SITE UOL, 09 de novembro de
2006
Um terço dos governadores eleitos
são milionários
Marcelo Gutierres, Larissa Morais e Larissa
Guimarães
Da Redação, em São Paulo
Levantamento feito pelo UOL aponta que
um terço dos governadores eleitos nestas eleições é de
milionários, segundo informações prestadas por eles
ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Dos 27 políticos eleitos,
nove apresentaram declaração de bens com montante igual
ou maior a R$ 1 milhão. Os dados foram coletados junto ao site "Políticos
do Brasil", do jornalista Fernando Rodrigues.

Conhecido como o "rei da soja", Blairo Maggi (PPS), reeleito em Mato
Grosso, é o "mais rico" entre os governadores. Sua declaração
de bens enviada ao TSE aponta o valor de R$ 33.444.394,07. O montante refere-se
a participações em empresas, imóveis, automóveis
e empréstimos concedidos, entre outros.
O título de "mais pobre" fica
com o governador reeleito no Amapá, Waldez Góes (PDT).
O valor declarado foi de R$ 13.521,78. Ele estimou sua casa em R$ 3,1
mil e um carro no valor aproximado de R$ 6,5 mil. A diferença
patrimonial entre ele e o primeiro colocado é próxima de
248.000%.
Para Claudio Couto, professor de ciência
política da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo), quem tem mais recursos "larga na frente" na
corrida eleitoral. Segundo o cientista, isso aplica-se tanto às
eleições legislativas quanto à disputa do Executivo.
"Quem tem tantos recursos tem meios
para investir na carreira política, ou seja, quem é milionário
tem potencialmente tempo livre e recursos para bancar uma estrutura de
promoção da sua própria liderança",
afirma Couto.
Couto diz não ter dúvidas
de que a candidatura de políticos com fortes ligações
a setores econômicos possa representar interesses específicos.
Ele cita o apoio de Blairo Maggi (PPS-MT) a Lula no segundo turno, contrariando
a orientação do seu partido.
Maggi anunciou apoio ao petista no mesmo
momento em que houve liberação federal de R$ 1 bilhão
para produtores de soja. "Não creio que seja possível
separar a figura do Maggi do setor do qual ele é oriundo, sendo
tão notável a sua atuação, ainda como governador,
junto ao agronegócio", afirma o cientista.
"Clube do
milhão"
O segundo na lista dos milionários é um colega de partido de
Baggi. Reeleito em Rondônia em meio a uma série de denúncias
de corrupção, Ivo Cassol disse ter R$ 15.407.510,40. Cassol atua
com empresário no setor de energia elétrica.
Ele é seguido de perto pelo novo
governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), com R$ 14.489.175,69
declarados. Cerca de dois terços desse valor (R$ 10.925.351) são
referentes a ações da Usina Serestas, o que o faz ser apontado
como um representante dos usineiros no Estado pelos seus opositores.
Outros seis governantes integram o "clube
do milhão": Eduardo Braga (PMDB-AM), com R$ 4.180.951,33;
André Puccinelli (PMDB-MS), com R$ 2.376.655,78; Roberto Requião
(PMDB-PR), com R$ 1.406.541,14; Paulo Hartung (PMDB-ES), com R$ 1.312.449,38;
Marcelo Miranda (PMDB-TO), com R$ 1.287.758,91; e Wilma de Faria (PSB-RN),
com R$ 1.210.694,36.
Acompanha o governador do Amapá,
Waldez Góes, nas últimas posições, a petista
Ana Júlia, eleita no Pará. Ela declarou R$ 38 mil, referentes
a um carro ano 2003. O antepenúltimo é o petista Marcelo
Déda (SE), com R$ 248.042,50, cujo maior bem relatado é um
apartamento de R$ 189,5 mil.
Partidos
O partido com maior número de governadores milionários é o
PMDB, com cinco representantes. O segundo é o PPS, com os dois primeiros
colocados, seguido pelo PSDB e PSB, com um político em cada legenda.
Entre os governadores do PT, o representante
mais bem colocado da sigla é o governador eleito na Bahia, Jaques
Wagner, cuja carreira política foi construída no movimento
sindical. Ele afirmou possuir R$ 690.034,03, sendo R$ 344.579,03 investidos
no sistema financeiro.
No intervalo abaixo de R$ 1 milhão
e acima de R$ 500 mil há dez governadores, com predomínio
do PSDB, com quatro nomes. O "líder" desse grupo é o
tucano José Serra, novo governador de São Paulo e nome
forte para concorrer à Presidência em 2010. Sua declaração é de
R$ 872.893,62, sendo R$ 240 mil investidos em três salas comerciais
na capital paulista.
Cássio Cunha Lima (PSDB), que obteve
o segundo mandato na Paraíba, precisaria de pouco menos do que
mil reais para integrar o grupo do "meio milhão". A
soma de patrimônio declarado é de R$ 499.036,03.
Socialismo endinheirado
Com origens no velho Partido Comunista do Brasil (PCB), criado em 1922, o Partido
Popular Socialista prega um socialismo "humanista" por dentro do
capitalismo, mas tem os governadores eleitos mais ricos do país. A média
do patrimônio de Blairo Maggi (MT) e Ivo Cassol (RO) -R$ 24,5 milhões- é oito
vezes maior que a média do dos 27 governadores eleitos -R$ 3,1 milhões.
Do passado de militantes assalariados
e sem recursos restou pouco. O partido que apoiou informalmente o "neoliberal" Geraldo
Alckmin (PSDB) tem em suas fileiras o maior produtor individual de soja
do mundo, o governador reeleito de Mato Grosso, Blairo Maggi.
Segundo o deputado federal Roberto Freire,
presidente nacional do PPS, é irrelevante para o partido se o
candidato é pobre ou rico. "Levamos em consideração
o caráter", diz. O dirigente argumenta que Maggi e Cassol
ganharam dinheiro na iniciativa privada. "É muito mais grave
enriquecer com dinheiro público", afirma.
Cassol e Maggi podem ser chamados de "novos
socialistas". O governador reeleito de Rondônia filiou-se
ao PPS em 2005, para evitar que fosse expulso do PSDB por acusações
de fraudes quando foi prefeito de Rolim de Moura. Já o produtor
de soja começou na política apenas em 2002, quando se candidatou
ao governo de Mato Grosso.
Blairo Maggi declarou patrimônio
de R$ 33.444.394,07 ao TSE. Com menos da metade, R$ 15.407.510,40, Ivo
Cassol é o segundo colocado no ranking dos 27 governadores. O
ex-tucano é dono do grupo Cassol, que explora madeira e usinas
de eletricidade de pequeno porte.
Fortuna com o
agronegócio
O governador reeleito de Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), será o chefe
de governo estadual mais rico do país em 2007. Declarou patrimônio
de R$ 33.444.394,07 ao TSE.
A declaração de Maggi ao
TSE tem 78 itens, entre aplicações financeiras, veículos,
imóveis rurais e urbanos, participação em empresas,
cotas de clubes etc. Entre os seis carros estão dois veículos
BMW ano 2005.
O maior bem declarado do governador é a
participação com 9,91% no capital social da empresa André Maggi
Participações Ltda, de pouco mais de R$ 10,5 milhões.
Maggi elegeu-se em 2002 e 2006 pelo PPS,
mas pode deixar o partido. A direção abriu em 31 de outubro
processo para expulsá-lo. O presidente da sigla, Roberto Freire,
acusa o governador de ter declarado apoio a Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) no segundo turno em troca da liberação de R$
1 bilhão para produtores de soja.
Blairo Borges Maggi, 50, é o maior
produtor individual de soja do mundo, além de ser o exemplo bem-sucedido
do setor econômico mais próspero do país, o agronegócio.
Engenheiro agrônomo, empresário e presidente do Grupo Amaggi,
o governador chegou a Mato Grosso há 26 anos, para plantar soja
em Itiquira.
Maggi cresceu em uma pequena propriedade
rural com os pais e quatro irmãs, em São Miguel do Iguaçu,
no oeste do Paraná. O pai apostou em uma serralheria, mas o filho
era alérgico a pó de serragem. Em 1969, aos 13 anos, Blairo
começou a plantar soja na fazenda do patriarca André.
Assim que terminou a faculdade de agronomia
na Universidade Federal do Paraná, em 1981, Maggi foi com a família
para Rondonópolis (MT). Após viajar a diversos países
para descobrir os segredos da produção agrícola
em grande escala, o governador iniciou fortuna investindo no potencial
do cerrado brasileiro.
Maggi começou na política
em 2002, quando candidatou-se ao governo estadual e foi eleito ainda
no primeiro turno. Desde então, tem procurado delegar funções
da empresa a membros da família.
O empresário ganhou em 2005 o "Motosserra
de Ouro", um prêmio irônico concedido pela ONG Greenpeace
ao suposto maior responsável pelo desmatamento da floresta amazônica.
Ele nega ter promovido desmatamento.
O grupo Amaggi é o maior produtor
e exportador de soja do país, além de ter negócios
em outras áreas, como logística de transportes, pecuária
e produção de energia elétrica. Em 2003, o grupo
possuía 162 mil hectares, colheita de 550 mil toneladas de grãos
e faturamento de US$ 550 milhões.
Brizolistas declaram
menor patrimônio
O partido fundado por Leonel Brizola passou longe da lista dos nove milionários
eleitos governadores. O PDT -que adotou o slogan "o partido das mãos
limpas" durante as eleições- tem os governadores menos abastados,
segundo a declaração de bens prestada pelos candidatos ao TSE.
A média do patrimônio dos eleitos pela sigla chega a R$ 210,5
mil, enquanto a média patrimonial entre os 27 governadores ficou em
R$ 3,1 milhões. O partido conseguiu emplacar dois governadores nestas
eleições. No Estado do Amapá, Waldez Góes reelegeu-se
para mais quatro anos. No Maranhão, Jackson Lago teve vitória
surpreendente, derrotando Roseana Sarney (PFL).
"Isso traduz um pouco o que é o
partido. O PDT é um partido popular, sem estrutura de poder, com
marca de seriedade", diz Carlos Lupi, presidente nacional da sigla.
Os dois políticos traçaram
longa carreira na política, dentro do partido, de acordo com Lupi.
Tanto Lago como Góes têm mais de 20 anos de filiação
partidária. "Isso não quer dizer que os eleitos que
têm patrimônio alto não sejam sérios. [O político]
pode ganhar o dinheiro por uma herança ou como produto do trabalho
mesmo", afirma.
Waldez Góes é o governador
com menor patrimônio declarado -pouco mais de R$ 13,5 mil. O valor
compreende um modelo Saveiro, ano 1996, uma casa residencial (de valor
declarado de pouco mais de R$ 3 mil), uma linha telefônica celular,
um terreno em área urbana e uma linha telefônica convencional.
O governador reeleito foi servidor público por 11 anos e exerceu
dois mandatos como deputado estadual, além do cargo de governador.
O médico Jackson Lago, 72 anos, é 21º no
ranking patrimonial dos governadores eleitos. Lago declarou cerca de
R$ 407,6 mil em bens. Na lista, consta um apartamento em Ponta de Areia,
uma casa residencial na capital São Luís, ações
e cadernetas de poupança, além de um Vectra, ano 1997.
Patrimônio
mirrado na vida pública
A carreira na política e no funcionalismo público rendeu patrimônio
mirrado ao governador reeleito Waldez Góes (PDT), de acordo com a declaração
de bens do político. Na lista de milionários eleitos, Waldez
Góes, 44, foi o governador com menor patrimônio declarado. A soma
de todos os seus bens chega a pouco mais de R$ 13,5 mil. O primeiro do ranking,
o governador reeleito Blairo Maggi (PPS), tem patrimônio declarado 2.480
vezes maior.
A soma de R$ 13.521,78 compreende uma
Saveiro, ano 1996, uma casa residencial (com valor declarado de pouco
mais de R$ 3 mil), uma linha telefônica celular, um terreno em área
urbana e uma linha telefônica convencional.
Embora com menos de R$ 14 mil declarados,
Góes exerceu diversos cargos na política. O governador
começou a vida política em 1990, quando elegeu-se deputado
estadual aos 29 anos, pelo PDT. Foi um dos primeiros a entrar na sigla
de Brizola no Amapá –o partido foi fundado em 1985 no Estado.
Nas eleições de 1994, conseguiu
reeleger-se deputado estadual, mas perdeu a disputa para o governo do
Estado em 1998. No entanto, ficou pouco tempo afastado do poder. Tornou-se
assessor do então governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB) de
1999 a 2001.
"Não sei quanto ele declara
de patrimônio. Mas se ele declarou isso, é isso mesmo",
defendeu Carlos Lupi, presidente nacional do PDT.
Filho de seringueiro, Waldez Góes
deixou sua cidade natal Jaburu dos Alegres (AP) ainda criança
e passou a morar na capital do Estado, Macapá. Antes de entrar
na política, Góes foi servidor público federal
e trabalhou como técnico agrícola em órgãos
públicos ligados à atividade rural por 11 anos.
VEJA O RANKING
Estado
|
Governador
|
Partido
|
Bens
declarados (em R$)
|
| MT |
Blairo
Maggi |
PPS |
33.444.394,07
|
| RO |
Ivo Cassol |
PPS |
15.407.510,40
|
| AL |
Teotônio
Vilela |
PSDB |
14.489.175,69
|
| AM |
Eduardo
Braga |
PMDB |
4.180.951,33
|
| MS |
André Puccinelli |
PMDB |
2.376.655,78
|
| PR |
Roberto
Requião |
PMDB |
1.406.541,14
|
| ES |
Paulo
Hartung |
PMDB |
1.312.449,38
|
| TO |
Marcelo
Miranda |
PMDB |
1.287.758,91
|
| RN |
Wilma
Faria |
PSB |
1.210.694,36
|
| SP |
José Serra |
PSDB |
872.893,62
|
| MG |
Aécio
Neves |
PSDB |
831.800,53
|
| RR |
Ottomar
Pinto |
PSDB |
709.136,06
|
| BA |
Jaques
Wagner |
PT |
690.034,03
|
| RS |
Yeda Crusius |
PSDB |
674.400,00
|
| RJ |
Sérgio
Cabral |
PMDB |
647.875,61
|
| DF |
Jose Roberto
Arruda |
PFL |
598.076,98
|
| SC |
Luiz Henrique
da Silveira |
PMDB |
589.504,64
|
| PE |
Eduardo
Campos |
PSB |
557.471,77
|
| CE |
Cid Gomes |
PSB |
510.080,50
|
| PB |
Cássio
Cunha Lima |
PSDB |
499.036,03
|
| MA |
Jackson
Lago |
PDT |
407.650,26
|
| AC |
Binho
Marques |
PT |
329.377,00
|
| GO |
Alcides
Rodrigues |
PP |
309.919,27
|
| PI |
Wellington
Dias |
PT |
272.591,01
|
| SE |
Marcelo
Déda |
PT |
248.042,50
|
| PA |
Ana Julia |
PT |
38.000,00
|
| AP |
Waldez
Góes |
PDT |
13.521,78
|