Congresso em Foco,16 de
janeiro de 2010
Eles cruzaram 115 vezes a Terra. E
você pagou
Os dez senadores que mais gastaram
com combustíveis consumiram R$ 436,6 mil, o equivalente a
156 mil litros de gasolina
Renata Camargo e Edson Sardinha
Os senadores botaram o pé na estrada e pisaram
fundo nos gastos com o dinheiro público no ano passado.
Somente a despesa dos dez parlamentares que mais gastaram
com combustível nos últimos nove meses de
2009 daria para bancar 291 viagens de carro (com a gasolina
a R$ 2,80) entre as duas capitais mais distantes do país,
Porto Alegre (RS) e Boa Vista (RR), separadas por 5.348
km. Ou percorrer 343 vezes a rodovia mais extensa do Brasil,
a BR-101, com seus 4.551 km, que ligam o Rio Grande do
Norte ao Rio Grande do Sul. Daria também para inspecionar
as condições de toda a malha rodoviária
asfaltada do território nacional nove vezes. Para
gastar o que gastaram com combustível, os dez senadores
teriam que rodar 1,5 milhão de quilômetros.
Daria para cruzar 115 vezes a Terra (o diâmetro da
Terra é de 13 mil quilômetros).
Esses dez senadores consumiram R$ 436.633,62 da chamada
verba indenizatória para ressarcir despesas que
tiveram com combustíveis e lubrificantes somente
entre os meses de abril e dezembro. O valor é suficiente
para comprar 155.904 litros de gasolina (a R$ 2,80), o
que dá para encher o tanque de 31.188 automóveis.
Os dados fazem parte de levantamento do Congresso em Foco,
com base em informações do Portal da Transparência,
do Senado. Foi apenas a partir de abril que a Casa passou
a detalhar o uso da verba, com a identificação
dos prestadores de serviço e das respectivas notas
fiscais. Pelo registro das empresas, é possível
identificar o ramo de atuação, mas não
qual derivado de petróleo foi vendido aos parlamentares,
se combustível para carros de passeio ou avião,
por exemplo.
Os senadores do DEM de Mato Grosso Jayme Campos e Gilberto
Goellner foram os que mais gastaram com combustível
no período pesquisado. O primeiro consumiu R$ 66,72
mil nos cinco meses em que exerceu o mandato em 2009. Ele
está licenciado desde setembro para tratar de assuntos
particulares. O segundo recebeu R$ 65,22 mil do Senado
nos últimos nove meses do ano para cobrir as despesas
com combustível, óleo e lubrificante.
Na sequência dos senadores bons de tanque, aparecem
dois tucanos: Marconi Perillo (GO), que gastou R$ 44,23
mil, e Cícero Lucena (PB), que consumiu R$ 42,84
mil. O petista Augusto Botelho (RR) é o quinto colocado,
com R$ 38,75 mil. Dois peemedebistas surgem depois: Almeida
Lima (SE), com gastos de 37,81 mil, e Romero Jucá (RR),
que usou R$ 37,12 mil da verba com combustíveis.
Apesar de ter deixado o Senado no início de novembro,
Expedito Júnior (PR-RO) foi o oitavo colocado no
ranking das despesas com derivados de petróleo.
Cassado por compra de votos,consumiu R$ 34,24 mil entre
abril e setembro. Efraim Morais (DEM-PB), com R$ 32,53
mil, e Romeu Tuma (PTB-SP), com R$ 37,12 mil, fecham a
lista dos dez senadores que mais encheram o tanque com
dinheiro público.
Veja
os gastos detalhados dos dez senadores com combustíveis
Diferentemente da Câmara, onde cada deputado pode
gastar até R$ 4,5 mil por mês com combustível,
não há limite com esse tipo de despesa no
Senado. Cada senador pode gastar o quanto quiser desde
que apresente nota fiscal.
Se o mesmo teto fosse aplicado ao Senado, pelo menos 13
parlamentares teriam estourado a cota mensal. Além
dos dez campeões de consumo, os senadores Mão
Santa (PSC-PI) e Magno Malta (PR-ES) e a senadora Lúcia
Vânia (PSDB-GO) também gastaram mais que R$
4,5 mil ao menos uma vez no ano passado.
Com o tanque cheio
O campeão em despesas em um só mês
foi Jayme Campos. O senador matogrossense apresentou quatro
notas fiscais em nome de uma única companhia para
pedir o ressarcimento de R$ 20,07 mil com combustível
apenas no mês de junho. Jayme também teve
gasto superior a R$ 10 mil em outros quatro meses (abril,
maio, julho e agosto).
Gilberto Goellner teve o segundo maior consumo mensal.
Em agosto, foram R$ 15,01 mil ressarcidos mediante apresentação
de seis notas fiscais de cinco empresas diferentes. Uma
delas no valor de R$ 10,08 mil. Em setembro, o senador
voltou a passar a casa dos R$ 10 mil, quando apresentou
notas no valor de R$ 10,89 mil.
O senador Almeida Lima também superou a mesma barreira nos três
meses em que declarou gastos com derivados de petróleo. Mesmo
representando o menor estado do país, o parlamentar pediu ressarcimento
de R$ 14,7 mil em julho, de R$ 13,05 mil em setembro e de R$ 10 mil
em novembro. Todas as despesas, que totalizam R$ 37,81 mil, foram feitas
num mesmo posto de Aracaju.
Outros três senadores ultrapassaram a marca de R$
10 mil mensais, mais que o dobro do limite estabelecido
na Câmara para as despesas dos deputados com combustíveis.
O ex-senador Expedito Júnior gastou R$ 12,21 mil
em abril e outros R$ 11,01 mil em agosto. O roraimense
Augusto Botelho consumiu R$ 10,06 mil em setembro. O senador
apresentou apenas uma nota da mesma empresa nos outros
três meses em que pediu ressarcimento para cobrir
esse tipo de despesa. Os comprovantes fiscais variavam
de R$ 5 mil a R$ 6 mil cada.
Locomoção
Combustíveis, lubrificantes, hospedagem, alimentação
e aluguel de veículos foram as despesas mais onerosas
dos senadores ressarcidas pelo Senado em 2009 por meio
da verba indenizatória. Como mostrou ontem (14)
o Congresso em Foco, a
Casa gastou R$ 4,2 milhões de toda a verba apenas
para cobrir despesas dos gabinetes com hotéis, restaurantes
e bares, postos de gasolina, aluguel de carro e táxi
aéreo. Dinheiro suficiente para cobrir, por exemplo,
13 anos de diária no Copacabana Palace, no Rio de
Janeiro (R$ 840 a diária).
Essas despesas fazem parte da mesma rubrica. Por isso,
o ranking dos parlamentares que mais consumiram com locomoção
não corresponde, necessariamente, aos gastos com
combustíveis. O Congresso em Foco examinou a prestação
de contas dos senadores para identificar os que mais consumiram
combustível com a verba indenizatória. Alguns
parlamentares usaram a rubrica para justificar despesas
maiores com aluguel de veículos, restaurante e hotel,
por exemplo.
O aluguel de escritórios políticos foi o
segundo item de maior despesa no ano passado. Os senadores
consumiram R$ 2,58 milhões para manter as instalações
de suas representações políticas nos
estados que representam. O terceiro maior gasto ficou por
conta da divulgação da atividade parlamentar,
impulsionada pelos senadores pré-candidatos, que
utilizaram quase 90% dos R$ 1,78 milhão destinados à publicidade
das ações dos parlamentares.
Apesar de o Senado ter um respeitado e bem remunerado
corpo de consultores legislativos, as despesas com a contratação
de consultorias, assessorias e pesquisas técnicas
consumiram R$ 1,57 milhão de toda a verba indenizatória.
Os senadores conseguiram ainda R$ 600,18 mil para comprar
materiais de escritório e programa de computador,
alugar móveis e cobrir despesas postais em 2009.
Veja
quanto cada senador gastou em 2009
Limite na Câmara
O gasto indiscriminado com combustíveis já causou
crise na Câmara. Em abril de 2006, uma reportagem
do jornal O Globo mostrou que no ano anterior os deputados
haviam utilizado R$ 41 milhões da verba indenizatória
para abastecer o tanque de seus veículos. O dinheiro
era suficiente, na época, para comprar 20,5 milhões
de litros de gasolina.
Alguns dos casos mais abusivos foram parar na corregedoria, mas acabaram
arquivados. Para amenizar o desgaste, o então presidente da
Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), limitou o uso do benefício com
combustíveis a 30% do valor de toda a verba mensal. Atualmente,
cada deputado pode pedir ressarcimento máximo de R$ 4,5 mil
com esse tipo de despesa.
O destino da verba indenizatória era mantido em absoluto sigilo
até março do ano passado, quando o Senado decidiu seguir
a Câmara e divulgar os gastos na internet retroativos a 2008. O
detalhamento das despesas, com a identificação dos prestadores
de serviço, no entanto, só passou a ser publicado a partir
de abril.
A verba indenizatória é um benefício
destinado aos parlamentares para cobrir gastos com aluguel
de imóvel, materiais de escritório, locomoção,
consultoria, alimentação e outras despesas.
Ele é utilizado por meio de ressarcimento, ou seja,
os parlamentares fazem a compra e apresentam a nota fiscal
ao Senado. Cada parlamentar tem direito a R$ 15 mil mensais
em ressarcimento. Isso corresponde a R$ 180 mil anuais.