Informativo Eletrônico n.º 1.596   -   Ano 05   -   Curitiba (PR), 07 de março 2010.




Carta Maior, 7 de março de 2010

Gilberto Maringoni: o que querem Globo, Folha e Veja?
Vale a pena refletir mais um pouco sobre os significados e consequências do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, realizado pelo Instituto Millenium em São Paulo, na segunda-feira, 1º de março.

Por Gilberto Maringoni, na Carta Maior

A grande questão é: por que os barões da mídia resolveram convocar um evento público para discutir suas ideias? Ta bom, vamos combinar. A R$ 500 por cabeça não é bem um evento público. Mas era aberto a quem se dispusesse a pagar.

No subsolo do luxuoso hotel Golden Tulip estavam o que se poderia chamar de agregados da Casa Grande dos monopólios da informação, como intelectuais de programa e jornalistas de vida fácil. Todos expuseram suas vísceras, em um strip-tease político e moral inigualável. Um espetáculo digno de nota. Nauseabundo, mas revelador.

Uma observação preliminar: os donos, os patrões, os proprietários enfim, tiveram um comportamento discreto e comedido ao microfone. Não xingaram e não partiram para a baixaria. Quem desempenhou esse papel foram os seus funcionários.

Nisso seguem de perto um ensinamento de Nelson Rockfeller (1908-1979), relatado em suas memórias. Quando resolveu disputar as eleições para governador de Nova York, em 1958, falou de seus planos à mãe, Abby Aldrich Rockefeller. Na lata, ela lhe perguntou: “Meu filho, isso não é coisa para nossos empregados?”.

Os patrões deixaram o serviço sujo para os serviçais. Estes cumpriram o papel com entusiasmo.

Objetivos do convescote

Os propósitos do Fórum não são claros. Formalmente é a defesa da liberdade de expressão, sob o ponto de vista empresarial. Quem assistiu aos debates não deixou de ficar preocupado. Aos arranques, os pitbulls da grande mídia atacaram toda e qualquer tentativa de se jogar luz no comportamento dos meios de comunicação.

Talvez o maior significado do encontro esteja em sua própria realização. Não é todo dia que os donos da Folha, da Globo e da Abril se juntam, deixando de lado arestas concorrenciais, para pensarem em táticas comuns na cena política nacional.

Um alerta sobre articulações desse tipo foi feita por Cláudio Abramo (1923-1987), em seu livro A Regra do Jogo, publicado em 1988. A certa altura, ele relata uma conversa mantida com Darcy Ribeiro (1922-1997), no início de março de 1964. “Alertei-o de que dias antes, o dr. Julinho [Mesquita, dono de O Estado de S. Paulo] havia visitado Assis Chateubriand [dos Diários Associados], e que aquilo era sinal seguro de que o golpe estava na rua. Porque a burguesia é muito atilada nessas coisas, não tem os preconceitos pueris da esquerda. Na hora H ela se une”.

Pois no Instituto Millenium estavam unidos Roberto Civita [Abril], Otávio Frias Filho [Folha] e Roberto Irineu Marinho [Globo]. Sem mais nem porquê.

Não se pode dizer que a turma resolveu botar o golpe na rua. Mas é sintomática a realização do evento quase no mesmo dia em que a candidatura de Dilma Roussef empatou com a de José Serra, de acordo com o Datafolha. Ou que ele aconteça quando os partidos conservadores – PSDB e DEM – estejam às voltas com crises sérias.

O que isso quer dizer? Quer dizer que as representações institucionais da direita brasileira estão se esfarelando. Seu candidato não sabe se vai ou se não vai. Apesar de o governo Lula garantir altos ganhos ao capital financeiro, deixando intocada a política econômica neoliberal, este não é o governo dos sonhos da plutocracia pátria. Elas não suportam conviver com a ala popular, minoritária na gestão do ex-metalúrgico. Deploram a política externa, a não-criminalização dos movimentos sociais e a possibilidade de um governo Dilma acatar indicações das várias conferências temáticas realizadas nos últimos anos, como a de Direitos Humanos e a de Comunicação (Confecom).

Incômodo com a Confecom

Falar nisso, há um nítido incômodo com os resultados da Confecom. A grande mídia não tolera que o tema da democratização das comunicações tenha entrado na agenda nacional.

A reação a tais movimentações sociais tem mudado substancialmente a imprensa brasileira. Para pior, vale sublinhar. Para perceber isso, vale a pena fazer uma brevíssima recuperação histórica.

Nos anos anteriores a 1964, a grande mídia – O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo e Diários Associados, entre outros – tornou-se propagandista e operadora do golpe militar. Colheu desgaste e sofreu censura, anos depois.

O primeiro órgão a notar que, para viabilizar seus propósitos empresariais, necessitava mudar de comportamento foi a Folha de S.Paulo. Com um jornal sem importância antes até o inícios dos anos 1970 e acusado de auxiliar o aparato repressivo da ditadura, seus proprietários perceberam que para mudar sua inserção no mercado valeria a pena abrir páginas para a oposição democrática.

O projeto editorial de 1984 do jornal dizia o seguinte:

“ A Folha é o meio de comunicação menos conservador de toda a grande imprensa brasileira. (...) É com certeza o que encontra maior repercussão entre os jovens. Foi o que primeiro compreendeu as possibilidades da abertura política e o que mais se beneficiou com ela, beneficiando a democratização. É o jornal pelo que a maioria dos intelectuais optou. É o mais discutido nas escolas de comunicação e nos debates sobre a imprensa brasileira”.

Ou seja, percebendo que a democratização lhe granjeava dividendos comerciais, o jornal deu espaço para lideranças, intelectuais e temas identificados com a mudança, em tempos finais da ditadura.

Topo da pirâmide

Vinte e três anos depois, em 11 de novem,bro de 2007, a Folha publicaria uma pesquisa sobre seu público, intitulada “Leitor da Folha está no topo da pirâmide social brasileira”. Logo na abertura, a matéria destaca:

“ O leitor da Folha está no topo da pirâmide da população brasileira: 68% têm nível superior (no país, só 11% passaram pela universidade) e 90% pertencem às classes A e B (contra 18% dos brasileiros). A maioria é branca, católica, casada, tem filhos e um bicho de estimação”.

Saem de cena os “os intelectuais”, “os debates sobre imprensa brasileira” e entram os endinheirados. Do ponto de vista empresarial é isso mesmo. Jornal tem de vender e veicular anúncios a quem tem alta capacidade de consumo.

Mas para atender a essa lógica, movimentações editoriais são feitas. Ao invés de se priorizar um limitado pluralismo anterior, passam-se a criar cadernos e atrações voltados para os novos desígnios do público. E a linha editorial e os colunistas passam a ser cada vez mais conservadores.

A Folha beneficiou-se e soube utilizar em proveito próprio do formidável impulso democrático da sociedade brasileira dos anos 1980. Quase três décadas depois, percebe que a continuidade desse movimento não lhe interessa. E se insurge contra ele, com seus pares empresariais, entrando de cabeça nos fóruns do Instituto Millenium.

Golpe em marcha?

Articulações desse tipo são geralmente danosas à democracia. Sempre que ficam carentes de representações, as classes dominantes (chamemos as “elites” por seu nome real) entram no jogo institucional de forma truculenta e atabalhoada. Buscam impor sua vontade a ferro e fogo, uma vez que as regras do convívio político não lhes interessam mais. Seus impulsos são sempre pela ruptura dessas regras. Pelo golpe.

Foi o que aconteceu na Venezuela, em 2002. Com a falência dos partidos de direita e com a avassaladora legitimidade do governo Hugo Chávez, as oligarquias locais – em associação com a Casa Branca, com a cúpula das forças armadas e com a grande mídia – partiram para a ignorância. E se deram mal.

Não é pouca coisa a afirmação do ex-filósofo Roberto Romano, durante o Fórum do Instituto Millenium: “O aspecto ditatorial do Plano Nacional dos Direitos Humanos passaria em branco, não fosse o descontentamento manifestado pelos militares”. Logo quem o professor de Ética (!) invoca como paladinos da democracia...

A tática golpista vingará por aqui? Pouco provável, pois seus defensores encontram-se isolados. O destempero exibido por alguns palestrantes durante o evento – notadamente Romano, Jabor, Reinaldo Azevedo, Marcelo Madureira, Sidnei Basile, Denis Rosenfield e Demetrio Magnoli – é uma patente demonstração de seu reduzido apoio social.

No entanto, não se pode subestimar essa turma. Como interpretar a delirante intervenção de Arnaldo Jabor, ao dizer que “a questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”? Como chegar a tal objetivo se não pela quebra da democracia?

* Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP)




Blog Escrevinhador, 7 de março de 2010
Rodrigo Vianna: DEM já vê Dilma como "franca favorita"
O DEM não se preocupa só com os panetones de Arruda — o governador preso teria em mãos um dossiê que pode comprometer a cúpula do partido.

Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador

O DEM não se preocupa só com a queda de popularidade de Kassab — o prefeito chafurda nas enchentes, enquanto sua subprefeita tira onda de garota gostosa nas páginas de Playboy.

O DEM tem preocupações ainda maiores com o quadro político nacional. Análise que circula, de forma reservada, na cúpula da legenda traz previsões ruins para os interesses do partido.

O texto de Saulo Queiroz (tesoureiro do partido) prevê vitória fácil de Dilma contra Serra, e defende que a oposição aposte em Aécio — não para ganhar agora, mas para garantir um nome competitivo em eleições futuras.

A análise ganhou destaque no Blog do Favre:

" No documento, Saulo, que também já integrou a direção do PSDB, faz uma análise das eleições em todas as regiões do país e nos estados do Sudeste, e conclui: ‘Dilma é franca favorita na disputa contra Serra’. Prevê um ‘arraso’ da candidatura Dilma-Lula no Rio.

Atribui à petista uma vantagem ‘na casa de 20% em Minas’: ‘Dilma é mineira, atiçará a mágoa pelo fato de Aécio ter sido preterido pelo Serra, mais um paulista’. Saulo também não crê em vitória se o candidato for Aécio, mas nesse caso argumenta: ‘Aécio terá assegurado um grande recall para pleitos futuros. É a vantagem dos seus 49 anos… Em 2014 Serra terá 72 anos’.

‘O processo de encarnação de Lula em Dilma está em pleno andamento e tende a se completar ao longo do período eleitoral” — diz Saulo Queiroz, tesoureiro do DEM."

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P.S.: Uma leitura menos descuidada de minha parte revela que o Blog do Favre, na verdade, reproduziu informação originalmente publicada por Ilimar Franco, em O Globo — o que não diminui em nada a informação.





Agência Diap, 7 de março de 2010
MTE concede registro à Fites; dos trabalhadores em entidades sindicais
Foi publicado, nesta sexta-feira (5), o registro sindical da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Entidades Sindicais (Fites).

São filiados à Federação os sindicatos do Distrito Federal, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Rondônia, Goiás e Maranhão.

A Federação foi criada em 2003 e desde então tem desenvolvido um trabalho de organização nacional da categoria.

Uma das ações de maior destaque foi a conquista obtida com a sanção da Lei 11.295/06, que modificou o artigo 526 da CLT e assegurou o direito de organização dos trabalhadores em entidades sindicais.

Segundo o artigo 526 da CLT, "os empregados do sindicato serão nomeados pela diretoria respectiva ad referendum, da Assembléia Geral, não podendo recair tal nomeação nos que estiverem nas condições previstas nos itens II, IV, V, Vl, VII e VlIl do artigo 530 e, na hipótese de o nomeador haver sido dirigente sindical, também nas do item I do mesmo artigo. (Redação dada pelo Decreto-lei 925, de 10.10.1969)

A conquista do registro sindical representa um marco na organização dos trabalhadores em entidades sindicais e um importante momento para o movimento sindical brasileiro.



MTE, 7 de março de 2010
Número de mulheres no mercado de trabalho cresceu 40,9% em 7 anos
Dados da Rais mostram aumento da participação feminina acima da média masculina. Mais de 16 mi delas, que comemoram, segunda-feira (8), Dia Internacional, estão no mercado de trabalho formal no Brasil

Entre 2002 e 2008, 4.788.023 mulheres assumiram postos no mercado de trabalho formal em todo o Brasil. O volume, que equivale à soma das populações de Fortaleza (CE) e Belo Horizonte (MG) mostra que as empresas estão abrindo suas portas para a mão-de-obra feminina.

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2002 havia 11.418.562 mulheres trabalhando formalmente no país; em 2008 o número chegou a 16.206.585, crescimento de 40,9% no período. Entre os homens, o crescimento foi de 34,5%: de 17.265.351 milhões em 2002 para 23.234.981 em 2008.

E o número de mulheres - que comemoram seu Dia Internacional nesta segunda-feira, 8 de março - no mercado de trabalho tem crescimento contínuo, não sazonal, conforme apontam os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do MTE.

Em 2003 havia 11,8 milhões delas formalmente empregadas, em 2004 12,5 milhões, em 2005 13,4 milhões, em 2006 havia 14,2 milhões e em 2007 15,3 milhões.

Em relação aos rendimentos, a faixa etária que atualmente apresenta a melhor remuneração, segundo a Rais, é entre 50 a 64 anos, com média de R$ 1.757,51, seguida de 65 anos ou mais, com R$ 1.713,77 e 40 a 49 anos, R$ 1.594,43.

Na comparação entre estados e setores de ocupação, o estado do Amazonas obteve a maior remuneração para a mulher, no setor de Extração Mineral, com R$ 8.755,23; seguido pelo Rio de Janeiro, com R$ 7.849,80; e Sergipe, com R$ 6.113,08.

O setor de Serviços e Indústria de Utilidade Pública também tem se mostrado auspicioso para as mulheres: o Distrito Federal rendeu a melhor remuneração do país para as mulheres neste setor, com R$ 4.812,18; seguido do Piauí, com R$ 3.499,61; e Rondônia, com R$ 3.349,18.

Licença-maternidade

Instituída desde 1943, a licença-maternidade é garantida pelo artigo 7º, inciso XVII, da Constituição Federal. No início, a licença-maternidade era de apenas 84 dias, mas muitos empresários demitiam suas funcionárias nesse período, devido aos altos custos com as despesas.

O passar dos anos foi marcado pelas conquistas das mulheres em termos de liberdade e espaço profissional. Os movimentos sindicais, inclusive, começaram a se mobilizar para garantir mais direitos para a mulher e o próprio governo foi buscando novas soluções.

A mais recente delas foi a ampliação da licença-maternidade de 120 para 180 dias. A aprovação da Lei 11.770 passou a valer para o setor público desde setembro do ano passado e também beneficiará o setor privado a partir de 2010, de forma facultativa.

Os estabelecimentos que abraçarem essa idéia farão parte do Programa Empresa Cidadã, onde poderão deduzir de seu imposto o total da remuneração paga à funcionária no período adicional.

No caso da empregada celetista, deverá haver um acordo com a empresa, já que é uma lei facultativa para o setor privado. Durante a licença, a empresa pagará diretamente à mãe a remuneração integral, mas esta, por sua vez, não poderá colocar a criança na creche nesse período.

Como proceder

O primeiro passo para a empregada requerer seu direito é, mediante atestado médico, notificar o seu empregador a data do início do afastamento do emprego.

As mães adotivas, contribuintes individuais, facultativas e empregadas domésticas têm que requerer o benefício, que varia de acordo com a condição de cada empregada, nas Agências da Previdência Social ou no sítio da Previdência Social. (Fonte: MTE)




ES Hoje, 7 de março de 2010
Dieese: pelo menos 15% das domésticas têm ensino médio completo
Por Redação Multimídia ES Hoje

Apesar do predomínio de trabalhadoras menos escolarizadas entre as empregadas domésticas, a participação daquelas com ensino médio completo ou superior incompleto fica próxima de 15% em Recife e Porto Alegre, de 17% em Fortaleza e Belo Horizonte e ultrapassa 20% em São Paulo, Salvador e Distrito Federal.

Apesar do predomínio de trabalhadoras menos escolarizadas entre as empregadas domésticas, a participação daquelas com ensino médio completo ou superior incompleto fica próxima de 15% em Recife e Porto Alegre, de 17% em Fortaleza e Belo Horizonte e ultrapassa 20% em São Paulo, Salvador e Distrito Federal.

Os números referentes ao ano passado constam em uma pesquisa do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e da Fundação Seade divulgada, na última quinta-feira (4), sobre as características do trabalho doméstico remunerado.

Além de apontar a melhora do nível de escolaridade da população, o dado indica, segundo as entidades, uma importante diferenciação entre as ocupações exercidas nos chamados serviços domésticos.

A tendência é de expansão da participação de ocupações que são exercidas por pessoas com maior grau de instrução, como babás e acompanhantes de idosos.

A pesquisa engloba também cozinheiras, governantas, lavadeiras, vigias, motoristas, jardineiros e caseiros, entre outros.

A pesquisa detectou ainda a proporção de famílias chefiadas por mulheres, variando entre 27,2% no Distrito Federal e 35,3% em Porto Alegre.

A maior parte das empregadas exerceu o trabalho como mensalista, representando proporções acima de 67% em todas as regiões metropolitanas analisadas - as diaristas possuem uma situação mais instável e precária já que não têm direito a férias e não recebem se ficarem doentes.

Tempo

O tempo médio de permanência no emprego foi alto em todas as regiões pesquisadas. O menor período (3 anos e 11 meses) foi encontrado em Fortaleza e o maior, em Belo Horizonte (5 anos e 4 meses).

As maiores jornadas foram verificadas nas regiões metropolitanas do Nordeste, com 54 horas semanais em média, em Recife, 50 horas semanais, em Fortaleza, e 45 horas, em Salvador.

O valor por hora médio obtido pelas diaristas chegou a ser 47,2% maior do que o das mensalistas no ano passado em Fortaleza e 38,3% superior no Distrito Federal.

A análise, no entanto, desconsidera outros benefícios que as mensalistas com carteira assinada podem ter, como descanso semanal remunerado, férias e 13º terceiro salário.



Gazeta do Povo, 7 de março de 2010
Desigualdade
O verdadeiro peso do Bolsa Família
Programa tem menos impacto na redução da pobreza do que outros de transferência de renda como a Previdência Rural

Brasília - Ao contrário do que o governo costuma divulgar, o Bolsa Família, apesar de ser uma importante ferramenta de combate à pobreza, não é o maior e mais importante programa de distribuição de renda do país. Os programas de transferência de renda garantidos pela Cons­tituição de 1988 – como a Previdência Rural e o Benefício de Prestação Continuada (BPC-Loas) – têm um impacto mais significativo na redução da pobreza. O terceiro em impacto social é o Bolsa Família.

Atualmente, 12,6% da população brasileira vive em situação de indigência (renda inferior a ¼ do salário mínimo) e outros 32% em situação de pobreza (renda menor do que meio salário mínimo). Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, se fosse retirado o Bolsa Família dessa conta, a indigência saltaria para 13,9% e a pobreza para 33%.

Mas a situação fica muito pior quando o cálculo desconsidera não só o Bolsa Família como também benefícios previdenciários e o BPC. Nesse caso, a indigência e a pobreza passariam a representar 23,4% e 43,7% da população brasileira, respectivamente. “Isso mostra que a Previdência Social e o BPC conseguem retirar uma parcela maior da população da indigência, permitindo uma mobilidade maior do que o Bolsa Família”, afirmou a pesquisada do Ipea, Luciana Jaccoud.

Funrural

A Previdência Rural foi criada ainda no regime militar, em 1971, com o nome de Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), que anos depois passou a atender também os pescadores (1972) e os garimpeiros (1975). Era quase uma esmola, sem impacto na redução de pobreza e transferência de renda porque pagava benefícios de apenas meio salário mínimo ao cabeça do casal, com 65 anos. As pensões eram limitadas a 30% do benefício.

A Constituição de 1988 aprovou e o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) pôs em prática a universalização previdenciária com a ampliação dos benefícios para um salário mínimo, acesso de homens e mulheres idosos à Previdência Rural e redução da idade de aposentadoria (60 para homens e 55 para mulheres).

Os benefícios pagos pela Previdência Rural e o BPC-Loas lideram o volume de recursos destinados pelo governo para reduzir as desigualdades. Só no ano passado foram mais de R$ 40 bilhões desembolsados para pagamento de mais de 11 milhões de benefícios. Esse valor corresponde, sozinho, a todo o déficit da Previdência Rural em 2009. Isso porque, a contribuição paga pelos trabalhadores rurais com base na produção é insuficiente para bancar as aposentadorias.

Somente com o o BPC-Loas, que está incorporado às contas do Instituto Nacional do Serviço Social (INSS), é liberado R$ 1,4 bilhão para atender 3,1 milhões de pessoas. Recebem o BPC 1,5 milhão de idosos com mais de 65 anos e 1,6 milhão de pessoas com deficiência. No caso do Bolsa Família, está prevista a liberação de R$13,1 bilhões para atender 12,9 milhões de famílias neste ano. Em 2009, foram gastos R$12,4 bilhões.

Mudar de patamar

Para o secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, os programas têm focos diferentes, mas os três têm impacto relevante na diminuição das desigualdades. “A taxa de pobreza entre os idosos é de algo em torno de 10%. Eles estão comparativamente bem em relação à sociedade”, disse Schwarzer.

E a justificativa é simples. No caso da Previdência Social – maior parte dos benefícios pagos é para o trabalhador rural – e BPC, o valor do benefício corresponde a um salário mínimo (R$510). Já no Bolsa Família, essa assistência varia de R$ 22 a R$200. “Quem recebe a Pre­vidência Rural e BPC tem mais condições de mudar de patamar. Com essa determinação constitucional, o índice de pobreza entre os idosos é extremamente baixo. É um ganho social enorme para o país”, destacou a pesquisadora Luciana Jaccoud.

Apesar de ter um peso menor na redução das desigualdades, Luciana explicou que o Bolsa Família também é um programa fundamental porque atende um público diferenciado, famílias com crianças que vivem em situação de extrema pobreza. “Contempla um público que está excluído das determinações constitucionais”, disse.



Gazeta do Povo, 7 de março de 2010
Trabalho
Troca de funcionários chega a 40% ao ano
Levantamento mostra que dificuldade em segurar mão de obra é maior quando a economia está aquecida

De cada 100 funcionários que iniciam o ano em uma empresa, mais de 40 são substituídos ao longo de 12 meses. A alta rotatividade, mostra uma pesquisa recente da seção paranaense da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-PR), é um dos maiores problemas enfrentados pelos departamentos de RH. A dificuldade em segurar a mão de obra é maior quando a economia está aquecida, como no primeiro semestre de 2008, e se concentra nas funções que exigem menor qualificação.

A pesquisa da ABRH-PR ouviu 101 empresas e apurou que elas tiveram uma rotatividade média anual de 42,9% em 2008. O porcentual, considerado alto por especialistas, é similar ao mostrado por pesquisas nacionais e é apontado como uma variável que eleva os custos com seleção e treinamento de pessoal. Esse problema se soma a outra constatação da pesquisa: a retenção de funcionários por mais de 90 dias está em 90% – ou seja, 10% dos contratados não passam do período de experiência. “Há um desperdício de tempo e dinheiro. Muitas empresas pecam na seleção, o que fica claro no indicador de retenção, e depois na estratégia para manter os que ficam na companhia”, analisa Sônia Gurgel, presidente da ABRH-PR.

A Exal, uma empresa de alimentação empresarial com sede em Curitiba, começou a lidar com esse desperdício há oito anos. Na época, a rotatividade era de 7% ao mês e a companhia decidiu que precisava atacar o problema. “O índice até estava abaixo da média do segmento, que é de 10%, mas não estávamos satisfeitos”, lembra Anderson Ribas de Pontes, coordenador de recursos humanos. “Investimos em treinamento dos gestores para que eles aprendessem a fortalecer as equipes. Também fizemos o possível para nosso pacote de benefícios ser atraente e conhecido pelos funcionários”, conta.

A estratégia deu resultado e hoje a rotatividade está em 4% ao mês, mesmo em um momento de crescimento do quadro de funcionários e em um mercado aquecido – nos últimos três anos, a Exal contratou 250 pessoas e tem hoje 700 colaboradores. “Temos funcionários com oito, dez anos de casa, e tentamos valorizá-los. Nossa meta é chegar a uma rotatividade de 2%”, diz Pontes.

A rotatividade é natural dentro de qualquer companhia – por questões de carreira, adaptação ou de demandas do mercado, as pessoas mudam de emprego durante a vida produtiva, o que provoca uma troca de experiências que é saudável para as organizações. Ela se torna um problema, no entanto, quando é rápida e não permite a consolidação de uma cultura dentro da empresa. “Valores, conhecimento e cultura ajudam no desempenho das companhias, mas só se formam com o tempo. O giro de pessoas, mesmo que nas funções mais simples, atrapalha no desenvolvimento de uma estratégia empresarial”, explica Sônia.

Liderança

Apesar de a rotatividade ser maior entre funcionários com pouca qualificação, é preciso olhar para o topo da hierarquia da organização para solucionar o problema. “As empresas no Brasil têm a cultura de focar no resultado e, para isso, colocam em primeiro lugar a capacitação técnica”, diz a especialista em gestão de recursos humanos Nancy Malschitzky, professora da FAE Centro Universitário. “Quando isso acontece, o fato de as pessoas serem a fonte dos resultados fica em segundo plano. É preciso enfatizar a capacitação para lidar com pessoas.”

A identificação e treinamento de lideranças capazes de criar laços de confiança em suas equipes é uma das sugestões dos especialistas para superar a rotatividade. O conselho vale para empresas de todos os portes e todos os níveis hierárquicos. Tanto supervisores de chão de fábrica quanto executivos precisam acomodar demandas e expressar com clareza o que esperam dos funcionários. “Hoje muitas empresas têm dificuldade em fazer isso com as gerações mais novas, que querem mudanças mais rápidas e são mais curiosas”, conta Nancy.

Método está disponível

Para as empresas interessadas em fazer uma comparação com companhias do mesmo setor, a ABRH-PR e a Bachmann & Associados deixam à disposição em seus sites na internet a metodologia usada na pesquisa referente a 2008. Ela mede, além da rotatividade e da retenção por mais de 90 dias, itens como absenteísmo, grau de escolaridade, taxas de acidentes e de afastamento médico, entre outros. A associação também está organizando a pesquisa referente a 2009, e ainda aceita a adesão de empresas que queiram fornecer seus dados para o levantamento.





Gazeta do Povo, 7 de março de 2010
Rotatividade
Problema varia conforme o setor
A rotatividade tende a ser maior em funções de baixa capacitação, nas quais os salários são menores, e se acelera em momentos de maior aquecimento do mercado de trabalho. O indicador mensal de rotatividade da mão de obra apresentado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho passou por uma fase de aceleração no primeiro semestre de 2008, antes de a crise abalar as contratações. O índice médio naquele ano foi de 4,42%, meio ponto porcentual acima do visto em 2007, refletindo a maior oferta de vagas até outubro. No ano passado, o indicador voltou a recuar. Segundo os dados do Caged, os setores com maior rotatividade são a construção civil e o varejo – área que ficou em primeiro lugar na pesquisa da ABRH-PR referente a 2008.

Na prática, os indicadores de rotatividade servem para que as empresas guiem suas ações. Segundo Dorian Bachmann, da consultoria Bachmann & Associados, que organizou a pesquisa da ABRH-PR, os departamentos de recursos humanos precisam ficar atentos ao comportamento de empresas do mesmo segmento para entender melhor seus próprios indicadores. “Notamos, por exemplo, uma rotatividade muito alta no setor de varejo. Mas parece que é uma área que naturalmente convive com um índice alto. Já na área de educação, que depende muito da capacitação dos profissionais, o indicador tende a ser mais baixo”, explica. No setor de educação, a empresa com maior rotatividade na pesquisa apresentou uma taxa anual de 53%, contra uma média de 31%. “É um ponto de partida importante para essa empresa analisar o que está ocorrendo.”

Inserido em um dos segmentos com maior rotatividade, o da construção civil, o diretor da Nakid Construções, Nelson Elias Nakid, diz encontrar dificuldade em segurar profissionais que já estão em falta, como carpinteiros, pedreiros de acabamento e operadores de equipamentos. “Tentamos inventar maneiras de dar algum benefício a mais, um vale alimentação melhor, um salário um pouco melhor. Mas muita gente troca de trabalho por pouca coisa e temos uma limitação muito grande por causa dos encargos.”

Na rede de hotéis Mabu, que tem 400 funcionários e opera em outro segmento com rotatividade alta, a estratégia foi melhorar o processo de seleção e admissão. “Isso aumenta as chances de adaptação dos funcionários, que desde o começo precisam saber que queremos que eles cresçam na empresa”, comenta Denise Mauad Abujamra, diretora de recursos humanos do Mabu. Ela conta que também são feitos programas de treinamento das chefias para melhorar a gestão das equipes. “Temos vários casos de pessoas que passaram de mensageiros a gerentes.”





Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010
Lula impõe aliança com o PMDB em MG para eleger Dilma
Presidente comunica Fernando Pimentel e Patrus Ananias que eles devem buscar composição na chapa de Hélio Costa

Apesar de roteiro para o apoiar a candidatura do ministro já estar traçado, petistas manterão discurso de que são pré-candidatos

VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O presidente Lula avisou os petistas mineiros que, em nome do projeto de fazer Dilma Rousseff sua sucessora, irá apoiar a candidatura do ministro peemedebista Hélio Costa (Comunicações) ao governo. Segundo a Folha apurou, Lula pediu aos dois pré-candidatos do PT em Minas, o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), que montem estratégia para fazer aliança com o PMDB mineiro, indicando o nome do vice na chapa de Hélio Costa.

Pimentel, favorito para ser um futuro candidato do PT no Estado, foi convocado recentemente para uma conversa com Lula. Na ocasião, o presidente disse que precisava dele na campanha da ministra Dilma e que ele deveria desistir da disputa pelo governo mineiro. Em uma das conversas com o ex-prefeito, Lula chegou a dizer em tom de convocação: "Se você quiser jogar o Campeonato Mineiro, tudo bem, mas a Copa do Mundo é aqui".

Pimentel e Patrus sabem, porém, que não podem simplesmente desistir da candidatura petista em Minas. Publicamente, vão continuar reafirmando que ainda são candidatos, mas o roteiro para a aliança com o PMDB já está traçado. Os grupos dos dois já acertaram que farão uma escolha entre Pimentel e Patrus até o final de abril. O ministro prefere que a definição seja em março, com base em pesquisas. No caso, o ex-prefeito deve ser o escolhido, pois leva vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

O segundo passo, então, seria o congresso petista em Minas, que definiria a posição do partido na eleição estadual. Ele já foi, estrategicamente, adiado de abril para maio. Antes dele, PT e PMDB, seguindo determinação de Lula, vão sentar para definir uma aliança e quem seria o cabeça de chapa. Os dois partidos elaboraram um modelo, com base em dados de pesquisas, para definir o melhor candidato.

Segundo relato de petistas e peemedebistas ouvidos pela Folha, a tendência é que Pimentel e Hélio Costa fiquem empatados. Aí, caberia ao presidente Lula dar a palavra final. Decisão que já estaria tomada em favor do peemedebista. Dentro do PT, ainda há uma última esperança de o presidente mudar de ideia e defender uma candidatura petista em Minas. Bastaria Dilma abrir uma diferença em relação a José Serra nas pesquisas para Lula ser convencido de que poderia forçar o PMDB a inverter o jogo: apoiar um petista em MG.

No comando da campanha de Dilma, porém, a desistência de Pimentel é dada como certa. Se dependesse somente dele, o ex-prefeito manteria sua candidatura. Mas reconheceu nos últimos dias a aliados que deve realmente optar por integrar a equipe de campanha.

Esse cenário já é dado como certo também no PSDB. O governador Aécio Neves disse nos últimos dias a interlocutores que foi informado de que Pimentel, seu aliado na última disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, não será candidato.

Para Aécio, essa é a melhor composição. Segundo ele, Pimentel seria um candidato mais forte, pois poderia se lançar com o apoio de Lula e Dilma, além de ter trânsito com os tucanos do Estado.

Dentro do PMDB, há quem defenda o nome de Patrus como vice, mas ele dificilmente aceitaria. Seu caminho deve ser a disputa pelo Senado, caso José Alencar não dispute a eleição, ou a permanência no ministério até o fim do governo. O deputado federal petista Virgílio Guimarães é citado como possível vice de Costa.



Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010
PSDB tenta impedir queda de Serra em SP
Partido convoca força-tarefa para deter desgaste do governador paulista em sua base eleitoral e impedir avanço petista

Tucano participou ontem da Festa da Uva, em Caxias do Sul; ele falou com eleitores e teve de desfilar ao lado da governadora Yeda Crusius

DA REPORTAGEM LOCAL

O PSDB de São Paulo convocou uma força-tarefa com a missão de estancar a queda do potencial candidato do partido à Presidência, José Serra, e ampliar sua vantagem sobre a petista Dilma Rousseff no Estado. O grupo -composto por 47 coordenadores regionais- terá sua primeira reunião amanhã.

Segundo o presidente do diretório paulista, Mendes Thame, a intenção é "definir uma estratégia de ação para o buraco negro que vai de 2 de abril até junho". Mas não é só: o partido quer unificar o discurso de combate à candidatura Dilma. De acordo com textos que já estão sendo discutidos pelo partido, o PSDB deverá explorar medidas propostas pelo PT -como controle de conteúdo de TV e proibição de símbolos religiosos em repartições públicas- para falar em ameaça às liberdades individuais.

Outro argumento será o de que, desconhecida, Dilma será refém de petistas como o ex-ministro José Dirceu. Segundo Thame, a coordenação de campanha no Estado tem como meta garantir que Serra vença as eleições em São Paulo com diferença superior à obtida pelo ex-governador Geraldo Alckmin contra Lula em 2006: um milhão de votos. Os tucanos sonham com uma margem de 4 milhões de votos.

Com a tarefa de evitar a queda de Serra, o PSDB de São Paulo decidiu antecipar, para o fim deste mês, as inserções na TV que seriam em junho. No último Datafolha, o tucano caiu de 41% para 38% na Região Sudeste, enquanto Dilma subiu de 19% para 24%.

Essa mobilização serviria de antídoto para o impacto das enchentes no Estado e para as crises enfrentadas pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), como o anúncio do aumento do IPTU e das tarifas de ônibus e a recente cassação (atualmente suspensa).

Festa da uva

Ontem, Serra encerrou uma semana em que já ensaiou uma agenda de candidato visitando a Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS). Aparentando certo constrangimento ao lado da governadora tucana Yeda Crusius, que enfrentou uma CPI por denúncias de corrupção em seu governo, Serra posou para fotos ao lado das Princesas da Uva e conversou com eleitores.

Um militante do PSDB observou que, na campanha, Serra terá de viajar muito. "Claro!", anuiu o tucano. A uma mulher que se identificou como sua eleitora e perguntou o que ele fará, se eleito presidente, para os deficientes físicos, ele respondeu: "Veja o que eu fiz em São Paulo". Quando uma jornalista quis saber o que espera do eleitorado gaúcho, Serra disse: "Que continue combativo".


Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010
Escassez de terreno trava Minha Casa, Minha Vida
Dificuldade é sentida principalmente em grandes cidades, que têm preços mais altos

Da meta inicial de 1 milhão de casas a serem construídas até o fim deste ano, apenas 327 mil unidades já tiveram os seus contratos assinados

FELIPE BÄCHTOLD
DA AGÊNCIA FOLHA

Uma das principais bandeiras do governo Lula, o programa Minha Casa, Minha Vida enfrenta dificuldades para ser executado em capitais por falta de terrenos para a construção de casas. Devido ao alto custo dos lotes em metrópoles, construtoras e prefeituras não conseguem achar áreas, e os planos acabam transferidos para municípios periféricos.

Florianópolis (SC), que não teve unidades do programa construídas ainda, e Vitória (ES) flexibilizaram leis municipais para viabilizar os projetos. Na faixa de renda familiar de até três salários mínimos -principal foco do programa-, o custo do imóvel pode ser de até R$ 52 mil. Estados e municípios consideram o valor baixo para custear habitação popular. Passado quase um ano do lançamento do programa, foram contratadas (mutuários ou construtoras já assinaram contratos) 327 mil unidades no país -a previsão inicial do programa é construir 1 milhão de casas até o fim de 2010.

Algumas das cidades apontadas como mais problemáticas são Belo Horizonte e São Paulo. Na capital mineira, até agora não foi contratada nenhuma unidade na faixa de renda familiar até três salários mínimos. As vizinhas Contagem e Betim, juntas, já somam 952.

Em Florianópolis, segundo a Secretaria Municipal da Habitação, áreas já mapeadas "ou são muito caras ou são inviáveis do ponto de vista ambiental ou o proprietário não está interessado" em vender. O governo da Bahia diz que "somente agora" conseguiu superar o problema de disponibilidade de terrenos em Salvador. "A gente sabia de antemão que na região metropolitana, principalmente em Salvador, iria ter dificuldade para achar", diz Liana Viveiros, superintendente da Habitação. Ela atribui a dificuldade à "própria configuração geográfica" do município.

A Prefeitura de Vitória conseguiu na Câmara Municipal mudanças na legislação que regulava índices de aproveitamento do solo -a porcentagem máxima de área que uma construção pode ter dentro de um terreno. "A gente simplificou alguns índices para reduzir o custo", diz o secretário municipal de Habitação, Sérgio Sá.

De acordo com ele, municípios vizinhos, com espaço territorial muito maior, devem receber mais unidades. Florianópolis, que fica em parte localizada em uma ilha, quer mudar a legislação para que construções de quatro pavimentos sejam permitidas em áreas onde só as de dois são autorizadas. A justificativa também é a de viabilizar economicamente as moradias.

Mais terrenos

Segundo o Ministério das Cidades, responsável pelo Minha Casa, Minha Vida, se o programa se desenvolve com mais velocidade em cidades de regiões metropolitanas, isso ocorre porque lá há "propostas articuladas pelo setor público ou privado", e não por migração de projetos.

Para o presidente da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação) da Prefeitura de São Paulo, Ricardo Pereira Leite, as outras cidades da Grande SP têm mais facilidade para tocar projetos do tipo porque "têm mais terrenos". "São mais longe [do centro urbano] e são mais baratos", afirma.

Segundo ele, a saída para municípios como São Paulo, que estão com o espaço físico quase todo ocupado, é tornar as construções mais "verticalizadas". Hoje, os prédios de moradia popular costumam ser configurados para cinco pavimentos. O ideal, diz, é projetar mais unidades em um mesmo terreno. " A forma que a gente vai ter para gerar áreas em São Paulo é verticalizar mais", afirma ele.

Sem escritura

Brasília é outra grande cidade que ainda não teve nenhuma unidade contratada. O governo do DF diz que o problema ocorria por conta de uma exigência da Caixa Econômica Federal, que opera o programa, de entrega imediata da escritura ao beneficiário. Uma lei local, já alterada, determinava que o documento só fosse emitido após dez anos de ocupação, como forma de evitar irregularidades.

Em Florianópolis, segundo a Secretaria da Habitação, uma dificuldade é a resistência de moradores de áreas vizinhas às destinadas à habitação popular a aceitar o projeto. A discussão de alteração na lei acaba virando um "jogo de forças" entre as comunidades, diz a prefeitura.



Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010
Trabalhadores ganham mais benefícios
Com a retomada econômica, sindicatos ampliam reivindicações e obtêm direitos como cesta básica e plano de saúde

Avanço ocorre sobretudo nos setores mais dinâmicos, como a construção civil, que tem demanda aquecida e escassez de profissionais

VERENA FORNETTI
DA REDAÇÃO

Passada a crise econômica, os trabalhadores têm conseguido ampliar os benefícios obtidos nas negociações com os empregadores. Sindicatos que fizeram acordo coletivo no final do ano passado ou no início deste ano melhoraram itens como auxílio-creche e vale-alimentação, reduziram a fatia descontada do salário para o vale-transporte e, em alguns casos, pela primeira vez, asseguraram cesta básica e plano de saúde.

O avanço ocorre principalmente nos segmentos da economia que estão mais dinâmicos, como a construção civil, impulsionada pelas obras de infraestrutura, pela recuperação do crédito e pelo programa habitacional do governo. Em algumas cidades, com a demanda por pedreiros, carpinteiros e ferreiros em alta e a escassez de profissionais para preencher as vagas disponíveis, os sindicalistas afirmam que ficou bem mais fácil negociar.

" Com a chegada das grandes construtoras para as obras das hidrelétricas do rio Madeira, conseguimos aumentar os benefícios. E, depois disso, mesmo as empresas da cidade que não fazem parte da obra tiveram que conceder benefícios para não perder os trabalhadores", afirma Clébio Roberto Lobato, assessor-executivo do sindicato dos trabalhadores da construção civil de Porto Velho, em Rondônia.

No ano passado, pela primeira vez, o sindicato garantiu cesta básica e plano de saúde para os trabalhadores da construção pesada. O sindicato também melhorou as condições do plano de saúde oferecido aos trabalhadores da construção leve. Em Salvador e na Bahia, os trabalhadores da construção pesada conseguiram a inclusão do plano de saúde em acordo coletivo.

José Silvestre de Oliveira, coordenador de relações sindicais do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que a pauta de reivindicações dos sindicatos se diversificou nos anos 2000, incluindo de distribuição de protetor solar para trabalhadores que atuam em ambientes externos a políticas específicas para mulheres e negros. Silvestre destaca que os trabalhadores ganharam poder de barganha com o crescimento econômico do país, a partir de 2004.

Durante a crise, porém, a discussão dessas chamadas cláusulas sociais se estagnou. "Em 2009, negociamos no auge da crise e não conseguimos nada de cláusula social", diz Romildo Miranda, do sindicato dos comerciários de Fortaleza. A retomada da economia ajudou as negociações dos empregados da indústria de calçados. Paulo Ribeiro, do sindicato de Franca (SP), fechou no mês passado acordo com pequenas empresas para reduzir o tempo do contrato de experiência.

Organização sindical

O número e a diversidade de benefícios nas convenções coletivas estão relacionados a quão antigo e forte é o sindicato da categoria. Os que representam os metalúrgicos, por exemplo, incluem cláusulas sociais na negociação pelo menos desde os anos 60. Miguel Torres, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, lembra que em 1961 os metalúrgicos paulistas fizeram greve pelo então abono de Natal, que depois foi estendido a todos no país na forma de 13º salário.

Desde o fim do ano passado, mesmo metalúrgicos que já têm diversos benefícios garantidos em convenção coletiva conseguiram melhorar algumas cláusulas. Entretanto, em algumas regiões ainda há categorias com dificuldades de negociar tanto a melhora dos benefícios sociais quanto reajustes salariais. Em Ipatinga (MG), o sindicato que representa os metalúrgicos da Usiminas tenta acordo desde novembro.




Folha de S.Paulo, 7 de março de 2010
Sindicatos ampliam ganho acima da inflação neste ano
DA REDAÇÃO

Sindicatos que no início de 2009 tiveram dificuldades para obter reajustes salariais acima da inflação aumentaram os ganhos neste ano. Sindicalistas afirmam que, na época, os empresários estavam relutantes em negociar, por medo da recessão que estava por vir. Poucos sindicatos fecham acordo nos meses de janeiro e fevereiro, mas muitos dos que já assinaram a convenção obtiveram resultados favoráveis.

No primeiro semestre do ano passado, em cerca de metade das negociações os sindicatos só conseguiram aumentos reais de até 1%, segundo o Dieese. O sindicato que representa trabalhadores da indústria de alimentação do Rio Grande do Sul, por exemplo, que em janeiro do ano passado só repôs a inflação no acordo coletivo, em 2010 obteve 1,39% de aumento real para os funcionários da indústria de rações que ganham o piso e cerca de 2% para os que ganham acima do valor base.

Na Bahia, o sindicato dos trabalhadores da construção civil fechou, em janeiro, aumento real de 6,65% para quem ganha o piso salarial e de 3,65% para os que recebem acima disso. O reajuste vale para trabalhadores do Estado, com exceção de Camaçari, cidade onde a negociação está em curso. Em 2009, o ganho real foi de cerca de 2%.

Mesmo algumas das categorias que negociaram os reajustes salariais no final do ano passado aumentaram os ganhos com a melhora nas perspectivas para a economia do país.

Em novembro, o sindicato dos trabalhadores da indústria têxtil de São Paulo conquistou 2,1% de aumento acima da inflação. Na data-base de 2008, o reajuste real foi de 1,7%. Os trabalhadores na indústria paulista do vidro também elevaram o ganho real. Em dezembro de 2009, conseguiram 1,72% acima da inflação, ante aumento real de 1,30% no ano anterior.