Revista Der Spiegel, 26
de novembro de 2009
"Pai dos Pobres" provocou
milagre econômico no Brasil
Por Jens Glüsing,
O Brasil é visto como uma história de sucesso econômico
e sua população reverencia o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva como um astro. Ele está na missão de transformar
o país em uma das cinco maiores economias do mundo por meio de
reformas, projetos gigantes de infraestrutura e explorando vastas reservas
de petróleo. Mas ele enfrenta obstáculos.
Elizete Piauí aguarda
pacientemente por horas à sombra de uma mangueira. Ela calça
sandálias de plástico e veste um short largo sobre suas
pernas finas. A 40ºC, o ar tremula neste dia incomumente quente
na Barra, uma pequena cidade no sertão, o coração
do Nordeste brasileiro. Mas Elizete não se queixa, porque hoje
é seu grande dia, o dia em que se encontrará com o presidente,
que está trabalhando para fornecer água encanada para
sua casa.
O barulho de um helicóptero
sinaliza sua chegada. A aeronave branca sobrevoa a multidão antes
de pousar. Uma escolta de batedores acompanha o presidente até
a cerimônia.
Lula sai da limusine vestindo
uma camisa branca de linho e um chapéu militar verde. Ignorando
os dignitários locais em seus ternos pretos, Lula segue direto
para a multidão atrás de uma barreira de segurança.
"Lula, Papai!", chama Elizete. Ele a puxa até seu peito
e aperta a mão de outros na multidão, permitindo que as
pessoas o toquem, façam carinho e o abracem. Gotas de suor correm
pelo seu rosto corado enquanto pessoas o puxam pela camisa, mas Lula
se deixa embeber na atenção. Ele se sente em casa aqui,
em uma das regiões mais pobres do Brasil.
O presidente passa três
dias viajando pelo sertão. Ele conhece a rota. Ele veio à
região pela primeira vez há 15 anos, em campanha, viajando
de ônibus e ficando hospedado em locais baratos. Ele fazia paradas
em todas as praças, sete ou oito vezes por dia, geralmente realizando
seus discursos na traseira de um caminhão. Sua voz geralmente
ficava rouca e fraca à noite e ele tinha que trocar sua camisa
suada até 10 vezes por dia.
'Ele ainda é um de nós'
Agora ele viaja de helicóptero
e carros blindados, com os carros da polícia, com suas luzes
piscando, abrindo o caminho ao longo das estradas. Voluntários
montam aparelhos de ar condicionado e bufês nos aposentos de Lula,
às vezes até mesmo estendem um tapete vermelho. A imprensa
critica as despesas, mas isso não incomoda a maioria dos brasileiros,
porque eles têm orgulho de seu presidente. Ele chegou ao topo,
eles argumentam, então por que não desfrutar de seu sucesso?
"Ele ainda é um de nós", diz Elizete, "porque
ele é o pai dos pobres".
Lula está familiarizado
com o destino dos nordestinos pobres do Brasil. Ele nasceu no sertão,
mas sua mãe colocou seus filhos na traseira de um caminhão
e os levou para São Paulo, 2 mil quilômetros ao sul. A
posterior ascensão de Lula ao poder começou nos subúrbios
industriais de São Paulo. Sua mãe foi uma das centenas
de milhares de pessoas carentes que deixaram o sertão atormentado
pela seca, com seus campos ressecados e animais morrendo de sede, e
migraram para o sul mais rico, para trabalhar como porteiros, garçons,
operários de construção ou empregados domésticos.
Em um plano para tornar verde
esta região árida, Lula está explorando as águas
dos 2.700 quilômetros do Rio São Francisco, um rio vital
para grandes partes do Brasil. O rio fornece água para cinco
Estados, mas ele faz contorna o Sertão. Segundo o plano de Lula,
dois canais desviarão água do rio por 600 quilômetros
até as áreas atingidas pela seca. "É o mínimo
que posso fazer por vocês", Lula diz às pessoas na
Barra.
Projeto controverso
O megaprojeto, que exige a superação
de uma diferença de altitude de 200 metros, tem um custo estimado
de R$ 6,6 bilhões. Lula posicionou soldados na região
para escavar os canais. Oito mil trabalhadores labutam nos canteiros
de obras enquanto tratores e escavadeiras movem a terra pela estepe.
Se tudo correr bem, 12 milhões de brasileiros se beneficiarão
com o projeto de transposição de águas, que deverá
ser concluído em 2025. É o maior e mais caro projeto de
Lula, assim como provavelmente seu mais controverso.
Aqueles que o apoiam comparam
Lula ao presidente americano Franklin D. Roosevelt, que represou o Rio
Tennessee nos anos 30, para fornecer eletricidade à região,
e que lançou o New Deal, um imenso programa de investimento para
superar a Grande Depressão. Mas os críticos veem a obra
como um imenso desperdício de dinheiro. O projeto também
atraiu a ira dos ambientalistas e até mesmo o bispo da Barra
já fez duas greves de fome contra ele. Ele teme que o projeto
de transposição das águas secará ainda mais
o rio, alegando que a irrigação beneficiaria principalmente
o setor agrícola.
O bispo não está
presente. Dizem que ele está participando de reuniões
fora da cidade. Na verdade, o religioso está mantendo discrição.
As críticas ao presidente são desaprovadas por sua congregação.
Lula fala a linguagem das pessoas comuns, contando histórias
de sua juventude aos seus simpatizantes, histórias dos tempos
em que sua mãe o enviava para buscar água e ele voltava
para casa equilibrando um balde pesado sobre sua cabeça. Ele
tinha cinco anos na época.
O Brasil já foi chamado
de "Belíndia", um termo cunhado por um empresário
que via o vasto país como uma mistura entre a Bélgica
e a Índia, um lugar com riqueza europeia e pobreza asiática,
onde o abismo entre ricos e pobres parecia intransponível. Lula
foi o primeiro a construir uma ponte entre os dois Brasis.
Agora ele é tanto o queridinho
dos banqueiros quanto ídolo dos pobres. Com o chamado presidente
operário no comando, o Brasil está atraindo investidores
de todas as partes do mundo. Jim O'Neill, o economista chefe do Goldman
Sachs, inventou a sigla Bric para as economias emergentes do Brasil,
Rússia, Índia e China, prevendo um futuro brilhante para
o gigante sul-americano. Mas seus colegas zombaram dele. A China e a
Índia certamente tinham perspectivas, mas o Brasil? Por décadas
o país era visto como um gigante acorrentado, atormentado por
crises infindáveis e inflação.
Potência econômica ascendente
Mas hoje o "B" é
a estrela entre os países Bric, com os especialistas prevendo
um crescimento de até 5% para a economia brasileira em 2010.
O Brasil está atualmente crescendo mais rápido do que
a Rússia e, diferente da Índia, não sofre de conflitos
étnicos ou disputas de fronteira. O país de 192 milhões
de habitantes possui um mercado doméstico estável, com
as exportações - carros e aeronaves, soja e minério
de ferro, petróleo e celulose, açúcar, café
e carne bovina - correspondendo a apenas 13% do produto interno bruto.
E como a China substituiu os
Estados Unidos como maior parceira comercial do Brasil no início
deste ano, o país não foi severamente afetado pela recessão
no mercado americano como poderia ter sido. Os bancos do Brasil são
fortes, estáveis e não encontraram grandes dificuldades
durante a crise. Mais importante, entretanto, é o fato do Brasil
ser uma democracia estável, ao estilo ocidental.
O país pagou sua dívida
externa e até mesmo passou a emprestar ao Fundo Monetário
Internacional (FMI). O governo acumulou mais de US$ 200 bilhões
em reservas e o real é considerado uma das moedas mais fortes
do mundo. Especialistas internacionais preveem uma década de
prosperidade e crescimento para o país. Lula prevê que
o Brasil será uma das cinco maiores economias do planeta em 2016,
o ano em que o Rio de Janeiro será sede dos Jogos Olímpicos.
O país será sede da Copa do Mundo de 2014.
E ainda há os recursos
naturais aparentemente ilimitados do Brasil, vastas reservas de água
doce e petróleo. O Brasil exporta mais carne do que os Estados
Unidos. E a China estaria em dificuldades sem a soja brasileira. Nos
hangares da fabricante de aviões, a Embraer, perto de São
Paulo, engenheiros brasileiros constroem aviões para companhias
aéreas de todo o mundo, incluindo aviões para trajetos
menores para a Lufthansa.
Um patriarca extremamente popular
Em outras palavras, o presidente
Lula tem bons motivos para estar repleto de autoconfiança. O
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente da França,
Nicolas Sarkozy, o estão cortejando, enquanto Wall Street praticamente
o venera. Ele é até mesmo tema de um novo filme, "Lula,
o Filho do Brasil", que descreve a saga de sua ascensão
de engraxate a presidente.
Todo o Brasil desfruta da fama
de seu presidente que, há menos de sete anos no poder, atualmente
conta com um índice de aprovação acima de 80%.
A oposição praticamente desapareceu e o Congresso se tornou
submisso. Lula dirige o país como um patriarca, tanto que seu
antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o está acusando de "autoritarismo"
e alertando que o Brasil está no caminho de um capitalismo estatal.
Há um quê de verdade
nas alegações de Fernando Henrique. Lula nunca teve confiança
na capacidade do mercado de curar a si mesmo e considera que o Estado
deve moldar uma nova ordem social. Ele adora projetos impressionantes
e gestos nacionalistas. Ele é pragmático, mas despreza
especuladores. "Brancos com olhos azuis" levaram o mundo à
beira da ruína financeira, ele disse recentemente. Ele falava
dos banqueiros.
A crise financeira apenas confirmou
o ceticismo de Lula em relação ao capitalismo. Lula acredita
que o Brasil lidou melhor com a crise do que outros países porque
o governo adotou medidas corretivas desde cedo. Segundo Lula, o combate
à pobreza e a distribuição justa de renda não
podem ficar aos cuidados do mercado.
Classe média crescente
Sob sua liderança, milhões
de brasileiros ingressaram na classe média. A evidência
dessa transformação social está por toda a parte:
nos shopping centers do Rio e São Paulo, lotados de famílias
barulhentas da periferia, ou nos aeroportos, onde mães jovens
ficam na fila do balcão de check-in, aguardando para embarcar
em um avião pela primeira vez em suas vidas. "A desigualdade
entre ricos e pobres está começando a diminuir",
diz o economista e especialista em estudos sobre a pobreza, Ricardo
Paes de Barros.
A chave para aquela que provavelmente
é a maior redistribuição de riqueza na história
brasileira é o programa social Bolsa Família, sob o qual
uma mãe carente que possa comprovar que seus filhos estão
frequentando a escola recebe até R$ 200 por mês do governo.
A primeira vista pode não parecer muito, mas este subsídio
do governo ajuda milhões de pessoas a sobreviverem no Nordeste
brasileiro.
Especialistas inicialmente criticaram
o programa como sendo apenas uma esmola, mas agora ele é visto
como um modelo mundial. Mais de 12 milhões de lares recebem os
subsídios, com grande parte do dinheiro indo para o Nordeste.
Graças ao programa Bolsa Família, a região antes
atingida pela pobreza começou a prosperar. Muitos nordestinos
abriram pequenas empresas ou lojas e a indústria descobriu o
Nordeste como mercado. "Agora a região está crescendo
por conta própria", diz Paes de Barros.
Lula foi abençoado pela
sorte. Seu antecessor, Fernando Henrique, já tinha estabilizado
a economia, que sofria com a hiperinflação, quando foi
ministro da Fazenda em 1994. Ele impôs uma reforma da moeda ao
país e implantou leis que forçaram o governo a adotar
políticas com responsabilidade fiscal. Lula não mudou
nada disso.
Não havia necessidade
de Lula reinventar a política econômica e social do Brasil.
O país tem uma tradição de controle total da economia
pelo governo que remonta aos anos 30.
O plano Marshall próprio do
Brasil
Os centros nervosos da política
econômica do país ficam abrigados em dois imponentes arranha-céus
no centro do Rio. O Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), que conta
com seus escritórios em uma torre de aço e vidro, foi
criado com a ajuda americana e usando o KFW Banking Group da Alemanha
como modelo. Ele financiou uma versão brasileira do Plano Marshall.
Nos anos 90, o BNDES administrou
com sucesso a privatização de muitas estatais brasileiras.
Hoje, ele fornece assistência a fusões e aquisições
corporativas, ajuda empresas em dificuldades e financia os investimentos
estratégicos do governo.
O BNDES é altamente respeitado.
Acredita-se que seja em grande parte livre de corrupção
e ele paga os mais altos salários do país. "Há
um ano, os bancos estrangeiros batiam à minha porta perguntando
se o Brasil estava preparado para a crise financeira", diz Ernani
Teixeira, um dos diretores financeiros do banco. Teixeira conseguiu
tranquilizá-los, notando que o BNDES tinha separado R$ 100 bilhões
em reservas adicionais. No ano passado, o banco emitiu mais empréstimos
e garantias de empréstimos do que o Banco Mundial - e até
apresentou um lucro respeitável.
O segundo pilar do milagre econômico
brasileiro fica diagonalmente no outro lado da rua: um bloco de concreto,
iluminado à noite com as cores nacionais, verde e amarelo, é
a sede do grupo de energia semiestatal Petrobras. A empresa planeja
investir US$ 174 bilhões nos próximos quatro anos em plataformas
de perfuração, navios e outros equipamentos para explorar
as grandes reservas de petróleo além da costa do Brasil.
Há um ano e meio, a Petrobras
descobriu novas reservas de petróleo sob o leito do oceano. Mas
o petróleo será difícil de extrair, por estar situado
abaixo de uma camada de sal em profundidades de pelo menos 6 mil metros.
A expectativa é de que os poços comecem a produzir daqui
pelo menos seis anos. A receita desse petróleo será depositada
em um fundo que o governo usará principalmente para financiar
novas escolas e universidades.
Lula apresentou recentemente
uma legislação que regulamentaria a exploração
das reservas de petróleo submarinas, fortalecendo assim o monopólio
da Petrobras. Especialistas temem que Lula esteja criando um monstro
corporativo poderoso e corruptível.
Obstáculos burocráticos
O imenso apagão que ocorreu
simultaneamente em grandes partes do país, há duas semanas,
teria sido um sinal de alerta de que o governo está indo além
de sua capacidade? A modernização da infraestrutura decrépita
do Brasil está avançando, mas lentamente. Bilhões
de dólares em investimentos em portos, construção
de estradas e no setor de energia existem apenas no papel, com a implantação
atrapalhada por uma burocracia kafkaniana e um Judiciário moroso.
Além disso, o país também não teve muito
sucesso no combate à criminalidade.
Lula tem mais um ano no poder,
após ter resistido à tentação de manipular
a Constituição para garantir sua reeleição
para um terceiro mandato. Ávido em preservar seu legado, ele
tem buscado a indicação de sua ministra da Casa Civil,
Dilma Rousseff, como sua sucessora, apesar da resistência dentro
do próprio Partido dos Trabalhadores.
Rousseff, que foi integrante
dos grupos guerrilheiros de esquerda após o golpe militar de
1964 e que posteriormente passou anos presa, tem uma reputação
de tecnocrata competente, mas é vista como inacessível
e autoritária. Ela está acompanhando o presidente em suas
viagens pelo país, inaugurando novas estradas e usinas elétricas.
Lula a apoia de modo tão determinado que até parece estar
fazendo campanha para si mesmo.
Ela também está
com ele em seu giro pelo Nordeste, apesar dos médicos terem removido
um tumor de sua axila há poucos meses. Acredita-se que ela esteja
curada e ela atualmente usa uma peruca após a quimioterapia.
Seu rosto é pálido e seu sorriso parece congelado. O presidente
a puxa para o seu lado quando ele caminha até o microfone, e
ele menciona o nome dela repetidas vezes.
Elizete Piauí, ainda
completamente embriagada pelo seu encontro com Lula, a viu pela televisão.
Ela sabe que Dilma é a candidata de Lula e ela fará campanha
pela ministra, apesar de que preferiria que Lula permanecesse no poder.
"Eu votarei em qualquer pessoa que ele indicar", ela diz.
Lula também prometeu
retornar. Antes do fim de sua presidência, ele planeja fazer outra
viagem ao Nordeste para ver o quanto progrediram as obras no Rio São
Francisco. Talvez, espera Elizete, ele terá atendido seu maior
desejo até lá e ela poderá servir a ele um copo
de água - de sua própria torneira, em sua própria
casa.