Congresso em Foco, 20 de
outubro de 2006
Debate entre lordes
No SBT, Lula ressalta avanços sociais
e ações do seu governo. Alckmin defende mudanças
administrativas e crescimento econômico
Sylvio Costa *
No SBT, Lula ressalta avanços sociais
e ações do seu governo. Alckmin defende mudanças
administrativas e crescimento econômico . Se você tem vivas
na memória as imagens do quentíssimo encontro entre os
presidenciáveis promovido dia 8 pela TV Bandeirantes e por acaso
não viu o debate realizado hoje (19) à noite pelo SBT,
procure imaginar mais ou menos o inverso do que ocorreu 11 dias atrás.
Restringidos pela regra do programa, que
impedia ofensas pessoais e procurava estimular a discussão de
idéias, os candidatos Lula (PT) e Alckmin (PSDB) enfrentaram-se
no SBT num clima de respeito mútuo, deixando de lado as trocas
de acusações para se concentrar na avaliação
do que cada um fez como gestor público (na Presidência da
República e no governo de São Paulo) e no debate de propostas
de ação.
Ele dispararam críticas um contra
o outro, mas de uma maneira que, comparada ao que se viu no debate do
dia 8, conferiu ao embate características de um confronto entre
lordes. Que, por sinal, se cumprimentaram cordialmente no início
e no fim do debate. Ao longo de 90 minutos, Lula ressaltou as realizações
do seu governo, prometeu fazer mais em um eventual segundo mandato e
procurou explorar aspectos que considera incoerentes no discurso do seu
adversário. Já Alckmin manteve o tom de crítica à administração
petista, mas de modo bem mais suave que o adotado na Band, e sempre tentando
pôr em destaque três compromissos básicos: com a ética,
o crescimento econômico e a melhoria da gestão.
Alckmin aposentou a agressividade que,
segundo a avaliação da maioria dos analistas, teria lhe
garantido a vitória no programa da Bandeirantes. A conclusão é discutível,
já que o candidato desde então não pára de
despencar nas pesquisas de intenção de votos (apesar de
também não haver segurança sobre a relação
entre uma coisa e outra).
Lula, desta vez, demonstrou maior firmeza
e, em várias oportunidades, dedicou-se - embora de modo menos
incisivo - ao esporte exercitado por Alckmin no debate anterior: apontar
as perguntas não respondidas pelo adversário. O debate
acabou exatamente às 22h37, pelo horário de Brasília.
Várias vezes, os candidatos extrapolaram o tempo a que tinham
direito, levando a mediadora, a apresentadora Ana Paula Padrão,
a interrompê-los. Isso aconteceu 12 vezes com Alckmin e cinco com
Lula.
Como fizemos com o debate na Bandeirantes,
selecionamos os principais trechos do programa do SBT. Também
nos manteremos fiéis à linha de não apontar vencedores.
Um bom resumo do que aconteceu segue adiante, cada um que chegue à conclusão
que aparecer melhor apropriada.
Veja a seguir os principais momentos
do debate, bloco a bloco.
Primeiro bloco
No primeiro bloco, foram sorteados três
temas sobre os quais os candidatos deveriam discorrer. O primeiro deles
foi agricultura. O presidente Lula destacou os investimentos do governo
no setor agrícola. O petista disse que investiu no último
plano de safra R$ 60 bilhões, "o maior volume dos últimos
30 anos", e ressaltou que os investimentos que fez no setor foram
muito superiores ao do governo anterior. Lula reforçou ainda que
atendeu, dentro das possibilidades, todos os pedidos do ex-ministro Roberto
Rodrigues.
"A agricultura é um dos pilares
do desenvolvimento do país. O problema é que a agricultura
passa por crises cíclicas", afirmou, reconhecendo que o setor
agrícola enfrentou "problemas sérios" nos últimos
dois anos, que ele atribuiu em parte ao aumento da oferta mundial de
alimentos.
O ex-governador Geraldo Alckmin criticou
as medidas de Lula para a agricultura. Disse que o setor sofreu "a
maior crise dos últimos 40 anos", causada pela "omissão
do atual governo" e "por um conjunto de problemas trazidos
pelo governo Lula". Entre os problemas, o tucano citou a volta da
aftosa, a quebra de produção e a paralisia do segmento
de produção de máquinas agrícolas.
"O candidato Alckmin comete injustiças
graves. Tive como ministro da Agricultura um amigo meu e um amigo dele,
uma das pessoas mais competentes do país e que é agricultor.
Tudo o que foi pedido pelo Roberto Rodrigues nós fizemos. Acontece
que nem sempre o Tesouro tem dinheiro para resolver os problemas na hora
certa", afirmou Lula.
O segundo tema do primeiro bloco foi a
corrupção. Alckmin foi o primeiro a falar. O tucano disse
que "o governo precisa dar o exemplo para a sociedade. Tem que ser
aquele em que a população se espelha". "O que
vimos no governo Lula não foram fatos isolados, o que já seria
grave. Foi uma questão endêmica, que começou com
o caso Valdomiro, passando pelo mensalão, Visanet, o escândalo
da Secom, Getech e culminando com a questão do dossiê",
disse o tucano.
Ele cobrou a origem do R$ 1,7 milhão
apreendido pela Polícia Federal com petistas, no hotel Íbis
Congonhas, em São Paulo, e ressaltou que já se passaram
34 dias desde que o esquema foi desmontado. Lula rebateu as críticas
dizendo: "Esta campanha vai se tornar a campanha de uma nota só.
Se as coisas estão aparecendo é porque o governo está apurando".
O terceiro assunto foi a saúde.
Lula citou dados de investimentos do governo nessa área e afirmou
que pretende estender à saúde pública o tratamento
de oftalmologia. Entre outros números, o presidente disse que
aumentou os investimentos em saúde de R$ 28 bilhões para
R$ 44,3 bilhões por ano; elevou de 4 mil para 14 mil o total de
agendes de saúde bucal; e ampliou em 57% o total de agentes comunitários
de saúde, que chegou a 26 mil.
Alckmin rebateu: "A saúde
vai muito mal, ela piorou no atual governo. As santas casas estão
quebradas porque a tabela do SUS não é corrigida. Arrecadou
R$ 30 bilhões da CPMF, não repassou nenhum centavo para
as prefeituras, nenhum centavos pros estados". Segundo o presidenciável
tucano, o atual governo "abandonou os mutirões de saúde
da gestão passada, a Aids piorou no governo Lula, o programa dos
genéricos foi abandonado e os hospitais do Rio entraram em colapso".
Ele completou: "Pra mim não tá bom. Vou melhorar e
corrigir a saúde".
Lula rebateu as afirmações: "Não
está bom para o Alckmin porque ele não utiliza a saúde
publica, certamente ele usa o convênio médico. Eu sei o
que é a saúde pública porque convivo com ela. Estamos
longe da saúde que desejamos para nossos filhos, mas o que estamos
fazendo na saúde jamais foi feito", afirmou o petista.
Segundo bloco
No segundo bloco, assim como no terceiro,
os candidatos fizeram perguntas entre si.
Questionado por Lula sobre suas propostas
para a área de segurança, o presidenciável do PSDB
afirmou que o problema da violência nas grandes cidades se deve
principalmente ao tráfico de drogas e ao contrabando de armas,
assuntos da responsabilidade do governo federal, que é incapaz
de controlar as fronteiras nacionais. Ele prometeu, se eleito, equipar
a Polícia Federal para protegê-las.
"A cidade de São Paulo não
tem mais preso em cadeia. Investimos em policiais, fiz a minha parte.
Mas por trás da questão de segurança tem o trafico
de drogas. O que nos temos é uma omissão do governo federal,
que tem a polícia de fronteira, que tem a missão de combater
o trafico de drogas, de armas e não faz", afirmou.
Segundo Alckmin, o governo, em vez de
investir, cortou verbas da segurança. "O que o governo atual
fez com a segurança foi cortar todas as verbas, reduziu à metade
o fundo de segurança e o fundo penitenciário. Eu vou assumir
como responsabilidade do governo federal. Se esse é um problema
do Brasil todo, é um problema do presidente. Vou criar o Ministério
da Segurança Pública", declarou.
Lula rebateu as afirmações
e ironizou: "Pelo amor de deus. Que o povo de São Paulo não
ouça, que vai pensar que vai ter um PCC no Brasil inteiro. Eu
não posso ficar chutando, tenho que dizer números exatos",
comentou. "Temos 17 mil km de fronteira seca e 86% das armas apreendidas
são fabricadas no país, não são contrabandeadas.
Propusemos um sistema de integração e só São
Paulo não aceitou. Só aceitou agora com o [governador Cláudio]
Lembo".
Alckmin devolveu a provocação
de Lula e afirmou que, em São Paulo, "não tem nenhum
líder do crime organizado que não esteja preso em penitenciária
de segurança máxima". "O que eu lamento é que
os criminosos do colarinho branco estejam soltos, sem responder à Justiça",
declarou. Segundo Alckmin, Lula também falhou no campo das iniciativas
legais: "A legislação é muito fraquinha com
o crime organizado e dura com o pequenininho".
Outro tema abordado durante o segundo
bloco foi a educação. Lula perguntou a Alckmin: "Você disse
que a educação será um dos pilares do seu governo,
mas de acordo com os resultados do Enem [programa federal de avaliação
do ensino médio] seu governo no estado de São Paulo foi
um desastre. A reprovação triplicou no ensino médio,
duplicou no ensino fundamental e São Paulo ficou em oitavo lugar
na avaliação do Enem. Qual é a sua proposta para
a educação?"
"O candidato Lula está fazendo
a mesma pergunta do último debate", observou Alckmin. Ele
acrescentou que o sistema de ensino de São Paulo não foi
avaliado, foram avaliados os alunos que fizeram o exame. "Faz a
prova quem quer. Enquanto o governo federal tinha quatro horas-aula elevamos
para seis horas-aula. Levamos a Universidade de São Paulo para
a zona leste. Aumentamos o número de Fatecs. E não estou
aqui para discutir São Paulo, porque em São Paulo já ganhamos
as eleições com José Serra. Estou aqui para discutir
o Brasil. No Brasil, temos 2,5 milhões de crianças de sete
a 14 anos fora da escola, 250 mil a mais no trabalho infantil. O senador
Cristovam Buarque, um dos mais respeitados mestres, foi demitido do Ministério
da Educação por telefone. O Fundeb por quatro anos não
saiu do papel". E completou: "Vou priorizar creches e fazer
a universalização do ensino médio".
Em resposta a Alckmin, Lula disse que
o Enem avalia o nível dos alunos, sim, mas exatamente para verificar
a qualidade do ensino que eles estão recebendo. "Nós,
que não temos toda a sapiência que o candidato Geraldo Alckmin
tenta demonstrar, aumentamos o número de universidades".
Quanto ao Fundeb (novo fundo de financiamento da educação
básica, mais amplo que o Fundef, criado por Fernando Henrique),
afirmou que "só não foi aprovado porque o PSDB não
quis votar porque parece que ele não quer votar nada que ajude
o atual governo".
Alckmin questionou o presidente sobre
o estudo publicado pela revista londrina The Economist no qual o Brasil
ficou em último lugar dentre 27 países emergentes analisados.
Alckmin quis saber do presidente em qual posição o Brasil
havia sido classificado.
Em resposta, Lula disse: "O candidato
Geraldo Alckmin é um daqueles brasileiros que acreditam que o
que dá no New York Times é verdade e o que deu no jornal
local não vale, é colonizado". Para o presidente "não
há, em nenhum momento da história brasileira, um momento
como este para o crescimento". Como exemplos do crescimento do país,
Lula destacou: "A exportação é recorde, temos
a maior geração de empregos dos últimos dez anos,
melhor distribuição de renda, 19% das pessoas saíram
da linha da pobreza, a construção civil está vivendo
o melhor momento dos últimos 20 anos". Lula complementou: "A
economia brasileira não está como eu queria, no ápice,
mas está preparada para dar o próximo salto para o crescimento".
"O Brasil cresceu 2,3% no ano passado,
só não foi pior que o Haiti", lembrou Alckmin. Mencionando
as difíceis condições em que recebeu o país,
Lula declarou: "Fico triste de comparar com o Haiti".
Em seguida, questionou o candidato do
PSDB sobre um dos principais pontos explorados neste segundo turno pela
campanha petista: as privatizações. Lula afirmou que, no
governo passado, "praticamente tudo foi privatizado" e pergunto: "Sem
que a gente fique nervoso aqui, só para discutir, qual é a
sua visão sobre a privatização?"
Alckmin respondeu que as privatizações
foram benéficas para o país e disse que, quando bem feitas,
geram resultados positivos para a sociedade. "O candidato não
reconhece nada do que foi feito antes dele, tem os olhos no passado.
Eu tenho os olhos voltados para o futuro. A privatização
teve avanço, como a telefonia. Quem tinha telefone antigamente?
US$ 3 mil um telefone. Hoje, 90 milhões de brasileiros tem um
celular, fora a telefonia fixa. Aliás, se tivesse errado, ele
devia ter reestatizado", replicou Alckmin.
Lula rebateu dizendo que o governo anterior
vendeu R$ 200 bilhões em empresas estatais e só conseguiu
aumentar a dívida pública. Ele questionou ainda a destinação
dos recursos obtidos com a venda de companhias como a Vale do Rio Doce
e a Companhia Siderúrgica Nacional. "Onde foi parar esse
dinheiro?", indagou.
Alckmin respondeu que "não
tem problema privatizar" se for feito da forma correta. "O
que não pode é mentira, dizer que eu vou privatizar o banco
do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras". O tucano afirmou
ainda que o país "andou para trás" porque, quando
Lula assumiu, havia 8 milhões de desempregados no país
e agora existem 9 milhões. "Ele acha que está bom
o Brasil crescer 2%. Aliás, disse que não tem pressa. Eu
tenho pressa para crescer. Vou cortar gastos, vou diminuir juros e reduzir
impostos para crescer", afirmou.
Lula retrucou dizendo que criou muito
mais empregos que seu antecessor, o também tucano Fernando Henrique
Cardoso.
Alckmin retomou o debate em torno da saúde
pública e disse que a saúde vai mal, embora não
faltem recursos nos cofres da União. Ele alega que o governo não
aplica na área, como deveria fazer, os recursos da CPMF. Frisou,
ainda, que é usuário da rede pública de saúde: "Fui
operado três vezes. Nas três vezes, na Santa Casa de Pindamonhangaba.
Quando preciso, me consulto no Incor, que é um hospital público
aqui de São Paulo e uma referência em serviços de
saúde". O tucano prometeu aumentar os investimentos no setor
e priorizar o atendimento às mulheres. "Acho que a saúde
vai mal e pode melhorar muito. E não é por falta de dinheiro.
Vou trabalhar na questão da saúde da mulher. Está aumentado
o câncer de mama e falta mamógrafo", afirmou o tucano.
Lula replicou dizendo que o adversário
não reconhece os avanços do atual governo, mas que a população
nunca recebeu atendimento como agora. "Eu não posso esperar
nunca que meu adversário reconheça alguma coisa. Obviamente
ela precisa melhorar, mas a verdade é que nunca esteve como agora",
disse.
O presidente, numa referência ao
prefeito do Rio, César Maia (PFL), complementou: "Se a saúde
do Rio não está tão boa, é porque a pessoa
que está lá te apoiando não aceitou nem as ambulâncias
que mandamos para eles. Não queria que os hospitais tivessem uma
ajuda de R$ 330 milhões para melhorar os serviços de emergência".
Terceiro bloco
No terceiro bloco do debate, Lula tentou
capitalizar a ligeireza com que Alckmin atravessou o tema da privatização
no bloco anterior: "As perguntas sobre privatização
ele não gosta de responder, nem vou perguntar mais", ironizou.
Em seguida, perguntou qual era a posição de Alckmin em
relação ao programa Luz para Todos. Ele afirmou que, enquanto
estava à frente do governo de São Paulo, Alckmin foi o único
governador que deixou de cumprir o acordo de colaboração
e repasse de verbas para o programa (que prevê contrapartida correspondente
a 10% dos custos).
Segundo Lula, só "agora que
o Cláudio Lembo botou no orçamento do ano que vem" a
contrapartida estadual para o programa. Ele ressaltou que o governo federal
implementou o programa em São Paulo mesmo sem a participação
financeira do estado. "Sonho entrar para a história do país
como o presidente que apagou o último candeeiro", disse
Alckmin respondeu: "O Luz para Todos é o
Luz no Campo que o presidente Fernando Henrique fez e que nós
vamos manter e ampliar. Mas já que tocamos na questão do
campo quero perguntar ao Lula: todos os governos que passaram fizeram
irrigação. O governo FHC foi o que mais fez, o Itamar,
o Collor. O governo Lula foi o único que não fez".
Lula rebateu: "Eu acho que Alckmin
se faz de desentendido quando pergunto. O Luz no Campo não tem
nada a ver com o Luz para Todos. O Luz no Campo era um programa tão
pequeno, e era pago. O Luz para Todos é gratuito. É um
programa que tira a população rural do século XVIII.
Foi um acordo entre o governo federal e os governadores e em São
Paulo não tivemos o apoio do então governador Alckmin".
Na tréplica, Alckmin insistiu na questão da irrigação.
O presidente Lula reforçou que
o país nunca aliou crescimento econômico com desenvolvimento
social. Ele ainda afirmou que a sociedade sabe quando um candidato tem
só discurso ou faz algo de fato.
"O Brasil já teve um momento
em que a economia cresceu 10% ao ano e a questão social era zero
nesse país. Nós estamos provando que é possível
a gente crescer com distribuição de renda. Aliás,
os indicadores mostram a diminuição da pobreza no país. É por
isso que existe um fenômeno na sociedade de perceber quando alguém
faz só discursos ou faz algo. A economia brasileira só pode
crescer se tiver base concreta pra crescer. Nós criamos a base
para ela crescer de 5% a mais de 5% ao ano", afirmou Lula.
Alckmin contra-argumentou: "Não é possível
acharmos que o Brasil está condenado a crescer 2%. Alguma coisa
está errada. O mundo cresce 5%. Sobre a saúde, acho que
o Lula não sabe o que é um hospital público para
achar que está tudo uma maravilha. E não adianta querer
transmitir responsabilidade para o prefeito do Rio, César Maia,
porque a maior parte da rede hospitalar do Rio de Janeiro é do
governo federal".
Alckmin também questionou Lula
sobre o dinheiro destinado ao pagamento de dívidas. "Eu queria
perguntar para Lula: R$ 329 bilhões foram gastos com juros, R$
138 bilhões a mais que no governo Fernando Henrique em igual período,
mesmo sem nenhuma crise no cenário mundial e o lucro dos bancos
foi o triplo do verificado no período FHC..." A pergunta
foi interrompida pela mediadora, a jornalista Ana Paula Padrão,
porque o candidato tucano ultrapassou seu tempo.
"Imagina quanto vocês pagavam
quando o juro era 30, 40% e não 13%. É bom o banco ganhar
dinheiro porque senão ele quebra e aí sim arrasa com a
economia do país. Mas não são só os bancos.
Noventa por cento dos acordos salariais dos últimos três
anos tiveram aumento acima da inflação. Pela primeira vez
em dez anos, o lucro das empresas foi maior que o dos bancos. As pessoas
estão comendo mais, vivendo mais. Eu estou convencido de que estamos
fazendo a política correta. Os juros estão caindo. As pessoas
hoje podem comprar um computador com R$ 50 a prestação.
Ainda falta muito para ser feito, mas ninguém fez o que a gente
fez. Eu próprio acho que podemos fazer muito mais e vamos fazer.
Eu acredito que o povo hoje está mais feliz do que estava antes,
no governo de vocês", argumentou Lula.
Em resposta, Alckmin falou olhando para
a câmera: "Temos aqui duas visões totalmente opostas.
Lula acha que está tudo bem. Lula não tem dinheiro para
dar aumento aos aposentados, mas aumentou o gasto com juros".
O presidente provocou o seu adversário: "Mas
em campanha política vale tudo mesmo. O candidato falar em aumento
para aposentados? Nós demos 5% de aumento para os aposentados
e demos um aumento maior para o salário mínimo e o PFL
e o PSDB, para fazer demagogia, quiseram estender aos aposentados, uma
coisa que eles sabem que a Previdência não tinha condições
de pagar".
Lula perguntou a Alckmin como ele "vai
fazer todos os cortes de gastos que ele diz que vai fazer para agradar
um pequeno setor da elite". O tucano citou dados que apontam redução
dos investimentos sociais per capita no governo Lula: "O governo
do Lula reduziu na saúde 7,49%, comparado com o governo anterior.
Na educação e cultura, foi 5,4%, no saneamento e habitação,
44%. Reduziu tudo. Nós temos uma diferença. Ele vai manter
os 34 ministérios, os 40 mil petistas em cargos de comissão,
a companheirada. Eu vou fechar as torneiras do desperdício, vou
fazer mais com o dinheiro do povo para o Brasil crescer", replicou
Alckmin.
Lula lembrou que o tucano, embora tenha
dito que vai cortar ministérios, prometeu criar o Ministério
da Segurança Pública. E disse que, mais importante do que
cortar gastos, é fazer o país crescer.
"Eu acho que o Brasil não
tem como cortar como vocês dizem, falar é fácil,
tem que ver na hora de fazer. É preciso ter crescimento econômico,
que somente nós vamos fazer. Porque no período em que vocês
governaram, oito anos, não aumentou a renda como aumento conosco,
não cresceu como cresceu conosco e não baixou tanto a inflação
como baixou conosco", disse Lula.
O presidente afirmou que o orçamento
de quatro secretarias com status de ministério (entre elas, Igualdade
Racial, Políticas para a Mulher e Pesca) representa relativamente
pouco no conjunto dos gastos federais (em torno de R$ 100 milhões), "mas
o retorno para a população é inestimável".
Alckmin provocou e disse que o Aerolula, comprado por R$ 150 milhões,
custou mais que quatro ministérios.
"O governante precisa dar exemplos.
Eu aprendi a fazer com gastos de melhor qualidade, gastar naquilo que
interessa para o povo. É possível cobrar menos imposto
e o Brasil crescer mais. O Brasil tá perdendo tempo", emendou
o tucano.
Alckmin acusou Lula de não regulamentar a emenda constitucional número
29 para poder reduzir os investimentos na saúde. "Embora tenha
a CPMF, no ano passado deixou de investir na saúde R$ 1,6 bilhão",
acusou o tucano. Lula provocou o adversário: "O Alckmin faz parte
de um tipo de gente que acha que investir em comida para o povo não é investir
em saúde".
O presidente citou dados comparativos
entre o governo atual e a gestão passada e destacou o trabalho
feito na área de assistência odontológica pública. "No
Brasil, tratamento odontológico não existia para pobre,
pobre arrancava dente. Agora, nós estamos permitindo que o pobre
tenha ortodontia para que possa ter todos os dentes na boca", afirmou.
Alckmin insistiu na tecla do corte de
gastos no setor. "Retirar R$ 1,6 bilhão da saúde não
está correto. Governar é escolher. Não dá para
tirar recurso da saúde, quando a população precisa
do SUS. A primeira tarefa que vou fazer é retomar o investimento
na saúde", disse Alckmin.
O presidente rebateu e disse que o atual
governo faz o que deveria ter sido feito "20 ou 30 anos atrás". "Você que é médico
sabe. Uma pessoa gastava R$ 130 para comprar insulina. Agora gasta R$
13. Está economizando um terço do salário mínimo
para poder, quem sabe, no fim do ano tirar umas férias",
finalizou Lula, referindo-se à Farmácia Popular.
Quarto bloco
No quarto e último bloco, os candidatos
puderam fazer, rapidamente, suas considerações finais.
Lula foi o primeiro a falar:
"De um lado nós temos um candidato
e um partido que depois de governar oito anos o Brasil e um estado 12
anos não fez grandes mudanças. Do outro, temos um governo
que em quatro anos promoveu a redução da miséria
e da desigualdade, a criação de oportunidades de trabalho
e a formalização de empregos. Com a redução
da fome, 8,4 milhões saíram da miséria. O salário
mínimo não comprava uma cesta básica, agora dá pra
comprar 1,6 cesta básica.
Ajudamos a reduzir o analfabetismo. Ampliamos
o Bolsa Família para 11 milhões de famílias. Estamos
aumentando a comercialização de biodiesel. Os números
fluem na boca de muitas pessoas e cada um diz o que quer, mas o passado
condena alguns e absolve outros. Tenho o sonho de transformar o Brasil
no país mais democrático do mundo em termos de acesso a
universidades. Porque sei a diferença que ter emprego, ter renda,
faz na vida de uma pessoa. Estamos criando oportunidades para melhorar
a capacitação dos profissionais e aumentar o número
de trabalhadores com carteira assinada".
Para concluir, Lula pediu aos brasileiros que votassem na educação. "No
emprego, na educação e na saúde" e que dessem a ele
a oportunidade de governar por mais quatro anos.
Geraldo Alckmin, por sua vez, disse: "O
PT teve a sua oportunidade, quatro anos, e o que nós vimos? Sob
o ponto de vista ético, um descalabro. Sob o ponto de vista da
gestão, a saúde piorando, a educação piorando,
a segurança pública piorando. Sob o ponto de vista do crescimento,
o Brasil perdeu a oportunidade de crescer e cresceu 2 % ao ano. Não
vou permitir nas empresas estatais a privatização para
o partido, como o PT fez. Governo é para servir o povo. Vamos
trabalhar pelo emprego, este é o grande programa brasileiro. Governo
só gera emprego de forma complementar, quem gera empregos são
os empresários. Tem que baixar juros, incentivar o país
a crescer.
Quero dar oportunidade para que os jovens
tenham oportunidade de independência. Vamos trabalhar para pôr
o Brasil na linha certa. O Brasil está com a receita errada, nós
vamos trabalhar para que tenha a receita certa. O Brasil pode mais e
merece mais". * Com Rodolfo Torres, Soraia Costa e Diego Moraes