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Agência Brasil, 2 de janeiro de 2010
Novos valores do mínimo
e do seguro-desemprego já estão em vigor
Já estão em vigor, desde zero hora desta sexta-feira (1º/1),
os reajustes do salário mínimo, que passou de R$ 465 para
R$ 510, e do seguro-desemprego, que agora está entre R$ 841,89
e R$ 954,21, de acordo com informação do Ministério
do Trabalho e Emprego.
O valor do salário mínimo teve aumento de 9,67%, por meio
de medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva na última quarta-feira (23), às vésperas
do Natal. O Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat)
imediatamente reajustou o seguro-desemprego em igual percentual, para
entrar em vigor no mesmo dia.
O governo federal não divulgou estimativa sobre o
impacto que os R$ 45 adicionais no salário mínimo
podem causar na economia. O ministro do Trabalho, Carlos
Lupi, destacou que essa diferença significa muito
para o trabalhador, aposentados e pensionistas que dependem
desse dinheiro.
O Codefat estima que o reajuste do seguro-desemprego deve
injetar mais de R$ 1,5 bilhão na economia, considerando-se
a previsão de que em torno de 6,2 milhões de
brasileiros devem receber o benefício em 2010. Além
disso, o conselho prevê o pagamento de mais R$ 727,6
milhões em abonos salariais do Programa de Integração
Social (PIS), entre julho deste ano e junho de 2011.
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Congresso em Foco, 2 de
janeiro de 2010
TCU evita desperdícios
públicos
Desvios Subterrâneos
Examinada de perto, a construção do túnel
que abrigará o futuro metrô de Fortaleza suscita
dúvidas que o governo do Ceará gostaria que
ficassem eternamente ocultas debaixo da terra. A principal
delas diz respeito à incrível elevação
que o preço da obra sofreu ao longo dos anos. O
projeto começou a ser tocado em 1999. A previsão
inicial era que ficasse pronto em 2002, ao custo de 357
milhões de reais. Em 2007, quando o governo federal
encampou a obra, seu valor foi recalculado para 681 milhões
de reais. Ainda não há trilhos assentados,
e o Ceará diz que precisará de 1,4 bilhão
de reais para colocar os trens para rodar. O que justifica
que uma obra pública custe o quádruplo de
seu valor original? No caso do metrô de Fortaleza,
dois fatores explicam por que o projeto se tornou bilionário:
o governo estadual autorizou que fosse feita uma série
de alterações na obra em relação
ao projeto original. As mudanças, não licitadas,
ficaram caríssimas. Além disso, boa parte
dos serviços realizados pelas empreiteiras Queiroz
Galvão e Camargo Corrêa foi paga com valores
muito superiores aos da média praticada pelo mercado.
Esse incrível aumento de custo só veio à luz
graças ao trabalho do Tribunal de Contas da União
(TCU). Depois de analisarem cada etapa do projeto cearense,
os auditores chegaram à conclusão de que,
numa perspectiva conservadora, ao menos 133 milhões
de reais do meu, do seu, do nosso suado dinheirinho foram
enterrados por lá sem nenhuma justificativa. Os
indícios de irregularidades são tão
fortes que o tribunal chegou a solicitar a paralisação
da obra até que as empreiteiras se explicassem.
Como não houve respostas convincentes, o TCU abriu
uma batalha contra o governo do Ceará para que os
valores sejam ressarcidos aos cofres federais.
Evitar que o dinheiro público escorra pelo ralo é a
razão da existência do TCU, órgão
consultivo ligado ao Congresso. O tribunal é o maior
responsável por fiscalizar a aplicação
dos recursos federais e informar aos parlamentares – e
ao país – se as verbas estão sendo
bem aplicadas. Essa missão é basilar para
a democracia, pois para um leigo (o contribuinte que paga
impostos) é impossível aferir se as contas
apresentadas por um político ou órgão
governamental fazem ou não sentido. A barafunda
de contratos, planilhas e termos aditivos que compõem
cada obra forma um emaranhado de números incompreensível
para quem não é do ramo. Para realizar seu
trabalho, o TCU conta com 2?500 técnicos, especializados
em descobrir tudo o que as autoridades juram que não
existe no Brasil: desvio de verbas, fraudes em licitações,
superfaturamento, pagamento por serviços que nunca
foram realizados... As auditorias ainda passam pelo crivo
de nove ministros: três indicados pelo Senado, três
pela Câmara e três pelo Palácio do Planalto.
Desse último grupo, um deve pertencer ao Ministério
Público e outro, ao corpo técnico do próprio
tribunal.
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Gazeta do Povo, 2 de janeiro
de 2010
Perspectiva
Quem terá um feliz ano
novo
Analistas esperam retomada dos investimentos
em 2010, principalmente em setores como construção
civil, petróleo e gás e turismo
Depois de um ano de incertezas, as empresas prometem retomar
a rota de crescimento, com ampliação de investimentos
e geração de mais empregos em 2010. A economia
deve voltar a girar, puxada por setores como construção,
petróleo e gás, turismo, agronegócio
e de bens de consumo, apostam analistas ouvidos pela Gazeta
do Povo.
Uma pesquisa da consultoria Deloitte revela que 95% das
empresas esperam crescimento de receita em 2010, contra
um índice de 69% nesse ano. A projeção é de
um crescimento de 14% em faturamento. O levantamento, que
ouviu 573 empresas em todo o Brasil que juntas faturam
perto de R$ 500 bilhões, revela que a imensa maioria – 90% – projeta
ampliação de investimentos em 2010.
“ A crise acabou não sendo tão agressiva
no Brasil como foi em outras partes do mundo, o que reforça
o otimismo para 2010”, diz José Paulo Rocha,
sócio da área de Corporate Finance da Deloitte.
De acordo com o levantamento, os setores de petróleo
e gás – que devem ser beneficiados pela recente
descoberta de reservas na camada de pré-sal – e
de construção civil serão os segmentos
que mais vão gerar negócios em 2010.
No Paraná, o setor de petróleo lidera investimentos,
com a ampliação da Refinaria Presidente Getúlio
Vargas (Repar), que deve absorver R$ 9 bilhões até 2012.
Segundo o gerente geral da refinaria, João Adolfo
Oderich, já há estudos para um próximo
ciclo de investimentos em ampliação para
a refinaria. “Não vamos parar por aí”,
diz.
Embalada pelo crédito e pelos juros mais baixos
e pelas obras de infraestrutura, a construção
civil deve ter mais um ano de desempenho forte em 2010.
Uma projeção da Fundação Getúlio
Vargas (FGV) prevê que o Produto Interno Bruto (PIB)
do setor avance 9% em 2010. “As empresas vão
acelerar lançamentos no próximo ano. Em 2009,
por conta da crise, as construtoras seguraram um pouco
a colocação de novos imóveis no mercado”,
diz Marcos Kahtalian, consultor do Sindicato da Indústria
da Construção Civil (Sinduscon) no Paraná.
Na avaliação do economista Gilmar Mendes
Lourenço, professor do Centro Universitário
Fae, basicamente dois grupos de setores devem ter destaque
em 2010. O primeiro está relacionado diretamente à combinação
de renda, crédito e emprego. Neste bloco estão
os bens de consumo duráveis – como eletrodomésticos,
automóveis e móveis, que também contam
com o benefício da redução do Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI), além dos
bens não-duráveis, como alimentos e bebidas.
No segundo grupo estão os setores vinculados a
gastos do governo, como os investimentos em infraestrutura.
Obras do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) que não saíram do papel devem começar
a deslanchar. Projetos na área de energia, saneamento,
de portos e aeroportos devem movimentar o mercado de construção. “Na
outra ponta, o setor imobiliário deve continuar
forte e se beneficiar da redução dos preços
dos financiamentos”, afirma Lourenço.
Para os empresários ouvidos pela Deloitte, o setor
de Tecnologia da Informação, que praticamente
não foi afetado pela crise, também devem
ter destaque. O turismo, com a preparação
para a Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas, também
deve dar início, em 2010, a um novo ciclo de investimentos.
Os eventos esportivos, junto com a exploração
da camada de pré-sal, deverão manter a taxa
de crescimento do investimento no setor de infraestrutura
em 10% até 2014 – quando deverão atingir
a marca dos R$ 160 bilhões, de acordo com a Associação
Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base
(Abdib).
O agronegócio – que viveu um 2009 difícil
por conta da queda na demanda internacional, do dólar
fraco e dos baixos preços das commodities – deve
ter algum alívio em 2010. As cooperativas do Paraná preveem
aplicar entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão
neste ano, principalmente em projetos de infraestrutura,
na área de frangos, suínos e na industrialização
da produção.
A previsão da melhora, ainda que tímida,
da economia global deve ter reflexo em mais encomendas
e recuperação dos preços, segundo
o professor Marcio Cruz, do departamento de economia da
Universidade Federal do Paraná (UFPR).
De maneira geral, todos os setores terão um ano
melhor do que 2009, mas os analistas ressaltam que os exportadores
são os que ainda terão um ano de desafios. “2010
será, como o seu antecessor, um bom período
para as empresas que investirem no mercado interno. Quem
depende de exportações, ainda terá que
enfrentar algumas dificuldades”, ressalta. O dólar
fraco, favorável às importações,
também permanece uma ameaça para quem tem
forte concorrência com importados, como fornecedores
de peças para o setor de informática, para
o mercado automotivo e para indústrias como têxtil
e calçadista. O turismo no mercado interno também
perde espaço para viagens internacionais, na avaliação
de Cruz, da UFPR.
Haverá uma melhora nas exportações,
mas a recuperação nos mercados compradores
não será suficiente para gerar um comércio
internacional forte. “No próximo ano espera-se
uma pequena melhora no saldo da balança comercial
com uma corrente de comércio (soma das exportações
e das importações) bastante superior a de
2009, que deve ter encerrado com queda de R$ 90 bilhões
em função dos efeitos da crise”, afirma
Alcides Leite Junior, professor de Economia da Trevisan
Escola de Negócios.
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Gazeta do Povo, 2 de janeiro
de 2010
Nível de emprego pode
bater novo recorde
A melhora do cenário econômico, com a perspectiva de crescimento
entre 5% e 6% do Produto Interno Bruto (PIB), deve fazer com que o nível
de emprego com carteira assinada bata um novo recorde em 2010, apontam
projeções do Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Socioeconômicos (Dieese). “Crescimento gera emprego.
Praticamente todas os setores deverão terminar o ano com saldo
positivo”, afirma Cid Cordeiro, coordenador do Dieese no Paraná.
Segundo ele, além da construção civil,
setores que foram mais fortemente afetados pela crise, como
papel e celulose, têxtil, metalmecânico, automotivo
e agricultura voltarão a contratar. “Além
disso, o setor público deve, pelo menos no início
do ano, reforçar as contratações. Somente
para o governo do Paraná são esperadas 6 mil”,
diz.
O Dieese projeta um saldo positivo de vagas ao longo de
2010 entre 120 mil e 130 mil vagas, contra 80 mil em 2009. “Voltaremos
aos patamares recordes de 2004 e 2007”, afirma. Para
analistas, o momento será bom também do ponto
de vista da remuneração. Alguns já estimam
que pode haver falta de profissionais em alguns setores.
O fenômeno deve ocorrer em duas pontas: nas vagas de menor remuneração,
disputada por vários segmentos e que podem perder espaço
para empregos com maior salário, e nos de alta especialização. “As
empresas provavelmente terão que investir em políticas
de retenção de talentos e na qualificação
de funcionários”, diz Carlos Peres, sócio da PricewaterhouseCoopers
para o Paraná e Santa Catarina. Analistas acreditam que com
o emprego em alta, a taxa de desemprego poderá ser a mais baixa
da série histórica, ficando próxima de 7% em 2010.
(CR)
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Folha de S.Paulo, 2 de
janeiro de 2010
Congresso tem 594 políticos,
mas paga 616
Além de arcar com salários
de 513 deputados e 81 senadores, Legislativo remunera 22
congressistas que têm cargos no Executivo
Casas gastam R$ 4,3 mi ao ano com vencimentos
dos licenciados; deputado com cargo de secretário
continua utilizando imóvel funcional
MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Além de pagar os salários de 594 congressistas
(513 deputados federais e 81 senadores) que estão
no exercício do mandato, o Congresso Nacional gasta
mais R$ 4,3 milhões por ano com os vencimentos de
parlamentares licenciados.
Atualmente, 22 congressistas eleitos que ocupam cargos em secretarias
estaduais ou municipais, ministérios ou prefeituras optam por
continuar recebendo pelo Legislativo. Em geral isso acontece porque
o salário mensal de um senador ou deputado é de R$ 16,5
mil-valor mais alto do que a maioria dos salários no Executivo.
Quando voltam ao Congresso, os licenciados também têm
direito ao benefício do auxílio do mandato. Na Câmara,
o auxílio varia de R$ 23 mil a R$ 34,2 mil por mês, dependendo
do Estado do parlamentar. Quem volta à Casa tem direito a benefício
proporcional aos dias trabalhados como deputado.
É o que ocorre com Alberto Fraga (DEM-DF): ele foi eleito deputado federal,
mas exerce o cargo de secretário de Transportes do Distrito Federal.
Regularmente, porém, ele volta ao Legislativo para uma votação
que lhe interessa ou para a apresentação de projeto de
lei. Nesta legislatura, ele foi e voltou para a Câmara dez vezes.
Em dezembro, além de pagar ao secretário os R$ 16,5 mil
referentes ao salário, a Casa teve de bancar também mais
R$ 2,2 mil, dinheiro que, segundo Fraga, foi usado com telefonia para
o exercício parlamentar.
Em novembro, foram gastos mais R$ 4.000 e, em outubro, R$ 5.200 com
telefonia fixa e móvel -sendo que ele conta ainda com linhas
exclusivas da secretaria. Fraga não respondeu aos telefonemas
da Folha. Já Gastão Vieira (PMDB-MA), além de
receber os vencimentos pela Câmara, continua usando um apartamento
funcional da Casa, mesmo tendo se licenciado e atue agora como secretário
de Planejamento e Orçamento no Maranhão. O imóvel,
diz Vieira, é usado por parte de sua família, que continua
em Brasília.
O pagamento dos vencimentos para deputados e senadores licenciados
está previsto na Constituição. Na prática,
no entanto, não é o que acontece em outros setores, principalmente
na iniciativa privada.
" Não vejo nenhuma imoralidade nisso [em ser secretário, ministro
ou prefeito e receber o salário pela Câmara]. O serviço público
tem características diferentes da iniciativa privada. Na iniciativa privada
pode-se ter outras fontes de renda, fazer consultoria para completar os vencimentos,
por exemplo", disse o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ).
O peemedebista voltou à sua cidade natal após ser convidado
pelo governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), para ser secretário
de Habitação. Leonardo trocou então o mandato
em Brasília para atuar mais perto do pai, o deputado estadual
Jorge Picciani (PMDB-RJ), presidente da Assembleia Legislativa do Rio
de Janeiro.
Ministros
A maioria dos senadores e deputados ministros também opta por
continuar recebendo o salário pelo Congresso. É o caso,
por exemplo, do senador Hélio Costa (PMDB-MG), que atualmente
está no Ministério das Comunicações. No
cargo ele ganhou mais visibilidade e está sendo cotado para
ser candidato ao governo de Minas.
Segundo a última consulta feita na Câmara e no Senado,
24 deputados e 4 senadores titulares estão afastados, mas 6
não optaram por receber os vencimentos pelo Legislativo.
As novas normas determinam que o Congresso pague os salários
apenas de deputados e senadores eleitos e dos suplentes que estejam
efetivamente no exercício do mandato.
Antes qualquer suplente em secretarias ou ministérios também
podia optar pelo benefício. Isso mudou por um entendimento da
CCJ (Comissão de Constituição e Justiça)
e da Mesa da Câmara, que há alguns anos estabeleceu que "a
prerrogativa -opção pela remuneração do
mandato- é imanente a quem tem mandato e só pode ser
exercida por quem é titular de mandato de congressista".
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Folha de S.Paulo, 2 de
janeiro de 2010
"Bondades" sociais
custarão R$ 26 bi em 2010
No ano eleitoral de 2010, medidas
do governo incluem contratações, Bolsa Família
ampliado e aumento real para aposentados
Estudo mostra que, desde 1980, taxa
de miséria caiu e renda domiciliar cresceu em todos
os anos com eleições legislativas ou presidenciais
MARCIO AITH
DA REPORTAGEM LOCAL
Com o aumento das aposentadorias, do salário mínimo
e do seguro-desemprego, anunciado nas últimas semanas
de 2009, o governo concluiu o amplo pacote de benefícios
sociais com o qual pretende marcar o encerramento do segundo
mandato do presidente Lula.
O pacote concentra, neste único ano eleitoral de 2010, a reedição
de praticamente todos os benefícios concedidos desde o início
do atual governo petista, em janeiro de 2003. Entre eles também
estão: ampliação do Bolsa Família, revisões
de remunerações de carreiras do setor público
e novas contratações. Todos esses itens terão
um custo fiscal de R$ 26 bilhões ao longo de 2010 -o preço
de dois Bolsas Família.
Segundo Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais
da FGV, esse cenário deve confirmar a ""tradição
da nova democracia brasileira de apresentar melhores resultados sociais
em anos eleitorais".
A pobreza e o marciano
Trabalho desenvolvido pela equipe de Neri mostra que, desde 1980, a
taxa de miséria caiu e a renda domiciliar cresceu em todos os
anos com eleições. Nos anos seguintes esses indicadores
sociais caíram. " Se colocassem um marciano para olhar
as séries de pobreza no Brasil, ele saberia, sem conhecer a
história, em quais anos houve eleições",
diz ele.
Esse efeito ocorreu não apenas por conta da ação
do governo federal, mas, igualmente, pela concessão de vantagens
por governadores e prefeitos. Diante do cenário de benefícios
ampliados, Marcelo Neri calcula que, assim como a retomada da economia,
o fator eleitoral também terá forte impacto sobre os
indicadores sociais neste ano de 2010. Mas Neri acha que o ciclo eleitoral
se tornou menos pronunciado à medida que a democracia ganhou
maturidade.
Ele compara, por exemplo, as eleições de 1986, no auge
do Plano Cruzado, com as eleições presidenciais de 2006,
também marcadas por uma forte ampliação dos benefícios
sociais. Em 1986, a proporção de pessoas abaixo da linha
da miséria despencou 37%. Em 2006, a queda foi de 15%. Além
disso, Neri avalia que, ""como os benefícios sociais
hoje são permanentes, ao contrário da simples concessão
de abonos ou cestas básicas, os indicadores sociais podem até cair,
mas não despencam mais após as eleições".
Restrição fiscal
O pacote de benefícios sociais que serão implementados
neste último ano do governo Lula foi desenhado para resistir às
restrições fiscais e, ao mesmo tempo, causar o maior
impacto eleitoral possível. Devido à lei 9.504/1997,
o governo não pode, em ano eleitoral, distribuir novos benefícios,
exceto no caso de calamidade pública ou em programas autorizados
em lei que já estavam em execução no ano anterior.
Em 2010, o Bolsa Família, programa com eficácia eleitoral
comprovada, poderá beneficiar 500 mil residências adicionais.
Isso só será possível porque a medida é a última
etapa da ampliação do programa -ampliação
que já estava em execução em 2009, quando 1,3
milhão de novas famílias foram incorporadas ao programa.
Há dúvida quanto à possibilidade de o governo
também elevar o valor do benefício em 2010 -tema ainda
não apreciado pela Justiça Eleitoral.
Divisão de resultados
Já o aumento real das aposentadorias repete uma fórmula
inédita implementada durante as eleições de 2006.
Até aquele ano nenhum governo elevara, por taxas superiores à inflação,
o valor dos benefícios acima do piso. A correção é de
até 6,14%, equivalente à reposição da inflação
mais 2,5%, índice correspondente à metade do crescimento
da economia em 2008. ""É a primeira vez que os aposentados
e pensionistas com benefícios acima do salário mínimo
participam efetivamente do resultado da nossa economia", afirmou
o ministro da Previdência, José Pimentel.
Na esteira do aumento do salário mínimo, de R$ 465,00
para R$ 510,00, o governo também reajustou em 9,67% o valor
do seguro-desemprego. O impacto do reajuste vai custar R$ 1,58 bilhão
em 2010. A proposta orçamentária originalmente encaminhada
ao Congresso apontava, para 2010, gastos adicionais de R$ 7,6 bilhões
com revisões de remunerações de diversas carreiras
e R$ 2,2 bilhões com novas contratações. Mas esse
valor foi substancialmente elevado até os últimos dias
de 2009.
Neste ano, o governo federal deve criar 77.782 vagas. Do total, 57.901
serão destinadas ao Executivo, sendo que 15.040 são para
substituição de funcionários terceirizados. Para
o Legislativo, estão previstas 875 vagas. Para o Judiciário,
9.096. O "Diário Oficial" de 31 de dezembro passado
publicou uma série de benefícios para carreiras específicas.
Procurado, o Ministério do Planejamento informou que não
tinha condições de calcular o custo.
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Folha de S.Paulo, 2 de
janeiro de 2010
Bolsa Família influenciou em
2006, diz estudo
DA REPORTAGEM LOCAL
Baseados na experiência eleitoral de 2006, estudos
acadêmicos mostram uma forte correlação
entre a ampliação de programas sociais, a melhora
dos indicadores sociais e a intenção de voto
dos eleitores. Segundo trabalho do economista Maurício
Canêdo Pinheiro, da Fundação Getulio
Vargas, o impacto do Bolsa Família na reeleição
do presidente Lula em 2006 foi superior ao gerado pelo desempenho
da economia.
A pesquisa mostra que o programa foi responsável por um aumento
de cerca de três pontos percentuais na votação
de Lula no segundo turno de 2006. Já o crescimento econômico
foi responsável por um aumento de 0,34 ponto. O autor fez análises
estatísticas comparando os resultados eleitorais nos municípios
antes e depois do Bolsa Família, assim como o crescimento dos
quatro primeiros anos do governo Lula com os quatro últimos
anos do tucano Fernando Henrique Cardoso.
Embora o trabalho não explique por que Lula teve um desempenho
pior no primeiro turno das eleições em 2006, diante de
uma votação surpreendente do adversário Geraldo
Alckmin, suas conclusões apontam, com clareza, a migração
da base eleitoral de Lula, entre 2002 e 2006, para regiões mais
beneficiadas por programas de transferência de renda.
Caneta oficial
Como Lula não é candidato em 2010, resta saber se o fortalecimento
da rede de proteção social será creditada pelos
eleitores à sua candidata, a ministra Dilma Rousseff, ou diluída
entre todos os candidatos vistos pelos eleitores como defensores desses
programas.
Mas essa é uma outra novela. O que os estudos indicam é o
poder que a "caneta oficial" tem, nos anos eleitorais, de
causar melhorias instantâneas (às vezes transitórias)
nos indicadores de miséria e de renda. Segundo Marcelo Neri,
coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV, depois de
1986, 2006 constitui o melhor ano isolado da série histórica
de queda na proporção de pessoas abaixo da linha da miséria
(queda de 15% na população de pessoas com renda per capita
inferior a R$ 125 mensais).
O curioso é que a melhoria dos indicadores sociais no ano ocorreu
ainda que a desigualdade no país tenha permanecido praticamente
estável. " De maneira geral, 2006 se destaca mais pelo
crescimento generalizado de renda para todos os estratos da população
do que pela redução da desigualdade", conclui o
estudo "O real de Lula", da FGV.
O trabalho da FGV mostra que a renda de programas sociais é a
que mais cresce em pleitos eleitorais (com 22,57% de aumento), seguida
da renda previdenciária (10,51%) e de trabalho (3,16%). "O
que indica o uso de políticas de transferência de renda
ao sabor do ciclo eleitoral", informa o estudo. (MARCIO
AITH)
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