico, da Escola
de Engenharia da USP. Já com aquela ânsia
de poder que seguiu caracterizando-o por toda a vida, brigou
duramente até conseguir ser presidente da União
Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo e, com
os mesmos meios de não se deter diante de nada,
chegou a ser presidente da UNE.
Com esse cargo participou do comício da Central
do Brasil, em março de 1964, poucas semanas antes
do golpe. Nesse evento, foi mais radical do que todos os
que discursaram, não apenas de Jango, mas de Miguel
Arraes e mesmo de Leonel Brizola.
No dia do golpe, poucos dias depois, da mesma forma que
as outras organizações de massa, a UNE, por
seu presidente, decretou greve geral. Esperava-se que iria
comandar o processo de resistência estudantil, a
partir do cargo pelo qual havia lutado tanto e para o qual
havia sido eleito.
No entanto, Serra saiu do Brasil no primeiro grupo de
pessoas que abandonou o país. Deixou abandonada
a UNE, abandonou a luta de resistência dos estudantes
contra a ditadura, abandonou o cargo para o qual tinha
sido eleito pelos estudantes. Essa a atitude de Serra diante
da primeira adversidade.
Por isso sua biografia só menciona que foi presidente
da UNE, mas nunca diz que não concluiu o mandato,
abandonou a UNE e os estudantes brasileiros. Nunca se pronunciou
sobre esse episódio vergonhoso da sua vida.
Os estudantes brasileiros foram em frente, rapidamente
se reorganizaram e protagonizaram, a parir de 1965, o primeiro
grande ciclo de mobilizações populares de
resistência à ditadura, enquanto Serra vivia
no exílio, longe da luta dos estudantes. Ficou claro
o caráter de Serra, que só voltou ao Brasil
quando já havia condições de trabalho
legal da oposição, sem maiores riscos.
Outra personalidade que aparece como pré-candidata à presidência
também teve que reagir diante das circunstâncias
do golpe militar e da ditadura. Dilma Rousseff, estudante
mineira, fez outra escolha. Optou por ficar no Brasil e
participar ativamente da resistência à ditadura,
primeiro das mobilizações estudantis, depois
das organizações clandestinas, que buscavam
criar as condições para uma luta armada contra
a ditadura militar.
No episódio da comissão do Senado em que
ela foi questionada por ter assumido que tinha dito mentido
durante a ditadura – por um senador da direita, aliado
dos tucanos de Serra -, Dilma mostrou todo o seu caráter,
o mesmo com que tinha atuado na clandestinidade e resistido
duramente às torturas. Disse que mentiu diante das
torturas que sofreu, disse que o senador não tem
idéia como é duro sofrer as torturas e mentir
para salvar aos companheiros. Que se orgulha de ter se
comportado dessa maneira, que na ditadura não há verdade,
só mentira. Que ela e o senador da base tucano-demo
estavam em lados opostos: ela do lado da resistência
democrática, ele do lado da ditadura, do regime
de terror, que sequestrada, desaparecia, fuzilava, torturava.
Dilma lutou na clandestinidade contra a ditadura, nessa
luta foi presa, torturada , condenada, ficando detida quatro
anos. Saiu para retomar a luta nas novas condições
que a resistência à ditadura colocava. Entrou
para o PDT de Brizola, mais tarde ingressou no PT, onde
participou como secretária do governo do Rio Grande
do Sul. Posteriormente foi Ministra de Minas e Energia
e Ministra-chefe da Casa Civil.
Essa trajetória, em particular aquela nas condições
mais difíceis, é o grande diploma de Dilma:
a dignidade, a firmeza, a coerência, para realizar
os ideais que assume como seus. Quem pode revelar sua trajetória
com transparência e quem tem que esconder momentos
fundamentais da sua vida, porque vividos nas circunstâncias
mais difíceis?
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Carta Capital, 27 de setembro
de 2009
"Não há petróleo
no pré-sal"
Aprendemos cedo, com nossos pais,
que é melhor ouvir certas coisas a ser surdo. Mas
beira o insuportável a quantidade de besteiras propaladas
a respeito da exploração do petróleo
encontrado no litoral brasileiro, na camada pré-sal.
A última (ao menos para mim, porque a mensagem circula
há tempos) é a corrente de e-mails com o artigo
de um professor universitário, cujo nome não
convém citar, por se tratar apenas de um caso exemplar.
Por André Siqueira, na Carta
Capital*
Especialista em geologia e ex-funcionário da Petrobras
(pelos idos da década de 1970, convém ressaltar),
ele garante, com absoluta firmeza, que não há quase
nada a explorar na região. É tudo um embuste
eleitoreiro do governo.
Pelamordedeus, será então que todos os especialistas
do mundo estão enganados? Alguém se lembra
da polêmica que envolveu a divulgação
das megarreservas pelo presidente da ANP, Haroldo Lima,
em setembro de 2008.
À época, para se esquivar das acusações
de precipitação ou de ter se antecipado à Petrobras
no anúncio da descoberta, ele lembrou que a publicação
especializada americana World Oil publicou um artigo a
respeito meses antes. E quanto aos institutos internacionais
do setor, que já colocam as reservas na lista das
fontes futuras de energia do planeta? Finalmente, por que
badalar uma riqueza que, na melhor das hipóteses,
só poderá ser usufruída daqui a mais
de cinco anos?
Mas há quem perca tempo alimentando esse tipo de
discussão. O autor da teoria conspiratória
supra-citada começa a dar entrevistas a veículos
de comunicação (sim, não resta dúvida
de que ele existe, mesmo). Como disse, esse é só um
exemplo do festival de sandices que circula. Mas os piores
mitos são aqueles que, plantados por grupos privados
com milionários interesses no subsolo brasileiro,
promovem campanhas de desinformação. Aí vão
alguns dos argumentos que, de tanto ser repetidos, correm
o risco de ser levados a sério:
1º) As regras novas e o aumento do controle
do Estado sobre a produção perigam afastar
o investidor privado.
As múltis petroleiras atuam nas regiões
do Oriente Médio mais inóspitas e menos amigáveis
ao capitalismo ocidental. Lucram aos tubos, literalmente,
porque correm riscos, muitos riscos. A legislação
proposta pelo governo pode não ser a melhor, mas,
se há alguma chance de haver uma grande reserva
de petróleo abaixo das águas brasileiras,
não resta dúvida de que haverá interessados
em por dinheiro no negócio. Importante, mesmo, é que
as regras sejam claras e estáveis.
2º) O Brasil perde tempo e dinheiro enquanto
discute o tema.
Perdoe-me o leitor por me sentir forçado a dar
essa explicação rasteira, mas é isso
aí: poços de petróleo são diferentes
de hidrelétricas e estradas. Obras de infra-estrutura
começam a beneficiar a sociedade no momento em que
são concluídas, e continuam a fazê-lo
indefinidamente. Uma estrutura de exploração
de petróleo é um modo de gastar mais rapidamente
um ativo do Estado. Pior: uma reserva de valor que tende
a se valorizar com o tempo. Não há desta
vez, de acordo com nove entre dez especialistas, o risco
de “perdermos o bonde da história”.
Não há, por enquanto, fonte alternativa de
energia capaz de impedir que a commodity tende a se valorizar
nos próximos anos. Vale à pena debater exaustivamente
a melhor forma de receber e gastar os “petroreais”
3º) A ideia de criar uma estatal para administrar
os recursos, por meio de um fundo específico,
só serve para que se criem cargos públicos
e abre espaço para o desvio de verbas.
Talvez esse seja o argumento mais polêmico. Concordo,
mais uma vez, que o modelo pode não ser o melhor.
Durmo menos preocupado, porém, ao saber que existe
alguma preocupação em dar um destino a esse
dinheiro que não seja cobrir o déficit público
(disciplina fiscal para quê, se o dinheiro está sobrando?)
ou criar um número infinitamente maior de empregos
públicos em diversos departamentos nos Estados e
municípios que se vêem no direito de embolsar
a maior parte dos recursos. Analisar os indicadores sociais
dessas regiões é descobrir o quão
fácil é gastar a verba do petróleo
sem contrapartidas sociais.
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Congresso em Foco, 27 de
setembro de 2009
Parlamentares respondem a 35
tipos de crime no STF
Peculato, crime contra a
Lei de Licitações e de responsabilidade e formação
de quadrilha lideram relação de denúncias
que mais se repetem contra deputados e senadores no Supremo.
Maioria das acusações diz respeito a atos praticados
em outras funções públicas
Edson Sardinha e Thomaz Pires
De crimes contra a administração pública
a formação de quadrilha, passando por tentativa
de homicídio e estelionato, a irregularidades eleitorais.
A extensa lista de acusações contra os 152
parlamentares que respondem ao Supremo Tribunal Federal
(STF) obriga os ministros da corte a fazerem um longo passeio
pelo Código de Processo Penal.
Há pelo menos 35 tipos de crime preliminarmente
atribuídos a 129 deputados e 23 senadores em 332
investigações em andamento no Supremo. As
cinco denúncias mais comuns se repetem pelo menos
30 vezes. São elas: peculato (apropriação,
por funcionário público, de bem ou valor
de que tem a posse em razão do cargo, em proveito
próprio ou alheio), com 54 ocorrências, crime
contra a Lei de Licitações e de responsabilidade,
com 44 registros cada, crimes eleitorais, com 31, e formação
de quadrilha, com 30 citações.
Os dados fazem parte de levantamento feito pelo Congresso
em Foco com base em informações do Supremo.
Ao todo, 13 tipos penais aparecem pelo menos 12 vezes na
relação das acusações contra
parlamentares. Como um mesmo inquérito ou ação
penal pode englobar mais de um crime, o total de acusações
contra parlamentares chega a 413. Em três casos,
o STF mantém sigilo sobre a natureza do crime investigado.
Ao todo, 70 parlamentares respondem a mais de uma denúncia.
O deputado Neudo Campos (PP-RR), com 21 procedimentos em
tramitação no STF, por exemplo, é alvo
de oito acusações por crimes contra a administração
pública, oito por formação de quadrilha,
uma por peculato, uma por crime de responsabilidade e outra
por crime eleitoral. Nenhum congressista acumula mais pendências
judiciais do que ele, que é ex-governador de Roraima.
Veja
a lista dos parlamentares processados, por estado
Confira, a seguir, a lista com as principais acusações
contra os parlamentares. Clique aqui para
entender a tipificação dos crimes.
|
Crimes
|
Número de denúncias contra parlamentares
|
|
Peculato
|
54
|
|
Contra a Lei
de Licitações
|
44
|
|
De responsabilidade
|
44
|
|
Eleitorais
|
31
|
|
Formação de
quadrilha
|
30
|
|
Lavagem de dinheiro
ou bens
|
25
|
|
Calúnia e difamação
|
24
|
|
Contra a ordem
tributária
|
22
|
|
Contra a administração
|
17
|
|
Apropriação
indébita previdenciária
|
15
|
|
Contra o sistema
financeiro
|
13
|
|
Corrupção
|
12
|
|
Contra a honra
|
12
|
|
Estelionato
|
8
|
|
Contra a fé pública
|
7
|
|
Emprego irregular
de verba pública
|
7
|
|
Documento falso
|
7
|
|
Contra o meio
ambiente
|
6
|
|
Improbidade
administrativa
|
6
|
|
Competência
de função
|
4
|
|
Tráfico de influência
|
3
|
|
Prevaricação
|
3
|
|
Concussão
|
3
|
|
Crime contra
a liberdade individual
|
2
|
|
Trabalho escravo
|
2
|
|
Contra o sistema
nacional de armas
|
2
|
|
Contra o patrimônio
|
1
|
|
Contra as telecomunicações
|
1
|
|
Contrabando
|
1
|
|
Desacato
|
1
|
|
Falsidade ideológica
|
1
|
|
Incêndio
|
1
|
|
Lesão corporal
|
1
|
|
Tentativo de
homicídio
|
1
|
|
Ameaça
|
1
|
|
Natureza não
informada
|
3
|
|
Total
|
413
|
Fonte: Congresso em Foco, com base
em informações do STF
Fora do mandato
A maioria das acusações diz respeito a atos
praticados quando os atuais deputados e senadores exerciam
outros cargos públicos, como o de prefeito e secretário
estadual ou municipal. Reunidos sob o mesmo chapéu,
os chamados crimes contra a administração
pública, como peculato, corrupção
passiva e emprego irregular de verbas, totalizam 70 registros.
No rol dos inquéritos, aparecem acusações
que nada têm a ver com o exercício de qualquer
função pública, como tentativa de
homicídio, trabalho escravo, estelionato, contrabando,
incêndio, lesão corporal, crime contra o sistema
nacional de armas e contra a liberdade individual. Há ainda
12 denúncias pelos chamados crimes de honra, como
calúnia, difamação e imprensa, de
menor gravidade, pois não envolvem o uso indevido
de recursos públicos.
Todos esses casos foram parar no Supremo porque, assim
como o presidente, o vice-presidente, os ministros de Estado
e o procurador-geral da República, os parlamentares
federais só podem ser julgados pela cúpula
do Judiciário. Também cabe aos ministros
do Supremo determinar o andamento das investigações
e das denúncias encaminhadas pelo Ministério
Público Federal e pela Polícia Federal.
Em 105 investigações, os ministros do Supremo
encontraram elementos para colocar 46 deputados e sete
senadores na condição de réus de ações
penais, último passo para a condenação.
Até hoje, porém, o STF jamais condenou qualquer
integrante do Congresso. Na avaliação do
ministro Marco Aurélio Mello, em parte por culpa
da falta de consistência nas provas levantadas pela
Procuradoria-Geral da República e pela Polícia
Federal (leia
mais). Entendimento rebatido por policiais federais
(leia
mais).
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Gazeta do Povo, 27 de setembro
de 2009
Orçamento
Repasses a ONGs somam R$ 850
mi no Paraná
Tribunal de Contas começa
amanhã a inspecionar as transferências feitas
por 19 municípios do estado
O governo estadual e as prefeituras paranaenses repassaram
em 2008 cerca de R$ 850 milhões para organizações
não governamentais (ONGs), um volume de recursos
superior ao orçamento de 398 municípios do
Paraná. Somente o orçamento de Curitiba,
que chega a R$ 3,7 bilhões, superou esse valor.
Os municípios fizeram transferências no valor
R$ 509 milhões, enquanto o governo do estado repassou
R$ 340 milhões.
A grande dificuldade do poder público, agora, é verificar
se o dinheiro recebido por essas entidades foi gasto de
forma eficiente.
O controle desses repasses é feito pelo Tribunal
de Contas do estado (TC), que fiscaliza tanto os órgãos
públicos que fazem as transferências quanto
as entidades que recebem o dinheiro. Porém até o
momento o TC concentrou seus esforços em analisar
as prestações de contas dos valores recebidos
pelas entidades do terceiro setor. O resultado alcançado
pelas ONGs ainda é pouco fiscalizado.
Dos R$ 509 milhões repassados pelos municípios
em 2008, cerca de R$ 163 milhões serão inspecionados
neste ano pelo Tribunal de Contas, que vai avaliar
os resultados obtidos pelas entidades que receberam esses
recursos. As inspeções começam amanhã e
vão ocorrer em 19 cidades paranaenses (veja tabela
ao lado). O valor que será fiscalizado representa
um terço do que foi destinado pelos municípios
a ONGs durante o ano passado.
“Não temos dificuldades em fazer a análise
das prestações de contas. A nossa meta agora é ver
se houve o efetivo cumprimento dos convênios firmados”,
explica a diretora de Análise de Transferências
do TC, Ivana Furiatti. Segundo ela, o tribunal
está a cada ano ampliando suas inspeções “in
loco” em prefeituras e ONGs, a fim de verificar se
os resultados dos termos de parceria foram cumpridos. Entre
2006 e 2007, afirma, foram realizadas inspeções
em 32 entidades, sendo analisados repasses que totalizaram
R$ 135 milhões.
De acordo com Ivana, o TC analisou neste ano todas as
transferências acima de R$ 100 mil –que representam
85% dos recursos repassados a entidades do terceiro setor. “Com
esse método, checamos cerca de 800 processos. Se
não fizéssemos esse corte, teríamos
cerca de seis mil procedimentos”, afirma.
Crescimento
Os repasses a ONGs vêm aumentando a cada ano no
Paraná. Dados do TC indicam que os valores repassados
em 2008 foram 23% maiores do que em 2007, quando estado
e municípios efetuaram, juntos, transferências
da ordem de R$ 655 milhões.
A promotora Isabel Guerreiro, do Centro de Apoio a Promotorias
das Fundações e Terceiro Setor, reconhece
que há dificuldades em se detectar irregularidades
no emprego de recursos públicos por organizações
não governamentais. “Por isso é que
estamos, em conjunto com o Tribunal de Contas e outros órgãos,
discutindo formas de se buscar uma fiscalização
preventiva, no momento em que os repasses estiverem sendo
feitos”, afirma.
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Gazeta do Povo, 27 de setembro
de 2009
Memória eleitoral
Eleição presidencial
terá partidos mais fortes do que candidatos
Pela primeira vez após a redemocratização
do país, Lula não disputará uma eleição.
E, diferentemente do que ocorreu no passado, legendas terão
ma is peso do que os candidatos
Brasília - A eleição presidencial
de 2010 terá pelo menos duas novidades marcantes
na fase pós-redemocratização. Pela
primeira vez, Luiz Inácio Lula da Silva não
será candidato a presidente e, também fato
inédito, nenhum dos pretendentes a chefe do Executivo
será maior do que o partido, característica
que marcou todos os pleitos desde 1989.
Na eleição em que se elegeu (1989), Fernando
Collor era maior que o nanico PRN, que ele mesmo fundou
e nunca prosperou. Lula, que disputou com Collor, já era
maior do que o PT, do qual é fundador. Ulysses Guimarães,
que esteve à frente do PMDB por 23 anos, também
era um nome que não dependia da força da
legenda – acabou obtendo votação decepcionante,
não só porque seus aliados bandearam-se para
Collor, mas porque os eleitores o abandonaram.
Em 1994, Fernando Henrique Cardoso apareceu como herdeiro
de Itamar Franco – que havia feito um governo de
coalizão após a queda de Collor, em 1992 – e
do Plano Real. Era maior do que o PSDB, fundado seis anos
antes. Reeleito em 1998, FHC pôde apresentar a bandeira
da estabilidade econômica e da inflação
sob controle.
Já em 2002, Lula se elegeu na quarta tentativa.
Pôde apresentar um nome muito maior do que o PT.
E, em 2006, enquanto os petistas afundavam no escândalo
do mensalão, Lula tirava proveito do fato de não
ter deixado a crise colar em seu nome.
Continuidade
Candidata imposta por Lula, a ministra da Casa Civil,
Dilma Rousseff, vai para a campanha com dois problemas:
não construiu sua candidatura a partir de si mesma
nem pela força no partido. Lula fez esse trabalho
para ela. E ela é bem menor que o PT, ao qual aderiu
após uma temporada no PDT.
“O segredo para Dilma vencer a eleição
e a questão de ter um nome menos conhecido do que
Lula é ela se identificar com o crescimento, a geração
de emprego e renda, a inflação controlada,
de nosso governo, mostrando que está no caminho
certo”, disse o líder do PT na Câmara,
Cândido Vaccarezza (SP).
No Palácio do Planalto, a orientação é para
que Dilma apareça mais e use as obras do Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC) para se
tornar conhecida. De acordo com um auxiliar de Lula, ela
deve mostrar sempre que “pertence a um governo vitorioso,
que não só vai continuar a administração
de Lula como fará mais para a área social,
educação, saúde, segurança”.
Dá, de acordo com os palacianos, para mostrar Dilma
como boa gestora.
Tucanos e Ciro
No PSDB, o presidente do partido, senador Sérgio
Guerra (PE), acha que uma forma de os governadores José Serra,
de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas, os
dois pré-candidatos do partido à Presidência,
aparecerem bem para a população é colar
no partido. “O PSDB tem o que mostrar. Então,
vamos mostrar o que aconteceu no governo FHC e o que está acontecendo
em nossos governos, tanto em São Paulo quanto em
Minas. É o segredo para ter um bom desempenho na
eleição e vencer. O eleitor já não
quer nomes. Quer trabalho.”
No caso de Ciro Gomes, que pode ser o candidato pelo PSB,
a intenção dos articuladores é dizer
que ele foi ministro de Lula e sempre o apoiou em todos
os momentos do governo. Ou seja: Ciro sabe que, para ter
condição de disputar a eleição
com chance de vencer, não pode ficar apenas fazendo
pregação de difícil entendimento para
o eleitor mais simples, pois o importante é fazer-se
próximo de Lula, mais até do que Dilma.
Das candidaturas expostas, a mais identificada com a causa
que defende é Marina Silva, do PV. Para o deputado
Fernando Gabeira (PV-RJ), ela tem condição
de buscar o “voto do sonho”, do eleitor desapontado
com candidatos e governos, além de conquistar a
juventude. O PV pretende vender a ideia de que Marina é o
exemplo da esperança que pode tocar cada um dos
brasileiros – a sobrevivente que abraçou uma
causa, a da preservação do meio ambiente.
Difícil será avançar, deixando a armadilha
de uma candidatura monotemática.
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Gazeta do Povo, 27 de setembro
de 2009
Eleição presidencial
Royalties do pré-sal;
um trunfo para 2010
Dilma Rousseff e Ciro Gomes defendem
divisão igualitária entre todos os estados;
José Serra ainda não se manifestou sobre o
tema
Se você fosse candidato à Presidência
da República, defenderia a divisão igualitária
dos royalties do pré-sal entre todos os estados
brasileiros? O principal nome na disputa eleitoral do ano
que vem, José Serra (PSDB), ainda não respondeu
a essa pergunta. Como governador de São Paulo, um
dos estados que se beneficia pelo modelo atual de repartição,
ele preferiu não se manifestar sobre o assunto.
Mas, em breve, ele terá de colocar as cartas na
mesa. A comissão especial da Câmara dos Deputados
que analisa um dos projetos do pré-sal aprovou requerimento
de convite aos governadores Serra, Sérgio Cabral
(PMDB), do Rio de Janeiro, e Paulo Hartung (PMDB), do Espírito
Santo.
Ainda não foi definida uma data para que os governadores
compareçam à Câmara. Os deputados federais
querem debater o novo modelo de partilha, que nem consta
dos quatro projetos de lei que cria o novo marco regulatório
do petróleo. O assunto foi suprimido pelo próprio
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após
pressão dos três governadores. Mas a posição
do governo federal é clara: repartir os recursos
em partes iguais. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma
Rousseff, principal nome petista para 2010, voltou a bater
nessa tecla.
“ O governo tem clareza que essa riqueza é de
toda nação. Essa riqueza do pré-sal é dos
190 milhões de brasileiros, dos 27 Estados, dos
5.561 municípios”, afirmou Dilma em entrevista
publicada na segunda-feira ao jornal Folha de S. Paulo.
Da parte de Serra, não há declarações
sobre o assunto. Procurados pela reportagem, nem o PSDB
nacional nem o diretório paulista quiseram comentar
o assunto.
Serra é o único que tem evitado tratar do
assunto. O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), que se
destacou na mais recente pesquisa Ibope/CNI sobre a sucessão
presidencial – em um cenário, ficou
em segundo lugar, atrás de Serra e na frente de
Dilma –, também defende uma divisão
nacional. “Nossa proposta é fazer uma grande
poupança, um grande patrimônio da nação
brasileira. E o rendimento dessa caderneta será aplicado
em áreas determinadas pela lei, como educação,
tecnologia...”, disse Ciro Gomes à reportagem,
por e-mail. “O pré -sal vai gerar recursos
suficientes pra mudar parte importante da injustiça
no Brasil”, acrescentou.
Frutos
Para cientistas políticos consultados pela reportagem,
a atitude de Serra é compreensível. “Serra
fala hoje como governador de São Paulo e Dilma fala
como integrante do governo federal. Se ele desse alguma
declaração que fugisse do papel dele atual,
seria muito negativo”, observa o professor Emerson
Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
“Esse discurso do pré-sal pode render frutos
políticos, mas eles provavelmente serão
reduzidos”, opina José Antônio Lavareda
Filho, presidente do Conselho do Instituto de Pesquisas
Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe),
de Pernambuco. “Os recursos com a exploração
do petróleo só vão se materializar
daqui a bastante tempo. Além disso, todos os candidatos à Presidência
vão ter de conciliar interesses regionais com o
da maioria dos estados. O discurso de todos eles tende
a ficar muito parecido com a proximidade da campanha.”
Como Serra está evitando fazer campanha antecipada,
não surpreende que ele não tenha se posicionado
claramente a respeito dos royalties do pré-sal.
Essa é a opinião de Célia Retz, professora
da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista
em opinião pública. “Dilma tem de fazer
declarações fortes porque ela tem de aproveitar
a máquina pública e o reflexo do presidente.
O Lula tem um discurso muito positivista e tenta levantar
o ego do brasileiro. A Dilma tenta seguir esse caminho.”
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Folha de S.Paulo, 27 de
setembro de 2009
Com arrecadação
menor, fisco aperta cerco a grandes empresas
DA REPORTAGEM LOCAL
A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos é mais
uma estatal a receber autuação de valor elevado
do fisco paulista. Em 11 de agosto, a Folha mostrou que
que o Tribunal de Impostos e Taxas deve julgar auto de
infração de R$ 600 milhões aplicado à Petrobras.
O auto se refere ao não pagamento de ICMS na importação
de gás da Bolívia destinado a São Paulo. Com juros
e multas, pode chegar a R$ 1 bilhão. O fisco entende que o ICMS
dessa operação (importação do gás
da Bolívia para distribuir a empresas paulistas) tem de ser
recolhido para São Paulo. Como o gás passou pelo gasoduto
da Petrobras em Mato Grosso Sul, esse Estado também disputa
o recolhimento.
A Petrobras informou que já recolhe o ICMS para MS "por
ser a entrada do produto no Brasil" e que o Supremo Tribunal Federal
determinou que São Paulo "se abstivesse de qualquer cobrança".
Com a queda de arrecadação de ICMS, em decorrência
da retração da economia, o fisco paulista tem fechado
o cerco a setores em que foram constatados indícios de sonegação.
O secretário Mauro Ricardo Costa (Fazenda de SP) afirmou, em
entrevista no início de agosto, que intensificou a fiscalização
nas usinas de açúcar e álcool porque verificou "queda
significativa" na arrecadação de ICMS do setor,
que recebe incentivos fiscais do Estado. A alíquota de ICMS
para o álcool hidratado é de 12% e para o açúcar,
de 7%. A maior parte dos produtos paga 18%.
" Com esse incentivo, não há por que esse setor recolher menos
imposto do que no ano passado, e já sabemos que não houve queda
de vendas", disse. O fisco notificou ainda 19 mil contribuintes após
detectar irregularidades no tributo estadual sobre heranças e doações
e outros 855 mil devedores do IPVA. (CR e FF)
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Folha de S.Paulo, 27 de
setembro de 2009
Funcionário "vira" sócio
para empresa driblar fisco
Companhias mascaram vínculo
de emprego oferecendo pequena participação na
sociedade
Procuradora diz que prática é comum
com profissionais liberais, mas ocorre também em outras áreas,
como em salões de cabeleireiro
VERENA FORNETTI
DA REDAÇÃO
Assim que saiu da faculdade, a bacharel em direito C.B.
começou a carreira como sócia minoritária
de um escritório paulista de advocacia. No papel,
era uma das donas da empresa. Na prática, batia o
cartão de ponto todo dia às 8h30, não
tinha autorização para assinar as análises
jurídicas que produzia e ganhava R$ 1.500 por mês.
Essa forma de contratação, em que os empresários
mascaram o vínculo de emprego, tem se generalizado no país
segundo relatos de representantes do Ministério do Trabalho,
dos tribunais do trabalho e de sindicatos. De acordo com a legislação
brasileira, quando as tarefas do sócio se configuram da mesma
maneira que o de um empregado, a prática é fraudulenta.
O governo intensificou a fiscalização sobre empresas
que caracterizam os funcionários como sócios e pagam
menos tributos e contribuições trabalhistas. Depois de
autuá-las, o Ministério do Trabalho cobra os depósitos
do FGTS sonegados no período e comunica à Receita Federal,
que demanda o Imposto de Renda devido.
De acordo com a lei, existe vínculo de emprego -e, portanto,
a contratação deve ser feita com registro em carteira-
quando o trabalhador se submete a um chefe e atua de modo não
eventual, com horários fixos e mediante salário. Luís
Alexandre de Faria, coordenador do grupo de combate a fraudes e à terceirização
irregular da Superintendência Regional do Trabalho de São
Paulo, diz que a fraude é recorrente no Estado. "São
Paulo é o balão de ensaio de experiências ilegais.
As empresas estão cada vez mais inventivas. E testam os modelos
aqui para depois exportar para outros lugares."
O grupo de Faria, que mira grandes sonegadores, fiscalizou, nos últimos
18 meses, 156 empresas que contrataram irregularmente 7.279 pessoas.
Os números incluem tanto a fraude do falso sócio quanto
outros tipos de contratação irregular, principalmente
a terceirização ilegal. O valor sonegado por essas companhias
em depósitos de FGTS atingiu R$ 24 milhões. Segundo Faria,
a fiscalização em pequenas e médias empresas,
realizada por auditores que não integram esse grupo, também
tem sido intensificada.
Ministério Público
O Ministério Público do Trabalho ampliou a sua atuação
nessa área, com mais investigações de casos semelhantes.
Nos últimos meses, os procuradores firmaram Termos de Ajustamento
de Conduta com escritórios, centros médicos, escolas
e outras empresas para pedir a contratação dos funcionários.
Em um dos documentos, um escritório "compromete-se a abster-se
de desvirtuar a verdadeira relação de emprego".
Em outro, um centro de estudo aceita "não utilizar qualquer
instrumento para encobrir o pagamento de salário "por fora",
inclusive sob o argumento de participação nos resultados".
Além da assinatura dos termos de ajustamento, o Ministério
Público conduz 14 procedimentos de investigação
contra escritórios de advocacia. Não há levantamento
disponível sobre casos em andamento em todas as áreas.
A procuradora regional do trabalho Sandra Lia Simón afirma que,
embora a descaracterização da figura do sócio
minoritário seja comum com profissionais liberais, a prática é frequente
em outras áreas -como em empresas de entrega e mesmo em salões
de cabeleireiro.
No Tribunal Regional de São Paulo, há mais de 250 ações
judiciais contra um grupo de estética paulistano. Trabalhadores
contratados como sócios, da zona leste à região
dos Jardins da capital, pedem o reconhecimento do vínculo de
emprego.
Em sentença favorável a um deles, o desembargador federal
do trabalho Rovirso Boldo escreve que "erigir à condição
de "sócias de serviços" a profissionais especializadas
nos serviços de manicuro, pedicuro e depilação,
foi a forma sub-reptícia encontrada para fraudar a legislação".
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Folha de S.Paulo, 27 de
setembro de 2009
Lei precisa de atualização,
diz sindicato
DA REDAÇÃO
O sindicato dos economistas do Estado de São Paulo
afirma que a legislação trabalhista deveria
ser modernizada. José Roberto Cunha, presidente
da entidade, diz que, desse modo, as empresas evitariam
fraudes. " Entendo a terceirização,
por exemplo, como algo natural do sistema capitalista. É parte
da competitividade das empresas. Acho que a lei deveria
prever um meio-termo", afirma Cunha. Para ele, as
empresas deveriam ter mais liberdade para escolher formas
de contratação alternativas, mas sem prejuízo
aos trabalhadores.
Cunha diz que o sindicato nota que algumas empresas da área
descaracterizam a figura do sócio, mas que muitos economistas
não querem denunciar a prática. "Acabam pensando:
não vou lutar contra quem tem nome importante porque vai me
queimar no mercado."
O procurador do trabalho Erich Vinicius Schramm, coordenador regional
do núcleo de fraudes do Ministério Público do
Trabalho, acrescenta que é difícil caracterizar a desvirtuação
da figura do sócio em algumas situações. "Os
casos têm que ser apurados de maneira delicada. Alguns profissionais
são autônomos por natureza, e mesmo o autônomo tem
que cumprir metas. Para caracterizar a fraude, o vínculo de
emprego tem que estar escancarado, com todas as características
que a lei especifica", afirma.
Schramm diz que a carga tributária elevada é um dos motivos
citados pelos empresários nas audiências do Ministério
Público do Trabalho para a não contratação. "Será que
com uma carga tributária mais baixa os empresários utilizariam
figuras fraudulentas na contratação? Quando pergunto
isso a eles, a resposta é incisiva: evidentemente que não.
O nível de contratação seria maior."
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Folha de S.Paulo, 27 de
setembro de 2009
Trabalhadores têm receio
de fazer denúncias
DA REDAÇÃO
Embora o Ministério do Trabalho relate aumento
das denúncias de pessoas que recebem cotas do capital
social de empresas como condição para conseguir
emprego, os trabalhadores nessa situação
têm receio de se expor. " Isso aqui está bombando
no Rio", diz uma médica que prefere não
se identificar.
" Como empresas pequenas não têm condições de
dar bônus altos, oferecem participação na empresa para o
emprego ficar atrativo", diz um economista de São Paulo. " Quando
me contrataram, o chefe me disse que rolava uma mutreta. Só entendi quando
saí e assinei um papel em que abria mão de uma cota", diz
uma jornalista.
Sindicatos têm denunciado a prática. "Não
reconhecemos o sócio que não tem poder de decisão",
diz Antonio Neto, que representa trabalhadores de processamento de
dados de São Paulo. O juiz do trabalho e professor da USP Jorge
Souto Maior destaca que, em algumas áreas, as reclamações
trabalhistas são raras. "A tática é vender
a ideia como benéfica ao trabalhador, afastando-o das obrigações
tributárias típicas da relação salarial.
Mas há prejuízo ao trabalhador porque direitos fundamentais
são descumpridos e há, também, prejuízo
para a Previdência."
Existe, porém, trabalhadores que preferem a condição
de sócio minoritário, mesmo que com características
desvirtuadas, ao emprego com carteira. Segundo essas pessoas, a situação é vantajosa
porque recolhem menos Imposto de Renda e têm menos descontos
no rendimento.
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Conjur, 27 de setembro
de 2009
Retração perigosa
Edição O Correio: Reduzir
jornada é fadar empresas ao fracasso
Por Reginaldo Fernandes Vicente
A redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40
horas foi aprovada pela comissão especial da Câmara dos
Deputados, que analisou o mérito da Proposta de Emenda à Constituição
- PEC 231/95, tendo como relator o Deputado Federal Vicentinho – PT/SP.
Além da redução da jornada de trabalho, a PEC 231/95
aumenta de 50% para 75% o valor a ser acrescido na remuneração
das horas extras.
Ora, os incisos XIII e XVI, do artigo 7º da Constituição
Federal, que tratam, respectivamente, da jornada de trabalho
e da remuneração da hora extraordinária,
já trazem em seu bojo a possibilidade da redução
da jornada de trabalho, mediante acordo ou convenção
coletiva de trabalho, entre empregadores e empregados. Assim,
não haveria motivos para alteração do
artigo 7º e seus incisos da Constituição
Federal, pois sua aplicação já foi absorvida
pelas empresas e empregados em que os acordos e convenções
coletivas tem se mostrado efetivos para este fim.
Obviamente que, nesse mecanismo (acordo e convenções
coletivas), cada segmento empresarial é analisado
individualmente, discutindo-se, entre as partes interessadas,
a viabilidade ou não de mudanças, inclusive
com redução da jornada de trabalho.
Quando a Constituição Federal de 1988 introduziu
esse recurso, era justamente para que o Estado deixasse de
interferir nas relações de trabalho, dando
início a flexibilização, em que as partes,
empregado e empregador, com auxílio dos sindicatos
da categoria, viabilizassem, dentro de suas especificidades,
o que seria melhor para as partes. Apesar de um pouco engessada,
a flexibilização caminhou bem, até a
proposta PEC 231/95, tentar acabar com uma grande conquista
dos trabalhadores e empresários, qual seja, de discutirem
o que for melhor, sem a intervenção do estado.
Recentemente, o vice-presidente da comissão especial
da Câmara, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), afirmou
que a redução da jornada era importante e não
prejudicaria o mercado de trabalho, gerando a criação
de novas vagas. Entretanto, no Brasil, os maiores geradores
de empregos são as pequenas e médias empresas
que, com as alterações propostas, serão
as grandes prejudicadas, vez que não terão
condições econômicas de absorver o impacto
que tais medidas irão causar.
Necessariamente, a majoração no custo da mão
de obra terá que ser repassada para o preço
final do produto, mas nem sempre as pequenas e médias
empresas, que muitas vezes trabalham com margens muito reduzidas
de lucro, conseguirão esta façanha. Para estas,
a consequência será desastrosa, resultando em
demissões ou até mesmo o encerramento das atividades.
Nesse sentido, pactuo do entendimento do Presidente da Federação
das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Victor Ventin,
ao afirmar que, caso a proposta seja aprovada, esta resultará na
elevação de 17,5% dos custos de produção,
com impactos na competitividade das empresas. [1][1]
Inadequado seria esquecer que, segundo pesquisa realizada
pela ABRH – Associação Brasileira de
Recursos Humanos, a jornada de trabalho no Brasil é uma
das mais favoráveis da América Latina, visto
que trabalhamos 173 horas por ano a menos do que os argentinos,
e 404 horas a menos por ano do que os mexicanos. [2][2]
A pesquisa traz também outros dados relevantes, especialmente
a de que o Brasil é o país que apresenta menos
horas de trabalho noturno por dia, comparado a países
como o Equador, por exemplo. Em relação aos
períodos de descanso e alimentação,
a maioria dos países da América Latina disponibiliza
30 minutos por dia aos trabalhadores, diferente do que acontece
no Brasil, onde o horário para alimentação
e descanso varia entre uma e duas horas. Porém vale
ressaltar que, nos outros casos, este tempo é considerado
como parte da jornada de trabalho diária. [3][3]
[1][1] Notícia publicada na edição
impressa do dia 24/08/2009 do CORREIO. Embora o DIEESE tenha
entendimento contrário, concluindo que o custo da
produção não ultrapassaria 1,99%.
[2][2] Pesquisa realizada pela ABRH-Nacional,
coordenada pelo Vice-Presidente de Relações
Trabalhistas e Sindicais Carlos Pessoa, publicada em 01 de
Maio de 2008.
[3][3] Idem
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