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Comunique-se, 1 de novembro de 2009
Vicentinho (PT/SP) apresenta projeto
que cria “horário sindical gratuito”
Os programas, segundo o projeto,
seriam produzidos pelas próprias centrais sindicais e
exibidos entre as 20h e 22h, sempre às terças-feiras
O ex-presidente da CUT e deputado federal Vicentinho (PT/SP) apresentou,
no dia 21 de outubro, projeto de lei que estabelece o acesso gratuito das
centrais sindicais ao rádio e à televisão.
O modelo proposto é parecido com o utilizado pelos partidos
políticos.
Projeto (PL 6.104/09) com mesmo propósito foi apresentado
pela deputada Manuela D'ávila (PCdoB/RS).
Assim, o projeto (PL 6.257/09) de Vicentinho será anexado
ao da deputada gaúcha, de modo que serão discutidos
em conjunto.
As proposições estão sob análise
da Comissão de Trabalho da Câmara, que ainda não
designou relator. Depois de passar por esta comissão serão
examinadas ainda pelas comissões de Ciência e Tecnologia,
Comunicação e Informática; de Constituição
e Justiça e de Cidadania.
Democratização do acesso
" No mundo moderno, em que a liberdade de expressão só é plena
se houver garantia de acesso igualitário aos meios de comunicação,
faz-se cada vez mais necessária uma regulação que assegure,
na forma da lei, o acesso da sociedade civil à mídia", justificou
o deputado.
De acordo com a proposta, cada central sindical reconhecida
pelo Ministério do Trabalho teria direito à "realização
de um programa em cadeia nacional, a cada ano, com a duração
de dois minutos; e a utilização do tempo total
de no mínimo dez e no máximo quarenta minutos,
por ano, para inserções de trinta segundos ou um
minuto, nas redes nacionais".
Os programas seriam produzidos pelas próprias centrais
e exibidos entre as 20h e 22h, às terças-feiras.
As informações veiculadas devem ser de interesse
dos representados e fica proibida a divulgação
de propaganda de candidatos a cargos eletivos, defesa de interesses
pessoais e partidários e a utilização do
espaço para fins comerciais.
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BBC,
1 de novembro de 2009
FEM: Brasil caiu 9 posições
no ranking da desigualdade entre os sexos
O Brasil caiu nove posições no ranking global de desigualdade
entre os sexos organizado pelo Fórum Econômico Mundial, ocupando
a 82ª colocação entre 136 países.
De acordo com o documento divulgado, na última terça-feira
(27), este é o pior resultado dos últimos três
anos.
O relatório avalia o nível de igualdade entre homens
e mulheres de acordo com quatro categorias: diferenças salariais
e participação no mercado de trabalho, acesso à educação
e nível de formação educacional, acesso à saúde
e queda na taxas de mortalidade, e participação política
e em cargos de poder político.
Entre as principais razões apontadas para a queda de posições
brasileiras este ano está a diferença de renda entre
homens e mulheres que realizam o mesmo trabalho.
Se a pesquisa tivesse levado em consideração apenas
a desigualdade salarial entre os gêneros, o Brasil teria
ficado na 114ª colocação.
O Brasil se posiciona atrás de outros latino-americanos
como Equador, Argentina, Peru e Nicarágua.
A Islândia é considerada a nação mais
igualitária, seguida de Finlândia, Noruega e Suécia.
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Congresso
em Foco, 1 de novembro de 2009
Nas revistas: Dilma é reconstruída
para disputa em 2010
Veja
A reconstrução
da ministra
Depois de ser derrotado em três eleições,
Lula reapareceu com a imagem remodelada na eleição
de 2002. Passou a usar ternos bem cortados, cuidou da aparência
e, principalmente, deixou de lado o discurso radical que assustava
parte do eleitorado. A ministra Dilma Rousseff, candidata do
governo à Presidência, está no mesmo laboratório
operando sua transformação. Nos sete anos de
ministério, Dilma ficou conhecida pela austeridade,
inclusive no trato com auxiliares e colegas, pela falta de
tato político, o que já lhe rendeu brigas e desafetos
dentro do próprio partido, o PT, e pela dificuldade
em se comunicar. Parecem problemas intransponíveis para
quem deseja enfrentar com a mínima possibilidade de êxito
uma campanha eleitoral que promete ser uma das mais acirradas
dos últimos anos. A metamorfose já mostra os
primeiros sinais. Na semana passada, durante a inauguração
dos estúdios de uma emissora de TV, Dilma brincou de
atriz com o presidente Lula, que manejava uma câmera.
Depois, em um jantar com parlamentares do PP, fez questão
de ir à cozinha cumprimentar os funcionários
da casa. Em outro evento, em São Paulo, abraçou
e beijou catadores de lixo que participavam de uma feira de
reciclagem. Por fim, a ministra, que nunca teve muita afinidade
com questões ambientais, tem revelado inédita
preocupação ecológica, a ponto de ser
nomeada para chefiar a delegação brasileira que
vai participar de uma conferência da ONU sobre o clima.
"Dilma está mais simpática, mais sorridente
e consciente do que se deve fazer em uma campanha", afirma
um membro de seu staff. Exemplo disso é que, há duas
semanas, a ministra esteve em um almoço com correligionários
do governador Eduardo Campos (PSB-PE) e, na chegada, cumprimentou
apenas as autoridades presentes à mesa. Foi, depois,
advertida pela falha. "Dá para perceber que é difícil
para ela cumprir esse papel de candidata, mas ela tem se esforçado." Os
discursos e as opiniões da ministra também passaram
a seguir um roteiro preestabelecido. Os discursos devem ser
simples e carregados de metáforas de fácil entendimento,
como os do presidente Lula. As opiniões emitidas sobre
os temas de governo e de campanha também não
podem divergir das defendidas pelo presidente. Nos últimos
dias, Dilma foi criticada por estar antecipando a campanha
eleitoral, o que é ilegal. Indagada sobre o assunto,
a ministra se disse vítima de preconceito pelo fato
de ser mulher. Ninguém entendeu o que uma coisa tem
a ver com a outra, mas Dilma conseguiu, ao menos momentaneamente,
safar-se da polêmica – exatamente como foi ensaiado
com sua equipe de campanha, integrada por políticos,
publicitários e jornalistas.
A ministra se reúne uma vez por semana com o "estado-maior" de
sua campanha, como é chamado o grupo do qual fazem parte
os ministros Franklin Martins (Comunicação Social)
e Alexandre Padilha (Relações Institucionais),
o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho,
o presidente do PT, Ricardo Berzoini, o deputado Antonio Palocci,
o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o marqueteiro
João Santana. Nesses encontros são discutidos
os temas que serão abordados pela candidata-ministra
e como ela deve tratá-los em suas aparições.
Também são definidos a agenda de viagens e pontos
da estratégia política da campanha. Nos fins
de semana, Dilma reserva um dia, às vezes o sábado, às
vezes o domingo, para se dedicar integralmente ao treinamento
e à preparação da "candidata ideal".
Ao lado de João Santana e de sua equipe de marqueteiros,
a ministra é submetida a sessões de entrevistas,
debates simulados e pronunciamento para programas de TV. A
postura, o tom de voz, o modo de encarar as câmeras e
até a melhor roupa para cada ocasião são
experimentados à exaustão. "Esse treinamento é normal
para todo candidato em campanha. No caso da Dilma, porém,
isso precisa ser intensificado porque ela não tem nenhuma
experiência eleitoral. Estamos saindo do zero, fabricando
um candidato", explica um dos envolvidos na operação.
Em breve, o perfil de Dilma Rousseff ganhará o reforço
de um detalhe desconhecido pela maioria dos eleitores. A ministra
terá enfatizada sua condição de "candidata
mineira". Dilma nasceu em Belo Horizonte, em 1947, e estudou
nos tradicionais colégios Sion e Estadual Central. Sua
mãe cresceu em uma fazenda na região de Uberaba
e seu pai trabalhou na siderúrgica Mannesmann, tradicional
empresa no estado. Em Minas Gerais, ela atuou em grupos de
oposição à ditadura e acabou presa. Essa
origem, porém, é pouco conhecida, pois sua carreira
pública foi, na verdade, construída no Rio Grande
do Sul, para onde se mudou após deixar a prisão.
Pela estratégia montada, Dilma será apresentada
como a alternativa para Minas voltar a ter um presidente da
República depois de quinze anos. O último foi
Itamar Franco. Os auxiliares da ministra avaliam que, caso
o governador paulista José Serra seja confirmado como
candidato da oposição, ela pode atrair os votos
dos eleitores mineiros, desde, é claro, que enxerguem
nela uma legítima representante do estado.
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Gazeta
do Povo, 1 de novembro de 2009
Desenvolvimento regional
Polo moveleiro à espera de
fortalecimento
Município de Campo Magro já é um
grande fabricante de móveis artesanais, mas é preciso
uma boa dose de organização para que a produção
local seja mais reconhecida
Campo Magro, município de 25 mil habitantes na região
metropolitana de Curitiba, parece ter descoberto na fabricação
de móveis artesanais uma vocação econômica.
A certeza de que a cidade tem muito a ganhar só não é maior
porque, apesar de movimentar cerca de 60% da economia local,
a atividade ainda precisa vencer desafios como a informalidade
e a falta de união entre os produtores.
A temporada de verão aumenta a procura pelos artigos
produzidos na cidade que, para quem vem da capital, parece uma
extensão do bairro Santa Felicidade. O diretor de artesanato
do município, Álvaro Talamini, conta que os móveis
campomagrenses decoram casas litorâneas de norte a sul
do Brasil. “Como vendemos a maior parte dos produtos para
outros estados, muitos paranaenses nem desconfiam que a nossa
cidade está entre as que mais fabricam esses móveis
no país”, afirma.
A “rede de distribuição” que garante
essa popularidade, no entanto, também é informal,
quase obra do acaso. Boa parte da produção é vendida
a caminhoneiros que passam pela Estrada do Cerne, que atravessa
o município. Eles compram as mercadorias a preços
baixos e lucram na revenda em outras partes do país. “Esses
caminhões são meus principais concorrentes”,
revela Claudinei Colonhesi, um dos poucos artesãos
a ter uma microempresa regularizada e que consegue vender seus
produtos diretamente para lojas, principalmente de São
Paulo. “Esses atravessadores banalizam os nossos produtos,
porque o cliente vê um móvel na beira da estrada
com um preço, e depois vê a mesma coisa ou algo
parecido na loja, só que mais caro”, diz Alex Colonhesi,
irmão e sócio de Claudinei.
A grande maioria das fabriquetas familiares que atuam em Campo
Magro não é regularizada, e muitos de seus funcionários
não têm direitos previdenciários ou trabalhistas.
Com isso, o município também deixa de receber impostos
preciosos.
Organizar para crescer
Para o município se transformar em um verdadeiro polo
dos móveis artesanais, os artesãos precisam de
mais organização e aperfeiçoamento. “O
trabalho ali é feito com muito capricho e eles
têm um potencial muito grande”, reconhece a professora
de design Arabella Natal Galvão da Silva, que durante
o seu mestrado na UTFPR, pesquisou a produção
da região. “Mas falta investir mais em
design. Do contrário, um copia o outro, e os produtos
acabam sem inovação”, aponta. Para Rodrigo
Brito, um dos coordenadores da ONG Aliança Empreendedora,
que presta consultoria para microempreendedores, o
fundamental seria que os pequenos tivessem
um maior controle da comercialização de seus produtos. “É cômodo
só esperar os caminhoneiros baterem na porta de casa”,
diz Britto. “Se eles desenvolvessem estratégias
de venda, obteriam clientes que pagariam mais pelo trabalho deles.”
Outra alternativa para desenvolver o setor em Campo Magro poderia
estar no Arranjo Produtivo Local (APL), sistema em que um grupo
de empresas, mesmo independentes, desenvolvem ações
conjuntas em prol de um bem comum. Quem faz
a sugestão é Cristiane Stainsack, coordenadora
do programa de apoio aos APLs, do Instituto
Evaldo Lodi (IEL). Ela cita o exemplo de Arapongas, em que, graças
ao APL, os produtores de móveis da cidade promovem
capacitação de mão de obra, obtêm
linhas de crédito especiais e contam com uma
central de compras, que reduz custos na obtenção
de matéria-prima.
Já a criação de uma cooperativa, na opinião
do diretor de artesanato Talamini, seria uma grande conquista
para os pequenos artesãos. “Se eles se unissem,
formariam simplesmente a maior empresa de móveis da cidade.”
Sem representatividade
Uma tentativa de organizar os trabalhadores locais surgiu há seis
anos, com a criação da Artcamp, a Associação
dos Artesãos de Campo Magro. A entidade, porém,
não atinge seus objetivos plenos e tem baixa representatividade.
Com 86 associados no papel, apenas “uns 15 são ativos”,
informa Edgar Antônio Stival, fundador e atual
presidente da Artcamp. “Queríamos mudar
a situação da nossa cadeia produtiva, que estava
e ainda está muito viciada”, conclui Stival.
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Folha
de S.Paulo, 1 de novembro de 2009
Congresso engaveta projetos importantes
Eventuais focos de resistência e
ausência de lobby colaboram para que propostas andem a passos
lentos
MARIA CLARA CABRAL
RANIER BRAGON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Câmara dos Deputados e Senado Federal guardam em suas
gavetas dezenas de projetos que, embora considerados importantes
pelos próprios congressistas, há anos andam a passos
lentos. Propostas como as da nova lei das agências reguladoras,
da reforma tributária, do fim do voto secreto no Legislativo
e da redução da jornada de trabalho fazem parte
do grupo de 945 que já cumpriram a tramitação
nas comissões e aguardam a vez de entrar na pauta de votações
do plenário da Câmara.
A chamada "PEC (proposta de emenda constitucional) do trabalho escravo",
por exemplo, está há cinco anos aguardando votação
em segundo turno, o que, pelo regimento da Casa, levaria só cinco
sessões.
Ela prevê a expropriação, sem direito à indenização,
de terras onde haja exploração de mão de obra análoga à escravidão.
Por diversas vezes, chegou a entrar na pauta de votação,
por indicação de PSOL, PT e PDT. Mas, além da falta
de lobby forte, o projeto sofre resistência da bancada ruralista.
Além de eventuais resistências, na maioria dos casos a paralisia
acontece porque não há pressão favorável
nem da sociedade, nem do governo, nem de grupos específicos. Outro
exemplo ocorreu com a PEC que põe fim ao voto secreto no Congresso,
Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.
A emenda foi aprovada em primeiro turno pela Câmara em setembro
de 2006, como reação às sucessivas absolvições
no plenário de parlamentares acusados de envolvimento nos esquemas
do mensalão e dos sanguessugas.
Desde então, a proposta está parada na Câmara. Ela
ainda precisa ser votada em segundo turno e passar por outras duas votações
no Senado para entrar em vigor. Não há nenhuma mobilização
política nessa direção.
Crise no Senado
Na lista de propostas engavetadas pelo Congresso, estão ainda
o projeto de lei de repatriamento de recursos do exterior -que dá a
possibilidade a quem tem dinheiro fora do país de repatriar o
recurso com o aval do fisco-, a emenda constitucional da revitalização
do rio São Francisco -que institui um fundo para o rio- e a proposta
de criação de um cadastro de bons pagadores, de 2004, parada
no Senado desde maio, quando passou na Câmara.
No Senado, grande parte do ano foi consumido por uma crise política
por suspeitas de irregularidades que quase provocou a saída do
presidente José Sarney (PMDB-AP).
Ao assumir o atual cargo, o presidente da Câmara, Michel Temer
(PMDB-SP), prometeu colocar em pauta várias propostas polêmicas.
Por meio de sua assessoria, ele disse que sua promessa está sendo
realizada, dando como exemplo a votação da PEC que criou
mais de 7.000 novas vagas de vereadores, mas cuja eficácia foi
suspensa por decisão do Supremo.
Temer ressalta, no entanto, que a pauta é preciso ser feita com
costura política e não de forma monocrática. "Uma
maioria não se dispõe a fazer um cavalo de batalhas, é preferível
evitar o embate para não perder a produtividade", diz o vice-líder
do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).
O próprio congressista admite, no entanto, que, se o governo tivesse
vontade, mesmo as propostas polêmicas poderiam ser votadas. "Quando
ele [governo] quer mesmo, ele vota, mesmo com obstrução,
demora-se mais tempo, mas vota-se."
E, por falta de vontade política, a lista de propostas paradas
no Congresso deve permanecer assim por muito tempo. Já que, na
prática, a Câmara conta com só mais uma semana de
votação. Depois disso, Temer prometeu pautar os quatro
projetos sobre o pré-sal, o que deve concentrar os esforços
do Congresso até o ano que vem.
Como 2010 é ano eleitoral, em que todas as cadeiras da Câmara
e dois terços das do Senado estarão em disputa, as Casas
devem andar em ritmo lento.
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Folha
de S.Paulo, 1 de novembro de 2009
Assistencialismo volta a puxar
economia
Transferências do Bolsa Família
e de aposentadorias vinculadas ao salário mínimo
retomam protagonismo neste ano
Em 2008, renda do trabalho havia superado,
depois de sete anos, a dos programas sociais como principal fator
de redução da desigualdade
MARCIO AITH
DA REPORTAGEM LOCAL
As transferências do Bolsa Família e das aposentadorias
vinculadas ao salário mínimo voltaram, em 2009,
a ter o protagonismo que marcou a economia sob o governo Lula.
Essa é a realidade desenhada pelas principais pesquisas
feitas em 2009 sobre o efeito da crise mundial no bem-estar econômico
dos brasileiros.
Em 2008, a renda do trabalho havia superado, depois de sete anos, a dos
programas sociais como fator primordial de redução da desigualdade.
Foi como se o motor do equilíbrio social, empurrado pelos benefícios
sociais, tivesse finalmente "pegado no tranco"; e morrido de
novo após a crise.
As pesquisas trazem outra conclusão: devido aos programas de transferência
de renda, que priorizam as regiões onde a economia privada é mais
fraca, a crise afetou os brasileiros de forma assimétrica.
Brasil industrial
O "Brasil industrial" sofreu mais que o "Brasil rural";
o "Brasil das capitais" sofreu mais que o "Brasil das
periferias"; e o "Brasil do Sul e do Sudeste" sofreu mais
que o "Brasil do Norte e do Nordeste".
Datafolha e outros institutos, públicos e privados, vão
nessa direção. É o que provavelmente mostrará,
com mais detalhes, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios)
de 2009, a ser divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística).
Sem São Paulo
" Se o Brasil não tivesse São Paulo, a resistência estatística
do país à crise seria ainda maior", diz Marcelo Neri, coordenador
do Centro de Políticas Sociais da FGV.
" Nas periferias do Nordeste, as classes A, B e C cresceram 12% de agosto
de 2008, antes da turbulência, a agosto de 2009. É como se, nessas
regiões, a crise não tivesse existido", diz.
Já a parcela da população do município de
São Paulo que figurava nas classes A, B e C apresentou retração
de 0,8% no período.
Neri formula suas pesquisas com base em dados divulgados pelo IBGE.
" Os números mostram, de forma inequívoca, o impacto forte
dos programas sociais no combate à crise", diz Neri. A pesquisa Datafolha,
com metodologia própria, apontou um desempenho formidável dessas
três classes, que estão no ápice da pirâmide social,
principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Elas partiram de uma fatia de 75% para 81% de 2008 a 2009. Na região
Sul, caíram de 89% para 88%. Na Sudeste, apresentaram ligeiro
aumento, de 83% para 85%.
Trabalho
No período entre 2001 e 2008, as transferências promovidas
pelo Bolsa Família e pelas aposentadorias vinculadas ao salário
mínimo haviam sido muito importantes para a redução
da desigualdade social no Brasil.
No ano passado veio a mudança: a renda do trabalho foi responsável
por 75% da queda da desigualdade, enquanto o aumento do salário
mínimo respondeu por apenas 16% do recuo da desigualdade, segundo
dados do Ipea.
O pesquisador Sergei Soares avaliou que, quando saíssem os resultados
da Pnad, o Bolsa Família e todos os outros benefícios indexados
ao salário mínimo voltariam a deter mais importância.
" Veremos, daqui a um ano, um efeito possivelmente ainda importante do mercado
de trabalho. Mas veremos um efeito ainda mais importante das transferências
do que o observado em 2008." É, de fato, o que está ocorrendo.
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Folha
de S.Paulo, 1 de novembro de 2009
Empregada doméstica dá lugar
a diarista
Embora ainda minoritária, participação
passou de 17% para 25% do total de domésticos em dez anos,
aponta estudo
Para pesquisadora, ao optar pela função
de diarista, profissional ganha em autonomia, embora perca em
proteção social
ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O perfil do mercado de trabalho doméstico no Brasil mudou,
e cada vez mais as diaristas ocupam um espaço em que as
chamadas empregadas mensalistas eram absolutas.
A conclusão está em pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada) realizada com base em dados do IBGE. De 1998
a 2008, o número de diaristas quase duplicou e, embora continuem
minoritárias, elas vêm aumentando regularmente sua participação,
passando de 17% para 25% do total de trabalhadores domésticos.
Os pesquisadores consideraram como diarista a profissional que disse
trabalhar em mais de um domicílio e como mensalistas as que trabalham
em apenas uma residência. É um critério aproximado,
já que é possível haver diaristas mesmo entre as
que atuam em somente uma residência.
Os dados brutos da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio)
trazem uma pista para explicar o fenômeno: a renda. As diaristas
ganham, em média, 17% a mais do que as outras domésticas,
o que dá R$ 57 a mais por mês.
Ganho maior
Foi justamente a questão financeira que fez Helena Nunes, 37,
de Campinas, deixar neste ano a casa onde trabalhou por 14 anos para
fazer faxina em outros lugares. Ela ganhava R$ 650 trabalhando a semana
toda. Agora, cobrando R$ 70 por dia, consegue obter mais em apenas dez
dias por mês.
Trata-se de uma renda maior em termos, já que as diaristas que
têm carteira assinada são uma minoria -somente 14%, na comparação
com 30% das mensalistas.
O reconhecimento de vínculo empregatício tem variado, mas
uma decisão de 2004 do Tribunal Superior do Trabalho não
o reconheceu no caso de uma profissional que trabalhava três vezes
por semana na mesma casa.
Ainda assim, como a renda média do emprego doméstico é menor
do que um salário mínimo (R$ 351), o valor dos benefícios
acaba muitas vezes ficando em segundo plano para a trabalhadora. A falta
de registro em carteira, que já é vantajosa para o patrão,
passa a ser opção das próprias profissionais.
Autonomia
Além disso, embora percam em proteção social, as
domésticas ganham em autonomia, ao optarem pelo trabalho de diarista,
afirma a pesquisadora do Ipea Natália de Oliveira Fontoura. "A
gente pode pensar em uma mudança para um arranjo de trabalho mais
profissionalizado, com caráter de prestação de serviços",
diz.
Ilídia Batista, 57, de Brasília, morou 18 anos na casa
da antiga empregadora. Saiu quando as crianças cresceram e, em
vez de procurar outra residência, escolheu ser diarista para ganhar
mais. "No começo, foi até difícil me acostumar
a morar na minha casa, mas eu vi que posso andar do jeito que eu quero,
fazer o que eu quero", diz. Agora, ela afirma não querer
mais morar em outra casa.
A presidente do Sindicato de Empregadas e Trabalhadores Domésticos
de São Paulo, Camila Ferrari, também notou que são
muito mais raras as profissionais que moram no local de trabalho. "Antes,
a empregada vinha do interior e precisava de lugar para morar. Agora,
já constituiu família e quer ter a sua casa. Além
disso, quem vive com os patrões acaba trabalhando da hora em que
acorda até a noite", diz.
De fato, os dados da Pnad mostram uma relativa vantagem das diaristas
em relação às demais empregadas no quesito carga
horária. São quatro horas a menos por semana, cerca de
33 horas e 30 minutos, ante 37 horas e 30 minutos.
Essa diferença de horário, assim como a diminuição
do número de empregadas que dormem na casa dos patrões, é compensada
por questões demográficas. "Como as famílias
estão ficando menores, há menos exigência de trabalho
doméstico e, por isso mesmo, é possível ter empregada
doméstica em tempo parcial", diz Simone Wajnman, professora
do Departamento de Demografia da UFMG (Universidade Federal de Minas
Gerais).
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Folha
de S.Paulo, 1 de novembro de 2009
Aumenta a idade média das
trabalhadoras
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Além do aumento da participação de diaristas,
uma mudança ocorrida no mercado de trabalhadores domésticos
diz respeito ao envelhecimento das profissionais durante a última
década. Em 1998, 32% delas tinham até 24 anos.
Dez anos depois, essa mesma proporção caiu para
17%. A faixa etária que mais cresceu foi a de 45 a 59
anos, que passou de 17% para 26% da categoria.
Uma das explicações do estudo do Ipea para esse movimento é o
pequeno aumento de escolaridade no Brasil, que abre novas perspectivas
para as mulheres mais jovens, principalmente as que têm entre 18
e 24 anos, além do desvalorizado trabalho doméstico.
" Como o Brasil está aumentando o nível educacional, tem muito
pouca mulher jovem disposta a aceitar trabalhar como doméstica. Elas acabam
vendo isso como uma ocupação temporária", afirma Simone
Wajnman, da UFMG. Para ter uma ideia, as domésticas nessa faixa etária
tinham em 2008, em média, oito anos de estudo, o que significa pouco mais
do que o ensino fundamental completo. Dez anos antes, em 1998, a média
ficava em 5,6 anos de escola.
Já as mais velhas, com 60 anos ou mais, estudaram pouco mais do
que três anos, o que, além da idade em si, dificulta a procura
por um novo tipo de trabalho no mercado.
A expansão das matrículas na educação, por
outro lado, não impediu que o Brasil ainda tivesse, no ano passado,
305 mil meninas entre 10 e 17 anos -em idade escolar, portanto- trabalhando
como empregadas domésticas. Em 1998, elas eram 490 mil.
A participação das mulheres mais novas, com até 24
anos, no trabalho doméstico varia de acordo com cada região.
No Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, a proporção varia
de 13% a 19% das diaristas. Nas regiões Nordeste e Norte, elas
representam 30% e 26% das diaristas, respectivamente.
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Folha
de S.Paulo, 1 de novembro de 2009
Imposto de conta de luz errada também
deve ser devolvido
Segundo especialistas, governos estaduais
e federal precisam ressarcir tributos cobrados a mais de consumidor
de energia
Representantes do Ministério da Fazenda,
da Receita e de agência reguladora evitam se pronunciar
sobre problema
AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL
Os governos estaduais e federal também terão de
devolver os impostos recolhidos sobre os valores pagos a mais
pelos consumidores de energia elétrica, segundo especialistas
ouvidos pela Folha. A cobrança indevida ocorreu devido
a um erro da fórmula de cálculo da tarifa de energia
elétrica.
Procurados, o Ministério da Fazenda e a Receita não quiseram
se pronunciar sobre a afirmação de especialistas. A Aneel
(Agência Nacional de Energia Elétrica) também não
quis falar do problema tributário.
Sobre a tarifa de energia elétrica, o governo federal recolhe
o PIS e a Cofins, e os governos estaduais, o ICMS (Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços). A alíquota da Cofins é de
7,6%, e a do PIS, de 1,65%. O ICMS tem alíquotas de 17% a 25%
a depender do Estado. Não se conhece ainda o valor exato cobrado
a mais.
A Folha revelou em reportagem no dia 18 que a falha na metodologia de
cálculo da tarifa de energia no país gera distorção
que transfere por ano R$ 1 bilhão dos consumidores para as distribuidoras.
A fórmula não considera os ganhos de mercado das distribuidoras.
Especialistas dizem que o erro vem do contrato de concessão, que
vigora desde a gestão FHC e não foi consertado no governo
Lula. A falha ocorre nos contratos com as empresas privatizadas e nas
estatais.
A estimativa é que essa conta possa ter superado os R$ 10 bilhões.
Na quinta-feira, em audiência da CPI das Tarifas de Energia Elétrica,
as distribuidoras recuaram e admitiram negociar a devolução
do valor pago a mais. As concessionárias aguardam agora apenas
o pronunciamento oficial da Aneel. O governo conhece o assunto há dois
anos e promete uma solução em breve.
Para o advogado Ives Gandra Martins, a exemplo das distribuidoras, o
governo está obrigado a devolver o valor dos impostos recolhidos
a mais dos consumidores. Em princípio, segundo ele, há chance
de o assunto não se converter num contencioso judicial. A devolução
deverá ser feita a partir da compensação dos valores
pagos de forma indevida nos reajustes futuros. É a sugestão
de instituições de defesa do consumidor. A forma de devolução
será negociada com o setor.
" Da forma como provavelmente vão proceder, já haverá uma
devolução implícita [de tributos do governo]. Como eles
vão devolver? Vão cobrar menos. Se cobrarem menos tarifa [compensando
o que já foi pago], o governo vai receber menos. Em recebendo menos, ele
também está devolvendo o que cobrou antes", diz Martins. Isso
só não funcionará se o governo exigir o valor cheio do imposto
aplicado sobre a tarifa, sem o desconto. "Se isso ocorrer, será uma
bela discussão no Poder Judiciário", diz.
Para o advogado Walter Carlos Cardoso Henrique, presidente da Comissão
Especial de Assuntos Tributários da OAB-SP, ainda é pouco
claro qual será o mecanismo de devolução.
Por enquanto, há apenas uma promessa das distribuidoras em aceitar
uma negociação para o ressarcimento e o ajuste da fórmula
errada. Além da certeza sobre a exigência da devolução,
Henrique afirma que há riscos de o assunto se tornar uma grande
discussão judicial entre as concessionárias e os vários
níveis de governo.
Silêncio
A exemplo do Ministério da Fazenda, a Abradee (Associação
Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) não se
pronunciou sobre o assunto. A diretoria da entidade passou anteontem
reunida.
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