Agência Diap, 27 de outubro de 2009
Veja ataca sindicalismo brasileiro
com velha e surrada cantilena udenista
A revista "Veja" que está
nas bancas (edição 2136) traz matéria de cinco
páginas contra o movimento sindical.
O objetivo, evidente, é
desqualificar o movimento, repetindo a cantilena udenista da tal "república
sindicalista", sacada pelos golpistas de 64 para justificar a derrubada
de Jango e instaurar a ditadura.
A abertura da matéria
diz: "Poucos negócios no Brasil são tão lucrativos
quanto montar um Sindicato. Sim, você leu direito. Na república
sindical instalada no Brasil pelo governo petista, conseguir representar
uma categoria profissional virou excelente negócio". E vai
por aí...
Alguns sindicalistas são
entrevistados, entre eles Jacy de Melo, da CUT, Emílio Ferreira
Júnior, da Feticom, e Ricardo Patah da UGT.
Leia abaixo a íntegra
da matéria e tire suas conclusões.
"Pra quebrar tudo é
mais caro
De olho no dinheiro do imposto
sindical, centrais de trabalhadores contratam capangas armados a 180
reais por cabeça para invadir territórios rivais e "roubar"
filiados umas das outras
Poucos negócios no Brasil
são tão lucrativos quanto montar um sindicato. Sim, você
leu direito. Na república sindical instalada no Brasil pelo governo
petista, conseguir representar uma categoria de trabalhadores virou
excelente negócio. Mas não um negócio qualquer.
Para começar, o sindicato tem monopólio local garantido
por lei. Essa categoria é minha e ninguém tasca! A segunda
característica desse ramo especialíssimo de negócio
é o fato de que o dinheiro cai no caixa automaticamente, sem
que seja preciso mexer uma palha.
As contribuições,
para filiados ou não, são compulsórias. Delas,
dos impostos e da morte, ninguém escapa. Uma terceira faceta
do negócio é ainda mais atraente. A lei garante a inviolabilidade
de suas finanças. Isso significa que os sindicatos estão
dispensados de prestar contas sobre como gastam o dinheiro arrecadado
compulsoriamente. Quando se somam essas facilidades todas, fica evidente
que os sindicalistas chegaram não apenas ao Planalto, mas ao
paraíso.
Digamos que, mesmo em um ambiente
favorável assim, um dirigente sindical brasileiro sinta-se insatisfeito.
Sem problema. Passa pela direção de um sindicato o caminho
mais curto para conseguir a nomeação para algum alto posto
no governo federal em Brasília, que tem 12% dos cargos de confiança
ocupados por pessoas ligadas às centrais sindicais.
Mas - e sempre tem um mas -
um negócio desses, garantido e lucrativo, é muito disputado.
Como se verá nesta reportagem, disputado a pau e pedra. Para
evitarem que um sindicato "roube" o monopólio de filiação
de outro, lideranças desenvolveram uma estratégia previsível
quando se trabalha fora do alcance da lei.
Estão contratando capangas
armados para, na base do quebra-quebra e da pancadaria, impedir a realização
de assembleias de fundação de sindicatos potencialmente
concorrentes. Em São Paulo, desde o ano passado, já foram
registradas dezenas de confrontos do tipo, alguns envolvendo até
300 homens de cada lado - pois a parte ameaçada reage com a mesma
moeda e sai a contratar arruaceiros.
Desarmado, cada um custa 130
reais; armado, sai por 180 reais - ou 250 reais caso seja policial.
"Agora, se for pra quebrar tudo, fica mais caro", disse a
VEJA o chefe de um dos mais ativos serviços de milícia
de aluguel de São Paulo. Ele garante ter trabalhado para três
das seis principais centrais sindicais do país.
O gangsterismo sindical, agora
em sua versão explícita, começou com uma mudança
legal ocorrida no ano passado. No Brasil, desde o governo Getúlio
Vargas, vigora o sistema de unicidade sindical, que permite a existência
de apenas um sindicato por categoria em determinada região.
Uma portaria do governo, porém,
passou a admitir a abertura de entidades "concorrentes" em
uma mesma região desde que a sede da mais nova não fique
no mesmo local que a sede da mais antiga. Imagine-se o Sindicato dos
Garçons, com sede na cidade de São Paulo e atuação
em toda a Grande São Paulo.
Ele era o único autorizado
a representar os profissionais da região. Hoje, com as atuais
regras, qualquer um pode montar o, digamos, Sindicato dos Garçons
do B, desde que a sua base fique, por exemplo, em Santo André
- onde a primeira entidade não mais poderá atuar. Do ponto
de vista do modelo sindical, a mudança não significa nenhum
avanço. Ela é apenas a fragmentação de um
monopólio. Os garçons brasileiros - ao contrário
dos seus colegas americanos ou da maior parte dos europeus - continuam
sem ter o direito de decidir se querem ou não contribuir com
os seus sindicatos e também sem poder escolher qual a entidade
que vai representá-los.
O fato de a "contribuição"
ser compulsória garante que o dinheiro seja entregue ao sindicato
que fica na região em que o contribuinte trabalha. Já
do ponto de vista prático, deu no que deu.
No mês passado, para fundar
mais dois sindicatos na cidade de Bertioga (litoral de São Paulo),
a CUT levou 400 "seguranças", como o secretário
de organização da entidade, Jacy Afonso de Melo, prefere
chamar os capangas de aluguel. "Dona" do pedaço, a
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção
e do Mobiliário do Estado de São Paulo (Feticom) recepcionou
a CUT com 600 homens, prontos para impedir a realização
das assembleias ("Metade era trabalhador, metade a gente pagou",
admite o presidente da Feticom, Emílio Alves Ferreira Júnior).
O embate só não
aconteceu porque, na última hora, os líderes dos dois
lados decidiram sentar-se para lotear entre si as cidades que permaneceriam
sob a esfera de influência de cada um. Já o desfecho do
embate ocorrido em 31 de julho, em Osasco, entre a mesma CUT e a Nova
Central foi menos diplomático. A disputa para abocanhar as "contribuições"
de trabalhadores do setor de bares e restaurantes envolveu 300 cavalheiros,
muitos sopapos, coquetéis molotov e cadeiras voando pelos ares.
"Estamos vivendo numa anarquia
sindical. E a razão é que o movimento está sendo
dirigido por interesses financeiros e pessoais", diz Ricardo Patah,
presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT).
A CUT e a Força Sindical,
as duas maiores centrais do país, perderam território
para as novas entidades, criadas por lideranças de olho na reestruturação
da divisão do imposto sindical sacramentada pelo presidente Lula
no ano passado. A mudança agraciou as centrais com 10% do imposto
arrecadado pelos sindicatos, porcentagem que antes ficava para o governo.
Foi um presentão do "paizão" Lula - como, na
ocasião, se referiu ao presidente da República um sindicalista.
O "presentão do paizão" foi comemorado em grande
estilo. Dirigentes de classe organizaram um festão no Congresso,
com vinho e uísque 12 anos rolando solto.
Não foi o único
mimo ofertado por Lula aos companheiros sindicalistas. Em março
de 2008, ele vetou um dispositivo que autorizava o Tribunal de Contas
da União (TCU) a fiscalizar as contas dos sindicatos - inescrutáveis
desde a Constituição de 1988, que pretendeu, dessa forma,
proteger as organizações de interferências do poder
público.
"Esse veto é inacreditável.
É a primeira vez em que alguém diz que dinheiro público
não precisa ser auditado. Nem o Banco Central tem essa autonomia",
afirma o sociólogo José Pastore. Nas poucas vezes em que
um órgão logrou escarafunchar a caixa-preta das entidades,
como o TCU em 2003, os resultados foram alarmantes.
Dos 137 milhões de reais
em verbas federais destinadas a centrais sindicais pelo Plano Nacional
de Qualificação do Trabalhador (Planfor), ninguém
soube dizer onde foram parar 30,6 milhões. A auditoria do TCU
só foi possível porque o dinheiro investigado não
provinha do imposto sindical, mas de verbas federais. A apuração
do TCU inspirou o governo de São Paulo a investigar com lupa
os contratos e convênios firmados com sindicatos usando dinheiro
do Planfor. Até agora, foram analisados 206 dos 876 contratos
firmados de 1999 a 2006. Todos mostraram algum tipo de irregularidade,
formal ou envolvendo de notas frias a listas de alunos-fantasma.
"O modelo sindical brasileiro
reúne as três piores características possíveis.
Primeiro a unicidade sindical, seguida do sustento das entidades por
contribuição compulsória e, claro, a blindagem
contra fiscalização", afirma Otávio Pinto
e Silva, professor de direito da USP. Mesmo com seu figurino fora de
moda, o sindicalismo nacional ganha cada vez mais espaço e dinheiro
- o que, mais uma vez, coloca o Brasil na contramão da história.
Para o sociólogo Leôncio Martins, as entidades de classe
estão em franco declínio.
"A mobilidade do capital
internacional, a flexibilização da produção
e a maior heterogeneidade da força de trabalho, resultado do
crescimento da mão de obra imigrante, são alguns dos fatores
que apontam para isso", diz. Mas no Brasil, ao menos por enquanto,
os dirigentes não precisam se preocupar, já que têm
o sustento garantido por um governo "companheiro".
Na Argentina, Juan Domingo Perón
inundou os sindicatos de dinheiro e, em troca, pôde usá-los
como armas de auxílio direto para a sua sustentação
na Presidência. No Brasil, os sindicatos já deram incontáveis
provas de lealdade ao governo do qual dependem. Assumiram uma atitude
de contemplação bovina diante de questões antes
explosivas, como o salário mínimo e o desemprego.
Mas o maior favor prestado ao
"governo companheiro" é o ensurdecedor silêncio
que os sindicatos dedicam aos escândalos da administração
petista. Lula, o "paizão", tem retribuído à
altura - fingindo ignorar que seus "filhos" agem como gângsteres
na luta para manter os lucrativos territórios."
Matéria
assinada por Laura Diniz, publicada na edição de 28 de
outubro da revista Veja