Folha de S.Paulo, 3 de
janeiro de 2010
Bancos querem financiar infraestrutura
Fabio Barbosa, presidente da Febraban,
diz que, depois de bancar o consumo, instituições
olham agora demanda das empresas
Após o recuo na concessão
de crédito em 2009, o setor financeiro se prepara
para acelerar a oferta de financiamento em 2010
SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois do baque provocado pela crise financeira, os bancos
iniciarão uma nova fase do crédito em 2010
com prioridade no financiamento dos investimentos das empresas
no lugar do consumo. Nos cálculos do presidente
da Febraban (Federação Brasileira de Bancos),
Fabio Barbosa, o volume de empréstimos no país
vai crescer entre 20% e 25% neste ano. Apesar de ainda
ser inferior aos 30% registrados antes da crise, ele acredita
que será o suficiente para sustentar o crescimento
da economia, estimado em 5% ao ano, sem pressão
inflacionária. Para Barbosa, que deixa a presidência
da Febraban em março, a eleição presidencial
deste ano não trará "nenhuma preocupação" ao
mercado. A seguir, os principais trechos da entrevista.
FOLHA - Há um ano, o sr. disse que, em
razão da crise, o crédito não retomaria
o crescimento de 30% ao ano visto no início de
2008. E 2010?
FABIO BARBOSA - O crédito voltou
mais rapidamente. Em 2009, devemos fechar em torno de 15%,
o que é bem abaixo dos 25%, 30% que cresceu nos últimos
anos. Para 2010, estimamos entre 20% e 25% o crescimento
das carteiras. A situação vai se normalizando
num nível compatível com o crescimento de
5%.
FOLHA - Quais segmentos se destacarão no
crédito?
BARBOSA - O total de crédito da economia em dezembro
de 2002 era de R$ 380 bilhões. Em outubro de 2009, R$ 1,370
trilhão. Serviu para financiar o consumo, como o crédito
consignado. Com a bancarização, chegou mais gente. Para
a frente, teremos necessidade de financiar a infraestrutura. Os investimentos
devem aumentar para sustentar o crescimento da economia de 5% ao ano
sem pressão inflacionária e serão financiados
pelo mercado financeiro local e internacional e pelo mercado de capitais.
FOLHA - O país migrou para a segunda fase
de crescimento do crédito saindo da pessoa física
para as empresas?
BARBOSA - Sim, estamos numa nova fase do crédito. Não é um
corte. É um processo em que veremos uma participação
maior do sistema financeiro no financiamento dos investimentos. Acho
que o Brasil tem falta de poupança. Consegue crescer 5% ao ano
dada a poupança que temos, por volta de 16% do PIB. Teremos
que trabalhar também a questão da previdência privada
para que a poupança suba para patamares compatíveis com
o crescimento mais acelerado: acima de 5% ao ano.
FOLHA - Crédito para pessoa física
já saturou? As pessoas estão no limite
do endividamento?
BARBOSA - Não está saturado porque a renda está crescendo.
Há dois fenômenos: com a bancarização, mais
gente da base da pirâmide, que não tinha acesso a crédito,
passa a ter. Já as pessoas que estão no mercado passam
a ter acesso a outros instrumentos, prazos, taxas em razão da
elevação da renda. Então, o nome do jogo aqui é crescimento
da renda. Por outro lado, os juros, embora tenha sempre muito barulho
em torno disso, estão no patamar mais baixo. Nunca estiveram
tão baixos em algumas modalidades. Isso também aumenta
a capacidade de endividamento.
FOLHA - Esse menor patamar se aplica à taxa
Selic, não aos juros ao consumidor.
BARBOSA - Ele não está no nível mais
baixo histórico, mas está quase no patamar pré-crise.
Em 2007 os juros estavam mais baixos, subiram e agora estamos voltando.
FOLHA - Como ficará a disputa entre bancos
públicos e privados? O presidente do Itaú disse
que os bancos públicos não conseguem manter
o ritmo de crescimento do período da crise. O
sr. concorda?
BARBOSA - Não vou concordar nem discordar. Os bancos
públicos desempenharam papel importante na crise. Na Europa,
nos EUA, no Japão, na China os governos tiveram iniciativas
anticíclicas. O Brasil, de certa maneira, também fez
isso, com incentivos fiscais e com Banco do Brasil, Caixa Econômica
Federal e BNDES injetando dinheiro na economia.
FOLHA - E a partir de agora?
BARBOSA - Os bancos públicos
estarão certamente buscando seu crescimento e
vão ter que concorrer. No fundo, não é o
banco que decide quanto quer crescer, mas o cliente,
em razão das melhores ofertas que receber. Quem
vai tomar o dinheiro nunca pensa se é no banco
público ou no privado.
FOLHA - 2008 e 2009 foram anos de enfrentamento
dos bancos com o governo, com regulação
de tarifas, leilão da folha do INSS. Como está a
relação hoje?
BARBOSA - O que aconteceu, no caso das tarifas, o BC colocou
com clareza quais operações podem ou não ser tarifadas.
E foi feito em conjunto com órgãos de defesa do consumidor
de um lado, BC do outro, bancos sendo consultados em algum momento.
FOLHA - Mas os bancos chiaram.
BARBOSA - É natural, porque [para] determinados serviços
a gente entende que deveria haver um pagamento. Nem sempre isso é possível.
FOLHA - E no setor de cartões de crédito?
O governo quer regulamentar e há muita pressão
por uma regulamentação apertada.
BARBOSA - Há uma série de conversas. A ideia é ter
concorrência. Já temos o diálogo sobre acabar com
a exclusividade, que abre porta para concorrência. O caminho é dar
mais condições de competitividade.
FOLHA - Mas parte do governo quer mais e fala
em limitar cobranças, como foi feito com as tarifas.
BARBOSA - Isso sempre há o risco de acontecer. É preciso
tomar cuidado para que não haja restrição à expansão
da base de lojistas e usuários de cartão. Cartão
no Brasil funciona muito bem e atende muito bem à população.
Vamos entender quais são os problemas e, se for o caso, endereçar
esses problemas e ter mais competitividade. Eu prefiro esse caminho
de não seguir pistas falsas.
FOLHA - 2010 é ano de eleição.
Isso trará volatilidade ao setor financeiro ou
não?
BARBOSA - Muito pouco. A grande volatilidade aconteceu em
outras eleições, quando o Brasil estava com um sistema
de metas de inflação pouco institucionalizado. Em 2002,
havia incertezas que, naquela época, se justificaram. Agora,
não há risco de ruptura, seja qual for o resultado da
eleição; estamos há 15 anos com economia estabilizada.
Os dois pilares, contas públicas e metas de inflação,
têm sido respeitados e não vejo nenhum sinal de qualquer
mudança. A sensação de todo o mercado me parece
ser de bastante tranquilidade.
FOLHA - A saída do presidente do BC, Henrique
Meirelles, para uma possível candidatura pode
gerar insegurança no mercado?
BARBOSA - Acho que, com toda a competência
com que o Meirelles levou o BC nesses anos, ficou a sensação
de que existe uma continuidade. O presidente Lula tem sido
o grande fiel desse projeto todo de estabilização
da inflação. Não vejo nenhuma preocupação
no mercado em relação a isso.