 |
Diário Vermelho, 26 de novembro de
2006
Previdência: o dilema do mundo
grisalho
Para os liberais, a defesa do Estado na equalização
do dilema vivido pelos sistemas de aposentadoria não passa
de um saudosismo dos tempos das utopias candentes. No mundo “moderno”,
dizem, vigora a hegemonia do individualismo. Um problema para os
trabalhadores.
Por Osvaldo Bertolino
Sua vida será pior quando você se aposentar? Essa pergunta foi
feita a 5.500 pessoas em 11 países. Os entrevistados tinham mais de
25 anos, estavam empregados e nos melhores níveis de renda. Céticos,
56% dos franceses disseram que sim. Temerosos da crise, 53% dos japoneses concordaram.
Desesperançados, 38% dos brasileiros assinaram embaixo. ''O Brasil registrou
o pior nível entre os países emergentes'', diz Norman Sorensen,
responsável pelas operações internacionais da seguradora
norte-americana Principal, que promoveu a pesquisa. ''Os brasileiros estão
profundamente desconfiados de que não vão receber seu dinheiro
quando se aposentarem'', afirmou. Há tanto melodrama nos debates sobre
os déficit dos sistemas de aposentadoria que os assuntos de maior importância
se perdem. Um deles é o papel do Estado, tema que vem motivando intensos
confrontos sociais pelo mundo afora.
A razão principal disso é que a hegemonia liberal simplesmente
não tem resposta para a nova realidade da população mundial.
O mundo passa hoje pela maior revolução demográfica de
sua história. Na maior parte dos países, a proporção
de idosos cresce a um ritmo jamais visto no passado. O envelhecimento é fruto
do aumento da expectativa de vida, que foi de 47 anos em 1950 para os atuais
65 anos, em média — em alguns países, como o Japão,
essa expectativa já ultrapassa os 80 anos. Como decorrência, o
número de idosos no planeta deve triplicar até 2050, chegando
a 2 bilhões. Em outras palavras, em poucas décadas o conjunto
de pessoas com mais de 65 anos ficará pouco abaixo da soma das populações
de Índia e China.
Fenômeno global
O envelhecimento veio acompanhado de
outra mudança social: a queda nas taxas de natalidade. Na década
de 50, cada mulher tinha, em média, cinco filhos. Hoje, o índice é de
2,6 filhos e deve cair ainda mais. A combinação desses
dois fenômenos — aumento de longevidade e queda na taxa
de nascimentos — está produzindo um planeta grisalho.
Aprender a lidar com ele é provavelmente o maior desafio da
humanidade nas décadas que vêm pela frente. Visto pelos
liberais como fonte de problemas, o fenômeno do envelhecimento
revela, acima de tudo, uma grande vitória da civilização.
Devido aos avanços da medicina e dos sistemas públicos
de saúde, as pessoas vivem cada vez mais e melhor, fato que
pode e deve ser comemorado.
A mudança traz consigo, porém, uma série de questões
a ser enfrentadas. Embora seja um fenômeno global, o envelhecimento ocorre
em ritmos e com efeitos diferentes em cada país. No caso das nações
desenvolvidas, o desafio é parcialmente atenuado pela própria
riqueza dessas sociedades. Isso não quer dizer que ajustes econômicos
não serão necessários — por exemplo, na forma de
arrecadação para garantir o valor pago em aposentadorias. Mas
as perspectivas são bem mais sombrias para os países pobres,
que estão envelhecendo antes de enriquecer — e num ritmo muito
mais rápido. Na França, por exemplo, a população
de idosos levou 115 anos para dobrar. Na China, o mesmo fenômeno levará apenas
27 anos para acontecer.
Cobrança de impostos
Diferenças à parte, o
peso crescente das aposentadorias no orçamento dos Estados aparece
como tendência geral. E fazer algo, para o liberalismo, significa
tomar medidas socialmente perversas. Alguns países, como o Chile,
largaram na frente — ainda no regime do general Augusto Pinochet — e
implementaram reformas profundas nos sistemas de aposentadoria. No
caso chileno, o Estado foi completamente afastado do assunto. Mas os
casos mais dramáticos ocorrem na Europa. Até países
com sólida tradição de Estado de bem-estar social,
como a Suécia, já suprimiram alguns benefícios
dos aposentados. A Alemanha quer seguir caminho semelhante — o
governo alemão pretende aprovar uma lei que vai aumentar de
65 para 67 anos a idade para se aposentar. Na França, o tema
já motivou grandes manifestações populares.
Montados logo após a Segunda Guerra Mundial, dentro das premissas do
Estado de bem-estar social, as dificuldades para fazer a conta desses sistemas
fechar começaram a ser notadas no início dos anos 80. Seria natural
o Estado cobrir a diferença com a cobrança de impostos dos mais
ricos. É a lógica daqueles regimes. Seria a forma de compensar
todos pelos crescentes índices de produtividade. Aqueles países,
apesar da crise econômica mundial, não deixaram de elevar a produção
de riqueza mesmo com a redução do uso da força de trabalho.
Fazer o Estado assegurar uma aposentadoria minimamente decente seria a coisa
mais natural do mundo. O problema é que isso passou a ser pecado mortal
no mundo do mercado-deus dos liberais. Daí o conflito.
Solução chilena
As propostas de reforma variam pouco
de país para país. Os pontos principais são o
aumento da idade mínima para começar a receber os benefícios,
barreiras à aposentadoria antecipada e restrições
a benefícios por invalidez — modelo que vem sendo tentado
na Espanha após a assinatura do Pacto de Toledo, em 2002, pelo
então primeiro-ministro José Maria Aznar. Obviamente,
a resistência às mudanças é parte importante
das pautas dos trabalhadores. Reformas também são o assunto
do dia nos Estados Unidos. O sistema público norte-americano é muito
mais espartano que a maioria dos sistemas europeus. O benefício
médio é de US$ 875 por mês, pouco mais da metade
da renda que define a linha de pobreza daquele país.
Hoje, um trabalhador norte-americano tem de completar 67 anos para ter direito à aposentadoria
integral. A expectativa é que a idade mínima avance para 75 anos
até o fim desta década. Mesmo pagando um benefício relativamente
reduzido para os padrões de renda norte-americanos, a seguridade social
beneficia milhões de pessoas. Por isso, já existem mobilizações
para impedir qualquer mudança. Recentemente, as maiores associações
de aposentados anunciaram planos de gastar cerca de US$ 50 milhões em
campanhas publicitárias para impedir alterações no sistema.
Qual a saída? Para os liberais não há muitas alternativas à radical
solução chilena. Para os trabalhadores de todo mundo, resta o
caminho da resistência. E uma compreensão ideológica do
fenômeno.
Coisa pecaminosa
Para os liberais, a defesa do Estado na equalização dessa questão
não passa de um saudosismo dos tempos das utopias candentes. Hoje, dizem,
no mundo “moderno”, vigora a hegemonia do individualismo. Cada
qual que cuide de sua vida no presente e no futuro — uma reação,
no fundo, à idéia de que a prosperidade de todos só pode
ser gerada pela democratização do Estado. É comum encontrar
na imprensa brasileira, por exemplo, menções a ''aposentadorias
exorbitantes''. Mas que diabo seria isso? A partir de que ponto uma aposentadoria
deixa de ser decente e vira ''exorbitante''? Quem fixa esse número?
O termo tem a ver com a mania generalista dos liberais. Como se houvesse, ou
precisasse haver, um deus qualquer que normatizasse as aposentadorias — e
estabelecesse uma espécie de ''tablita'': ''até aqui, pode; a
partir dali, é pecado''.
O termo também explicita a idéia de que se aposentar com um ganho
minimamente decente é algo indecente. No Brasil, um país em que
15 desbravadores chegaram há mais de 500 anos com uma capitania hereditária à sua
disposição e todos os outros vieram na condição
de degredados, a elite impõe a visão de que a aposentadoria decente é fruto
de algo escuso. Tal visão, além de falsa, é hipócrita — pois
essa gente acha que o seu patrimônio é legítimo e trata
de mantê-lo a salvo de qualquer inicitava democratizante. São,
em sua imensa maioria, pessoas que não precisaram trabalhar para chegar
lá, que têm ligações escusas com o poder, que não
precisam cumprir as leis e jogar pelas regras. Daí a importância
de uma mobilização, preferencialmente articulada com trabalhadores
de outros países, em defesa da previdência pública. O próximo
artigo volta a comentar a resistência mundial aos ataques à previdência
estatal.
|
Diário
Vermelho, 25 de novembro de 2006
Previdência: porque o setor privado
não funciona
Apesar dos remendos, não há como
escapar da constatação de que os fundos de pensão
não se sustentam.
Por Osvaldo Bertolino
Na economia, e não na política,
os fins justificam os meios, mesmo os mais absurdos. Essa é a
infeliz percepção que se tem ao analisar as condições
impostas pela ditadura do pensamento único liberal aos que querem
conciliar o bem do país com seu próprio desenvolvimento
pessoal. A idéia é a seguinte: para evitar o pior, cada
trabalhador deve se conscientizar sobre a importância de equacionar
o seu caso pessoal a fim de garantir por algum meio a sua aposentadoria.
Quanto antes o fizer, menor será a poupança mensal que
precisará reservar para garantir o futuro. Uns poucos, quem
sabe, serão capazes de administrar, eles mesmos, com razoável
competência, os capitais que irão acumular. Mas a grande
maioria, sem qualquer vocação para as finanças
e sem tempo para estudar os diversos e complexos aspectos envolvidos
em investimentos de longo prazo, terá forçosamente de
apelar para os fundos de pensão e para os planos abertos de
previdência privada. E submeter-se, inapelavelmente, aos seus
mecanismos.
Hoje no Brasil a impressão que se tem é que essas instituições
nadam em dinheiro. No final do ano de 2000, o país foi arrastado para
o debate a respeito da proposta da área econômica do governo de
taxar os fundos de pensão como forma de aumentar o salário mínimo.
A idéia era, além de ineficiente, demagógica. E essencialmente
perversa — uma característica típica do liberalismo quando
o assunto é a chamada questão social. A medida faria o beneficiário
pagar imposto duas vezes: uma ao aplicar, outra ao receber o benefício.
Isso elevaria o salário mínimo mas penalizaria as aposentadorias.
O governo de então, liderado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso
(FHC), justificava a proposta alegando que havia um incentivo fiscal de 12%
do total dos rendimentos tributáveis.
Trabalho sem carteira assinada
É bom esclarecer que esse incentivo
não quer dizer isenção. O imposto de renda não
deixa de ser pago. Seu recolhimento é apenas postergado ou,
em linguagem contábil, diferido. Mas o esclarecimento que precisa
ser enfatizado é o de que os patrocinadores dessa modalidade
de aposentadoria estão pouco interessados sobre como será o
futuro dos trabalhadores. O importante, para os conservadores, é que
os fundos de pensão recolhem uma imensa massa de dinheiro que é investida
em imóveis, em títulos de renda fixa ou em ações.
As previsões catastróficas da falência da Previdência
foram a principal razão para estimular os fundos de pensão.
Quem ainda não ouviu falar que os sistemas previdenciários
que vigoram na maior parte dos países estão defasados?
O Banco Mundial (Bird) vive divulgando
dados para dizer que a forma como as pensões são pagas
não condiz com o cenário do século 21, que inclui
trabalho sem carteira assinada, mais mulheres no mercado de trabalho
e aumento do número de idosos. Por isso, a reforma se torna
inevitável. ''Os problemas de longo prazo, como envelhecimento
e outras mudanças sociais, são igualmente importantes
para o debate'', diz o diretor da unidade de proteção
social do Bird, Robert Holzman. Segundo o Bird, muitos sistemas previdenciários
foram elaborados numa época em que as pessoas não mudavam
de emprego com freqüência. Hoje, as mulheres muitas vezes
precisam interromper suas carreiras para cuidar dos filhos e, geralmente,
têm salários mais baixos. Esses e outros motivos, segundo
o Bird, tornaram os sistemas atuais insustentáveis.
Custo das aposentadorias
Segundo a instituição, apesar de o problema ser mundial os países
pobres são os que mais sofrem: o número de idosos cresce, mas
não há riqueza suficiente para arcar com os proventos básicos.
Além disso, nesses países os gastos com aposentadorias costumam
flutuar para tapar rombos no orçamento — o que pode gerar sérias
crises econômicas. O relatório do Bird cita, ''como exemplo dramático'',
a crise de 1998 no Brasil, ''quando um déficit fiscal de mais de 6%
do Produto Interno Bruto (PIB) desencadeou um colapso na esteira das crises
financeiras da Ásia oriental e da Rússia”. “Dois
terços daquele déficit, cerca de 4% do PIB, foram causados pelo
custo das aposentadorias'', aponta o documento.
O Bird diz que não há receita
mundial, mas faz algumas sugestões. Uma delas é esticar
o tempo de trabalho exigido para aposentadoria. ''Se esse tempo não
for ampliado, muitos correrão o risco de ficar na pobreza'',
diz o estudo. No geral, o Bird recomenda que os países adotem
sistemas mais flexíveis, com contribuições variando
de acordo com a renda. Também foram sugeridas contas previdenciárias
individuais — a chamada contribuição definida.
Para a América Latina, o Bird diz que os Estados devem ampliar
as fontes de financiamento de seus sistemas previdenciários,
se quiser estender, de fato, os benefícios a todos.
Quando o buraco vai aparecer?
Os fatos jogam contra a proposta do Bird: nos países latino-americanos
em que o sistema de contas individuais foi adotado, o número de potenciais
beneficiários é muito baixo devido ao elevado grau de informalidade
do mercado de trabalho. Na média, metade dos trabalhadores da região
não possui carteira assinada e, por isso, nem contribuem e nem se beneficiam
da previdência. A verdade é que os planos de previdência
ainda são investimento para poucos, apesar do forte crescimento desse
mercado nos últimos anos. É o que mostra uma pesquisa feita com
2 mil participantes da feira de finanças pessoais Expo Money, a mais
importante nesse segmento. Apesar de o público ser formado por investidores
das classes A e B, segundo a metodologia oficial, apenas 35% disseram já aplicar
num plano de previdência. Outros 16% afirmaram não ter sequer
a intenção de investir num produto do tipo.
Outro fator que pesa contra os
fundos de pensão é a medida estabelecida por FHC de
permitir o recebimento dos benefícios somente com a idade
mínima de 60 ou 65 anos — dependendo do tipo de plano.
Foi uma evidente quebra de contrato. ''Nossa intenção é evitar
o desequilíbrio do sistema'', disse, à época,
José Roberto Savoia, secretário-adjunto da Secretaria
da Previdência Complementar (SPC). Quando esse buraco vai aparecer?
Nem os técnicos do Ministério arriscaram um palpite.
Limitaram-se a dizer que o sistema poderá ter problemas em
''alguns anos''. Mas todos concordaram que ele vai aparecer. Por
isso, em várias partes do mundo os trabalhadores lutam por
uma sistema público de previdência — assunto do
próximo artigo.
|
Congresso em Foco, 25 de
novembro de 2006
IBGE divulga retrato dos municípios
brasileiros
Cinco anos depois da aprovação do Estatuto das Cidades, apenas
1.372 (24,7%) dos 5.564 municípios brasileiros declararam possuir algum
dos instrumentos previstos na lei, como o código de obras e o zoneamento
do solo. De acordo com levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), apenas 805 cidades do país têm
um plano diretor para regular o crescimento urbano.
Essa é uma das revelações
da pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic),
que, pela primeira vez investigou as atividades artísticas e artesanais
mais recorrentes no país. O bordado aparece como a principal atividade
artesanal em 75% dos municípios brasileiros. Em seguida, surgem
os trabalhos com madeira (43% dos municípios), barro (23%) e material
reciclável (17%). Já entre as produções artísticas
pesquisadas, o primeiro lugar coube aos grupos musicais (58% dos municípios),
seguidos pelos grupos de dança (53%) e pelos corais (48%).
Feita ao longo de 2005, com questionários
para as prefeituras de todos os municípios brasileiros, a pesquisa
traz também informações sobre contingente de servidores,
legislação, política tributária, articulações
intermunicipais, ações habitacionais e indicadores culturais.
Mais mulheres e mototáxis
O levantamento mostra que a participação
das mulheres no comando das administrações municipais aumentou
de 6%, em 2001, para 8,1%, em 2005, e que os mototáxis já circulam
em metade das cidades brasileiras. Pra se ter uma idéia, esse
meio de transporte está presente em 78,8% dos municípios
nordestinos. O estudo também aponta que a informalidade impera
no transporte público.
De acordo com a pesquisa, caiu em 11,4%
o número de cidades brasileiras que têm livrarias em relação
a 1999. Por outro lado, nesse mesmo período, triplicou o número
de municípios onde a internet está presente. Hoje, 46%
(2.560) das cidades do país hospedam servidores de conexão à rede
mundial de computadores.
Veja, abaixo, a síntese da
pesquisa de Informações Básicas Municipais divulgada
pelo IBGE:
"O bordado é a principal
atividade artesanal nos municípios
O bordado é a principal atividade
artesanal em 75% dos municípios brasileiros. As demais atividades
seguem as com madeira (43% dos municípios), barro (23%) e material
reciclável (17%). Entre as atividades artísticas pesquisadas,
o maior destaque é para os grupos musicais (58% dos municípios),
grupos de dança (53%) e coral (48%). Estes indicadores revelam
a importância e riqueza deste tipo de manifestação
artística no país. Os grupos de folclore também
podem ser encontrados em 46% dos municípios brasileiros.
47,1% dos municípios utilizam
mototáxis
A MUNIC 2005 constatou que o transporte
coletivo por ônibus está presente (de maneira exclusiva)
em 1.407 municípios, o que equivale a 25,3% do total do país.
Entre aqueles que declararam ter transporte coletivo de ônibus
municipal, 79,7% afirmaram que o responsável pelo gerenciamento é o
próprio município e 19,3% constataram a informalidade8
para este tipo de transporte.
Nas regiões Sudeste (37,1%) e Sul
(35,0%) foram verificados os maiores percentuais de municípios
com existência de transporte por ônibus. Em seguida vem o
Norte, com 19,6%, o Centro-Oeste, com 14,8%, e o Nordeste com 12,0% dos
municípios. O estado do Rio de Janeiro (84,8%) apresentou o maior
percentual de municípios com informação de transporte
coletivo por ônibus municipal, seguido por São Paulo (42,0%)
e Rio Grande do Sul (39,1%). Em relação aos outros estados,
o Rio Grande do Norte (2,0%) apresentou o menor percentual de municípios
com ônibus.
O segundo transporte por barco, que pode
ser encontrado em 503 municípios, tem predominância da informalidade
(61,4%) principalmente nas pequenas cidades. Em 39,0% dos municípios
que possuem este transporte, o gerenciamento é feito pelo próprio
município. O gerenciamento pelo governo federal (8,5%), e do governo
estadual (6,4%) encontra-se bem abaixo da proporção de
municípios na informalidade.
Vale observar que na Região Norte
o transporte por barco tem grande relevância, por se tratar de
uma região onde o transporte fluvial se faz muito presente. Nesta
região, o transporte informal alcançou a proporção
de 69,9% dos municípios. A Região Nordeste tem um padrão
semelhante ao observado no Norte do país, 70,2% dos seus municípios
com transporte por barco na informalidade.
Considerando os demais tipos de transportes
presentes nos municípios e a responsabilidade pelo gerenciamento
dos mesmos, os resultados obtidos mostram que 47,1% dos municípios
brasileiros tem serviço de transporte por mototáxi. Em
75,7% deles, o serviço é informal, e 28,8% declararam fazer
o gerenciamento. Estas proporções apresentam variações,
quando examinadas do ponto de vista regional: nas Regiões Norte
e Nordeste são encontradas as mais elevadas proporções
de municípios com este serviço, 72,1% e 78,8% respectivamente;
também nas duas regiões se destaca a proporção
de municípios com este serviço informal (74,4% e 85,8%).
A MUNIC mostra, ainda, que 76% dos muncípios
contam com serviço de transporte por táxi e 52% utilizam
van, que dependendo da região são mais conhecidas pelas
kombis, lotações, utilitários e peruas. Em cerca
de 63,3% dos municípios o serviço de van tem características
de informalidade, com ausência de gerenciamento por parte do poder
público. A Região Nordeste se destaca, com 66,9% dos seus
municípios com transporte por van, e em 82,5% destes municípios,
informal.
O transporte ferroviário também
foi investigado pela pesquisa, e dos 104 municípios que possuem
o serviço, o gerenciamento é feito em 45 deles pelo Estado,
e em 51 pelo governo federal. No caso do metrô, só há gerenciamento
federal e estadual, por se tratar de um transporte de massa, que mobiliza
um imenso investimento de capital e com retornos financeiros de longo
prazo. Em 3 municípios o gerenciamento é feito pelo Governo
Estadual: Teresina (PI), Rio de Janeiro e São Paulo. Com relação
ao gerenciamento feito pelo Governo Federal, encontram-se 8 municípios,
a saber: Recife (PE), Belo Horizonte e Contagem (MG), Porto Alegre, Canoas,
Esteio, São Leopoldo e Sapucaia do Sul (RS). Cabe ressaltar que
somente os municípios do Rio de Janeiro e São Paulo têm
metrô subterrâneos; os demais são de superfície.
85% dos municípios brasileiros
possuem bibliotecas
Segundo a MUNIC 2005, as bibliotecas públicas
são os equipamentos mais presentes nos municípios brasileiros.
São 6.545 bibliotecas localizadas em 4.726 municípios (85%
do total), com uma relação de 1,2 bibliotecas por município.
Seguem em importância relativa as videolocadoras (de fitas e DVDs)
em 78% dos municípios, os estádios ou ginásios esportivos
(77%), lojas de discos, CDs, fitas e DVDs (55%), estações
de rádio FM (51%) e provedores da Internet (51%).
De 1999 a 2005, o percentual de municípios
com provedores de internet passou de 15% para 46%, que representa um
aumento de 206,7%. Já as lojas de discos, CDs fitas e DVDs, teatros
e salas de espetáculo e estações de rádio
FM tiveram um crescimento ao redor de 50% nesse período. Apesar
do incremento, somente 21% dos municípios brasileiros possuem
salas de teatro. Ainda nesse período, as estações
de rádio AM apresentaram um crescimento relativo reduzido (10%
permanecendo no patamar de 20%), bem inferior ao dos rádios FM
(50%).
A pesquisa constatou também um
decréscimo de -11% no número de municípios com livrarias
(cai de 35% dos municípios, em 1999, para 31% em 2005). O decréscimo
do número de municípios com livrarias, em 2005, pode ser
justificado pelo redirecionamento da distribuição de livros
por diferentes formas como lojas multimídia, supermercados, bancas
de jornais, distribuição pelo governo, ou seja, o ritmo
da produção de livros no país não acompanha
necessariamente a evolução da presença de livrarias
nos municípios brasileiros.
Cresce o número de municípios
que têm Conselho de Cultura
De 2001 a 2005, o percentual de municípios
com Conselho de Cultura passou de 13% para 21%. Ainda segundo a pesquisa,
em 2005, 63% dos municípios têm orçamento específico
para a área de cultura. Os dois indicadores aumentam significativamente
de acordo com o tamanho do município, atingindo entre os de mais
de 500 mil habitantes, 97% de existência de orçamento e
66% de Conselhos.
A prefeitura é responsável
em 83% dos municípios por, pelo menos uma biblioteca, em 16% por
pelo menos um museu e em 17% de pelo menos um teatro. No que se refere à Internet,
as gestões municipais oferecem o serviço em 31% dos municípios.
Nordeste tem mais concentração
de prefeitas
A MUNIC mostra, também, que permanece
a grande diferença entre prefeitos do sexo masculino (91,9%) e
do sexo feminino (8,1%). No entanto, em relação à pesquisa
de 2001, foi observado uma variação crescente na presença
das mulheres, que representavam 6% do total dos mandatários. Este
aumento ocorreu principalmente na Região Nordeste (0,8%), onde
a concentração de prefeitas é predominante em municípios
de menor porte, estando, em sua maioria (69,0%), na faixa dos 41 a 60
anos de idade.
Em 2005, os prefeitos com mais de 60 anos
encontram-se, em sua maioria, na região Sudeste (38,1%) enquanto
que as prefeitas estão, na maioria, na Região Nordeste
(45,1%). Nesse mesmo ano, o percentual de prefeitos reconduzidos ao cargo
foi de 28,6%, representando um decréscimo com relação à 2001
em que 41% dos mandatários foram reeleitos. Também em 2005,
71,41% dos prefeitos eleitos não estavam no exercício do
mandato em 2004, caracterizando uma renovação no quadro
destes gestores municipais.
Em relação à escolaridade,
houve um aumento dos prefeitos com nível superior de 39,8%, em
2002, para 43,8% em 2005. Foi constatada uma redução no
número de prefeitos com ensino fundamental incompleto de 12,8%,
em 2002, para 8,9% em 2005.
Aumenta o número de servidores
municipais
Em 2005, as prefeituras contavam com 4.767.602
servidores (na administração direta e indireta), o que
representou um aumento de 5,4% em relação a 2004 ( 4.521.579).
Os funcionários da administração direta, que representam
a maioria dos servidores municipais, somavam um contingente de 4.494.154
em 2005. Esse número também foi superior ao verificado
em 2004 ( 4.281.923) e corresponde a um aumento de 5% no quadro dos servidores
da administração direta (leia mais).
Em 2005, as regiões Sudeste e Nordeste
eram responsáveis por 39,5% e 31,9%, respectivamente, do total
dos funcionários da administração direta municipal.
Já as regiões Sul, Centro-Oeste e Norte respondiam por,
14,2%, 9,1% e 8,3%, respectivamente.
De 2004 a 2005, a participação
de pessoal sob regime estatutário (64,0%) e de pessoal comissionado
(8,0%) manteve-se constante. Nesse mesmo período, a participação
do pessoal sem vínculo permanente subiu de 9,4% para 16,1%, e
a de funcionários sob regime da CLT caiu de 18,5 para 11,4%. A
pesquisa mostra também que a participação de trabalhadores
comissionados no total de pessoal da administração direta
foi de 7,4%, no Sudeste; e aproximadamente 8,0%,no Norte, Sul e Centro-Oeste;
e de 9,9% no Nordeste.
Em 2005, a composição do
pessoal da administração direta municipal por escolaridade2
era a seguinte: 33,6% possuíam o ensino fundamental completo ou
incompleto, 40,6% o nível médio e 25,8% tinham concluído
o nível superior, sendo que, deste percentual, 3,2% completaram
a pós-graduação.
14,5% dos municípios brasileiros
possuem Plano Diretor
De acordo com a MUNIC 2005 ainda é baixo
o número de municípios que possuem Plano Diretor no Brasil.
Este instrumento é fundamental para que os municípios planejem
de forma articulada suas políticas urbanas, mediante o uso de
formas participativas e democráticas gestão. Dos 1372 municípios
(25% do total) que utilizam os instrumentos previstos no Estatuto da
Cidade, 805 declararam possuir um Plano Diretor, o que corresponde a
cerca de 59% deste universo ou 14,5% de todos os municípios brasileiros.
A existência de gestão orçamentária
participativa nos municípios que possuem Plano Diretor é bastante
elevada, alcançando cerca de 85%. Os Estados de São Paulo
e Rio Grande do Sul destacam-se dos demais ao responderem por 16% e 15%
do total de municípios com Plano Diretor no país.
O Código de Obras, instrumento
que permite à administração Municipal exercer o
controle e a fiscalização do espaço edificado incluindo
as condições de salubridade, está presente em 2475
municípios, que representam 44% do total. A Contribuição
de melhoria, presente em 2292 municípios (41.2%), é um
instrumento tributário e financeiro e apresenta características
semelhantes aos impostos e as taxas, mas só pode ser cobrada em
decorrência da realização de obras públicas.
34,3% dos municípios participam
de consórcios públicos
Entre as formas de associação
pesquisadas (consórcios públicos intermunicipais, com os
Estados e com a União; convênios de parceria com o setor
privado e apoio do setor privado ou de comunidades), os consórcios
públicos merecem destaque especial. Em 2005, eles foram amplamente
utilizados na área de Saúde e contaram com a participação
de 34,3% dos municípios brasileiros. Nos municípios com
até 5000 habitantes, 43,2 % são membros de algum tipo de
consórcio, o que mostra que quanto menor a cidade maior a probabilidade
de participação.
Os resultados da pesquisa mostram que,
neste tipo de parceria consórcio público com os estados,
os municípios utilizam mais as associações nas áreas
de Educação (20,1%), Saúde (21%) e Assistência
e Desenvolvimento Social (15,6%). Em relação ao consórcio
público com a União, as áreas que concentram índices
mais altos foram as seguintes: Educação (13,8%), Saúde
(21%) e Assistência e Desenvolvimento Social (11,9%).
A MUNIC 2005 investigou ainda as articulações
interinstitucionais pactuadas entre os entes federativos - União,
Estados, Distrito Federal e Municípios - e também com a
iniciativa privada realizadas pelos administradores municipais nas áreas
de Direito da Criança e Adolescente, Emprego e/ou Trabalho, Turismo,
Cultura, Habitação, Meio Ambiente, Transporte, Desenvolvimento
Urbano, Saneamento e ou Manejo de Resíduos Sólidos. (Fonte:
IBGE)"
|
Folha de São Paulo,
25 de novembro de 2006
Dinheiro do 13º salário
ajuda a quitar dívidas
DO "AGORA"
Ao que sugerem os números deste
mês, o consumidor está buscando quitar suas dívidas
com os ganhos extras do final do ano. Segundo o SPC Brasil (Serviço
de Proteção ao Crédito), só na primeira quinzena
de novembro as reabilitações ao crédito aumentaram
31,59% em relação ao mesmo período de 2005. Esse
dado confirma pesquisa da Anefac (Associação Nacional dos
Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade),
na qual 63% dos entrevistados diziam pretender usar o 13º salário
para pagar dívidas.
De acordo com Marcel Solimeo, economista
da Associação Comercial de São Paulo, cerca de 2.000
pessoas têm ido diariamente ao prédio da associação
buscando informações sobre como limpar o nome. Para o economista
da associação, o aumento do interesse da população
em limpar o nome se deve, principalmente, ao aumento do número
de empregos, ao crescimento da renda e à queda na taxa básica
de juros, o que facilita a renegociação do débito.
O economista Luis Carlos Ewald, consultor
da FGV-RJ (Fundação Getulio Vargas), diz que dívidas
vencidas devem ser prioridade. "Existe uma pressão muito
forte da mídia para o consumo nesta época do ano. Mas o
trabalhador que tiver dívidas deve priorizar seu pagamento." O
mesmo alerta é dado pela economista Cássia D'Aquino Filocre,
especialista em educação financeira. "O trabalhador
deve antes quitar dívidas, pois o que se paga de juros é um
absurdo. E essa é uma febre que destrói qualquer orçamento",
declara.
|
Folha
de São Paulo, 26 de novembro de 2006
ONG inativa de deputado recebe R$ 800 mil
Sem prestar serviço médico, Fundação
Aproniano Sá, da mulher de Múcio Sá (PSB), teve
bloqueado acesso a dinheiro público | Auditoria do TCU mostrou
que ONGs consideradas ineptas consumiram 54,5% dos recursos repassados
a entidades em 28 convênios
MARTA SALOMON
LUCIANA CONSTANTINO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois de receber ao menos R$ 800 mil
do Ministério da Saúde sem prestar serviços médicos
e odontológicos em municípios do Rio Grande do Norte,
a Fundação Aproniano Sá teve bloqueado há poucos
dias o acesso a dinheiro público. "Foi constatado que a
entidade não presta nenhum tipo de atendimento", concluiu
auditoria da CGU (Controladoria Geral da União) em convênios
com a entidade presidida pela mulher do ex-deputado Múcio Sá (PSB-RN).
Sá passou parte da atual legislatura como suplente de deputado
federal. Ganhou notoriedade durante as investigações
da máfia dos sanguessugas. Foi um dos denunciados em junho pelo
Ministério Público por suposto recebimento de propina
dos empresários que comandavam a venda de ambulâncias
superfaturadas.
Nesse período, Múcio Sá obteve
a liberação de R$ 2 milhões para a entidade que
leva o nome de seu avô. Desse total, a CGU conseguiu bloquear
os pagamentos de R$ 1,2 milhão no início do mês.
Dias depois, deputados e senadores derrubaram do relatório do
Orçamento de 2007 a regra que impediria o repasse de verbas
federais a entidades privadas comandadas por parentes em até terceiro
grau.
A regra proposta pelo relator Valdir
Raupp (PMDB-RO) inviabilizaria a repetição de casos como
o da Fundação Aproniano Sá ou da Fundação
Cristiano Varella, da família do deputado Lael Varella (PFL-MG),
que administra um hospital em Muriaé (MG) e já recebeu
mais de R$ 30 milhões dos cofres públicos. A votação
aconteceu na noite da última segunda-feira. Varella foi um dos
principais articuladores do resultado.
"Ação entre amigos"
O caso da Fundação Aproniano
Sá é mais um exemplo da falta de controle nas parcerias
do governo federal com organizações não-governamentais.
Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), divulgada no
domingo passado pela Folha, mostrou que ONGs consideradas ineptas consumiram
54,5% dos recursos repassados a entidades, num conjunto de 28 convênios
analisados. "A falta de critério da legislação
para a escolha das entidades que receberão os recursos e a falta
de transparência na prestação de contas resulta
no inaceitável mecanismo, que hoje prevalece, pelo qual o Estado
distribui recursos sem recorrer a edital público, transformando
o caso numa espécie de "ação entre amigos'",
dizia o relatório aprovado pelo TCU.
Nos "Planos de Trabalho" entregues
ao Ministério da Saúde, a Aproniano Sá informou
que presta serviços médicos em várias especialidades.
A fiscalização da CGU em parceria com a auditoria do
Ministério da Saúde detectou, porém, que a fundação
não é cadastrada como estabelecimento de saúde
e, em sua sede, não possui estrutura para atendimento médico
ou odontológico. Na sexta-feira, a Folha não conseguiu
localizar Múcio Sá no telefone de sua residência
nem no celular. O repasse de dinheiro público à fundação
da família Sá foi autorizado por meio de emendas parlamentares.
No Orçamento de 2007, cada parlamentar terá direito a
uma cota de R$ 6 milhões para emendas.
Lobby
Oito deputados saíram em campanha
contra a proposta de proibir o repasse de dinheiro público a
entidades que são ou tenham sido comandadas por membros dos
Poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário e a seus parentes. "Sem
dúvida, há um exagero na generalizada proibição",
investiu o deputado Nelson Meurer (PP-PR). Lael Varella, cuja fundação
recebeu R$ 31,3 milhões do governo entre 1998 e 2006, afirmou: "Certamente
irá provocar um caos nas instituições privadas
sem fins lucrativos".
|
Folha
de São Paulo, 26 de novembro de 2006
Presidente convoca Mangabeira Unger para
auxiliar na elaboração de plano
Sergio Lima - 27.ago.02/Folha Imagem

Mangabeira Unger, que defende travas no crédito ao consumidor
JANAÍNA LEITE
DA REPORTAGEM LOCAL
O presidente Luiz Inácio Lula
da Silva tem ouvido Roberto Mangabeira Unger na montagem de seu novo
plano econômico. A Folha apurou que ele foi incumbido, ao lado
de outros economistas, de tentar resolver uma complicada equação:
baixar os juros e ampliar o crédito sem estímulo à demanda
interna e, portanto, mantendo o controle da inflação.
E tudo de forma a não desequilibrar as contas públicas.
Os juros básicos brasileiros são os mais altos do mundo.
Em tese, com o dinheiro mais caro, as pessoas tendem a poupar mais
e a comprar menos. Sem aumento no consumo, os produtores não
remarcam os preços e a inflação não sobe.
Mas a economia fica asfixiada.
Mangabeira -professor titular de direito
em uma das universidades mais conceituadas do mundo, Harvard (EUA)-
acredita ser possível driblar essa lógica. Ele defende
que o governo crie travas ao crédito na ponta. O raciocínio é que,
com o empréstimo à pessoa física dificultado,
sobra mais dinheiro para as instituições financeiras
emprestarem às empresas. Dentro da equipe petista, entretanto,
a idéia não é vista com bons olhos, segundo a
Folha apurou. Implicaria diminuição na oferta de recursos
por meio de bancos oficiais.
Além disso, a expansão
do crédito ao consumidor, ocorrida em boa medida pelo desconto
em folha, é tratada como uma das maiores conquistas do primeiro
mandato. Lula, assim, estaria com pouca disposição de
bancar o custo político. Para Mangabeira, outro ponto é indispensável:
a necessidade de diminuir encargos sobre a mão-de-obra. A hipótese
entusiasmou Lula, apesar da dificuldade de tirá-la do papel.
A desoneração completa depende da composição
que o governo conseguirá no Congresso para garantir reformas
nas leis tributárias e trabalhistas.
Outro obstáculo é que
a desoneração significa menos arrecadação
para o governo. Isso resultaria em um desequilíbrio das contas
públicas? Para que não acontecesse, explicou ele aos
interlocutores do Planalto, seria preciso reduzir os dispêndios
do Estado.
|
Folha
de São Paulo, 27 de novembro de 2006
Indústria teme "inflexão
fiscal" e pede corte de gasto
Para CNI, governo deve impulsionar reformas buscando
ajuste fiscal duradouro | Armando Monteiro, presidente da entidade, diz
que é fundamental que o Executivo sinalize que vai segurar os
gastos públicos
VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente da CNI (Confederação
Nacional da Indústria), Armando Monteiro Neto, diz que a possibilidade
de uma "inflexão fiscal" preocupa o empresariado,
diante das informações de que estariam sendo estudadas
medidas para elevar o endividamento dos Estados e dos municípios.
Reeleito deputado federal pelo PTB de Pernambuco no pleito de outubro,
o empresário toma posse para um novo mandato à frente
da CNI na terça-feira e diz que defenderá que o principal
papel do governo deva ser o de "agente impulsionador das reformas" visando
um ajuste fiscal duradouro. Armando Monteiro elogia as medidas de corte
de impostos já anunciadas pelo governo, reivindicação
do setor empresarial, mas alerta que ele não pode emitir um "sinal
trocado" aumentando seus gastos correntes.
"Não adianta emitir um sinal
trocado, ou seja, desonerar no presente sem enfrentar a questão
fiscal, porque aí você está onerando no futuro
novamente", disse Monteiro Neto. Na opinião do empresário, é fundamental
que o Executivo sinalize que vai colocar um "freio" nos gastos
públicos. Filiado a um dos partidos que compõem da base
governista, o empresário sugere que o governo inicie uma nova
geração de reformas, inclusive da Previdência,
descartada até aqui pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. Nesse campo, ele avalia ser necessário buscar uma
reforma tributária ambiciosa no futuro. Um dos objetivos seria
acabar com o sistema de contribuições federais, que dificulta
as políticas de ajuste fiscal perenes.
Como as receitas das contribuições
são sempre vinculadas a um determinado gasto, elas atrapalham
a elaboração de um ajuste fiscal eficiente, já que
a margem de corte de gastos é limitada. Exatamente para ter
liberdade de segurar receitas das contribuições é que
o governo criou a DRU (Desvinculação de Recursos da União).
Por meio desse mecanismo, a União pode gastar livremente 20%
de suas receitas vinculadas. Os 80% restantes são alocados para
setores específicos. A receita da CPMF (o chamado imposto do
cheque), por exemplo, é quase totalmente destinada à área
da saúde.
Atualmente, o governo Lula estuda aumentar
de 20% para 25% ou 30% o percentual que pode gastar livremente das
receitas vinculadas. Na avaliação da CNI, no entanto,
o ideal seria modificar esse sistema, o que a entidade afirma considerar
não ser fácil diante dos lobbies de setores que são
beneficiados com essas vinculações de receitas, como
os da saúde e da educação. Estudo encomendado
pela CNI mostra que a arrecadação de contribuições
superou a de impostos nos últimos anos, já que desde
o governo FHC a União passou a priorizar a criação
desse tipo de mecanismo para aumentar a sua receita. O motivo é que,
no caso das contribuições, a receita não é partilhada
com Estados e municípios, o que é criticado pelos governadores.
|
AGÊNCIA CARTA MAIOR,
25 de novembro de 2006
PACOTE PARA HABITAÇÃO
Governo aposta na construção
civil para elevar geração de vagas
Com mais apoio financeiro à compra da
moradias e devolução mais rápida de impostos às
empresas, governo quer fortalecer setor que tem peso na economia, gera
empregos e distribui renda para trabalhadores de pouca qualificação.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA – O governo começou
a anunciar, nesta quinta-feira (23), medidas de incentivo ao crescimento
do país colocando no topo da lista uma iniciativa de conteúdo
simbólico: o apoio financeiro, a fundo perdido, à compra
da moradia por pessoas de baixa renda. Quem ganha até cinco salários
mínimos (R$ 1.750) poderá comprar um imóvel pagando
só um terço do valor, mesmo à prestação.
O resto, o governo bancará com dinheiro do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço (FGTS), que separaria até R$ 15 bilhões
para tais operações. O valor é dez vezes maior que
o subsídio para habitação de baixa renda previsto
para este ano no orçamento do Ministério das Cidades.
Apesar do destaque à ação
pró-baixa renda, o governo também beneficiou o empresariado
no primeiro lote de medidas do pacote. As empresas vão poder receber
de volta, mais rapidamente, o imposto pago ao comprar máquinas
e ao construir galpões e edifícios que abriguem suas atividades
produtivas. E terão mais tempo para pagar três tributos
(INSS, PIS e Cofins). Segundo o governo, quando a parte tributária
do pacote estiver pronta, terá cerca de R$ 12 bilhões.
Isso significa que o governo estará abrindo mão de tal
quantia.
A subvenção à compra
da casa própria por pessoas de baixa renda surgiu de uma proposta
feita pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, durante a eleição,
de empregar de outra forma ao menos R$ 20 bilhões do FGTS. Hoje,
o FGTS tem patrimônio superior a R$ 170 bilhões. A maior
parte está aplicada no mercado financeiro, em títulos do
governo que dão lucro ao detentor deles conforme juros altos.
O patrimônio é suficiente para pagar todos os trabalhadores
que eventualmente sejam demitidos, e ainda haveria sobra. O conselho
que administra o FGTS aprovou a idéia. E o presidente Lula, também.
“O FGTS foi criado justamente para
poder viabilizar a habitação”, disse o ministro da
Fazenda, Guido Mantega. Segundo ele, haverá “subsídio
puro” - o mutuário não terá de devolver ao
FGTS o apoio recebido. “O FGTS tem fontes de receita, que são
aplicações com rendimentos muito elevados em títulos
públicos. Ele tem folga, equilíbrio e sustentabilidade
garantida”, afirmou Mantega.
Além de financiar habitações
de baixa renda, uma fatia do FGTS será usada para criar um fundo
que banque obras de infra-estrutura, sobretudo saneamento. Terá R$
5 bilhões e vai funcionar como uma alternativa para quem tem dinheiro,
quer investir e ganhar mais do que os juros do Banco Central, que estão
em queda. O lucro para o aplicador no fundo será isento de imposto.
A criação do fundo precisará de aval do Congresso.
Construção
civil e setor privado
Ao mesmo tempo em que subsidia as camadas de baixa renda, o governo privilegiou
o setor de habitação porque quer impulsionar a construção
civil. O setor tem peso significativo na economia, gera empregos e distribui
renda para quem mais precisa – trabalhadores de pouca qualificação.
A diretriz é considerada acertada por especialistas em política
industrial. “A construção civil é um setor muito
importante. Se quiser expandir o país, tem que ter financiamento [no
setor] e a juros decentes”, disse o economista Carlos Frederico Rocha,
do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Outra ação prevista no pacote
para estimular a construção civil é permitir que
as empresas que ergam galpões ou edifícios para atividades
produtivas recuperem de volta, mais rapidamente, o dinheiro gasto com
dois tributos (PIS e Cofins). Hoje, a recuperação – que
ocorre na forma de desconto no pagamento de algum tributo – chega
a 25 anos. Agora, vai ser de no máximo dois anos. O governo perderá R$
2,3 bilhões com isso, mas “vai diminuir consideravelmente
o custo da construção”, segundo Mantega.
As empresas privadas também vão
poder recuperar antes tributos incidentes na compra de máquinas.
Era um pleito da Confederação Nacional da Indústria
(CNI), como na construção de galpões. Pesquisa recente
da CNI mostrou que muitas empresas cancelaram investimentos em 2006,
ou os realizaram apenas parcialmente, por falta de caixa. A recuperação
dos tributos é uma forma de contornar a dificuldade.
“As medidas estão na direção
correta, de reduzir o custo do investimento”, afirmou o presidente
da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando
Monteiro Neto. De acordo com ele, no entanto, as medidas não terão
impacto imediato, por isso o crescimento de 5% pode não ser alcançado
já em 2007. “O governo deu o incentivo, mas o empresário
ainda vai ter que decidir fazer investimentos e eles vão ter de
maturar”, disse.
Outra medida prevista no pacote destinada
a dar fôlego às empresas é dar mais tempo para pagar
alguns tributos - INSS, PIS e Cofins. O primeiro vence no dia 2 de cada
mês e os demais, no dia 15. O prazo vai aumentar, mas ainda não
foi fixado.
Confronto com patrões
Mas, apesar da disposição
do governo de atender reivindicações patronais, também
poderá adotar medidas contrárias aos interesses do setor.
Segundo Mantega, o governo começará a estudar formas de
apressar a cobrança de dívidas. São valores inscritos
na dívida ativa da União, uma espécie de lista negra
de caloteiros de tributos, em sua maioria empresas.
Hoje, a dívida ativa soma R$ 380
bilhões, dos quais R$ 333 bilhões já estão
sendo cobrados na Justiça. O governo pretende achar uma solução
que acelere a cobrança dos R$ 47 bilhões que ainda não
foram objeto de ação judicial. Uma ação judicial
pode demorar até 16 anos para ser decidida.
O estoque de R$ 47 bilhões é uma
fonte de recursos que o governo acredita que poderia ser usada sem comprometer
a política de pagamento de juros da dívida (superávit
primário). “Essa dívida é um patrimônio
dos futuros governos. Podemos ganhar capacidade de investimento sem mexer
no primário”, afirmou Mantega.
O empresariado promete reagir, se
sentir injustiçado. “Só dá para aceitar
se não se suprimir os direitos de defesa do contribuinte. De
contrário, sou contra”, disse Armando Monteiro.
|
JORNAL A TARDE ONLINE, 26
de novembro de 2006 | Mundo
Protesto denuncia "lado obscuro" da
construção civil na Argentina
Um protesto organizado por moradores de
diferentes bairros de Buenos Aires e adjacências denunciou hoje
o "lado obscuro" do fenômeno da construção
civil, a atividade que mais cresce na Argentina.
"Nem um tijolo a mais" foi o
lema das 50 organizações de moradores que convocaram um "barulhaço" em
20 pontos da capital argentina. Milhares de pessoas se reuniram para
protestar contra a construção "indiscriminada" de
torres de apartamentos.
Os manifestantes reivindicaram a suspensão
das obras até que se avalie o impacto ambiental da proliferação
de grandes edifícios em áreas que recentemente se caracterizavam
por suas casas baixas e uma atmosfera aprazível.
"Os serviços de esgoto, luz
e água estão em colapso por falta de planejamento prévio",
disse à Efe um dos participantes do protesto.
Os manifestantes também reivindicaram
a conservação das áreas verdes e afirmaram que as
torres barram a luz natural e a circulação de ar nos bairros
residenciais.
Recentemente, um grupo de moradores do
tradicional bairro de Caballito, no coração da capital
argentina, abriu uma ação judicial contra o avanço
das torres. A juíza Alejandra Petrella suspendeu na semana passada
as permissões de 16 obras, e o prefeito de Buenos Aires, Jorge
Telerman, cancelou por três meses as novas autorizações
para edificar em seis distritos da cidade.
"Não queremos prejudicar os
trabalhadores da construção nem as empresas. Mas é preciso
discutir o assunto a sério. Não se trata de uma obra isolada,
mas de uma modificação substancial do ambiente do bairro",
afirmou Mario Oybin, da organização SOS Caballito.
Só em Buenos Aires, nos primeiros
oito meses do ano foram dadas autorizações para construir
1.625.468 metros quadrados, 20% a mais que no mesmo período de
2005 e 10 vezes mais que em 2002.
O setor foi o primeiro a se recuperar
após a crise de 2001 e vem sendo um dos motores da economia argentina.
Seu crescimento foi de 20% nos primeiros nove meses deste ano, acima
dos 7,6% da indústria.
|
ÚLTIMA INSTÂNCIA,
27 de novembro de 2006
CCJ aprova uniformização
de decisões de juizados especiais
A CCJ (Comissão de Constituição
e Justiça) aprovou nesta terça-feira (21/11), em caráter
conclusivo, o Projeto de Lei 4723/04, do Poder Executivo, que introduz
a uniformização de jurisprudência nos juizados especiais
estaduais nos casos de divergência entre decisões proferidas
por turmas recursais. O projeto seguirá agora para o Senado.
Se aprovada, o projeto alterará a
Lei dos Juizados (Lei 9.099/95) para criar mecanismos de pedido de interpretação
de lei, em caso de divergência entre os órgãos. De
acordo com a proposta, em caso de divergência entre órgãos
do mesmo Estado, a controvérsia será dirimida em reunião
conjunta das turmas em conflito.
Quando a decisão proferida estiver
em contrariedade com súmula ou jurisprudência dominante
do STJ (Superior Tribunal de Justiça) ou quando as turmas recursais
de diferentes estados derem à lei federal interpretações
divergentes, a questão será decida pelo STJ.
Ao aprovar o projeto do Executivo, a comissão
rejeitou proposta do ex-deputado Chiquinho Feitosa que previa um novo
nível de recurso para os juizados especiais. A sugestão
foi negada porque “desvirtuaria o espírito da instituição”.
Atualmente, só é possível recurso de decisão
de segunda instância nos juizados quando há violação
de norma constitucional. Neste caso, cabe ao STF (Supremo Tribunal Federal)
a análise do recurso.
Na prática
A idéia central das proposições é permitir
maior segurança jurídica nas decisões tomadas
nos juizados especiais. Nos casos em que houver decisões francamente
contrárias aos fatos expostos nos processos, às decisões
tomadas em outras turmas e mesmo contrárias à jurisprudência
dos tribunais superiores, o interessado poderá interpor recurso
pedindo a revisão da sentença.
|
CONSULTOR JURÍDICO,
26 de novembro de 2006
Regime de trabalho
Justiça comum julga ação
de servidora contra município
A Justiça comum estadual é competente
para julgar ação contra exclusão de horas extras
incorporadas aos vencimentos de servidor. O entendimento é do
ministro Arnaldo Esteves Lima, do Superior Tribunal de Justiça,
que declarou ser de competência do Tribunal de Justiça de
São Paulo julgar o Mandado de Segurança ajuizado pela servidora
Maria Isabel Linhares Arcângelo contra ato do prefeito do município
de Presidente Venceslau, São Paulo.
O pedido inicial foi encaminhado à Justiça
comum. Em primeira instância, o pedido da servidora foi rejeitado.
Em apelação, o Tribunal de Justiça declarou a incompetência
absoluta da Justiça comum para processar e julgar a ação.
O fundamento foi o de que as horas extras pleiteadas remontam à vigência
do regime celetista.
Remetidos os autos à Justiça
do Trabalho, foi suscitado o conflito de competência. O argumento
foi o de que o ato impugnado ocorreu na vigência do regime estatutário.
O relator destacou que o ato questionado
não envolve matéria trabalhista. Segundo o ele, não
obstante a incorporação das horas extras tenha ocorrido
na vigência do regime celetista, o direito à sua manutenção
foi garantido pela Lei Complementar 1/92 (artigo 18, VI), que instituiu
o regime jurídico único dos servidores públicos
municipais.
“Destarte, deve ser aplicada a regra
geral segundo a qual, em Mandado de Segurança, a competência,
tanto do foro como do juízo, é fixada conforme a hierarquia
da autoridade legitimada a praticar a conduta, comissiva ou omissiva,
que possa resultar em lesão ao direito subjetivo da parte. Assim,
tratando-se de impugnação a ato de prefeito municipal que
suprimiu as horas extras dos vencimentos da impetrante, é competente
a justiça comum estadual”, afirmou o ministro.
|
ESTADÃO.COM / SÃO
PAULO, 25 de novembro de 2006 | Nacional
Trabalhadores são achados em
condições subumanas em SP
A subdelegacia do Trabalho de São
José do Rio Preto multou o dono da fazenda
Chico Siqueira
ARAÇATUBA - Um grupo de 10 trabalhadores
rurais, entre eles um de 17 anos, foi encontrado morando em condições
subumanas numa fazenda do município de Paulo de Faria, a 529 km
de São Paulo.
Os trabalhadores foram contratados, sem
registro em carteira, para trabalhar na colheita de laranja da fazenda
Antequera; ficaram alojados numa casa dormindo no chão e tiveram
de fazer comida e beber água da piscina, durante parte dos 15
dias que ficaram isolados na fazenda.
Fiscais da subdelegacia do Trabalho de
São José do Rio Preto multaram o dono da fazenda, Nilton
Guerra, e um encarregado de pessoal, responsável pelo aliciamento
dos trabalhadores na vizinha Cajobi, cidade da região de Catanduva
(SP).
Segundo um dos ficais, Guerra disse que
os trabalhadores que pediram para morar na fazenda nas condições
em que foram encontrados.
No entanto, segundo Regina Helena Hilário,
diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Paulo de Faria, foram
os próprios trabalhadores quem fizeram a denúncia no sindicato,
que por sua vez, levou o caso até à subdelegacia e esta
constatou o abuso.
|
CONSULTOR JURÍDICO,
27 de novembro de 2006
Tratamento igual
Benefício concedido a funcionário
vale para todos
O benefício concedido gratuitamente
pelo empregador a um funcionário deve valer para todos. O princípio
da isonomia veda o tratamento discriminatório. O entendimento é da
ministra Maria Cristina Peduzzi, do Tribunal Superior do Trabalho, que
acolheu o recurso de um executivo da empresa Produtos Alimentícios
Fleischmann e Royal. Ao contrário de outros ex-dirigentes da empresa,
ele não recebeu gratificação por seu desligamento.
A decisão altera acórdão
firmado pela 5ª Turma do TST que, anteriormente, acolheu o recurso
de revista da empresa. A decisão excluiu o pagamento ao executivo
da gratificação de desligamento além dos reflexos
salariais pelo fornecimento de veículo e pagamento de despesas
médicas, farmacêuticas e com curso de inglês.
“No caso dos autos, no entanto,
não estão presentes à habitualidade e a uniformidade
necessárias para tornar obrigatório o pagamento da gratificação
de desligamento, eis que nem todos os empregados demitidos eram beneficiados
com essa parcela”, registrou a 5ª Turma.
O executivo recorreu à Seção
Especializada em Dissídios Individuais – 1. Argumentou que
não teve seu nome incluído nas despesas coletivas promovidas
pela empresa. O fato, segundo o ex-empregado, levou à perda de
seus direitos adquiridos. Ele ressaltou que a gratificação
foi paga a todos os funcionários dispensados, no período
entre 1990 e 1993, o que resultou em tratamento desigual.
Segundo a ministra Cristina Peduzzi, apesar
da gratificação ter sido adotada por liberalidade da empresa,
a questão está sujeita ao princípio da isonomia.
Dessa forma, o poder diretivo do empregador, inscrito no artigo 2º da
CLT, encontra-se submetido ao mesmo princípio que assegura a igualdade
de todos perante a lei.
“Não se nega, é verdade,
a possibilidade de o empregador diferenciar determinadas categorias de
empregados e, por liberalidade, conceder-lhes benefícios distintos,
de acordo com certos critérios (idade, tempo de serviço,
tempo na função etc.)”, afirmou Cristina Peduzzi.
“Entretanto, dentro de uma mesma
categoria, isto é, entre empregados em igualdade de condições,
a concessão de benefícios diversos acarretaria tratamento
discriminatório contrário ao artigo 5º constitucional”,
acrescentou.
“Registre-se, finalmente, que a
discussão relativa à habitualidade ou não da parcela é irrelevante
ao deslinde da controvérsia, visto que não se debate a
natureza (salarial ou indenizatória) da verba”, concluiu
a relatora ao votar pelo pagamento da gratificação. O voto
da relatora e a decisão da SDI-1, contudo, não foram favoráveis
ao restabelecimento dos reflexos salariais das parcelas fornecidas ao
trabalhador durante a relação de emprego.
ERR 536235/1999.2
|
JORNAL GAZETA DO POVO, 27 de
novembro de 2006 | Brasil
TRABALHO-Lista mostrará quem recebe
acima de R$ 24,5 mil, teto salarial dos servidores públicos
CNJ divulga amanhã lista
dos maiores salários do Judiciário
Brasília – Oito anos depois de implantado pela reforma administrativa,
o teto salarial do funcionalismo público continua sendo desrespeitado
pelo país afora. E, ao longo dos anos, sofreu ajustes que já elevaram
o seu valor em 222%. Dados do governo federal mostram que ainda existem 129
servidores do Executivo federal ganhando acima dos R$ 24,5 mil – valor
que recebem os ministros do Supremo Tribunal Federal tido como limite máximo
legal de remuneração do serviço público. Além
disso, um levantamento que o Conselho Nacional de Justiça divulgará amanhã,
revela que, nos estados, cerca de 200 desembargadores estariam recebendo contracheque
acima daquele limite. Esses felizardos representam 20% do total – cerca
de 1.000 magistrados – de funcionários lotados nessas funções,
em todos os estados brasileiros.
Ações
judiciais
Essa situação só se perpetua porque a maior parte desses
marajás tem dinheiro para pagar bons advogados e consegue decisões
na Justiça lhes garantindo o direito de receber os valores integrais,
mesmo contra o que diz a Constituição. O mais alto salário
do Executivo federal, por exemplo, é de um professor aposentado da Universidade
Federal do Ceará (UFC), que em abril passado recebeu a bagatela de R$
38.275,44.
Hoje esse valor já é mais
alto, porque os docentes receberam um reajuste em junho que elevou seus
salários entre 5% e 10%.
Os supersalários só são
conhecidos porque o governo federal – ao contrário dos demais
Poderes – publica periodicamente no Diário Oficial a lista
da maior e da menor remuneração de cada órgão
da administração federal.
História antiga
A história das tentativas de impor
uma limitação aos salários do funcionalismo público é antiga.
Desde 1988 a Constituição federal já definia um
limite, que na época era diferenciado entre os Poderes.
No Executivo, o valor máximo permitido
era o salário dos ministros, mas esse teto nunca funcionou. Hoje,
passa de 55 mil o número de servidores federais que recebem mais
do que R$ 8,5 mil mensais, valor aproximado do vencimento dos ministros
e do próprio presidente da República. Em 1998, na reforma
administrativa, o governo tentou tornar o teto mais rígido, estabelecendo
que nenhuma vantagem poderia ser paga além do subsídio
dos ministros do STF, mas nem isso adiantou.
O teto já subiu de R$ 12.720
em 2000 para R$ 24.500 em 2006 e deve passar a R$ 25.725 em janeiro
de 2007, se o Congresso aprovar projeto do STF que reajuste os salários
dos magistrados.
|
JORNAL GAZETA DO POVO, 27 de
novembro de 2006 | Brasil
SUPERSALÁRIO
Presidente do STF ganha 79%
a mais do que juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos
Brasília – Dados oficiais do governo norte-americano cruzados
com os brasileiros mostram que o salário da presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF), Ellen Gracie, é 79% maior do que o do seu par nos Estados
Unidos, o chefe da Suprema Corte. A comparação foi feita pelo
economista gaúcho Júlio Brunet, da Secretaria da Fazenda do Rio
Grande do Sul, a partir dos valores informados no site do U.S. Department of
Labor – o Ministério do Trabalho dos EUA.. Em 2005, de acordo
com as estatísticas americanas, o chefe da Suprema Corte recebeu uma
remuneração anual de US$ 205,1 mil. No Brasil, o salário
básico da ministra Ellen Gracie vale US$ 296,6 mil (ou R$ 326,6 mil
convertidos pela paridade do poder do real em relação ao dólar).
Comparando outros salários
de juízes, o economista gaúcho encontrou a mesma discrepância
entre Estados Unidos e Brasil. O juiz federal recém concursado
no Brasil, por exemplo, vai ganhar R$ 20.953,17 mensais a partir de
janeiro, o que equivale a US$ 253,7 mil anuais. Nos EUA, os juízes
federais com jurisdição limitada recebem US$ 146,9 mil.
|
Notícias do Tribunal
Superior do Trabalho
27/11/2006
Contribuição ao INSS não
incide sobre aviso prévio indenizado
A contribuição destinada
ao custeio da Previdência Social não incide sobre o aviso
prévio indenizado, ou seja, quando o empregador determina o desligamento
imediato do empregado e efetua o pagamento da parcela relativa ao período
de aviso. Sob esse entendimento, a Terceira Turma do Tribunal Superior
do Trabalho negou agravo de instrumento ao Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS). A decisão, relatada pelo ministro Alberto Bresciani,
resultou em manutenção de acórdão firmado
pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (Rio Grande
do Sul).
Durante o exame do recurso, o relator
frisou que o artigo 28, parágrafo 9º, da Lei nº 9.528
de 1997 alterou a legislação previdenciária anterior
(Lei nº 8.212 de 1991) e, dessa forma, excluiu o aviso prévio
indenizado da lista das parcelas que não integram o salário
de contribuição. Ao mesmo tempo, contudo, o inciso I do
mesmo dispositivo alterou o conceito de salário de contribuição.
“Decorre daí que o aviso
prévio indenizado não faz parte do salário de contribuição,
pois não se destina a retribuir qualquer trabalho”, explicou
Alberto Bresciani, ao negar o agravo de instrumento à autarquia.
Também foi lembrado que o artigo 214 do Decreto nº 3.048,
de 1999, exclui expressamente o aviso prévio indenizado da base
de cálculo do salário de contribuição.
O posicionamento adotado pelo TST, frisou
o relator, encontra respaldo inclusive em norma do próprio Ministério
da Previdência Social. Segundo a Instrução Normativa
nº 3 (publicada no Diário Oificial da União em julho
do ano passado), as importâncias que tenham sido pagas a título
de aviso prévio indenizado não integram a base de cálculo
para incidência de contribuição previdenciária.
“Assim, se remanesciam dúvidas
quanto à integração ou não do aviso prévio
indenizado no salário de contribuição, em face do
contido na nova redação do artigo 28, parágrafo
9º, em contraposição ao Decreto nº 3.048 de 1999,
foram elas dirimidas pela Autarquia, por meio da Secretaria da Receita
Previdenciária”, concluiu Alberto Bresciani ao negar o recurso
do INSS. (AIRR 1105/2003-201-04-40.2)

|