Congresso em Foco, 21 de dezembro de 2006
Adiamento estratégico
Após pressão popular,
parlamentares adiam para 2007 discussão sobre reajuste salarial
e fim do 14º e 15º salários e da verba indenizatória
Diego Moraes
Depois de uma semana de impasse, o Congresso foi obrigado a ceder à pressão
popular e recuou ontem (20) da decisão de reajustar os salários
dos parlamentares. Pelo menos por enquanto. No início da manhã,
líderes dos partidos na Câmara derrubaram a idéia
de elevar seus vencimentos em 91%.
No fim da noite, os deputados também desistiram de examinar
a proposta que reajustava os seus salários em 28%, repondo a
inflação acumulada nos últimos quatro anos, e
resolveram deixar que os integrantes da próxima legislatura
definam os novos valores. Com isso, os salários dos congressistas
continuam como estão, em R$ 12,8 mil.
Após quase cinco horas de discussão em plenário,
os deputados desistiram de votar outras duas propostas que foram atreladas,
de última hora, à votação do aumento salarial:
uma que previa o fim da verba indenizatória (hoje cada um dos
513 recebe R$ 15 mil por mês para manter seus gabinetes nos estados)
e outra que acabava com o 14º e o 15º salários, que
eles recebem no início e no fim de cada ano como ajuda de custo.
Prevaleceu o entendimento de que os atuais congressistas não
podem decidir sobre questões que atingem o próximo Congresso.
Porém, nos bastidores, venceu a idéia de que deixar tudo
como está seria a melhor alternativa para contornar o desastre
político provocado pela tentativa de dobrar o subsídio
dos parlamentares.
"Não tenho vergonha de pedir desculpas quando erro. Esse
assunto trará derrota não só para alguns partidos,
mas para o parlamento. Vamos pedir desculpas à sociedade e dizer
que foi inoportuno", afirmou o líder do PTB na Câmara,
José Múcio (PE), que, na semana passada, votou a favor
do reajuste de 91% e declarou que o salário de R$ 12,8 mil afasta
os “homens sérios” do Congresso. O deputado, assim
como outros colegas, não descartou, porém, a possibilidade
de retomar a discussão na próxima legislatura.
Só ele e Deus
Abandonado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e
pelos líderes partidários, o presidente da Câmara,
Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que até terça-feira defendia
incondicionalmente o reajuste, evitou disparar críticas, mas
admitiu ontem o seu isolamento. “Eu não fiquei sozinho.
Eu, pelo menos, espero que tenha contado com a companhia de Deus”,
desabafou Aldo, ao reconhecer que foi um erro insistir no reajuste
de 91% para os parlamentares.
O reajuste de 91% - que elevaria de R$ 12,8 mil para R$ 24,5 mil o
subsídio dos congressistas - foi acordado na semana passada
após reunião dos líderes do Senado e da Câmara
e referendado por ato conjunto das Mesas Diretoras das duas Casas.
A medida, porém, foi derrubada na última terça-feira
(19) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que as Mesas
não poderiam tomar a decisão sem consultar os parlamentares
em Plenário.
Guerra declarada
A decisão do Supremo gerou reação imediata no
Congresso e azedou a relação entre o Legislativo e o
Judiciário. Inconformados com a sinalização do
STF de que não aceita a equiparação salarial entre
os parlamentares e os ministros do Supremo (teto do funcionalismo público),
deputados e senadores descartaram a possibilidade de aprovar, em curto
prazo, a proposta encaminhada pela ministra Ellen Gracie, presidente
da corte, que eleva de R$ 24,5 mil para R$ 25,72 mil a remuneração
dos magistrados.
“Ou colocamos cada Poder no seu lugar ou este Poder [Legislativo]
vai acabar", disse o líder do PFL na Câmara, Rodrigo
Maia (RJ). Outro pefelista, o senador Antonio Carlos Magalhães
(PFL-BA), apresentou ontem uma proposta de emenda constitucional fixando
o salário dos parlamentares como o teto do funcionalismo, o
que acarretaria uma redução dos vencimentos dos ministros
do Supremo. A iniciativa recebeu o inusitado apoio da líder
do PT na Casa, Ideli Salvatti (SC). "Já que somos o parâmetro
de avaliação da população, que sejamos
o padrão salarial também", afirmou a senadora.
Já o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) defendeu a proposta
apresentada pelo deputado Eduardo Gomes (PSDB-TO) de congelar os salários
dos ministros e elevar gradativamente os dos congressistas. "Se
não tivermos uma política, o princípio constitucional
da isonomia entre os Poderes nunca vai acontecer de fato. Defendo que
congelemos o salário do Judiciário até que o do
Legislativo o alcance", disse Mercadante.
O ministro Marco Aurélio de Mello classificou como revanchismo
a possibilidade de o Congresso congelar os vencimentos do STF. “A
retaliação é uma confusão entre o público
e o privado. Ela fica bem para o faroeste, onde impera a lei do mais
forte. Vamos deixar de lado as paixões exacerbadas”, afirmou.
Dia de tensão
Após a decisão do Supremo, o presidente do Congresso
ordenou, ainda na terça-feira (19), a convocação
de uma reunião às pressas para definir as formas de conceder
o reajuste. Tudo seria possível, menos virar o ano sem um incremento
nos subsídios. Por causa da diplomação da maioria
dos parlamentares reeleitos, o encontro entre os líderes acabou
sendo adiado para ontem de manhã.
No início do dia, Renan decidiu jogar a responsabilidade do
assunto para os deputados. "Todo mundo acha que é preciso
tirar esse assunto de pauta, virar a página e resolver de uma
vez por todas. A Constituição manda que [o aumento] seja
votado nas duas Casas do Congresso. A iniciativa é da Câmara.
Vamos aguardar a iniciativa da Câmara e decidir", afirmou
o senador, ao desmarcar a convocação dos líderes
no Senado.
Entretanto, a fome pelo aumento de 91%, que equipararia os salários
de deputados e senadores aos dos ministros do STF, perdeu intensidade
durante a reunião dos líderes na Câmara. Depois
de duas horas de discussões, os líderes informaram que,
em vez do aumento, seriam votados o fim da verba indenizatória
e do 14° e 15° salários e, em seguida, a possibilidade
de um reajuste.
“Nós vamos nos reunir e discutir o legislativo como um
todo”, resumiu o líder do PDT na Câmara, Miro Teixeira
(RJ), favorável ao reajuste para R$ 24,5 mil. Logo de cara,
porém, líderes de cinco partidos encararam as sugestões
como uma manobra para retomar o aumento de 91%.
Verba indenizatória
Eles argumentavam que a Câmara poderia acabar com a verba indenizatória
para justificar o salário de R$ 24,5 mil e, na legislatura seguinte,
regulamentá-la novamente, já que para isso bastaria um
ato da Mesa Diretora. "Seria uma forma de fazer uma curva para
conceder o aumento e continuar com a verba indenizatória",
analisou Fernando Gabeira (PV-RJ).
Um dos principais críticos do reajuste de 91%, Gabeira disse
que a Câmara precisa encontrar um caminho para estabelecer algum
tipo de indenização para que o parlamentar exerça
o seu mandato. “Se acabarmos com a verba indenizatória,
vamos ficar reduzidos ao salário de R$ 12 mil, e não
dá para ficar só com os R$ 12 mil”, afirmou.
A verba indenizatória, hoje em R$ 15 mil, serve para cobrir
despesas das atividades políticas dos deputados no estado de
origem. O dinheiro só é repassado mediante a apresentação
de notas fiscais. Em abril, a Mesa Diretora da Câmara decidiu
limitar a 30% da chamada verba indenizatória os gastos mensais
dos deputados com combustível (R$ 4,5 mil).
O restante pode ser usado na manutenção de escritórios,
despesas com funcionários e em outros gastos ligados ao exercício
do mandato. A fiscalização desses gastos só se
tornou mais severa em abril, quando um grupo de parlamentares foi flagrado
apresentando notas fiscais frias para a compra de combustíveis.
À tarde, ficou acordado que as propostas seriam aprovadas ainda
ontem, depois que os deputados votassem quatro medidas provisórias
que trancavam a pauta. Durante a sessão, os deputados quase
conseguiram articular a votação do reajuste e a não
análise do fim das regalias. Mas, no fim, eles resolveram deixar
tudo para 2007.
Jogados às feras
Na Câmara, prevaleceu a sensação de que o Senado
plantou uma bomba para, de camarote, vê-la explodir no colo dos
deputados. Isso porque, segundo participantes da reunião entre
os representantes das Mesas Diretoras e dos líderes partidários
na semana passada, Renan Calheiros foi o principal defensor da equiparação
dos vencimentos dos parlamentares com o salário dos ministros
do STF.
Mas, após a reação negativa da opinião
pública, reservou-se ao direito de apenas avalizar a decisão
dos deputados. A estratégia, que blindou Renan no episódio,
expôs o presidente da Câmara, que teve de bancar sozinho
a defesa do mega-reajuste.
"O presidente Aldo foi jogado às feras pelo presidente
do Senado. Está aí apanhando às tampas porque
tentou sustentar a posição de um colegiado", alfinetou
o líder do Psol na Câmara, Chico Alencar (RJ), que votou
contra a equiparação com o teto do STF.
Além de Chico Alencar, só Heloísa Helena (Psol-AL)
e Henrique Fontana (PT-RS) votaram contra o aumento na semana passada.
Representantes dos demais partidos que agora criticam o reajuste, como
o PDT, o PTB e o PPS, também votaram a favor do reajuste durante
a reunião com as Mesas Diretoras .
Ao longo do dia, Renan pouco apareceu. Depois de jogar toda a responsabilidade
da decisão para a Câmara, o presidente do Senado declarou
concordar com o adiamento da discussão sobre o reajuste. "Acho
a decisão boa. É melhor que a próxima legislatura
decida sobre isso para definirmos com bom senso, racionalidade e equilíbrio",
disse o senador.
Sermão
Apesar do afastamento estratégico, Renan não escapou
do constrangimento de ouvir, literalmente, um sermão do arcebispo
de Brasília, dom João Braz de Aviz, que fez ontem críticas
contundentes ao reajuste dos salários dos parlamentares na missa
de Natal celebrada no Congresso.
Ao lado do comunista e católico Aldo, o senador peemedebista
ouviu o padre dizer que atitudes como o aumento de 91% "matam
o espírito do Natal". O puxão de orelhas do arcebispo
não parou por aí: "Como aceitar que um parlamentar
brasileiro receba mais de R$ 800 por dia, quando uma boa parte das
pessoas que representa é obrigada a receber R$ 12 por dia?”.
Óleo de peroba
Além de lembrar aos parlamentares que a atual legislatura se
encerra com "a imagem desgastada", dom João também
criticou os elevados salários do Judiciário. "As últimas
pautas, envolvendo também o Poder Judiciário, nos deixaram
a sensação de que muitos dos nossos representantes do
povo andam preocupados com seus interesses e com os interesses das
corporações com as quais estão comprometidos,
distantes, porém, do conjunto de interesses de todo o povo brasileiro".
Constrangimento também passaram os deputados e os senadores
que passaram pelo Aeroporto Juscelino Kubitscheck, em Brasília.
Cerca de 100 manifestantes ligados à Central Única dos
Trabalhadores (CUT) distribuíram reproduções de
garrafas de óleo de peroba para deputados e senadores. Levando
uma maquete do Congresso até os portões de desembarque,
eles começaram a distribuição de 584 garrafas
de plástico com o rótulo “Óleo de Peroba
na Cara-de-Pau. Uso restrito a parlamentares”. Em seguida, as
garrafinhas de plástico foram levadas para a porta do Congresso.