Vermelho, 30 de janeiro
de 2010
PIB versus Selic: Debate começa
a pegar fogo
Guido mantega, Paulo Bernardo e setor industrial traçam perfil
otimista para a economia em 2010. Mas há a ameaça do Comitê de
Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de iniciar
um novo ciclo de alta da taxa bpasica de juros, a selic, que deve incendiar
o debate econômico.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que estão sendo desativados
os estímulos fiscais, como as reduções de Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI) concedidas a produtos de linha
branca de eletrodomésticos, que terminam neste fim de semana,
e ao setor automobilístico, que vai até o fim de março. "Nós
não achamos que a economia precisa mais da ajuda do Estado",
afirmou o ministro.
Ele citou números da economia para defender a ideia
de que o país está na rota de uma "retomada
gradual" e de um "crescimento sustentável".
A indústria, que se retraiu cerca de 20% no primeiro
trimestre, se recuperou ao longo de 2009 e deve encerrar
o ano com queda de 5% e capacidade ociosa. "Em 2010
certamente crescerá, por conta da base deprimida",
acrescentou. Apesar do dinamismo econômico, Mantega
diz que não há razão para crer em uma "bolha" de
crescimento. "Esses são prognósticos que
eu chamaria de apressados", disse. "O País
está recuperando o que perdeu", completou.
O ministro disse também que não espera nenhuma
volatilidade econômica neste ano por ocasião
das eleições de outubro. "Eu não
espero nenhuma volatilidade no Brasil, porque o Brasil está muito
sólido e deverá seguir na trilha que já foi
aberta", destacou."Seria irracional de algum governo
jogar fora aquilo em que avançamos, as conquistas
que obtivemos e uma estratégia vencedora", afirmou.
Ele disse que está "pagando para ver" algum
dos principais pré-candidatos que hoje se oferecem
para o eleitorado propor mudanças profundas no rumo
da economia.
"Eu quero ver quem é o candidato que vai mudar,
que vai dizer, 'vou acabar com o Bolsa Família, baixar
o salário mínimo, para de estimular o investimento,
deixar de estimular a indústria naval, construção
civil, desativar o Minha Casa, Minha Vida'. Eu acho muito
temerário. Eu duvido, faço uma aposta com vocês.
Tô pagando pra ver.Você só explora a questão
econômica quando está dando errado. Mas quando
o resultado é bom, quando a discussão é se
o crescimento vai ser 6% ou 6% (embora o ministro diga que,
pessoalmente, acredite em uma alta do PIB de 5% a 5,5% em
2010), o que é que você vai criticar?"
Políticas eficientes
Para Mantega, a crise "comprovou que as políticas
econômicas brasileiras eram eficientes". O ministro
citou uma melhora nas projeções do FMI para
o crescimento mundial (crescimento de 3,9% neste ano), puxado
pelas economias emergentes mais dinâmicas, como a Índia,
a China e o Brasil. Em uma prévia da compilação
de dados que entregaria aos líderes empresariais em
Davos, Mantega citou uma série de estatísticas
das contas do governo para mostrar a saúde do Estado
pós-crise.
Disse que, nos EUA, o déficit público será de
9% do PIB. No Brasil, comparou, o déficit público
nominal, de 3,3%, "vai voltar a cair no próximo
ano". "Não é um dos maiores, e com
a economia voltando a crescer, a relação dívida-PIB
volta a cair. Então nós estamos em uma situação
fiscal melhor."
Comparados com países que precisaram gastar bilhões
para salvar seus bancos, o Brasil sai do pior em melhor estado,
porque, na opinião de Mantega, "a intervenção
do Estado foi mais precisa e menos dispendiosa". O Ministério
anunciou nesta semana que o superávit primário
de 2009 foi 2,5% e a previsão é de que o excedente
chegue a 3,3% em 2010.
Além disso, o ministro citou números da economia
para defender a ideia de que o país está na
rota de uma "retomada gradual" e de um "crescimento
sustentável". A indústria, que se retraiu
cerca de 20% no primeiro trimestre do ano, se recuperou ao
longo de 2009 e deve encerrar o ano com queda de 5% e capacidade
ociosa, ele disse. "Em 2010 certamente crescerá,
por conta da base deprimida", acrescentou.
Controle dos bancos
Ele afirmou ainda que "emprego não será um
problema". "Criamos um milhão de empregos
em um ano de crise. Em 2010 criaremos mais que isso (a previsão
do governo é 1,6 milhão). Em alguns setores
há escassez de mão-de-obra, como na construção
civil."
O ministro disse que, com a retomada, os estímulos fiscais estão
sendo desativados, a exemplo das isenções concedidas
a produtos de linha branca de eletrodomésticos (que terminam
neste fim de semana) e ao setor automobilístico (cujo prazo
vai até o fim de março).
"Nós não achamos que a economia precisa
mais da ajuda do Estado. Cabendo ressaltar que nós
só chegamos aqui com a ajuda do Estado", afirmou
o ministro. Apesar do dinamismo econômico, Mantega
diz que não há razão para crer em uma "bolha" de
crescimento. "Esses são prognósticos que
eu chamaria de apressados", disse. "Peraí,
o País está recuperando o que perdeu."
Outro assunto abordado por Mantega foi o controle dos bancos.
Segundo ele, "ainda há condições
políticas" de impor controles mundiais para frear
as atividades financeiras de alto risco e reduzir a vulnerabilidade
do sistema econômico."Eles (os bancos) não
gostam disso, é claro que cada um quer fazer o que
bem entende. Mas ficou provado que assim não funciona.
O setor financeiro, por sua natureza, precisa ser regulamentado",
disse.
O tema está suscitando uma divisão em meio
aos participantes do Fórum, entre os que apóiam
planos de impor restrições aos bancos — incluindo
o pacote recém-anunciado pelo presidente dos Estados
Unidos, Barack Obama — e os que acham que uma maior
regulação poderia interromper a já lenta
recuperação econômica.
Bolhas menores
Para o ministro brasileiro, a melhora na economia global
pode reduzir o "empenho" por reformas no sistema,
mas o tempo para essa tarefa ainda não foi perdido."O
ferro se malha enquanto está quente. Se esfria, fica
mais dificil. Quente é quando todo mundo está desesperado,
e daí fica todo mundo mais ousado. Quando as coisas
se normalizam, o pessoal perde um pouco o empenho",
afirmou.
"Mas se você olha para Europa e os Estados Unidos,
não se pode dizer que as coisas estão mais
satifatórias. Pode estar melhor para os bancos, mas
não para o resto da população, o que
causa conflitos políticos." "Então
ainda existem condições políticas para
impor ao sistema financeiro condições de maior
regulação", completou.
Mantega concordou com o raciocínio do megainvestidor
George Soros, para quem a mais recente crise econômica
foi a culminação de "bolhas menores",
causadas por 25 anos de crédito demasiadamente fácil
e negócios arriscados. "Com amenização
da crise, houve uma recomposição dos capitais
dos bancos e eles voltaram a operar. Mas voltaram aos velhos
hábitos e operações, inclusive de risco,
olhando sobretudo os lucros e bonus, e olhando menos a reativação
da economia com créditos", disse.
"Tanto que o crédito continua escasso, tanto
para setor privado e consumidores no mundo. Falta crédito,
mas os bancos voltaram a ter lucros e distribuir bônus
extraordinários."
Brasil Porém o ministro fez questão de dizer que "esta
situação não vale para o Brasil". Se o crédito
no país crescia a um ritmo de 32% ao ano em 2008 — "e
eu dizia na época que era demais", afirma Mantega, esse
ano deve crescer por volta de 20%, patamar que o ministro considera
apropriado.
Volume de capital
"No ano passado, cresceu uns 14%, o que foi pouco",
disse Mantega. "Agora está muito equilibrado,
muito tranquilo, o processo brasileiro", avaliou. No
mercado financeiro, que já tocou os patamares do início
da crise e voltou a cair, o ministro também não
vê possibilidade de uma bolha. "No Brasil, nós
acabamos com a festa quando colocamos o IOF (Imposto sobre
Operações Financeiras, que taxou em 2% o capital
externo na bolsa). Isto segurou a enxurrada. Essa enxurrada
de capital não houve."
Para Mantega, colocar em prática mecanismos de controle
de risco passam por limitar o volume de capital para operações
deste tipo, impor um teto de alavancagem e aumantar controle
sobre fundos de hedge e derivativos. "Isso já se
faz no Brasil. Apertamos o cerco. Falta fazer no exterior,
onde não podemos controlar. Mas temos de regulamentar."
A polêmmica sobre os incentivos fiscais também
mereceu comnentários do ministro do Planejamento,
Paulo Bernardo. Segundo ele, o governo avaliará a
redução de IPI), mas na opinião dele,
as desonerações podem ser revogadas."Se
houver alguma coisa comprovando que é necessário
manter, certamente o governo vai ter sensibilidade. Eu, particularmente,
acho que não precisa", disse o ministro. "Em
princípio, acho que não (precisa). A economia
está boa, as vendas estão boas."
Razão a Bernardo
Alguns dados dão razão a Bernardo. A pesquisa
semestral divulgada ontem, no Rio de janeiro, pela Associação
Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) revela que o
empresariado está otimista em relação
ao desempenho da economia nacional em 2010. Nenhuma companhia
trabalha com a perspectiva de desaceleração
do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma das riquezas
produzidas no país.
Cerca de 69,7% das empresas consultadas apostam que haverá um
crescimento do PIB nos seis primeiros meses do ano. A expectativa é de
aumento de 5% do PIB em 2010. A pesquisa apurou que 75,76%
dos entrevistados preveem que o número de empregos
será maior no primeiro semestre de 2010, em comparação
ao último semestre do ano passado.
O nível de emprego não será menor para
nenhuma empresa consultada, diz a sondagem. “É uma
coisa impressionante porque nenhuma empresa acusou redução
do nível de empregos, do volume de vendas ou viu possibilidade
de queda do crescimento do PIB”, afirmou o presidente
da Abrasca, Antonio Castro. Quase 70% das companhias abertas
planejam aumentar seus investimentos este ano, contra apenas
4% no início de 2009. “O retrato de um ano atrás
era de certa forma caótico”, analisou Castro.
Ele disse que o otimismo pode estar ligado a política
monetária bem sucedida do governo para o enfrentamento
da crise financeira internacional. “O Brasil reagiu
muito bem à crise. E sem dúvida, a administração
do Banco Central foi muito hábil em termos de disponibilização
de crédito, entre outros fatores. A política
monetária pesou muito, não há a menor
dúvida com relação a isso”, externou.
A demanda doméstica, que deverá crescer para
84,85% das companhias, gera ainda uma expectativa favorável
para as vendas neste início de ano: 81,8% das empresas
entrevistadas esperam volume maior de vendas no primeiro
semestre deste ano em relação ao semestre anterior.
A ameça do Copom
O otimismo contrasta com a política monetária
ditada pelo Banco Central (BC). O diretor do Departamento
de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp),
Paulo Francini, advertiu que uma nova escalada da taxa básica
de juros (Selic) este ano será "muito danosa
para a recuperação em curso da atividade industrial
brasileira" e para a formação bruta de
capital fixo (FBCF), leia-se, investimentos.
Segundo ele, não há nenhuma evidência
de que o Comitê de Política Monetária
(Copom) do BC precise elevar os juros no curto e médio
prazos, especialmente porque os índices de inflação
estão bem comportados, o nível de utilização
da capacidade instalada das indústrias apresenta folga
e não há nenhum choque externo ou interno de
oferta e demanda que requeira forte desaceleração
do nível de atividade nos próximos meses.
"Não há riscos que possam elevar os índices
de preços. Um ciclo de aumento de juros na atual conjuntura
pode provocar um aborto do processo de expansão dos
investimentos. Um aborto só ocorre quando há risco
de saúde. Ninguém o faz apenas com medo de
que algo ocorra (no futuro)."
Francini disse que os empresários em geral são
como animais cujo espírito empreendedor é movido
pela evolução da demanda do crescimento do
país. A afirmação foi uma alusão
ao economista John Maynard Keynes, que cunhou a expressão "espírito
animal".
Para Keynes, os empresários não investem apenas
pela perspectiva de lucro e avanço do consumo dos
produtos que fabricam, mas também pela expectativa
favorável de que o mercado venha a se tornar alvissareiro.
Com isso, investe para maximizar suas vendas e lucros alguns
meses adiante. "Fazemos parte de um tipo de matilha
que conhece muito mais de investimento do que o outro lado,
que está interessado por obter alta rentabilidade
com juros elevados", observa Francini.
Economia mundial
A Fiesp estima que o superávit da balança
comercial deve cair 78,4% em 2010, para a marca de US$ 5,5
bilhões, ante US$ 25,4 bilhões, em 2009. De
acordo com a Fiesp, as exportações devem subir
de US$ 153 bilhões para US$ 177,8 bilhões este
ano. Contudo, a recuperação do nível
de atividade, que deve gerar evolução do PIB,
contra queda de 0,4%, em 2009, para alta de 6% em 2010, levará a
uma retomada veloz das importações, pois a
entidade estima que elas subirão de US$ 127,6 bilhões
em 2009 para US$ 172,3 bilhões neste ano, contra US$
173 bilhões registrados, em 2008.
O saldo projetado para 2010 considera um câmbio médio
de R$ 1,75. Na avaliação do diretor do Departamento
de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini, é possível
que a redução da apreciação do
câmbio ocorrida nas últimas semanas melhore
o saldo comercial este ano: "Porém, é muito
incerto prever a cotação do real ante o dólar
para os próximos dois meses", ressalvou.
Outro fator que não deve incrementar de forma expressiva
as exportações é a modesta recuperação
da economia mundial: "O nível de atividade industrial
do Estado foi afetado em boa parte, porque a crise abalou
o mundo e isso reduziu as nossas importações,
sobretudo de manufaturados", afirmou Francini.
Emprego na indústria
A Sondagem Industrial da Confederação Nacional
da Indústria (CNI) mostra que o nível de capacidade
ociosa do setor subiu de 56,6 pontos, no terceiro trimestre,
para 58,1 pontos no quarto trimestre. A pesquisa usa uma
escala de 0 a 100, na qual valores superiores a 50 indicam
crescimento. A pesquisa mostrou ainda que, no quarto trimestre
de 2009, a indústria brasileira operava, em média,
a 77% de sua capacidade instalada ante os 73% do trimestre
anterior.
Apesar da evolução, a CNI ressalta, no entanto,
que o índice ainda não alcançou os 80%
do quarto trimestre de 2007. Segundo a Sondagem, o índice
que mede a expectativa para a demanda evoluiu de 59,9 pontos
no terceiro trimestre de 2009, para 62,9 pontos no último
trimestre do ano passado.
A expectativa para exportações subiu de 45,4
pontos no terceiro trimestre, para 47,8 pontos no quarto
trimestre. Apesar da evolução, o índice
continua abaixo dos 50 pontos. Ou seja, ainda não
atingiu patamar que indique crescimento. Já o índice
que mede o emprego na indústria subiu de 53,6 pontos
no terceiro trimestre, para 55,1 no quarto trimestre de 2009.
O indicador que mede a expectativa de compra de matérias-primas,
foi de 57,9 pontos para 59,8 pontos no mesmo período
de comparação.
Política monetária
Na política montaria, apesar das maeças do
copom, as previsões também são otimistas.
O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes,
previu que a despesa do setor público com juros, em
2010, será da ordem de 4,2% do Produto Interno Bruto
(PIB). Segundo ele, o efeito da redução de
cinco pontos percentuais da Selic (a taxa básica de
juros da economia) no ano passado começará a
ser sentido mais claramente a partir de agora.
Altamir mencionou, por exemplo, que a Selic média
em 12 meses passou de 10,4% em novembro para 9,9% em dezembro
de 2009. Em 2008, ela ficou em 12,5%. O técnico explicou
que o processo de renovação dos títulos
da dívida pública ao longo do tempo faz com
que a redução da despesa com juros não
seja tão rápida quanto foi a queda na taxa
Selic. O cenário de gastos com juros para 2010 leva
em conta a taxa de câmbio prevista pelo mercado, de
R$ 1,75.
Para ele, a perspectiva de cumprimento da meta fiscal em
2010, correspondente a 3,3% do PIB, vai contribuir para que
a dívida em relação ao PIB recue para
40% no fim do ano.
“ Isso demonstra que, do ponto de vista de solvência, não
há por que se preocupar”, disse Altamir. “A dinâmica
de dívida se mostra benigna, evidentemente, com o cumprimento da meta
de primário estabelecida”, acrescentou.
Fechamento de janeiro
O comportamento do câmbio é decisivo para a
relação entre o tamanho da dívida líquida
como proporção do PIB. Isso porque, quando
o dólar se desvaloriza frente ao real, os ativos em
moeda estrangeira — como as reservas internacionais — perdem
valor, elevando a relação entre endividamento
e produção de riquezas, que são calculados
em reais.
Em 2008, quando o dólar teve uma valorização
de 32% frente ao real, reflexo do agravamento da crise no último
trimestre daquele ano, a dívida líquida do
setor público atingiu o patamar de 37,3% do PIB. “Em
2009, o câmbio atuou em sentido contrário”,
disse Altamir. “Tivemos uma apreciação
cambial expressiva, que chegou a 26%, portanto, o efeito
foi contrário”, explicou.
Mas o crescimento de 5,7 pontos porcentuais entre 2008 e
2009 também foi influenciado por outros elementos.
Segundo Altamir, o déficit nominal mais acentuado
e a queda nas receitas contribuíram para essa piora.
A retomada da trajetória cadente da relação
dívida/PIB já foi verificada no início
de 2010. Segundo Altamir, dados preliminares indicam que
o endividamento líquido do setor público deve
ter atingido o equivalente a 42% do PIB no fechamento de
janeiro.
Com agências