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FOLHA DE SÃO PAULO, 28 de agosto de
2006
Subcontratação na Construção Civil de São
Paulo atinge 90% dos profissionais
DA REPORTAGEM LOCAL
A terceirização chega a atingir quase 90% em algumas categorias
profissionais, segundo levantamento realizado pela Folha com oito setores
a partir de informações dos sindicatos de trabalhadores.
É o caso da construção civil de São Paulo.
Só na capital e em outras sete cidades paulistas, trabalham 225
mil operários com carteira assinada na construção
civil, dos quais 198 mil são registrados em empresas que prestam
serviços às indústrias do setor, diz o Sintracon-SP,
sindicato que reúne os trabalhadores.
"Nos anos 70, as construtoras mandavam buscar gente no Nordeste.
Disputavam a tapa os trabalhadores que chegavam a São Paulo.
Hoje, não têm mais empregados. Só contratam para
a área administrativa e mestres-de-obras. O resto é tudo
terceirizado", diz Antonio de Sousa Ramalho, presidente licenciado
do Sintracon-SP.
No comércio, a terceirização já atinge 25%
da categoria, de 430 mil trabalhadores na cidade de São Paulo.
"A terceirização no comércio cresce mais do
que gostaríamos. Alguns supermercados terceirizam, por exemplo,
as operadoras de caixa. Essa é uma atividade que deve ser exercida
por funcionários do comércio", diz Ricardo Patah,
presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.
Nos metalúrgicos, categoria que reúne 1,1 milhão
de empregados diretos e 330 mil terceirizados, a greve ainda tem sido
um instrumento usado para combater a "má terceirização".
Acidente
No ano passado, após acidente de trabalho que resultou em uma
paralisação de 24 horas, cinco empresas prestadoras de
serviços da Siemens fecharam acordo para que os 350 terceirizados
que empregavam tivessem os mesmos benefícios dos 800 trabalhadores
da tomadora de serviços.
"Os terceirizados não tinham cesta básica, convênio
médico, PLR (participação nos lucros e resultados),
apesar de executarem funções típicas de metalúrgicos.
Após o acordo, foram reconhecidos como metalúrgicos e
têm todos os benefícios", diz Eleno José Bezerra,
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.
Bancários
Os bancários alertam para a forma como a terceirização
se expandiu para setores considerados estratégicos no setor financeiro.
"A terceirização traz a precarização
dos salários e das condições de trabalho e ainda
coloca em risco dados sigilosos de cliente", diz Ana Tércia,
diretora do Sindicato dos Bancários de São Paulo, ao se
referir à contratação de empresas para prestar
serviços de compensação, checagem de numerário
e crédito.
"São funções típicas de bancários.
Pela lei de sigilo bancário, o acesso a esses dados deveria ser
mais restrito."
A Febraban (federação que reúne os bancos) não
comentou o assunto.
"Nós somos contra a forma como a terceirização
vem sendo usada no país. Os sindicatos têm de buscar representar
os terceiros nos ramos de atividades que atuam, além de incluir
cláusulas em seus acordos que protejam os terceiros", afirma
Denise Motta Dau, secretária de organização da
CUT (Central Única dos Trabalhadores), que prepara um projeto
de lei para criar regras para a terceirização. (CR e FF).
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JORNAL O PROGRESSO / MATO
GROSSO DO SUL, 28 de agosto de 2006 | Opinião
O Peso da Construção Civil
Renan Calheiros*
A indústria da construção
civil é um dos melhores termômetros da atividade econômica.
Se o Produto Interno Bruto cresce, a construção civil
também floresce - é um dos indutores do crescimento e,
ao mesmo tempo, um dos seus beneficiários. Se, ao contrário,
a economia encontra-se estagnada, ou se há recessão, as
obras somem, não se constroem novas residências, as estradas
e ruas se deterioram. A construção civil representa, aproximadamente,
15 % do PIB, além de ser uma das atividades que mais geram empregos
no país. Nada mais justo, portanto, que se conceda atenção
especial ao setor, com medidas de incentivo fiscal que dêem fôlego
para novos investimentos, geração de renda e contratação
de pessoal.
O pacote de estímulo à
construção de novas habitações, que está
para ser anunciado esta semana, deve incluir o crédito consignado,
ou seja, o desconto das prestações diretamente na folha
de pagamento do comprador, e a redução do Imposto sobre
Produtos Industrializados incidente sobre o material de construção.
É uma boa notícia, mas é pouco. Embora a indústria
da construção civil tenha passado por uma boa recuperação
em 2006, há ainda muito a ser feito. Basta dizer que o Brasil
tem um déficit de quatro milhões de habitações.
É o número de brasileiros que moram em favelas, palafitas
ou simplesmente não dispõem de um teto. Calcula-se que,
entre 2007 e 2015, tal déficit será acrescido de um número
entre 1,5 e dois milhões de habitações.
Há estatísticas ainda mais
assustadoras. Cerca de 82 milhões de pessoas no Brasil não
têm acesso a esgoto sanitário; 43 milhões não
dispõem de água potável. Mais de 55% das estradas
brasileiras, federais e estaduais, estão em situação
crítica. Precisamos de mais e melhores portos, armazéns,
ferrovias, rodovias, infra-estrutura urbana e rural, além de
uma injeção maciça de recursos em saneamento básico.
Ou investimos pesadamente em geração e distribuição
de energia, ou teremos um novo apagão até o ano de 2010.
A crise não é nova. O país
estagnou em 1980. O Estado deixou de ter um papel decisivo como indutor
de crescimento e o Brasil mergulhou numa crise fiscal que custa a ter
fim. Primeiro, veio a crise da dívida externa e do balanço
de pagamentos. Depois, tivemos o segundo choque do petróleo.
Em seguida, a crise da dívida mobiliária, que agravou
de forma alarmante o endividamento do Estado brasileiro – a dívida
chega, hoje, a 51% do PIB.
Para fazer face ao desequilíbrio
fiscal, a carga tributária do país atingiu insuportáveis
38% do PIB, com a ameaçadora previsão de que pode chegar
a 40% no próximo ano. Há um consenso entre economistas
e homens públicos de que, para retomar o crescimento, precisamos
cortar o endividamento público à metade, além de
reduzir a carga tributária a civilizados 25% do PIB.
Algumas das reformas de base necessárias,
entre elas a reforma tributária, já foram aprovadas pelo
Senado e dependem, apenas, de exame da Câmara dos Deputados. Com
o próximo governo, seja ele qual for, será o momento de
enfrentar com energia renovada os desafios que se impõem ao país.
Temos que retomar, com urgência, a agenda do crescimento.
*Presidente do Senado Federal.
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Radiobrás, 28 de
agosto de 2006
IBGE pretende ampliar alcance das pesquisas
de emprego e renda no país
ADRIANA BRENDLER
REPÓRTER DA AGÊNCIA BRASIL
Rio de Janeiro - O Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) pretende ampliar o alcance
de suas investigações sobre a área de emprego e
renda no país. Segundo Cimar Azeredo, coordenador da Pesquisa
Mensal de Emprego (PME) do instituto, "cada vez se torna mais premente
a informação sobre o desemprego, sobre o mercado de trabalho
com um todo, estudar tendências e evolução, para
cada unidade da federação e para os municípios
maiores".
A discussão sobre indicadores
de trabalho de curto prazo foi um dos destaques do 2º Encontro
Nacional de Produtores e Usuários de Informações
Sociais, Econômicas e Territoriais, promovido pelo IBGE durante
toda a semana. Participaram dos debates especialistas de vários
institutos de pesquisa como Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), além
de uma representante do Ministério de Trabalho e Emprego.
Hoje, a PME cobre apenas as regiões
metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro,
São Paulo e Porto Alegre. Azeredo informou que desde 1981, quando
a pesquisa foi implantada, a intenção era que fosse aplicada
em todas as regiões metropolitanas, mas em função
da falta de recursos a abrangência não foi adotada. E destacou
que a pesquisa atual é representativa, já que reúne
cerca de 30% da população ocupada do território
nacional.
Mas ressalvou que o levantamento não
tem a pretensão de dar conta de informações sobre
o mercado de trabalho do país: “Isso ainda é representativo
só que devido à mudança no mercado de trabalho,
com a interiorização do emprego, há necessidade
hoje de uma pesquisa que dê conta do mercado de trabalho a nível
nacional, incluindo todas as regiões metropolitanas, unidades
da federação e até mesmo de municípios maiores
que não sejam capitais”.
Segundo Azeredo, a proposta para produzir
novos indicadores do mercado de trabalho do país consiste em
integrar as várias pesquisas que fazem parte da coordenação
de área de Trabalho e Rendimento do IBGE – Pesquisa Mensal
de Emprego, Pesquisa de Orçamento Familiar, Pesquisa de Economia
Informal Urbana e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio
(Pnad).
A expectativa, disse, é a de que
o projeto esteja implantado em 2008, mas ainda são necessários
estudos para definir, por exemplo, qual seria a abrangência geográfica
e qual seria sua periodicidade. E a principal meta é unir a Pnad
e Pesquisa Mensal de Emprego em um trabalho único. Até
o final do ano, acrescentou, será realizado um novo seminário
para dar continuidade às discussões.
Sobre as comparações entre
resultados dos vários instrumentos de acompanhamento e monitoramento
do mercados do trabalho no país, o técnico do IBGE afirmou
que cada um tem suas especificidades e fornece resultados diferenciados
em função da sua natureza. Ele citou como exemplos a PME
e Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do Ministério
do Trabalho. “Ambos são instrumentos poderosíssimos
para se acompanhar o mercado de trabalho, mas são diferentes,
cada um com a sua função, de maneira nenhuma podem ser
comparados”, declarou.
Ele explicou que a PME é uma pesquisa
urbana, domiciliar, realizada em seis regiões metropolitanas
e por ter como informante o trabalhador abrange todas as formas de inserção
no mercado de trabalho – emprego com carteira assinada, sem carteira,
por conta própria e empregador. No caso do Caged, as informações
vêm do registro de contratações e demissões
de empresas de todo o país e por isso abrangem somente o emprego
formal.
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Folha
de São Paulo, 26 de agosto de 2006
Heloísa afirma ser a única
capaz de derrotar Lula
Para ela, a oposição errou ao poupar
o presidente
DA REPORTAGEM LOCAL
A candidata à Presidência
Heloísa Helena (PSOL) disse ser a única capaz de derrotar
o presidente Lula num eventual segundo turno e culpou o PSDB, o PFL
e a "estatização" dos movimentos sociais pelo
favoritismo do petista. "Imagine um segundo turno: o cinismo do
Lula e aquela gentileza do Alckmin. Vai ser uma tragédia, né?
Sobrou para mim derrotar a majestade barbuda", disse, em sabatina
promovida pelo jornal "O Estado de S.Paulo" ontem.
Heloísa falava da popularidade
do presidente, que continua alta mesmo com a série de escândalos
envolvendo o seu governo. Para ela, a "oposição de
direita" errou ao poupar o adversário. "Cada vez que
nós falávamos, éramos rancorosos. O PSDB e o PFL
pouparam o presidente Lula muito tempo", disse a candidata, que
rechaçou a idéia de impeachment.
Movimentos sociais
Nessa conta, a candidata também
incluiu os movimentos sociais. Para ela, foi uma "aberração"
a forma como eles foram utilizados na defesa do governo Lula. "Imagina
se isso acontecesse -mensalão, sanguessuga- no governo passado.
Eu não sairia das ruas. Todo dia faria mobilização:
fora isso, fora aquilo", afirmou ela. E completou: "Toda a
estrutura do movimento social foi paralisada. Ela foi incorporada ao
aparelho de Estado, à máquina pública. Houve claramente
uma atenuação das tensões que pudessem resistir."
Durante a sabatina, Heloísa
também repetiu várias vezes em suas respostas que seu
governo primará pelo respeito "às leis e as instituições"
e não haverá calotes. "Ninguém terá
surpresas", disse a senadora. (ROGÉRIO
PAGNAN)
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Folha de São Paulo,
26 de agosto de 2006
FGTS pode se tornar garantia para consignado
KAREN CAMACHO
DA FOLHA ONLINE
O governo estuda a possibilidade de trabalhadores
usarem o saldo da conta do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço)
como garantia para financiamentos habitacionais com desconto na folha
de pagamento. A idéia do Ministério da Fazenda é
permitir empréstimos habitacionais com desconto em folha para
reduzir o custo das operações e eliminar a TR (Taxa Referencial)
de tais contratos.
Mas os técnicos alegam que, como
não têm estabilidade e podem ser demitidos a qualquer hora,
os trabalhadores da iniciativa privada não terão acesso
a taxas de juros menores. O risco de desemprego teria que estar embutido
no valor cobrado pelo banco. Nesse caso, o benefício de financiar
a casa própria com um custo menor ficaria restrito, inicialmente,
aos funcionários públicos.
Segundo o ministro Márcio Fortes
(Cidades), o uso do FGTS poderia ampliar o benefício a todos
os trabalhadores. Ele disse que o assunto será discutido na reunião
do Conselho Curador do FGTS na próxima semana. A idéia
é que o dinheiro do fundo seja usado para pagar as prestações
do empréstimo no caso da perda do emprego ou na troca de empresa.
Segundo ele, não será em todas as situações
que a medida poderá beneficiar o trabalhador. Isso porque, se
for preciso recorrer ao FGTS para completar os recursos à compra
do imóvel, ele pode não ter saldo para dar como garantia
do empréstimo.
Pela legislação atual,
o crédito consignado tem um limite de pagamento em 36 meses.
Já o financiamento imobiliário costuma oferecer prazos
bem mais longos para o pagamento, que chegam a 20 anos. Em São
Paulo, Fortes disse que o governo estuda outras alternativas para dar
garantias aos bancos, como a constituição de um cadastro
com o Ministério do Trabalho dos empregados que têm crédito
consignado. A medida serviria para um controle da liberação
de empréstimos.
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Folha de São Paulo,
26 de agosto de 2006
FISCO
Declaração de isento do
IR começa dia 1º
DA FOLHA ONLINE, EM BRASÍLIA
A declaração de isento
do Imposto de Renda Pessoa Física 2006 pode ser entregue de 1º
de setembro a 30 de novembro, segundo a Receita Federal. A declaração
deve ser feita por cerca de 63 milhões de pessoas.
Tem que declarar quem teve renda inferior
a R$ 13.968 no ano passado, é possuidor de CPF e não foi
incluído como dependente de outro contribuinte no IR. Quem tirou
o CPF neste ano não precisa fazer a entrega.
A declaração é feita
gratuitamente no site da Receita. O documento também pode ser
entregue em lotéricas, correspondentes da Caixa Econômica
Federal e Banco Popular do Brasil (R$ 1); Banco do Brasil (só
correntistas, R$ 1) e Correios (R$ 2,40). Ao deixar de declarar a isenção
por um ano, o CPF do contribuinte é colocado na condição
de "pendente de regularização". Caso deixe de
entregar por dois anos, o CPF é suspenso.
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Folha
de São Paulo, 27 de agosto de 2006
18% do eleitorado pretende anular
voto para deputado
Índice apontado pelo Datafolha é
6 vezes o registrado em 2002, quando 3% votaram nulo
Se comparecer às urnas não fosse obrigatório,
49% não votariam; maioria não se lembra em quem votou
para deputado federal e estadual
FERNANDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O desânimo do brasileiro com a
eleição para deputados federais e estaduais pode resultar
numa taxa além do normal de votos nulos no pleito de 1º
de outubro. Segundo pesquisa do Datafolha, 18% dos eleitores pretendem
votar nulo na hora de escolher o legislador federal e 16% dizem que
podem anular o voto para deputado estadual. As taxas são altas
se comparadas aos apenas 2,9% de votos nulos nas eleições
para deputados federais e estaduais em 2002 -o percentual foi idêntico
para as duas votações. Se a intenção do
eleitor for confirmada nas urnas, a nulidade dos votos deste ano será
equivalente a seis vezes à registrada na eleição
passada. Mesmo levando em conta os votos brancos para deputado federal
em 2002, a soma de votos inválidos (7,6%) não chega à
metade da taxa apontada pela pesquisa.
A pesquisa Datafolha foi realizada com
6.279 eleitores de 272 municípios de 24 Estados e o Distrito
Federal, nos dias 21 e 22 de agosto. A margem de erro é de dois
pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa resultou de
parceria entre a Folha e a Rede Globo. Não há pesquisas
semelhantes de eleições anteriores. Por essa razão,
não é possível afirmar se essa intenção
de votar nulo para cargos do Legislativo ocorreu em outros pleitos nesta
fase da campanha -e se isso se concretizou nas urnas.
Há um dado a ser considerado:
a Justiça Eleitoral nunca ensina em suas campanhas didáticas
como se faz para votar nulo. Os meios de comunicação também
informam de maneira modesta como é essa operação
(basta digitar um número que não esteja relacionado a
nenhum candidato -como 99-, e apertar a tecla "confirma").
É possível que muitos que queiram votar nulo não
saibam como fazê-lo e acabem votando em branco ou em uma legenda.
A única propaganda a favor do
voto nulo se deu de maneira informal, por meio de correntes na internet.
O Brasil tem cerca de 32 milhões de pessoas com acesso à
rede, para um eleitorado de 126 milhões. Na campanha pela internet
propagou-se uma informação falsa: a de que a eleição
seria anulada se mais de 50% dos votos fossem nulos. A legislação
não contém essa determinação. Se mais da
metade dos votos forem nulos, todos os eleitos tomarão posse
da mesma forma.
Voto obrigatório
Outro fato descoberto pelo Datafolha
é a estabilidade dos que não iriam votar se esse ato não
fosse obrigatório: 49% não votariam se não houvesse
a determinação legal -quem não vota é multado
e não consegue obter determinados documentos. Desde 1989, quando
essa pergunta sobre o voto obrigatório passou a ser feita pelo
Datafolha, a taxa dos que não iriam votar oscilou de 44% a 49%.
Já os que se dizem favoráveis à manutenção
da obrigatoriedade do voto oscilaram de 42%, em 1994, para 45%, neste
ano.
Segundo a cientista política Luzia
Helena Herrmann de Oliveira, da Universidade Estadual de Londrina, autora
do estudo "Voto obrigatório e eqüidade", "os
dados de 2006 mostram que os escândalos políticos do último
ano não alteraram a motivação dos eleitores em
participar da política. A suposta desilusão, a suposta
idéia de que as pessoas se desencantariam com a política
de um modo amplo, não parece se confirmar, o que é bom".
A pesquisa também perguntou ao
eleitor se ele se lembrava em quem havia votado para deputado em 2002.
A taxa de lembrança foi bem pequena: 57% não se recordam
dos políticos escolhidos para Câmara dos Deputados e Assembléia
Legislativa. A lembrança aumenta conforme cresce a escolaridade
do pesquisado. Entre os que têm nível superior, 48% dizem
lembrar o nome do deputado escolhido há quatro anos.
Também há diferença
entre os eleitores que declaram alguma preferência partidária:
55% dos que se dizem simpatizantes do PFL afirmam lembrar em quem votaram
para deputado federal. No caso de eleitores do PSDB, a taxa é
de 46%. Entre os eleitores do PT, a taxa é de 29%.
Vergonha do eleitor
Para o cientista político Alberto
Carlos Almeida, diretor da Ipsos Public Affairs e autor do estudo "Amnésia
eleitoral", os dados do Datafolha convergem com os da sua própria
pesquisa, realizada em 2002: "O nível de lembrança
era de 28% para deputado federal".
Na realidade a taxa de lembrança
deve ser ainda menor, esclarece Almeida, porque o entrevistado tende
a dar uma resposta positiva para "agradar o entrevistador ou porque
sente vergonha de admitir que não se lembra em quem votou".
Para Almeida, o sistema eleitoral brasileiro, no qual o eleitor é
induzido a escolher um indivíduo entre centenas de candidatos,
dificulta muito que o eleitor se recorde em quem votou: "O fato
de não lembrar significa que você não pode acompanhar
o seu deputado. O sistema não te dá o direito de controlar
o seu deputado".
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Folha de São Paulo,
28 de agosto de 2006
PESQUISA
Lula consolida vantagem com horário
eleitoral, diz Ibope
DA REDAÇÃO
Pesquisa Ibope divulgada ontem pelo jornal
"O Estado de S. Paulo" mostra que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) consolidou sua vantagem após o início
do horário eleitoral, em 15 de agosto. No levantamento, realizado
entre 23 e 25 de agosto, Lula aparece com 49% das intenções
de voto contra 22% de Geraldo Alckmin (PSDB) e 9% de Heloísa
Helena (PSOL).
Os números são bem próximos
aos do levantamento do Datafolha realizado nos dias 21 e 22 de agosto,
que apontou Lula com 49%, Alckmin com 25% e Heloísa com 11%.
Em relação à pesquisa Ibope anterior, Lula oscilou
positivamente de 47% para 49%, Alckmin também oscilou positivamente
de 21% para 22%, enquanto Heloísa Helena caiu de 12% para 9%.
Heloísa Helena perdeu pontos em
todas as regiões: caiu de 15% para 9% no Norte/Centro-Oeste,
de 10% para 7% no Nordeste, de 12% para 10% no Sudeste e de 14% para
12% no Sul. Lula apresenta agora 15 pontos de vantagem em relação
à soma de todos os seus adversários (49% contra 34%).
Se as eleições fossem hoje, ele seria reeleito no primeiro
turno com 60% dos votos válidos. Num eventual segundo turno,
ele venceria Alckmin por 54% a 32% (contra 53% a 32%, no levantamento
anterior). A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
com o nº 14.400/ 2006.
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Folha
de São Paulo, 28 de agosto de 2006
Empregos terceirizados crescem 127% em dez
anos
De 1995 a 2005, um terço das vagas criadas
no setor privado é de subcontratados
Segundo especialistas, redução de custo
via salários menores explica fenômeno; associação
diz que objetivo é aumentar eficiência
CLAUDIA ROLLI, FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
A mão-de-obra terceirizada avança
em vários setores da economia e já corresponde a um terço
das vagas criadas nas empresas privadas do país. Dos 6,9 milhões
de postos de trabalho abertos pelo setor privado de 1995 até
2005, 2,3 milhões foram ocupados por terceirizados -que executam
uma função numa empresa, mas recebem salário por
outra. É o que constata levantamento feito pelo Cesit (Centro
de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), da Unicamp, a partir
de informações da Rais (Relação Anual de
Informações Sociais) e do Caged (Cadastro Geral de Empregados
e Desempregados), ambos do Ministério do Trabalho.
Em 1995, havia 1,8 milhão de terceirizados
formais no país. No ano passado, eram 4,1 milhões -uma
expansão de 127%. Desses 4,1 milhões de terceirizados,
1,47 milhão de trabalhadores são microempreendedores -os
chamados PJs (pessoas jurídicas), que prestam serviços
às empresas. Os PJs preencheram, portanto, 36% das vagas ocupadas
por terceirizados no ano passado.
Na região metropolitana de São
Paulo, existiam 169 mil subcontratados (terceirizados) em 1995. Esse
número passou para 309 mil no ano passado. Os subcontratados
já representam 3,7% do total de ocupados na Grande São
Paulo. "Chama a atenção o ritmo de crescimento dos
subcontratados. O assalariamento direto [trabalha para uma empresa e
recebe dela] aumentou 15,2% entre 1995 e 2005. A subcontratação
cresceu 82,8% no mesmo período", diz Alexandre Loloian,
coordenador da Fundação Seade.
Antes restrita às atividades de
limpeza, vigilância, alimentação e segurança,
a mão-de-obra terceirizada se expande para os mais diversos setores
(telefonia, automobilístico, eletroeletrônico, supermercados)
e áreas (como telemarketing). Até o departamento de RH,
considerado o "coração" de uma empresa, está
hoje nas mãos de terceirizados. A Philips, que chegou a ter cerca
de 20 mil funcionários no final da década de 80, por exemplo,
emprega hoje 6.000 pessoas e contrata serviços de mais 5.000.
No setor automobilístico, não é diferente. A Fiat
empregou 25 mil trabalhadores nos anos 80. Hoje, considerada uma das
empresas mais enxutas do setor, tem 9.000 funcionários diretos
e 7.000 indiretos (prestadores de serviço e fornecedores) em
Betim (MG).
Em conflito com os trabalhadores desde
maio, quando anunciou seu plano de reestruturação no país,
a Volkswagen quer cortar custos com medidas que também incluem
a terceirização de alguns setores da unidade de São
Bernardo.
No país, a VW emprega de forma direta 21,5 mil em cinco fábricas
e utiliza mão-de-obra indireta de ao menos 5.000.
"O que faz a terceirização se expandir é,
muitas vezes, a opção das empresas pela redução
de custos por meio de salários. No Brasil, em geral, a terceirização
virou sinônimo de precarização do trabalho",
diz Marcio Pochmann, economista do Cesit que participou do estudo.
Economia de R$ 26 bi
A terceirização, em seus
cálculos, resulta hoje numa economia de R$ 26 bilhões
por ano para as empresas -R$ 20 bilhões deixam de ir para o bolso
dos trabalhadores, e R$ 6 bilhões, para os cofres do governo.
O Ministério do Trabalho informa que não há dados
oficiais que mostrem o impacto da terceirização na arrecadação.
Para calcular quanto as empresas economizam com a terceirização,
o estudo comparou a soma de salários pagos aos terceirizados
(com base no salário médio pago a cada terceiro) com a
soma de salários que eles receberiam se trabalhassem diretamente
para as empresas (com base no salário médio pago ao não-terceirizado),
nas mesmas funções.
O estudo mostra que a diferença
salarial pode chegar quase à metade entre um efetivo e um terceirizado.
Um segurança contratado diretamente por uma empresa teve rendimento
médio mensal de R$ 1.692 em 2005. Um subcontratado, R$ 789. Na
área de limpeza, os salários eram de R$ 670 (efetivo)
e de R$ 445 (terceirizado). "A terceirização chegou
a lugares que nem sequer imaginávamos. Uma pessoa que serve o
café em um supermercado não é contratada nem do
supermercado nem da indústria que produz o café. E, sim,
de uma terceira empresa", afirma Fausto Augusto Jr., técnico
do Dieese, que iniciou um trabalho para mapear a terceirização
no país.
Boa e má terceirização
Na avaliação do especialista,
existe hoje no Brasil a má e a boa terceirização.
Faz sentido, diz, a contratação de serviços de
uma empresa especializada, por exemplo, na cimentação
de um poço de petróleo devido à complexidade desse
serviço. "No Brasil, entretanto, isso é exceção.
A terceirização veio para precarizar. Alguns setores que
não podem pagar salário menor do que o piso de determinada
categoria acabam contratando empresa de fora só para escapar
de acordos coletivos e de passivos trabalhistas", diz.
A terceirização eleva a
eficiência das empresas que buscam cortar custos e aumentar a
competitividade, avalia Jan Wiegerinck, presidente da Associação
Brasileira das Empresas de Serviços Terceirizáveis de
Trabalho Temporário, que agrupa 200 empresas. "Não
é sinônimo de informalidade."
Vander Morales, diretor do sindicato
das empresas paulistas de prestação de serviços
a terceiros, afirma que hoje os tomadores de serviços estão
mais exigentes, o que diminuiu o risco de contratar terceiros que descumprem
direitos. A lei prevê dois casos em que pode ocorrer terceirização:
trabalho temporário (lei 6.019/74) e serviços de vigilância
e transporte de valores (7.102/83). Por meio do enunciado 331, o TST
passou a admitir a contratação de serviços especializados
ligados à atividade-meio da empresa tomadora de serviços.
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REVISTA ISTO É, 28
de agosto de 2006
O pastor: enquanto perde apoio de católicos
progressistas, Lula avança no rebanho evangélico
Eleições 2006
A Política e a Religião
Mais de 100 milhões de brasileiros afirmam
ser religiosos. O voto deles pode levar um candidato do paraíso
da vitória ao purgatório do fracasso
Por Chico Silva
Fé e política, eleição e religião.
No Brasil, esses elementos sempre tiveram uma ligação
umbilical. O País tem 100 milhões de pessoas adultas que
se declaram praticantes de algum tipo de religião. Ignorar esse
contingente é dar as costas ao voto. Cometer deslizes pode ser
fatal. A história recente conta casos de candidatos favoritos
que perderam disputas por terem se declarado agnósticos ou, suprema
heresia, ateus. Até uma simples vacilação no momento
de professar a própria fé traz conseqüências
nas urnas. Não é diferente agora. Em cima dos púlpitos,
à sombra da cruz ou com o terço nas mãos, os candidatos
têm procurado os templos e os líderes religiosos para buscar
apoios e deixar claro que, sim, são crentes. Líder nas
pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado
o mais ecumênico dos concorrentes. Católico que se diz
fervoroso, mas, também, um frio estrategista, ele vai estendendo
as mãos para todos os grupos religiosos, sobretudo os evangélicos,
cuja tradição no controle dos votos de seu rebanho se
amplia a cada eleição. Nos próximos dias, Lula
vai divulgar uma carta aos evangélicos, em que pedirá
orações e, diretamente, votos. Além disso, sua
equipe de campanha irá criar comitês especiais para esses
religiosos. Acredita-se entre os petistas que o voto religioso pode
ser o diferencial para a realização ou não de um
segundo turno eleitoral. A preocupação é antiga.
O primeiro passo na peregrinação do candidato à
reeleição rumo aos evangélicos foi o acordo do
PT com o PRB, partido do vice-presidente José Alencar e de influentes
lideranças de igrejas pentecostais. O mais forte aliado de Lula
nessa cruzada é o senador Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal
do Reino de Deus, e candidato a governador do Rio de Janeiro. Pesquisas
recentes apontam que Lula tem mais de 40% dos votos dos pentecostais,
a fatia mais numerosa dos evangélicos, e está empatado
com Geraldo Alckmin, do PSDB, entre os não-pentecostais.
No périplo para diminuir a distância nas pesquisas, Alckmin
tenta descolar sua imagem da conservadora Opus Dei, uma das correntes
mais fechadas do catolicismo. Fundada no início do século
passado pelo padre espanhol Josemaria Escrivá, a ordem ficou
famosa pela rigidez e pela aversão aos avanços propostos
por alas mais progressistas da Igreja. Alckmin nega fazer parte dos
seus quadros. Incomodado com a associação, o tucano sai
em busca de apoio de outras crenças. Recentemente esteve na Comunidade
da Graça, uma igreja evangélica que nasceu na periferia
de São Paulo e se espalhou pelos quatro cantos do País.
Seu colega de partido e candidato ao governo de São Paulo, José
Serra, foi mais longe ainda. A pedido de um pastor, chegou a ajoelhar
no palco da Comunidade Paz e Vida, também em São Paulo.
Antagonismo: Alckmin tem a simpatia dos católicos conservadores.
Heloísa Helena atraiu a igreja, que pede mudança
Devota de São Francisco de Assis e ex-aluna de um colégio
de padres, Heloísa Helena ainda não visitou nenhuma igreja
nem líder religioso. Mas recebeu um importante reforço
em sua campanha. Desiludidos com os rumos e escândalos associados
ao PT, antigos militantes petistas ligados às alas progressistas
da Igreja Católica migraram para o palanque de HH. Um dos fundadores
da Pastoral Operária, Wagner Rossi está entre os que subiram
à arca do PSOL. Ex-filiado petista, o dirigente votará
em Heloísa Helena no primeiro turno e anulará o voto no
segundo, se houver. “O PT se afastou dos seus ideais. Tornou-se
um aliado do capital e das vaidades de seus líderes. Privilegiou
um projeto de poder em vez de um projeto de sociedade, fraterno e humano”,
ataca Rossi, que deixou o PT em 2004. O socialista católico Plínio
de Arruda Sampaio, um dos símbolos da aliança PT e Igreja,
também debandou. Hoje é candidato de Heloísa Helena
ao governo de São Paulo.
O professor e teólogo Fernando Altmeyer tem uma explicação
curiosa para o sucesso do presidente nesse grupo. “Eles votam
no Lula pelo carisma e por uma espécie de força messiânica
que ele tem. Ele mexe com a emoção das pessoas e isso
de alguma forma o aproxima desse eleitorado”, atesta Altmeyer.
Estratégias e táticas de aproximação à
parte, nenhum candidato pode garantir que carregará para as urnas
os votos maciços de católicos e evangélicos. Essa
é a avaliação do cientista político Cesar
Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro. Ele é um dos autores
do estudo Religião e sociedade em capitais brasileiras, que mostrou
a perda de fiéis pela Igreja Católica na última
década e o conseqüente avanço dos pentecostais na
periferia das maiores regiões metropolitanas do País.
Agora, Jacob acompanha os movimentos dos candidatos para conquistar
esse voto religioso. “Dessa vez, o voto virá dividido”,
acredita Jacob. A Igreja Católica, personificada em sua militância
leiga (oficialmente, a Igreja não assume uma candidatura), deve
vir dividida entre Lula, Heloísa Helena e Geraldo Alckmin. Os
dois primeiros herdariam os votos progressistas e o último aqueles
vindos da ala mais conservadora. Oficialmente, a Igreja Católica
não manifesta apoio a candidatos ou partidos.
Porém, o bispado de Itaici, cidade do interior de São
Paulo que abriga a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,
está atento ao desenrolar dos acontecimentos políticos.
Em abril, a CNBB divulgou o documento “Eleições
2006 – Orientações”. Trata-se de um manual
de boa conduta eleitoral para partidos e candidatos envolvidos no pleito
de outubro. O livreto traz algumas estocadas no governo Lula. Em um
trecho diz: “O resultado das eleições de 2002 despertou
grandes expectativas de transformação social. Aos poucos,
o projeto de poder se sobrepõe à busca de um projeto de
nação socialmente mais justa.” Sem querer entrar
em polêmicas, o secretário-geral da entidade, dom Odílio
Pedro Scherer, traça o perfil do candidato ideal. Seria alguém
“honesto e reto, com uma história pessoal coerente com
os valores éticos, sobretudo o amor à verdade e à
justiça; defensor da dignidade da pessoa e do direito à
vida; é idealista e deseja sinceramente servir à sociedade,
sobretudo àquela parte da sociedade que mais tem necessidades
das atenções do setor público”. Esse candidato
seria Alckmin? Para o círculo mais fechado da CNBB, sim. Ali
o conservadorismo do tucano é visto com bons olhos e a aproximação
de Lula de igrejas como Universal do Reino de Deus é acompanhada
com desconfiança.
Católico, evangélico, budista ou islâmico, o certo
é que a cada eleição o voto religioso vem ganhando
mais importância. Em 1989, enquanto a Igreja Católica progressista
apoiava Lula, os pentecostais ajudaram a eleger Fernando Collor de Mello.
Em 1994 e 1998, isso se repetiu, com os pentecostais dessa vez apoiando
Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, pela primeira vez o voto evangélico
pôde ser comprovado com a candidatura de Anthony Garotinho à
Presidência. Recebeu 15 milhões de votos (17% dos votos
válidos), ficando em terceiro lugar no primeiro turno. Garotinho
teve mais votos em áreas da periferia de predominância
evangélica. Resta saber quem será o bem-aventurado que
subirá ao púlpito presidencial. Façam suas orações.
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REVISTA ISTO É, 28
de agosto de 2006
Bom para o MST: este ano, o governo repassou R$ 111 milhões a
entidades ligadas aos movimentos sociais
Dinheiro público: o pouco controle sobre o uso das verbas
mostra que muitas prestações de contas trazem inadimplência
antiga
Eleições 2006
Convênios da Reeleição
Governo injetou r$ 605 milhões em instituições
privadas ligadas aos movimentos sociais
Por Hugo Marques
O silêncio dos movimentos sociais nas vésperas da eleição
pode ser medido em números. Desde seu início, o governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva repassou R$ 605 milhões
do Ministério do Desenvolvimento Agrário para “instituições
privadas sem fins lucrativos”. Associações, cooperativas
e outras instituições ficaram responsáveis por
boa parte do investimento da verba oficial. Só no ano passado,
foram repassados R$ 280 milhões, que beneficiaram 535 instituições.
É um crescimento de 300% em relação às transferências
no último ano de Fernando Henrique Cardoso. ISTOÉ teve
acesso com exclusividade à lista completa de convênios
do Incra com instituições privadas. Alguns deles têm
duração até 2010, fim do próximo mandato
presidencial. Até sexta-feira 18, as instituições
privadas tinham recebido R$ 111 milhões do governo neste ano
eleitoral. Por trás da maior parte delas estão os movimentos
dos trabalhadores sem terra, como o MST, de João Pedro Stedile,
o MSLT, de Bruno Maranhão, e a Contag de Manoel José dos
Santos, engajados na campanha da reeleição do presidente
Lula. “O pessoal do MST vai votar no Lula”, diz o deputado
Adão Pretto, do PT gaúcho, um dos fundadores do MST.
Intriga entender como estão sendo usados, no detalhe, esses R$
605 milhões transferidos dos cofres públicos para entidades
privadas. Há autoridades que tentam descobrir – e acabam
chegando a casos de inadimplência, desvios e indícios de
fraude. Auditores do Ministério do Desenvolvimento Agrário
estão neste momento escarafunchando os repasses. Já descobriram
62 convênios inadimplentes assinados na gestão Lula. Destes,
34 foram fechados com associações e cooperativas de assentados.
A lista de problemas vai desde a não prestação
de contas até irregularidades na execução financeira.
É o caso de um dos convênios assinados com uma tal de Aspta
(sigla de Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa),
com sede na rua da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Tem
o objetivo de promover “mobilização social e desenvolvimento
agrícola sustentável, fortalecendo sinergias interinstitucionais
para a disseminação de experiências inovadoras voltadas
à conversão agroecológica de sistemas agrícolas”.
Deu para entender? Os auditores estão tentando. Foi o segundo
convênio inadimplente da associação com o governo.
“Estamos devolvendo dinheiro”, diz Jean Marc, filho de suíços
e coordenador dessa associação. Ele atribui a inadimplência
à alteração de procedimentos de prestação
de contas sugerida pelo Tribunal de Contas da União.
O TCU tem 15 processos contra as principais associações,
todas ligadas aos sem-terra, conhecidas pelas siglas de Anca, Concrab
e Anara. As duas primeiras são ligadas ao MST. A Anara é
do MLST e foi apontada como a associação que financiou
o quebra-quebra no Congresso, em julho. Sua sede nacional fica na cidade-satélite
do Guará, Distrito Federal. Quem está exercendo o cargo
de presidente da Anara é Edmilson de Oliveira Lima. Ele é
também da direção nacional do MLST. Ficou 34 dias
preso. Em dezembro, assinou convênio com o Incra no valor de R$
2,247 milhões. Equivalia na época a exatos US$ 1 milhão
de dólares. A Anara precisava entrar com a contrapartida de R$
224 mil (US$ 99,9 mil), mas está inadimplente desde 8 de junho.
Numa amostra de 100 convênios, os auditores concluíram
que os acordos são muito abrangentes, sem objetivos definidos.
Não há quadros técnicos gerenciais nem operacionais
para cumprir os convênios. Não existe comparação
dos preços conveniados com os de mercado nem comprovação
de regularidade fiscal. A segunda parcela de dinheiro é liberada
sem a aprovação parcial de contas relativa à primeira
etapa. Em nenhum dos convênios, as contrapartidas foram depositadas
nas contas correntes acordadas. Em convênio fechado pelo Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação com a Anca, o
dinheiro saiu da conta da associação para as contas das
secretarias regionais do MST em 23 unidades da Federação.
Foi “redistribuído” um montante de R$ 7,3 milhões,
uma descentralização não acordada. Os auditores
da Secretaria de Controle Externo em São Paulo sugeriram audiência
com o ex-presidente do Conselho Deliberativo do FNDE, o ministro das
Relações Institucionais, Tarso Genro, por grave infração
à norma legal.
Os pagamentos com dinheiro destes convênios são feitos
por cheques sacados diretamente na boca do caixa. Os desvios de finalidade
começaram em convênios fechados no outro governo. Um convênio
do Incra, de 1999, tinha como objeto principal “nenhuma trabalhadora
rural sem documentos”. Descobriu-se que, durante a Jornada Socialista
realizada com dinheiro público, os sem-terra tiveram aulas de
volante, técnicas de massagem e relaxamento. Enquanto isso, a
liberação de recursos do Pronaf trouxe para dentro do
governo as instituições ligadas à agricultura familiar,
como Contag e Fetraf. Os empréstimos do Pronaf nesta última
safra totalizaram R$ 7,5 bilhões, 240% acima do período
de FHC. O secretário de Agricultura Familiar, Valter Bianchini,
já começou a redigir um grande plano agrícola para
um eventual segundo mandato do presidente Lula. “Você sabe
que lideranças dos movimentos são petistas e estão
contribuindo conosco”, diz Bianchini. “Os movimentos são
movimentos, mas as lideranças dos movimentos, as direções,
estão ligadas ao PT.”
“Há uma obsessão do governo em cooptar os movimentos
sociais, assim como cooptou o sindical”, diz o deputado Augusto
Carvalho, do PPS de Brasília, fundador do sítio de internet
Contas Abertas, que acompanha os gastos do governo. “Essa conquista
do silêncio dos movimentos merece maior fiscalização,
sob pena de desmoralizar a reforma agrária.” Uma das coordenadoras
nacionais do MST, Marina dos Santos, diz que cabe às instituições
sem fins lucrativos se posicionar sobre eventuais irregularidades nos
convênios. “Mas temos convicção de sua idoneidade”,
registrou. Ela reclama que o governo federal repassa mais dinheiro às
multinacionais que aos pequenos agricultores. Na noite de quinta-feira
24, o Incra informou que todos os convênios são auditados
pelo TCU e pela Controladoria Geral da União. De fato –
e é por isso que começam a vir a público tantas
irregularidades.
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REVISTA ISTO É, 28 de agosto de 2006
Marconi Perillo: campeão de intenções
de voto - 76,6% em Goiás
Eleições 2006
Do Palácio ao Parlamento
Ex-governadores candidatos ao senado estão
com eleição garantida porque os eleitores aprovaram suas
gestões
Por Ana Carvalho
Os ex-governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE),
Joaquim Roriz (PMDB-DF) e Ronaldo Lessa (PDT-AL) carregam a fama de
ser bons de voto. Mas tudo indica que o fato de estarem em alta com
o eleitor depois de oito anos de administração vai muito
além da fama. Foi preciso investir na saúde, focar a educação,
priorizar a infra-estrutura, atrair investimentos e diminuir o fosso
da desigualdade em seus Estados. Perillo, Jarbas, Roriz e Lessa se afastaram
do cargo para disputar uma vaga no Senado e estão, como indicam
as pesquisas, com a vaga praticamente garantida.
O instituto goiano Serpes, no início de agosto, mostrou que o
tucano Marconi Perillo, por exemplo, tem a preferência de 76,60%
dos eleitores. Dos quatro ex-governadores, é o campeão
de intenções de voto. A soma de seus adversários
em Goiás não chega a 9%. Os outros que estão de
bem com o eleitorado, segundo números recentes do Ibope, são
o peemedebista pernambucano Jarbas Vasconcelos (69%), seguido de perto
pelo companheiro de partido no Distrito Federal Joaquim Roriz (52%)
e pelo pedetista alagoano Ronaldo Lessa (44%). O fato é que esses
governadores venceriam as eleições para o Senado sem preocupação
alguma de olhar pelo retrovisor.
Jarbas Vasconcelos: prestígio político
e 69% nas pesquisas em Pernambuco
O motivo do sucesso são muitas ações e poucas promessas.
O tucano Perillo que o diga. Ele, que tinha 38 anos ao ser eleito pela
primeira vez para governar Goiás, aumentou a força do
Estado em oito anos de gestão. Redesenhou o perfil agrícola,
criou pólos industriais, gerou empregos, redistribuiu renda e
atraiu bilhões em investimentos. Mesmo com uma dianteira impressionante
de 73 pontos porcentuais sobre o segundo colocado na disputa –
Ney Moura (PMDB), com 3,7% –, Perillo não se dá
por satisfeito. Corre o Estado para angariar votos e virar o tabuleiro
eleitoral goiano em favor do atual governador e candidato à reeleição,
Alcides Rodrigues (PP), que está em segundo lugar.
No fim da noite de quinta-feira 24, o ex-governador falou a ISTOÉ,
depois de uma maratona de campanha pelo Estado, quais são os
seus principais projetos quando chegar ao Senado. “É preciso
fortalecer o pacto federativo, descentralizar os recursos em poder da
União, que giram em torno de 73%.” As reformas políticas
e tributárias “são prioritárias” e
contarão com seu apoio. “Mas meu primeiro projeto como
senador será o de uma emenda constitucional que vincule 12% dos
recursos do orçamento da União e dos Estados para a segurança
pública”, anuncia. Habitação, saneamento
e infra-estrutura também estão na pauta do ex-governador.
“Precisamos melhorar as rodovias, ferrovias e hidrovias. Mas o
mais importante de tudo é combinar estabilidade com crescimento
econômico. Só assim poderemos vencer o desafio da inclusão,
da geração de emprego e renda.” No campo regional,
Perillo vai trabalhar pela Ferrovia Norte-Sul e pelo alcoolduto Paulínia-Senador
Canedo. Mais universidades federais para Goiás e créditos
mais baratos para o produtor rural também estão entre
suas prioridades. “Vou brigar, e muito, pelo agronegócio”,
adverte.

Joaquim Roriz: um tocador de obras com 52% de aprovação
Em Pernambuco, Jarbas Vasconcelos também não descansa.
Respaldado pelos números, tem percorrido o Estado ao lado de
Mendonça Filho, candidato do PFL que assumiu seu lugar e agora
disputa a reeleição. Conhecido pela sua trajetória
política de oposição à ditadura militar
no antigo MDB, Jarbas elegeu-se duas vezes prefeito do Recife. Suas
duas gestões no governo do Estado foram marcadas por grandes
obras de infra-estrutura, principalmente após a privatização
da Companhia Energética de Pernambuco, que rendeu aos cofres
públicos cerca de R$ 2 bilhões. ;
Bom de popularidade e de obras, também se encaixa nesse perfil
o ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB. Sua votação estará
relacionada, admite, às ações de governo que promoveram
grandes transformações em Brasília. “Acabei
com todas as favelas. Minha missão é cuidar do pobre.
Uma cidade não pode ser só dos ricos”, ensina. Outras
obras do governo mudaram a cara do DF. Entre elas, os 26 quilômetros
de metrô, centenas de vias e viadutos e a ponte JK, eleita a mais
bonita do mundo em 2003. É por essas e outras que Roriz não
se preocupa em olhar pelo retrovisor. Seu adversário Agnelo Queiroz
(PCdoB) tem 17% das intenções de voto, 35 pontos porcentuais
a menos do que ele.
Ronaldo Lessa: em Alagoas, o apoio de 44% dos eleitores
O alagoano Ronaldo Lessa deixou o governo no início do ano com
índices de aprovação em torno de 75%. O pedetista
colocou em oito anos mais alunos em sala de aula do que os governos
dos últimos 31 anos, assegura sua assessoria. Outra vitória
foi a redução da mortalidade infantil. “As intenções
de voto que tenho são fruto de uma administração
que correspondeu às aspirações do povo de Alagoas.
Não fiz milagres. Mobilizei a sociedade para enfrentar os desafios.
Foi assim que baixamos a mortalidade infantil de 69 para cada mil nascidos
para 28.” Com relação à sua bandeira para
o Senado, Lessa adverte: “Vou brigar para que não tratem
desigualdades de forma igual. Desse jeito, não haverá
Pátria com respeito.” Como se pode constatar, não
é por acaso que os ex-governadores Perillo, Jarbas, Roriz e Lessa
disparam em céu de brigadeiro na corrida eleitoral para ocupar
uma cadeira no Senado.
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REVISTA ISTO É, 28 de agosto de 2006
Os eleitos e o autor: em cinco anos de pesquisas, Fernando
Rodrigues (acima) levantou todas as declarações de bens
dos vitoriosos em 1998 e 2002
Eleições 2006
A Riqueza dos Políticos
Livro revela patrimônio de todos
os vencedores das duas últimas eleições, divulga
seus cpfs e demonstra o enriquecimento da classe política
Por Marco Damiani
Uma detalhada prestação de serviço ao eleitor está
chegando às livrarias. Políticos do Brasil (Editora Publifolha,
424 páginas, R$ 39,90), resultado de cinco anos de pesquisas
feitas pelo jornalista Fernando Rodrigues, traz à luz o patrimônio
pessoal de todos os homens e mulheres eleitos para cargos públicos
em 1998 e 2002. Lá estão os bens e os valores declarados
de 1.059 deputados estaduais e distritais, 513 deputados federais, 81
senadores e seus 162 suplentes, 27 governadores e seus 27 vices, dois
presidentes da República e dois vices. Os prefeitos são
a exceção. Descobre-se, diante dos cruzamentos de informações
promovidos pelo autor, repórter e colunista do jornal Folha de
S. Paulo, que os encarregados pelo povo para dirigir o País têm,
na média, um patrimônio pessoal 1.138% maior do que a média
dos declarantes à Receita Federal. Enquanto os 13,9 milhões
de contribuintes informaram bens, rendimentos e poupanças que
resultaram num patrimônio médio per capita, em 2002, de
R$ 123,5 mil, dois anos antes o corte entre os políticos apontou
para R$ 1,53 milhão, cifra quase 13 vezes maior.
E descobre-se muito mais. A maior variação patrimonial
média positiva entre as eleições de 1998 e 2002
foi verificada entre políticos do PT. Diante de uma inflação
de 27,2% no período, os integrantes das bancadas petistas em
todos os níveis registraram uma elevação de patrimônio
que resultou numa média 83,7% superior em 2002 à notificada
em 1998. “Isso pode ser explicado pelo fato de muitos petistas
chegarem à política realmente com pouco patrimônio”,
lembra Fernando Rodrigues. “Os vencimentos como mandatários
fazem, em casos assim, muita diferença.” Sempre se desconfiou,
por outro lado, que os integrantes do PFL são ricos. Agora, com
o livro, fixa-se a certeza de que são riquíssimos, com
um patrimônio médio de R$ 3,19 milhões, de acordo
com as declarações entregues à Receita em 2002.
Os mais humildes, no arco partidário, são os comunistas
do PCdoB, com média patrimonial naquele ano de R$ 119 mil. Os
tucanos? No meio do caminho entre os extremos, mas na confortável
zona do patrimônio médio de R$ 1,46 milhão. “O
maior mérito do livro é tornar mais transparente a vida
política do País”, registra, no prefácio,
o cientista político Leôncio Martins Rodrigues.
Foram necessários cinco anos de trabalho, com apurações
in loco em todas as 27 sedes de Tribunais Regionais Eleitorais (TREs)
do País, para Fernando Rodrigues completar o levantamento. A
idéia era ter em mãos todas as declarações
patrimoniais e de rendimentos apresentadas pelos políticos à
Justiça. A meta foi atingida – e com ganhos. O livro traz
mais de 50 tabelas com dados socioeconômicos dessa categoria.
E, pela primeira vez num mesmo volume, divulgam-se os números
de CPF de todos os políticos brasileiros. Com esse número
em mãos, qualquer cidadão pode consultar os órgãos
públicos sobre a vida fiscal dos principais atores da política
nacional. “Acho que os políticos não vão
gostar muito dessa parte, mas tenho certeza de que o leitor sai ganhando”,
diz o autor. Em razão do grande volume de informações
apuradas, o livro tem desdobramento num portal de internet: www.politicosdobrasil.com.br
. Neste endereço, tem-se acesso a todos os números e tabelas
da obra, com janelas para a entrada em outros sítios.
A editora Publifolha aposta que Políticos do Brasil será
um sucesso de público. A primeira edição sai com
dez mil exemplares. A julgar pela qualidade, a presença nas listas
de mais vendidos está garantida. O jornalista Fernando Rodrigues,
em seguida à realização da mais exaustiva e minuciosa
pesquisa em arquivos oficiais dos últimos tempos, contextualizou
praticamente todas as informações levantadas. Surge, daí,
um livro político, com a memória dos últimos anos
da democracia brasileira, emblemáticas histórias de bastidores
e análise apurada. Fica claro que o autor – dono de três
prêmios Esso, uma sólida carreira na Folha e uma legião
de leitores fiéis – critica as distorções
do sistema político do País, baseado no voto obrigatório
dos pobres em benefício de uma elite rica e com essa riqueza
em expansão. Mas seu juízo de valor é suavizado
diante da profusão de informações objetivas, incontestáveis,
que suas pesquisas nos proporcionam. Políticos é um verdadeiro
atlas sobre a situação financeira dos homens públicos,
que certamente será atualizado a cada nova eleição.
Quem vota, agradece.
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JORNAL GAZETA DO POVO, 28
de agosto de 2006 | Brasil
CAMPANHA-PT e PSDB apresentam plataforma social-democrata
para conquistar o eleitor
Programas de governo de Lula e
Alckmin são semelhantes
Brasília – Os programas dos dois principais candidatos
à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e
Geraldo Alckmin (PSDB), mostrarão mais semelhanças do
que diferenças entre as suas diretrizes partidárias. O
presidente e o ex-governador se apresentam com uma plataforma de figurino
“social-democrata”, defendendo a ação do Estado
para estimular a atividade econômica e promover a justiça
social. Eles também falam em reduzir a carga tributária,
controlar, racionalizar o gasto público, aumentar os investimentos
e melhorar os serviços de saúde e educação.
Lula lançará o programa
de governo amanhã e Alckmin promete para esta semana um pacote
com medidas de combate à corrupção. Os dois optaram
por textos mais genéricos, que abordam temas, mas não
explicitam ações concretas.
Em muitos casos, o discurso se choca com a prática, como a defesa
que Lula fez na semana passada de uma carga de impostos “mais
leve”. Em três anos, a carga na esfera federal cresceu cerca
de R$ 40 bilhões, mas o PT argumenta que o aumento foi maior
no governo FHC.
Alckmin tem mostrado que no governo de
São Paulo reduziu o peso dos impostos e promete fazer o mesma
no Planalto. No documento “Caminhos para o Desenvolvimento”,
o PSDB destaca que “é necessário extinguir muitas
contribuições e impostos”, mas não explica
como e em que prazo faria isso, sem pôr em risco o equilíbrio
fiscal.
O coordenador da campanha tucana, João
Carlos Meirelles, admite que 2007 será “extremamente apertado”
e será preciso definir prioridades. “Não existe
mágica, a não ser em discursos levianos e irresponsáveis,
o que não é o nosso caso.”
A cúpula do PT também trocou
metas numéricas por compromissos genéricos, para evitar
posteriores cobranças, como neste mandato “Nosso programa
é um texto mais político, mostrando a situação
em que encontramos o país e o que faremos nos próximos
anos. São compromissos gerais de governo. Não haverá
detalhamento”, afirma o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini
(SP).
Uma ambigüidade dos presidenciáveis
é sobre a armadilha fiscal em que o país está:
o gasto que mais cresce é justamente o de programas assistenciais,
como os benefícios pagos a pobres, aposentados rurais, idosos
e deficientes. Mas nenhum deles ousa, pelo menos agora, propor medidas
impopulares para lidar com o problema.
Na economia há pequena diferença
de tom. O PSDB ousa um pouco mais, bombardeando o assistencialismo que
Lula adota. Alckmin critica a valorização excessiva do
real e seus efeitos sobre o agronegócio. Mas mudança mesmo
na política econômica, nenhum deles propõe.
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JORNAL GAZETA DO POVO, 28
de agosto de 2006 | Brasil
CAMPANHA
Propostas iguais
• Redução da carga tributária.
• Controle
e racionalização do gasto público.
• Aumento
dos investimentos e melhoria dos serviços de saúde e educação.
Contradições
• Alckmin
promete ser duro no combate à violência e criminalidade.
São Paulo, que foi governado por ele nos últimos anos,
vive um caos na segurança pública, com rebeliões
e ataques de criminosos a delegacias, ônibus, agências bancárias
e civis. O PSDB culpa o governo federal.
• Lula defende
uma carga de impostos “mais leve”. Nos três primeiros
anos do seu governo, a carga tributária na esfera federal cresceu
cerca de R$ 40 bilhões. O PT argumenta que o aumento foi maior
no governo FH.
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JORNAL GAZETA DO POVO, 28
de agosto de 2006 | Brasil
CAMPANHA
Heloísa Helena resgata propostas
radicais do PT
Brasília – Sem a mesma cautela de seus adversários
na disputa presidencial, a candidata Heloísa Helena (PSol), resgatou
em sua campanha propostas radicais antes defendidas pelo PT, como a
auditoria nas dívida externa e interna e um plebiscito sobre
a reestatização de empresas que foram controladas pelo
governo. O programa de governo da candidata ainda não foi divulgado,
mas o Manifesto da Frente de Esquerda preparado pelos líderes
do PSol, PSTU e PCB, dá o tom das medidas. “A Frente de
Esquerda quer libertar o país das garras do capital financeiro
e do imperialismo”, diz o documento, de 27 de julho de 2006.
Entre as medidas concretas apresentadas
pelos aliados de Heloísa para promover a “libertação”
do Brasil está a suspensão do pagamento da dívida
externa, uma das principais bandeiras da esquerda na década de
80. Mas, como hoje a dívida externa já perdeu importância
para a interna, o manifesto do PSol defende uma auditoria com a finalidade
de identificar os especuladores e as grandes empresas que ganham com
os títulos da dívida pública. Para eles, o manifesto
prevê calote.
Ao tentar mensurar o que poderia fazer
com a economia proveniente da suspensão do pagamento dos juros
da dívida pública, o manifesto infla os números.
“Com os R$ 520 bilhões das dívidas que Lula terá
pago aos banqueiros em seu mandato, seria possível fazer um grande
mutirão nacional para resolver problemas sociais gravíssimos.”
Na prática, Lula não
vai pagar R$ 520 bilhões de juros até o fim do mandato.
A economia efetivamente realizada pelo governo para pagar juros nos
últimos três anos e meio, o chamado superávit primário,
soma R$ 188 bilhões.
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ESTADÃO.COM /SÃO
PAULO, 28 de agosto de 2006 | Economia
Brasil deve crescer 4% em média
até 2010, avalia EIU
Mesmo assim, a consultoria Economist Intelligence
Unit alertou que o País continua vulnerável ao humor dos
mercados internacionais
João Caminoto
LONDRES - A consultoria Economist Intelligence
Unit (EIU) prevê que o crescimento médio anual do Produto
Interno Bruto (PIB) brasileiro até 2010 será de cerca
de 4%, mas alertou que o País continua vulnerável ao humor
dos mercados internacionais. Em seu relatório mensal sobre a
economia mundial divulgado nesta sexta-feira, a entidade, com sede em
Londres, afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é
franco favorito na eleição presidencial. Mas avisa que
o vencedor em outubro, seja ele quem for, terá maiores dificuldades
na condução da economia caso conte com uma base de apoio
político fraca.
Segundo a EIU, nenhum dos principais
países da América Latina deverá enfrentar dificuldades
financeiras, apesar da alta dos custos dos empréstimos causada
pelo aperto monetário nos Estados Unidos, Europa e Japão.
"Entretanto, o risco de crises financeiras ainda é real",
afirmou. "O Brasil, de longe a maior economia da região,
é vulnerável, e alguns dos países menores continuam
pesadamente expostos a turbulências nos mercados emergentes."
A consultoria observa que a perspectiva
de um crescimento anual de 4% para a economia brasileira até
2010 é positiva se comparada à média de longo prazo,
em torno de 2,5%. "Entretanto, será um resultado apenas
moderado pelos padrões de outros gigantes emergentes, especialmente
na Ásia", disse. "O investimento fixo no Brasil continua
baixo mesmo em comparação com outros países latino-americanos."
Segundo a EIU, a demanda doméstica
vai se fortalecer em 2006 e 2007, com os gastos dos consumidores sendo
estimulados pelo aumento do salário mínimo, o crescimento
na renda disponível e uma expansão no crédito.
Esses fatores deverão compensar com folga a desaceleração
das exportações no próximo ano, causada pela queda
no ritmo de atividade mundial.
"Um aumento nos empréstimos
domésticos será causado por uma série de cortes
na taxa Selic, o que também deverá estimular uma recuperação
nos investimentos", disse. A consultoria acredita que a Selic sofrerá
novos cortes nos próximos meses, fechando o ano em 14%. "Entretanto,
o foco no controle inflacionário vai garantir que o relaxamento
monetário ocorra num ritmo gradual medido", disse. Mesmo
assim, observou, a taxa de juros real continua superior a 10%, a mais
elevada entre as maiores economias do mundo.
Segundo a EIU, a Selic pode continuar
em queda, embora modestamente, após a posse do novo governo,
o que poderá levá-la a 13% no final de 2007. Mas "qualquer
queda forte no crescimento do comércio ou retração
na liquidez global seria rapidamente sentida no Brasil, com uma pressão
sobre o câmbio provocando uma nova onda de aperto monetário".
Desafio
A EIU acredita que o presidente Lula
será reeleito em outubro. "Mas mesmo uma mudança
no governo teria apenas um pequeno impacto na direção
da política econômica", disse. "Qualquer que
seja o resultado da eleição, os desafios para a política
fiscal e monetária prudente vão aumentar se o mandato
do novo governo for fraco."
Segundo a consultoria, o elevado nível
da dívida pública líquida e a necessidade de rolar
anualmente 25% dessas obrigações "significa que o
país continua vulnerável" a mudanças no sentimento
dos mercados de capitais internacionais. "O alto nível de
gasto público terá que ser mantido sob controle se o Brasil
pretende se proteger dos efeitos de qualquer nova volatilidade nos mercados
como presenciamos em maio e junho passados ", disse.
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ESTADÃO.COM / SÃO
PAULO, 26 de agosto de 2006 | Economia
INSS suspende pagamento de 360
mil aposentados não recadastrados
A economia mensal do INSS, com a suspensão
do pagamento dos benefícios pode chegar a R$ 187 milhões
Vânia Cristino
BRASÍLIA - O censo previdenciário,
mecanismo encontrado pela Previdência Social para atualizar os
dados cadastrais dos seus segurados, já resultou na suspensão
do pagamento de 360 mil benefícios de segurados que não
compareceram às agências bancárias.
De acordo com informações
divulgadas nesta sexta-feira, 25, pelo Ministério da Previdência,
desde outubro do ano passado mais de 10,4 milhões de aposentados
e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) já
foram aos bancos para preencher os formulários de recadastramento.
Desse total, 343 mil não apareceram
nas agências bancárias. Outros 17 mil benefícios
estão sob análise. São de segurados que preencheram
os formulários com erros e, por isso, eles foram devolvidos pelo
INSS aos bancos. O novo balanço do censo previdenciário
foi divulgado hoje pela Previdência Social.
A Previdência Social não
fala em números, mas se for considerado o valor médio
do benefício, hoje de R$ 521,83, a economia mensal do INSS com
a suspensão do pagamento é em torno de R$ 187 milhões.
Etapas do censo
O censo previdenciário, que começou
em outubro de 2005, foi dividido em duas etapas. Na primeira etapa foram
convocados 2,4 milhões de segurados, justamente os com cadastro
mais antigo e frágil, com ausência de vários dados
considerados importantes pelo INSS, como o número do PIS ou o
nome da mãe. Dos 2,4 milhões de segurados chamados para
a primeira etapa do Censo, 2,3 milhões atualizaram os dados,
65 mil tiveram o pagamento suspenso porque não compareceram e
17 mil estão pendentes "por crítica". Estes
beneficiários foram aos bancos mas preencheram o formulário
com erros, como nomes abreviados, número de CPF inválido
ou endereço inexistente. Eles estão sendo chamados pelos
bancos para refazerem o cadastro.
A segunda etapa começou em março
deste ano e estão sendo convocados 14,7 milhões de segurados.
Mais de 8 milhões de beneficiários já compareceram
às agências bancárias. Muitos deles se anteciparam
à data marcada e preencheram o formulário. Segundo o ministro
da Previdência Social, Nelson Machado, a antecipação
é um sinal claro da confiança dos beneficiários
na necessidade de atualizar o banco de dados do INSS para melhorar a
comunicação do órgão com o segurado e evitar
pagamentos indevidos.
Com quase cinco meses de recadastramento
na segunda etapa, 278 mil benefícios já foram suspensos.
O censo, segundo os técnicos da Previdência, aumentou a
velocidade da suspensão do pagamento. Antes do censo, a suspensão
do pagamento e posterior cancelamento só era feita por motivo
de óbito do segurado. Mesmo essa informação, obrigatória
por parte dos cartórios ao INSS, era mais demorada por falhas
no cadastro. Ao final do censo, que só terminará no ano
que vem, terão passado pelo recadastramento 17,1 milhões
de segurados.
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ESTADÃO.COM / SÃO
PAULO, 28 de agosto de 2006 | Economia
Trabalhador gasta em média 12%
do salário com transporte
Brasileiros que utilizam transporte coletivo
em cidades de mais de 100 mil habitantes gastam, em média, R$
100 por mês para se locomover em suas cidades
Leonardo Goy
BRASÍLIA - O brasileiro que anda
de ônibus, metrô, lotação ou outros tipos
de transportes coletivos em cidades de mais de 100 mil habitantes gasta,
em média, R$ 100 por mês para se locomover em sua cidade,
segundo levantamento feito pela Associação Nacional das
Empresas de Transportes Urbanos (NTU). Isso equivale a cerca de 12%
da renda média das pessoas entrevistadas pela associação.
Em termos proporcionais, é justamente
no bolso das pessoas de menor renda - as que mais se utilizam desse
serviço - que a conta pesa mais. Para os indivíduos que
ganham até um salário mínimo, os gastos com transporte
coletivo equivalem, em média, a 53%, do rendimento mensal.
A pesquisa mostra que, conforme aumenta
a renda, menor é o peso dos gastos com transporte coletivo no
orçamento. Para quem ganha mais de 20 salários mínimos,
por exemplo, esses gastos equivalem, em média, a 0,4% do ordenado.
A pesquisa da foi feita entre os dias 10 de maio e 10 de julho e entrevistou
7,5 mil pessoas em 27 cidades de todo o País.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), de 2002, as famílias
com rendimento de até R$ 400 mensais empregavam 15,19% do seu
orçamento para se locomover.
Dentre as pessoas que usam ônibus
urbano, por exemplo, que é o transporte coletivo mais utilizado,
65% dos entrevistados responderam à NTU que as tarifas são
muito caras. A pesquisa mostra que o preço da tarifa, aliado
ao tempo de espera, acaba sendo um dos principais motivos que levam
as pessoas de menor renda (das chamadas classes D e E) a substituir
o ônibus por outros tipos de transporte.
O curioso, de acordo com a NTU, é
que muitas pessoas de baixa renda que deixaram de andar de ônibus
passaram a se locomover a pé ou de bicicleta. "Algumas pessoas
de baixa renda estão andando a pé e de bicicleta. A participação
da bicicleta tem subido significativamente", disse a consultora
em transportes Sabina Kauark Leite, uma das responsáveis pelo
estudo.
O ônibus, por sua vez, também
vem perdendo espaço entre as pessoas de maior renda, mas, nesse
caso, está sendo substituído pelo carro particular. "As
pessoas de renda mais elevada têm deixado o transporte coletivo
e passado para o carro, por uma questão de conforto e por reclamar
da demora dos transportes coletivos", disse Sabina.
Ao todo, seja por conta das pessoas de
menor renda que se queixam das tarifas, seja pelas de maior poder aquisitivo
que compraram carro, a NTU constatou que, nos últimos 15 meses,
cerca de 14% das pessoas entrevistadas deixaram de andar de ônibus
ou diminuíram a freqüência do uso desse transporte.
O levantamento da NTU mostrou que,
em média, as viagens em meios de transporte coletivo duram 38
minutos nas cidades com mais de 100 mil habitantes. Nas cidades de maior
porte, porém, seja pela distância, seja pelo trânsito,
esse tempo é muito maior, chegando a uma média de quase
50 minutos nas metrópoles com mais de 3 milhões de habitantes.
A pesquisa da NTU abrange um universo de mais de 7,5 mil pessoas, em
3,1 mil domicílios localizados em 27 cidades do País com
mais de 100 mil habitantes. As entrevistas foram realizadas entre os
dias 10 de maio e 10 de julho deste ano.
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CONSULTOR JURÍDICO,
28 de agosto de 2006
Legislação anti-fraude
Cooperativas de trabalho precisam de
lei, diz ministro
por Maria Fernanda Erdelyi
Escapar dos encargos trabalhistas e tributários
são alguns dos motivos que levam o empregador a forçar
seus empregados a fundarem uma cooperativa e se filiarem a ela. Mas
na verdade essas cooperativas acabam dirigidas pelo próprio empregador,
o que configura fraude. Muitos processos chegam todos os dias ao Tribunal
Superior do Trabalho onde esses empregados pedem reconhecimento do vínculo
trabalhista.
O ministro do TST, Ives Gandra da Silva
Martins Filho acredita que uma boa legislação garantindo
direitos de empregados aos cooperados vai diminuir tanto as fraudes
como o interesse de se criar cooperativas para escapar do sistema legal.
Ives Gandra ressalta que a recomendação
193 da OIT — Organização Internacional do Trabalho
sobre cooperativas de trabalho é fundamentalmente estimuladora
no sentido de coibir as falsas cooperativas. Em um de seus artigos a
recomendação diz que as cooperativas de trabalho não
podem ter tratamento menos benéfico do que as empresas privadas.
“Assim, não se pode em tese afastar as cooperativas de
trabalho da prestação de serviços à administração
pública”, afirma o ministro.
Na relação cooperativa
e cooperado não há vínculo empregatício
declarado a não ser que seja comprovada fraude. “Não
se pode considerar em tese as cooperativas de trabalho como fraudulentas.
O que se deve fazer é verificar caso a caso se a cooperativa
de trabalho atende aos princípios básicos do cooperativismo.
Ou seja, verificar se a cooperativa foi criada espontaneamente, se os
cooperados se filiaram livremente e se ela é gerida autonomamente”,
afirma Ives Gandra.
Segundo o ministro, em alguns setores
como por exemplo o agrícola, se verifica muito o desvirtuamento
da cooperativa de trabalho que começou a ficar conhecida como
“coopergato”. O tradicional “gato”, arregimentador
de mão-de-obra para trabalhos de plantio e colheita passou a
utilizar-se dessa modalidade de contratação para dar uma
aparência de legalidade à contratação de
trabalhadores rurais.
Um projeto de lei do executivo (PL 7.009/2006)
que tramita na Câmara dos Deputados, dispõe sobre a organização
e o funcionamento das cooperativas de trabalho. O PL é basicamente
uma aplicação ponderada do artigo 7º da Constituição,
ou seja, quer garantir direitos mínimos e garantias aos cooperativos
de trabalho digno e decente.
Dados da OCB — Organização
das Cooperativas Brasileiras dão conta que em dezembro de 2005
havia no país quase 2 mil cooperativas de trabalho oficiais e
425 mil associados ou cooperados. Para existir oficialmente as cooperativas
precisam se cadastrar na OCB assim, este número não compreende
as cooperativas fantasmas.
De acordo com Guilherme Krueger, assessor
jurídico da OCB, a grande discussão seria como se verifica
a fraude. Se o objeto da relação é suficiente para
se determinar a existência da fraude a priori ou não. Segundo
Krueger, a verificação da fraude é sempre a posteriori
e a forma de preveni-la a é a legislativa pela equiparação
de custos do trabalho do cooperado com o empregado.
Krueger critica a forma como o Ministério
Público do Trabalho tenta coibir fraudes. “O Ministério
Público do Trabalho tende a trabalhar a solução
de fechar o mercado para as cooperativas com Termos de Ajustamento de
Conduta onde empresas se comprometem a não contratar cooperativas”,
conta.
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CONSULTOR JURÍDICO,
28 de agosto de 2006
Direito de parar
Dias de greve não podem ser descontados,
decide juiz
por Maria Fernanda Erdelyi
O exercício do direito de greve,
assegurado constitucionalmente, ainda que dependa de disciplinamento
por legislação infraconstitucional, não pode ser
obstaculizado em virtude da inércia dos poderes competentes para
deflagrar o processo legislativo.
Com este entendimento, o juiz Hamilton
de Sá Dantas, da 21ª Vara Federal do Distrito Federal reconheceu
o direito de greve de servidores públicos e impediu o Incra,
por meio de liminar, de descontar os dias parados de trabalhadores em
greve do serviço público federal do Ceará. A decisão
é um avanço da Justiça brasileira no sentido de
suprir a omissão do Congresso que, depois de 13 anos, ainda não
regulamentou um direito previsto na Constituição de 1988.
No pedido à Justiça Federal,
o Sintsef — Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público
Federal no Estado do Ceará alegou a legalidade da greve no serviço
público. Afirmou, ainda, que a greve não constitui mera
falta ao serviço e que não há lei dispondo sobre
a punição do servidor em greve.
De acordo com Dantas, “o exercício
do direito de greve pelos servidores públicos encontra-se obstaculizado,
tão-somente, pela ausência de iniciativa do legislador
em disciplinar o instituto”.
O juiz lembra ainda que a Constituição
de 88 garantiu o exercício do direito de greve aos trabalhadores.
“Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo
aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e
sobre os interesses que devam por meio dele defender”. Para Dantas,
com esse dispositivo, o legislador constituinte objetivava universalizar
o direito de greve a todas as classes de trabalhadores, abrangendo,
assim, tanto os da iniciativa privada quanto os vinculados à
Administração Pública, em suas diversas esferas
de poder.
“Porquanto situou o artigo sob
comento no rol dos direitos sociais, os quais, por sua vez, inserem-se
no Título relativo aos Direitos e Garantias Fundamentais, extensivos
a todos os brasileiros, sem qualquer distinção, por força
do princípio da igualdade (Constituição Federal,
art. 5º, caput)”, argumenta o juiz sobre as intenções
do legislador constituinte.
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CONSULTOR JURÍDICO,
25 de agosto de 2006
Questão matemática
Juiz trabalhista pode alterar valor da
causa em MS
Juiz trabalhista pode mudar o valor da
causa se a quantia arbitrada pela parte não for compatível
com as custas judiciais. O entendimento é da Seção
Especializada em Dissídios Individuais 2 do Tribunal Superior
do Trabalho. Os ministros mantiveram a alteração do valor
da causa feita de ofício pelo Tribunal Regional do Trabalho da
4ª Região (Rio Grande do Sul), em Mandado de Segurança
ajuizado pelo HSBC Bank Brasil.
O relator do processo, ministro Antônio
Barros Levenhagen, esclareceu que, “no processo do Trabalho, não
há legislação que, expressamente, disponha acerca
do valor da causa, em determinados tipos de ações, ficando
a critério da parte autora arbitrá-lo, observando, contudo,
que esse valor obedeça aos limites da razoabilidade, de modo
que não seja nem ínfimo, nem absurdo, de forma que, querendo
a parte prejudicada recorrer, não possa fazê-lo por insuficiência
de provisão financeira”.
No caso, a parte contrária não
concordou com o valor da causa indicada pelo banco de R$ 2 mil, na fase
da execução da sentença. Houve recurso. O TRT gaúcho
aumentou para R$ 5 mil. A empresa apelou ao TST. A SDI-2 rejeitou as
alegações por entender que esse valor é razoável.
A execução era de R$ 106 mil.
ROMS-2.865/2005-000-04-00.1
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Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
28/08/2006
TST afirma vigência limitada de norma
coletiva
As cláusulas de convenções
ou acordos coletivos, resultado da negociação entre empregadores
e empregados, não aderem definitivamente ao contrato de emprego.
A constatação da Primeira Turma do Tribunal Superior do
Trabalho resultou no indeferimento de recurso de revista a um eletricitário
sul-matogrossense, que pretendia a incorporação ao seu
salário de vantagem prevista em acordo coletivo. A decisão
unânime do TST teve como relator o ministro Lelio Bentes Corrêa.
A manifestação do TST garantiu
a manutenção de decisão do Tribunal Regional do
Trabalho da 24ª Região (Mato Grosso do Sul) contrária
ao trabalhador e favorável à Empresa Energética
do Mato Grosso do Sul S/A (Enersul). O objetivo do eletricitário
era o de assegurar o recebimento mensal da vantagem denominada “indenização
por tempo de serviço”.
De acordo com o TRT/MS, às convenções
e acordos coletivos de trabalho aplica-se o entendimento adotado pelo
TST em relação às sentenças normativas (decisões
tomadas pela Justiça do Trabalho para por fim a dissídios
coletivos). Segundo a Súmula nº 277 do TST, “as condições
de trabalho alcançadas por força de sentença normativa
vigoram no prazo assinado, não integrando, de forma definitiva,
os contratos”.
A defesa do eletricitário sustentou
que a decisão regional violou dispositivos constitucionais e
da legislação processual civil, além de contrariar
a jurisprudência do TST. Sustentou que a indenização
por tempo de serviço foi prevista, como definitiva, na cláusula
quarta do Acordo Coletivo de Trabalho (1990/1991), o que teria originado
o direito adquirido dos empregados da Enersul. As alegações,
contudo, foram afastadas pela decisão da Primeira Turma.
O relator do recurso de revista observou
que o próprio TRT/MS registrou, no acordo coletivo de 1995, a
supressão da cláusula que previa a vantagem. “Tem
a jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho se orientado
no sentido de que, da mesma forma que as sentenças normativas
de que cuida a Súmula nº 277 do TST, as cláusulas
de acordos ou convenções coletivas não aderem definitivamente
ao contrato de emprego”, observou Lelio Bentes.
“Efetivamente, o acordo coletivo
constitui pacto de vontade de vigência limitada, cujas cláusulas
vigoram pelo período respectivo. Extinto o acordo, opera-se o
retorno à situação jurídica anterior”,
acrescentou. (RR 776678/2001.3)
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28/08/2006
Seminário no TRT/10ª discute
“lista suja” e sindicalismo
A Justiça do Trabalho, o Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE) e o Ministério Público do
Trabalho reuniram-se hoje (25) para discutir as relações
de trabalho, no “Ciclo de Debates - Direito Sindical e Relações
de Trabalho”, promovido pelo Tribunal Regional do Trabalho da
10ª Região (Distrito Federal e Tocantins). O corregedor
geral da Justiça do Trabalho, ministro Luciano de Castilho Pereira,
abriu o evento, ressaltando a importância da parceria entre três
instituições distintas com atividades afins e interesses
comuns.
O primeiro painel, sobre “Enquadramento
Sindical”, teve como palestrante a juíza Sandra Nara Bernardo,
titular da 10ª Vara do Trabalho de Brasília. A juíza
apresentou um histórico do sindicalismo, desde a sua criação
até os dias de hoje. Segundo ela, embora a Constituição
de 1824 já reconhecesse o sindicalismo, as mudanças ocorridas
até a Constituição de 1988 não foram significativas.
“O direito sindical é piramidal, de cima para baixo, não
muda, o que mudou foram os sindicatos”, afirmou. Sandra Nara avalia
que a dificuldade dos legisladores gira em torno da especificidade de
cada profissão e da diversidade de sindicatos existentes.
O painel sobre “Lista Suja”
foi apresentado pelo procurador Erlan José Peixoto do Prado,
membro do Ministério Público do Trabalho. O cadastro de
empregadores que já exploraram o trabalho escravo, mais conhecido
como “Lista Suja”, foi criado pela Portaria 540/04 do MTE.
O procurador afirmou que a iniciativa serve para intimidar aqueles empregadores
que comprovadamente exploraram e empregaram trabalhadores de forma degradante,
sem condições dignas e de forma desumana. “Não
se trata de discriminar empresas e empregadores, mas de evitar que a
prática de explorar e escravizar trabalhadores continue”,
concluiu.
O juiz Francisco Luciano de Azevedo Frota,
debatedor no segundo painel, afirmou que, apesar de hoje em dia não
existirem mais correntes nem chicotes, os trabalhadores sentem a mesma
dor que os escravos do início do século passado sentiam,
seja pela humilhação, abandono, ou pela exploração
sem direito a jornada de tempo, além da ausência da família.
“São quatro séculos de trabalho escravo no Brasil.
A diferença é que antes era institucionalizado, e hoje,
é dissimulado”, finalizou.
Já a juíza Elke Doris
Just alertou para o fato de o cadastro ter sido criado por portaria
do MTE e não por lei. Para a magistrada, é necessária
a legalização da lista, a partir de iniciativa do Poder
Legislativo. A juíza manifestou sua preocupação
com as conseqüências que a “Lista Suja” instituída
nessas condições pode trazer. No dia 1º de setembro,
o Ciclo discutirá “Registro Sindical” e “Contribuições
para o Custeio das Atividades Sindicais”.

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