Informativo Eletrônico n.º 1.482   -   Ano 06   -   Curitiba (PR), 15 de novembro de 2009.




InfoMoney, 15 de novembro de 2009

Salário mínimo cresce 72% no governo Lula e pode chegar a R$ 510
O salário mínimo do brasileiro pode chegar a R$ 510 no próximo ano, segundo informação que circulava na CMO (Comissão Mista de Orçamento) na quinta-feira (12), durante a aprovação do relatório preliminar do projeto de Lei Orçamentária para 2010. De acordo com o previsto na Lei Orçamentária Anual, a partir de 1º de janeiro de 2010 o salário mínimo sairá dos atuais R$ 465 para R$ 505,90.

Mas, conforme publicado pela Agência Senado, um montante de R$ 13,3 bilhões deve cobrir as chamadas emendas de relator e as despesas indicadas como prioritárias no próprio relatório preliminar, como a revisão do valor do salário mínimo e a complementação para os aposentados com benefício acima do mínimo.

O relator-geral do Orçamento, deputado federal Geraldo Magela (PT-DF), entretanto, só confirma a reserva de R$ 3,9 bilhões para a chamada Lei Kandir e a separação de R$ 1 bilhão para reforço de despesas na agricultura. "Não vou anunciar valor para o salário mínimo, porque isso depende de acerto com o governo", disse Magela, após a reunião.

Até o último reajuste, ocorrido em fevereiro deste ano, o salário mínimo evoluiu cerca de 72%, desde o início do governo Lula, beneficiando 25 milhões de trabalhadores formais e informais e 17,8 milhões de aposentados e pensionistas do INSS, que recebem o piso previdenciário.

Apesar disso, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo brasileiro não é suficiente para suprir as necessidades do trabalhador, visto que, no último mês de setembro, ele deveria ser de R$ 2.065,47 — valor 4,44 vezes superior ao piso atual.



Gazeta do Povo, 15 de novembro de 2009
Entrevista
Vínculo entre empresas e universidades é essencial
Entrevista com Cássio Rolim, professor de Economia da UFPR e coordenador do Projeto OCDE Paraná.

Transformar o Paraná em uma região de inovação por meio da integração das universidades com as empresas. Este é o principal objetivo do programa criado pela Organização para a Coo­peração e Desenvolvimento Eco­nômico (OCDE) e que está sendo implantado no estado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em conjunto com o Se­­brae-PR, o Sistema Fiep, o Con­selho Nacional de Desen­volvi­mento Científico e Tecnológico (CNPq), a Universidade Tecno­lógica Federal do Paraná (UTFPR) e o Movimento Pró-Paraná, entre outras entidades.

A OCDE é um fórum internacional, com sede em Paris, que reúne os governos de 30 países para debater e solucionar desafios econômicos, sociais e políticos relacionados à globalização. Atualmente, a organização apoia projetos de inovação em 15 regiões de 11 países. No Brasil, que não é membro da organização, além do Paraná também participa do programa a região metropolitana de Campinas, no estado de São Paulo.

Quem coordena o projeto no Paraná é o economista Cássio Frederico Camargo Rolim, professor da UFPR. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele fala como o projeto está sendo conduzido no estado e o que ele significa na prática.

Como surgiu a ideia de participar do programa da OCDE?

Na verdade, esta é a segunda rodada do programa. A primeira rodada aconteceu entre 2004 e 2007 e o Brasil foi o único país não-membro a participar. Na época, a região avaliada foi o norte do Paraná. Nós é que entramos em contato com a OCDE porque tínhamos o objetivo de fazer um trabalho semelhante ao que eles desenvolvem em outros países. Pedi ajuda a eles para avaliar o impacto de longo prazo das universidades estaduais paranaenses no desenvolvimento econômico local. Eu já havia conseguido avaliar o impacto a curto prazo, a pedido da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), mas não tinha condições de aprofundar o estudo. Assim, fomos convidados a participar da primeira rodada. Infelizmente, não conseguimos fazer a discussão que era necessária na época, mas fomos novamente convidados para participar do programa e, dessa vez, conseguimos reunir um bom número de instituições interessadas em viabilizar a expansão do projeto para todo o estado.

Quais são os principais objetivos do programa?

Há muito tempo que a OCDE tem estudado qual o impacto das instituições de ensino superior no desenvolvimento econômico, social e cultural de uma determinada região. Foram criadas muitas universidades na Europa em regiões distantes das metrópoles e foi percebido que essas universidades funcionavam como o grande motor de desenvolvimento daquelas regiões. Para a OCDE, além do ensino e da pesquisa, as universidades têm esse terceiro papel, de desenvolvimento, de aumentar a produtividade de suas regiões, uma função muito mais ampla do que o antigo conceito de extensão. O principal objetivo da organização é ajudar as instituições que não estão cumprindo esse papel para promover a inovação.

Como o programa está sendo implantado no Paraná?

O primeiro passo foi entrar em contato com todas as universidades e faculdades do estado e convidá-las a participar de um workshop para esclarecer o trabalho a todos os envolvidos. A cada uma das instituições foi pedido que respondesse um questionário de autoavaliação. Com base nessas informações, vamos elaborar um relatório que apresente as características do ensino superior no estado e de que forma as instituições hoje colaboram com o desenvolvimento da região. Em dezembro, uma equipe formada por quatro especialistas vem para analisar as primeiras atividades do grupo e orientar de que forma o projeto será colocado em prática. A ideia é criar um fórum permanente de discussão entre o setor produtivo e as universidades, através de reuniões e seminários.

O que é perguntado no questionário?

Cada universidade fez uma análise profunda de sua estrutura e de suas ações. Precisamos levantar, por exemplo, de que forma as suas pesquisas contribuem para a atividade econômica do estado, se os temas convergem com os interesses do setor produtivo, qual é o grau de dificuldade que os empresários enfrentam para ter acesso a essas pesquisas, que tipo de profissional estamos formando para o mercado de trabalho, a sua contribuição em termos de produção cultural e social, a sua responsabilidade em relação ao meio ambiente e por aí vai. Em uma cidade grande como Curitiba, a produção cultural universitária acaba se perdendo no meio de tudo o que acontece, mas, em uma cidade como Londrina, a universidade tem um papel fundamental.

Quais universidades aceitaram responder o questionário?

Estão participando a Univer­sidade Estadual de Ponta Grossa, a Unioeste e a Unicentro, a UFPR, a UTFPR e, entre as universidades privadas, a única a responder foi a Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Do Norte do estado, já tínhamos a avaliação das universidades estaduais de Londrina e de Maringá, que participaram da primeira rodada do programa. No fim, quem respondeu à avaliação foram as maiores universidades do estado e as que já têm maior participação em termos de pesquisa e extensão.

As universidades que não participaram do questionário se justificaram?

Apenas a Universidade Tuiuti justificou, dizendo que não conseguiria responder o questionário a tempo. Essa autoavaliação não é fácil de responder, conta com muitas perguntas difíceis, como por exemplo, para onde foram os alunos que se formaram na instituição há mais de cinco ou dez anos atrás. Ninguém tem isso, nem a UFPR. Porém, é importante saber se eles estão no mercado, se eles foram bem-sucedidos, se eles estão contribuindo para o desenvolvimento do estado de alguma forma.

Por que estabelecer o diálogo entre universidades e empresas é importante?

Promover a interação entre esses dois mundos não é uma coisa fácil, muito menos imediata, mas, a ideia é que esse vínculo comece a crescer. Porque, na perspectiva mundial, o que esses estudos têm nos mostrado é que as universidades que não fazem isso estão perdendo a sua razão de ser. A maioria das instituições está tendo de encontrar novas alternativas de financiamento. E, para conseguir financiamento da iniciativa privada, é preciso mostrar serviço. A lógica do setor produtivo é diferente da lógica acadêmica e é preciso respeitar as características de cada um desses mundos. O papel da universidade é formar indivíduos com uma visão crítica, com conhecimento universal para solucionar problemas. Os empresários precisam entender que o papel dela não é formar técnicos, adequados ao mercado de trabalho. Por outro lado, os acadêmicos precisam entender que o mundo real funciona de uma outra maneira, tem necessidade de respostas mais imediatas e diretas. Essa passagem de um mundo para o outro e vice-versa é que torna difícil que a universidade assuma esse papel de motor de desenvolvimento.

Quais serão os maiores obstáculos?

Existem centenas de problemas internos que precisam ser superados. Muita gente da universidade pensa diferente, acredita que a sua função não é responder às questões do mundo “externo” e que a sua responsabilidade se limita ao mundo teórico. Da mesma forma que existem muitos empresários com uma visão estereotipada e preconceituosa em relação à universidade. Pensam que a universidade não pode contribuir em nada para o desenvolvimento econômico de uma região, sem se dar conta de que os seus funcionários se formam nestas mesmas universidades.




Gazeta do Povo, 15 de novembro de 2009
Eleição de 1989: 20 anos depois
Com 22 candidatos e um forte caráter ideológico, o pleito que marcou a volta da votação direta para a Presidência do Brasil entusiasmou o país

Há 20 anos, os eleitores brasileiros foram às urnas escolher o primeiro presidente civil eleito por voto direto após a ditadura militar (1964-1985). Haviam se passado 29 anos desde a última eleição presidencial, realizada em 1960 – Jâ­­nio Quadros foi o vencedor. Daque­le pleito histórico até hoje muita coisa mudou. Tanto que é até difícil imaginar que possa voltar a acontecer uma nova disputa presidencial com 22 candidatos, de forte caráter ideológico e com alguns vídeos de campanha tão precários que chegam a ser engraçados.

A distância daquela eleição presidencial para a atual começa pela quantidade de partidos com candidatos na disputa. Dos partidos nanicos às grandes legendas, todos estavam dispostos a entrar na briga pela cadeira presidencial. A disputa foi vencida por Fernando Collor, que se filiou ao pequeno PRN apenas para se candidatar. Junto com outros quatro partidos pequenos, Collor alcançou dez minutos de tevê e surpreendeu os adversários durante a campanha.

“A tônica partidária mudou a partir de 1994, com uma polarização entre PSDB e PT na disputa presidencial. E essa polarização deve continuar. Hoje o que percebemos é que não teria mais espaço para uma situação como a de Collor, que criou um partido para se candidatar”, comenta a cientista política Denise Paiva, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Para Denise, nesses 20 anos, houve um fortalecimento do sistema partidário do Brasil, o que resulta em avanços para o sistema democrático. “Naquele período estava havendo um rearranjo do sistema multipartidário pelas elites políticas.”

Esse rearranjo e a necessidade dos partidos se autoafirmarem são dois pontos importantes para explicar o motivo de a eleição ter sido concorrida por 22 pessoas – sem contar com o apresentador Silvio Santos, que foi candidato por menos de 15 dias. Além disso, a eleição foi “solteira” – apenas o cargo de presidente estava na disputa. “Como era uma eleição só para presidente, todos os partidos lançaram seus candidatos”, comenta Roberto Freire, que concorreu em 1989 pelo Partido Comunista Brasileiro.

A partir de 1994, toda eleição presidencial foi realizada simultaneamente com a de deputado federal, senador, governador e deputado estadual. Dos que entraram na disputa de 1989, apenas Luiz Inácio Lula da Silva e Enéas Carneiro voltaram a concorrer à Presidência nas eleições seguintes. Em 1998, Brizola foi para a disputa, mas como vice na chapa de Lula.

Ideologias

Uma eleição tão ideologizada como a de 1989 também dificilmente se repetirá no Brasil. “O mundo mudou muito nesses 20 anos. Havia ainda um contexto internacional em que a ideologia ainda importava para o cidadão comum”, comenta a cientista política Luciana Veiga, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Houve uma mudança de mundo e no Brasil, os partidos mais de centro conseguiram uma eficiência maior”, diz. Luciana explica que hoje o cenário político do país se divide entre um grupo de centro-esquerda – ligado a PT e PMDB – e um de centro-direita – ligado ao PSDB e ao DEM.

Essa mudança no mundo e o enfraquecimento das ideologias ajudam a entender as diferenças no discurso de Lula entre a época em que ele era candidato e o momento atual, em que já acumula quase sete anos no comando do país. Em 1989, Lula falava em suspender o pagamento da dívida externa e era considerado um candidato raivoso. Hoje ele mantém a política financeira numa linha semelhante ao do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso e se tornou um exemplo de carisma.

Para o jornalista Mário Milani, militante histórico do PT, Lula foi aperfeiçoando o seu discurso e se reciclando. “Começou a se entender que ele precisava afinar mais o discurso. Porque tinha votos na classe média, mas não entre os mais pobres, que era quem ele defendia.”

Marketing

O discurso mais “afinado” de Lula veio amparado por uma equipe de marketing de primeira linha em 2002 – ano da eleição do petista à Presidência pela primeira vez. Em 1989, Collor usou o marketing político como nenhum outro candidato da disputa da época.

“A campanha dele já nasceu com um indicativo de profissionalismo muito grande. Contou com pesquisas de opinião pública, programas de rádio e tevê com recursos sofisticados. A partir da experiência de Collor é que nós chegamos a resultados da profissionalização de hoje”, comenta Adolpho Queiroz , professor de Marketing Político da Universidade Metodista de São Paulo.

Ele conta que aquela foi uma eleição que marcou uma fase da euforia do marketing político. “Havia a possibilidade da utilização plena de todos os recursos. Era permitido distribuir brindes, santinhos, fazer showmícios... Foi uma campanha certamente muito cara em função disso.”

A liberalidade nos debates de 1989 é destacado pelo professor do Departamento de Direito Público da UFPR, Fabrício Tomio. “Há um total engessamento dos debates. Se você tem um número muito grande de candidatos, alguns deles pouco criveis, de fato se restringe o debate”, avalia. Em junho daquele ano, o Congresso votou uma lei que obrigava a participação de todos os candidatos nos debates. Mas o Tribunal Superior Eleitoral entendeu, na época, que as emissoras poderiam realizar o debate apenas com aqueles que lideravam as pesquisas. Assim, alguns não eram convidados, outros se negavam, a participar. Collor, por exemplo, só foi aos debates do segundo turno contra Lula.



Folha de S.Paulo, 15 de novembro de 2009
A sucessão presidencial e o futuro do Brasil
ROBERTO MANGABEIRA UNGER

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Nenhum desses 5 conjuntos de iniciativas se acomoda dentro do que predomina hoje no pensamento dos principais pré-candidatos
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O FUTURO , não o passado, é o tema de uma grande eleição, como será a de 2010. O assunto central há de ser como superar a contradição central do Brasil: uma vitalidade imensa ainda coexiste, para a maioria dos brasileiros, com a falta de instrumentos e de capacitações.

Hoje essa vitalidade está encarnada, sobretudo, em classe média surpreendente, que inaugura cultura de autoajuda e de iniciativa. Já está no comando do imaginário popular. A revolução brasileira de agora é consumar as inovações institucionais que permitam à maioria seguir o caminho dessa vanguarda de batalhadores e de emergentes.

O governo Lula promoveu grandes avanços. São eles a base indispensável para o que deve vir em seguida. Consolidou a estabilidade econômica, barrando o regresso à hiperinflação. Livrou milhões da pobreza extrema. Abriu, para outros milhões, as portas da universidade e da escola técnica. Iniciou obras indispensáveis ao desenvolvimento do país.

Tudo isso somado, entretanto, não resolve a contradição entre o dinamismo do povo brasileiro e a negação à maioria dos instrumentos para criar e empreender. O próximo passo é a construção de modelo de desenvolvimento baseado na democratização de oportunidades econômicas e educativas. O povo brasileiro não quer caridade, quer oportunidade. Quer ver os interesses do trabalho e da produção ganharem primazia sobre os interesses do rentismo financeiro.

Cinco conjuntos de iniciativas traduzem essa aspiração libertadora em transformação prática. Nenhum deles se acomoda dentro do que hoje predomina no pensamento e no discurso dos principais pré-candidatos à Presidência: o desenvolvimentismo da década de 70.

O primeiro projeto é democratizar a economia de mercado. Não basta regular o mercado. Não basta contrabalançar suas desigualdades com programas sociais. É preciso reconstruí-lo em seu conteúdo institucional para torná-lo mais includente.

Parte dessa obra é a consolidação de uma política industrial que facilite para as pequenas e médias empresas -o setor mais importante de nossa economia- o acesso ao crédito, à tecnologia, ao conhecimento, aos mercados globais e às práticas de inovação permanente.

Parte é a superação do contraste entre agricultura empresarial e agricultura familiar. Esta tem de ganhar as características daquela.

E parte é a definição de regras que protejam, organizem e representem os trabalhadores precarizados que hoje formam a maioria do povo brasileiro: precarizados ou porque continuam na economia informal ou porque, na economia formal, atuam em trabalho temporário, terceirizado, doméstico ou autônomo.

O segundo projeto é dotar nossa afirmação nacional de escudo econômico. Cortar a falsa ortodoxia econômica ao meio. Reafirmar a parte sadia: realismo fiscal e responsabilidade fiscal. Mas repudiar a parte nociva: a aceitação de baixo nível de poupança nacional, privada e pública, e o apelo à poupança estrangeira como base de nosso desenvolvimento. Mobilizar a poupança de longo prazo para o investimento produtivo de longo prazo e não permitir que seu potencial se desperdice em cassino financeiro.

O terceiro projeto é capacitar o povo brasileiro por meio do ensino público. Uma prioridade é construir as regras e os meios para reconciliar a gestão local das escolas pelos Estados e municípios com padrões nacionais de investimento e de qualidade. A qualidade da educação que uma criança recebe não deve depender do acaso do lugar onde ela nasce.

Outra prioridade é substituir, na maneira de ensinar e de aprender, decoreba -o enciclopedismo informativo superficial- por ensino analítico e capacitador, com foco no básico, análise verbal e numérica.

O quarto projeto é construir Estado capaz de fazer tudo isso. A agenda do profissional administrativo. A agenda da eficiência na gestão pública. A agenda do experimentalismo na maneira de prestação e na qualificação dos serviços públicos, inclusive de educação e saúde, por meio do engajamento da sociedade civil na provisão competitiva e experimental deles.

O quinto projeto é tirar a política da sombra corruptora do dinheiro. Instituir o financiamento público das campanhas eleitorais para diminuir a influência do dinheiro privado. Substituir a maior parte dos cargos comissionados por carreiras de Estado. E rever o processo orçamentário para que não sirva à negociação obscura entre os interesses poderosos.

Nada disso é utópico. Tudo serve ao mesmo objetivo: dar braços, asas e olhos à energia humana que fervilha, frustrada e dispersa, no Brasil.

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ROBERTO MANGABEIRA UNGER é professor titular da Universidade Harvard (EUA), ex-ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos (2007-2009) e ex-colunista da Folha.




Folha de S.Paulo, 15 de novembro de 2009
Programa habitacional de Lula terá "cara" tucana em SP
Serra fechou acordo para doar terrenos e, em troca, imóveis terão formato da CDHU

Minha Casa, Minha Vida será a grande bandeira da ministra Dilma Rousseff, do PT; São Paulo tem o maior deficit habitacional do país

FERNANDO BARROS DE MELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma das principais bandeiras da pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) ao Planalto em 2010, o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MCMV) poderá ter em São Paulo a "cara" das casas feitas pela gestão estadual, comandada pelo governador José Serra (PSDB), provável adversário da petista na sucessão presidencial.

O acordo fechado entre a CEF (Caixa Econômica Federal), gestora do MCMV, e o governo de São Paulo é para construir 13.236 unidades para famílias com rendimentos de até três salários mínimos -um dos alvos do projeto. As casas ficarão nas cidades com mais de 50 mil habitantes, prioritariamente nas regiões metropolitanas.

Até o fim do mês, São Paulo promete depositar R$ 25 milhões para a CEF e mais R$ 25 milhões até o fim do ano, uma espécie de doação para que melhorias sejam feitas nas casas a serem construídas no Estado. Dessa forma, a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado) pretende deixar os imóveis com a sua formatação, o que pode render lucros políticos.

Além da contribuição financeira, São Paulo vai doar até 53 terrenos para a construção de casas do programa federal, sendo que 43 já foram desapropriados. "Temos 13 obras já licitadas em alguns desses terrenos", afirma a assessoria de imprensa da companhia.

Entre as mudanças listadas pela CDHU, estão a construção de um terceiro dormitório em parte das casas (o projeto do MCMV para famílias com até três salários prevê dois); tamanho maior das casas e do pé-direito; abrigo para botijão de gás; medição individualizada de água; paisagismo; piso cerâmico em todos os cômodos, azulejos na cozinha e no banheiro; laje ou forro de PVC; e aquecedores solares (algo contemplado em algumas casas do projeto federal). O custo das 13 mil casas será de R$ 800 milhões.

No MCMV, o valor máximo estipulado para casas destinadas a famílias com renda de até três salários é de R$ 52 mil. Com as mudanças, estima-se uma elevação de até 10%.

Modelo tucano

" Eles querem se contrapor ao maior projeto de habitação popular, que é o Minha Casa, Minha Vida", afirma o deputado estadual Enio Tatto (PT), líder da Minoria na Assembleia Legislativa. "Fizeram inclusive um modelo para mostrar a casa deles. Querem dizer que têm casas melhores, pois sabem que o Minha Casa, Minha Vida vai pegar", complementa.

O deputado petista se refere a um contrato de R$ 119 mil para a construção de uma casa modelo no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. O modelo serviria para mostrar a prefeitos novidades das casas -como acesso para deficientes físicos-, mas a CDHU informa que ele não será mais construído.

O Sinduscon-SP (sindicato da construção civil) calcula que, pelo critério do deficit habitacional de cada Estado, São Paulo ficaria com 18,4% do 1 milhão de casas prometidas pelo MCMV, ou 184 mil unidades.

Segundo o sindicato, a cidade de São Paulo teria de receber cerca de 92 mil unidades habitacionais. Presidente do Sinduscon, Sergio Watanabe diz que o setor privado tem dificuldades em São Paulo para oferecer habitações à faixa de até três salários mínimos, sobretudo pelo custo dos terrenos.

" O terreno é a parte mais complicada. Daí a importância da participação do município ou do Estado para viabilizar residências à população de mais baixa renda", diz Watanabe. " A CDHU preservou a tipologia dela e também a marca. A parceria é uma forma de atender a política da CDHU e também do Minha Casa. É bom para a população", conclui o presidente do Sinduscon.

Questionado pela Folha, o secretário da Habitação de São Paulo, Lair Krähenbühl, disse que a intenção é "dar contribuições para aperfeiçoar o programa" e que algumas dessas sugestões já foram acatadas pelo governo federal. "A preocupação que temos é com o tipo da casa, para evitar problemas futuros. Estudos mostram que as famílias acabam gastando muito quando algumas atitudes não são tomadas na construção", afirmou Krähenbühl.



Folha de S.Paulo, 15 de novembro de 2009
Brasil teme que G2 obstrua ordem internacional multipolar

CLAUDIA ANTUNES
DA SUCURSAL DO RIO

A ascensão chinesa abriu caminho para uma ordem internacional multipolar que favorece o Brasil, o que ficou patente na substituição do G8 pelo G20. Mas a questão agora é se China e EUA vão se mover na direção de um G2, recuando para a bipolaridade.

A dúvida foi exposta por Roberto Jaguaribe, subsecretário-geral do Itamaraty para Assuntos Políticos. "To G or not to G?", parafraseou o diplomata, em seminário sobre "respostas estratégicas à globalização", na semana passada, na UFRJ. Para ele, os americanos tenderiam a "achar mais natural um arranjo bipolar", e a China, embora diga que não quer o G2, é guiada "por um pragmatismo que fatalmente levará a algum tipo de relação privilegiada com os EUA".

A avaliação ecoa declarações recentes de outras autoridades -na última reunião do G20, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticou a China, maior credora dos EUA, por manter sua moeda colada ao dólar e desvalorizada, enquanto o real sofre valorização considerada artificial.

Segundo Jaguaribe, o Brasil ambiciona não apenas sentar à mesa dos donos do poder, mas alcançar uma arquitetura global "com mais harmonia", a partir da multipolaridade. Apesar da dúvida sobre o G2, o diplomata foi otimista sobre o cenário atual, em que "borraram-se" as fronteiras entre centro e periferia. "A China não é mais periférica, mas ainda é um país em desenvolvimento. O Brasil também."

Lembrou que, há 20 anos, 70% do comércio brasileiro era com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), suposto clube dos países mais industrializados, proporção que caiu a 40%. "Não foi uma estratégia deliberada dos exportadores. Eles atenderam à mudança na demanda."

Disse que o momento "requer audácia diplomática", mas que a "atitude propositiva encontra questionamento elevado" no Brasil. "Cobram uma diplomacia de consenso. Mas ela nunca foi de consenso, o que ocorria é que antes os debates eram fechados."

Para Jaguaribe, a China manterá o posto de maior parceira comercial brasileira -alcançado neste ano, devido aos reflexos da crise financeira no comércio com os demais países-, em razão da "complementaridade das duas economias". Lembrou, no entanto, que o país já vende mais na América Latina do que o Brasil.

O diplomata avaliou que os EUA "sempre serão importantes", ressaltando que o Brasil mantém "diálogo estratégico" com Washington e Pequim -isto é, trata não só de temas bilaterais, mas também globais. A integração sul-americana é um desafio, acrescentou, "mas o deslocamento da região não é possível nem necessário".

No seminário, o economista britânico Jan Kregel destacou a importância do desenvolvimento do mercado interno brasileiro não só do lado da capacidade de compra da nova classe C, mas também da oferta de produtos industriais. Para o neokeynesiano do Bard College (EUA), não é boa política de longo prazo fiar-se na exportação de minerais e petróleo para a China.

" A China tem essas commodities, apenas ainda não decidiu explorá-las. Hoje é mais fácil transportar de barco do Brasil ou da África do que comprometer recursos na infraestrutura para tirar a matéria-prima das Províncias do noroeste."

Já o economista Antonio Barros de Castro, assessor da Presidência do BNDES, citou o papel da China em "empurrar o Brasil em direção à África".