CFT/PR, 22 de dezembro de 2006
Fracos, sindicatos vivem paradoxo
O sindicalismo brasileiro vive um paradoxo extremo. Ao mesmo tempo em
que um ex-sindicalista é reconduzido ao posto mais alto da nação,
as organizações trabalhistas vivem seu ocaso em termos
de influência no poder político e econômico nacional.
Depois de uma "passividade bovina" no primeiro mandato de Lula
- expressão cunhada por João Felício, ex-presidente
da CUT -, seis centrais sindicais do país se juntaram no fim do
mês para discutir como deveriam atuar a partir do dia 1º.
Na reunião, o apoio ao segundo governo prevaleceu, mas uma mudança
na política econômica foi exigida: Lula deve adotar uma
política favorável ao desenvolvimento para a geração
de emprego e renda. No entanto, as armas que os sindicatos dispõem
hoje para lutar por suas reivindicações parecem atirar
balas de festim, se comparadas ao poder de fogo da época em que
Lula despontou como a mais importante liderança sindical do Brasil.
"A capacidade de mobilização dos trabalhadores
por meio dos sindicatos encontra-se fortemente limitada pelos resultados
do processo de globalização e, acima de tudo, pelo elevado
desemprego", explica Carlos Henrique Horn, professor do Departamento
de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. "Além disso, houve uma redução no
tamanho médio dos sindicatos, que provavelmente os tornou mais
dependentes das garantias legais do monopólio da representação
e do imposto sindical."
De fato, o tamanho médio dos sindicatos brasileiros vem diminuindo,
segundo dados do IBGE. Em todos os tipos de sindicatos de trabalhadores,
com a única exceção dos sindicatos de trabalhadores
autônomos, houve redução no tamanho médio
das organizações. A implicação direta desse
fenômeno é que os sindicatos pequenos estão normalmente
associados a um menor poder de atuação. "Com base
nos dados da pesquisa sindical, calculamos que, em média, havia
2.499 associados a sindicatos de empregados urbanos em 1988, tendo
diminuído para 1.459 associados em 2001", diz Horn.
A fragilidade política dos sindicatos pode ser um efeito colateral
da orientação econômica do início dos anos
1990, que levou o país a um nível de competitividade
que não havia na época de ouro das centrais trabalhistas,
a um refluxo dos movimentos sociais e a uma redução nas
greves - um dos principais instrumentos de luta dos sindicatos. O ideário
neoliberal passou a privilegiar a luta contra a regulação
do mercado e a intervenção estatal com as leis protetoras
da força de trabalho. Fenômeno global, a defesa da flexibilidade
das relações de trabalho foi apontada como uma forma
de resolver a escassez de empregos.
"O processo de adequação do mercado elevou também
os índices de desemprego, que são fatores, sem dúvida,
inibidores da ação sindical", analisa Eduardo Noronha,
professor de ciência política da Universidade Federal
de São Carlos. "Apesar de não ter mais que lidar
com os altos índices de inflação - que chegaram
a 80% ao mês, e os acordos salariais envelheciam rapidamente
-, os sindicatos passaram a ter que lidar com o desemprego e para isso
precisavam de uma nova estratégia."
Esse dilema ultrapassa fronteiras. Em uma edição de
novembro, a revista alemã "Der Spiegel" sentenciou
os movimentos trabalhistas sem meias palavras: "os sindicatos
estão mortos". Em forma de obituário, o texto descrevia
os momentos agonizantes das organizações - pelo menos
da forma como elas eram conhecidas. A autópsia dava como causa-mortis
justamente o surgimento de 1,2 bilhão de novos trabalhadores
no mundo globalizado, além da disposição de outros
milhões de pessoas de trabalhar por qualquer preço, do
amplo processo de desindustrialização e ampliação
do setor de serviços e da democratização dos mercados.
"Novos modos de trabalho e novas atividades profissionais surgiram
nos últimos anos e muitas atividades não se reconhecem
nas formas tradicionais de organização sindical. Os sindicatos
continuam defendendo as formas salariais clássicas. Muitos desses
novos tipos de trabalho são caracterizados pela flexibilidade
e precariedade, encontrando, portanto, dificuldade para constituir
uma forma de organização adequada", afirma Maurizio
Lazzarato, sociólogo italiano.
Em sua análise, os sindicatos têm ação
bastante fechada e conservadora, defendendo ainda a obsoleta era fordista. "Isso é curioso,
pois no início do século XX, sindicatos e comunistas
eram a favor do livre mercado." Ele cita como exemplo histórico
o congresso da Confederação Geral dos Trabalhadores da
Rússia, em 1905, quando não havia oposição à circulação
dos trabalhadores, mesmo com a discordância da base do movimento. "Naquela época
o problema não era fechar as fronteiras, mas proporcionar salário
digno aos trabalhadores", afirma Lazzarato.
Diversas características que acompanharam a globalização
nos últimos 25 anos impõem dificuldades e desafios às
lideranças sindicais para traçar a estratégia
necessária aos novos tempos. Nesse cenário, os sindicatos
perderam sua identidade histórica, deixando as idéias
revolucionárias, mas não sendo capazes de se adaptar à economia
aberta, que para muitos analistas trabalha com o desemprego estrutural.
Horn destaca alguns dos prejuízos da nova ordem:
Redução relativa nas oportunidades de trabalho regular
e uma maior precarização do mercado de trabalho.
Crescimento da concorrência entre empresas nos mercados internos
e no comércio exterior, que retira graus de liberdade para concessões
sindicais.
Perda relativa de autonomia da política econômica para
administrar o desempenho da economia e minimizar o desemprego, sobretudo
em face das pressões dos mercados financeiros.
O futuro do sindicato brasileiro, pelo menos, estaria associado às
decisões quanto a uma reforma sindical, cuja aprovação
pelo Congresso era a principal reivindicação das centrais
na primeira gestão de Lula. "O processo da reforma foi
desacelerado ao final do primeiro governo Lula, após ter gerado
no Fórum Nacional de Trabalho (FNT) um relatório que
prevê mudanças substantivas na organização
sindical e nos processos de negociação coletiva, e que
deu origem a um anteprojeto de lei de relações sindicais.
Aguardemos agora os movimentos de 2007", diz Horn.
Enquanto isso, os problemas se agravam. Segundo o secretário-geral
da Força Sindical Nacional, João Carlos Gonçalves,
o Juruna, com as terceirizações, as categorias se fragmentam
cada vez mais. Nas empresas metalúrgicas do ABC, por exemplo,
ele cita que os funcionários da limpeza, do fornecimento de
refeições e até alguns setores de manutenção
são terceirizados para a prestação de serviços. "A
atividade sindical foi prejudicada, pois não há mais
grandes concentrações de trabalhadores, aumentaram as
divisões do trabalho e houve muita modificação
nas fábricas."
O emprego terceirizado sofreu rápida expansão no país.
Entre 1995 e 2005, de cada três novas vagas criadas no setor
privado, uma foi pela terceirização. O ritmo médio
de expansão anual dessa modalidade de contrato foi quase quatro
vezes maior do que o conjunto dos postos formais de trabalho. No ano
passado, os terceirizados somavam 4,1 milhões de pessoas, quase
16% do total dos trabalhadores do setor privado (26,4 milhões
de pessoas). Dez anos antes, eram 9,2% do total (1,8 milhão).
Os dados fazem parte do estudo "Terceirização e
Diversificação nos Regimes de Contratação
de Mão-de-Obra", do economista Marcio Pochmann.
O sindicalismo brasileiro ganhou força a partir de 1978, quando
os operários da montadora de veículos Scania, em São
Bernardo do Campo, São Paulo, fizeram uma greve para reivindicar
reajuste salarial, desafiando a Lei da Greve imposta pelo regime militar.
Nos anos que se seguiram, os sindicatos do ABC paulista sofreram com
a repressão, com as diversas intervenções do governo
federal e também com o progresso.
A década de 1980 começou com a chegada de novas tecnologias
nas indústrias, que levaram automação para as
linhas de produção e provocaram, como conseqüência,
a extinção de postos de trabalho. O então presidente
João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985) endureceu com
os sindicalistas quando eles intensificaram as greves por reposição
salarial e contra as medidas recessivas do governo. Tudo isso fez com
que a classe se fortalecesse ainda mais. Em 1983 foi criada a Central Única
dos Trabalhadores (CUT).
"Na década de 1980, os sindicatos brasileiros foram campeões
de greve. Nenhum outro país do mundo fez tantas greves como
aqui, e isso é característico da própria transição
do autoritarismo para a democracia", explica Noronha. "Era
uma forma de os sindicatos expressarem o descontentamento com o achatamento
dos salários e com o autoritarismo."
Nessa época, os sindicatos também conseguiram a profissionalização
das negociações. Tanto as empresas quanto as entidades
sindicais se equiparam e nesse período houve um momento de adaptação
basicamente por meio das greves, "que era a principal arma do
sindicato", afirma Noronha.
As modificações nas relações de trabalho
inseridas pela Constituição de 1988 impulsionaram ainda
mais a atividade sindical brasileira. A nova Carta retirou do Ministério
do Trabalho o poder de determinar a vida sindical e ainda garantiu
liberdade de formação de sindicatos aos servidores públicos. "O
reconhecimento da personalidade sindical deixou de ser atribuição
do Poder Executivo. Hoje, cabe ao Ministério, quanto a este
aspecto, apenas o registro dos sindicatos", afirma Horn. "Foram
alterações importantes porque até então
o direito à organização sindical dos servidores
públicos inexistia."
A primeira das alterações, segundo Horn, ampliou a liberdade
para a formação de sindicatos, ainda que sujeita às
determinações da lei, de que se destacam, dentre outras
regras, o princípio do sindicato único numa base de representação
e a norma do município como área geográfica mínima
para a constituição de sindicatos. A segunda alteração
permitiu que inúmeras associações de servidores
públicos viessem a se transformar em sindicatos.
"É nostalgia pensar naquele movimento dos anos 1980 e
querer recuperar a força de mobilização que os
sindicatos tiveram naquela década", observa Juruna, da
Força Sindical Nacional. "Hoje a situação é outra,
o momento histórico é outro. Hoje em dia as empresas
abrem espaços para os trabalhadores fazerem assembléias
dentro da própria instituição."
Para ele, o momento pelo qual os sindicatos passam reflete um período
de transição da própria história. "Não
nos estabilizamos ainda nesta nova situação e temos que
estar sempre repensando o papel do sindicato, mas não há dúvidas
de que estamos fazendo isso constantemente. As centrais estão
desempenhando papel importante quando param para pensar em políticas
públicas. Os sindicatos não estão mortos."
O coro é reforçado por José Lopes Feijóo,
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT. "Enquanto
houver trabalho subordinado neste país, os trabalhadores vão
se organizar", diz o sindicalista. "Falar que o sindicalismo
morreu é o mesmo que falar que a história acabou. A história
acaba? Não acaba." Feijoó diz que é natural
que os sindicatos tenham que se reorganizar conforme se reorganizam
também as forças produtivas. "Já houve um
tempo no Brasil em que o sindicato mais importante e com mais força
era o Sindicato dos Chapeleiros. O brasileiro deixou de usar chapéu
e ele perdeu a força", diz ele.
A luta da classe sindical, na década de 1970, era outra, segundo
Feijóo. Naquela época, as entidades tinham que brigar
pelo direito de existir e de poder negociar. "A greve era proibida
pelo regime militar e por isso as mobilizações tinham
tanta visibilidade. Hoje já adquirimos esse direito, o de negociar,
e, além disso, os trabalhadores já podem se organizar
dentro de suas próprias empresas, o que não dá tanta
visibilidade aos movimentos."
A impressão de que os sindicatos agonizam é falsa, na
opinião do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC, porque os estudos procuram medir a eficácia da ação
sindical atual "com a régua dos anos 1970". "O
momento é outro e o movimento tem que ser medido pelo número
de filiados que as centrais têm e pela quantidade de acordos
firmados."
Dados do início de dezembro mostram que a CUT tem, hoje, 3.489
filiados e 7.690.598 trabalhadores associados. A Força Sindical
congrega 1.335 sindicatos e 7.291.886 trabalhadores. Nas duas centras
sindicais o número de filiados e trabalhadores associados só vem
crescendo nos últimos anos.
Prova de que os sindicatos estão atentos às mudanças
no mercado de trabalho, segundo Juruna, é a recém-criação
da Confederação Sindical Internacional. A CSI foi fundada
em Viena, no dia 1º de novembro, pelos sindicatos afiliados pelas
agora dissolvidas Confederação Internacional de Sindicato
Livres (CISL) e pela Confederação Mundial do Trabalho
(CMT), juntamente com várias outras organizações
sindicais nacionais.
Essa nova federação, de 307 sindicatos membros em 154
países, com 168 milhões de membros individuais, foi formada
com o objetivo de dar aos trabalhadores de todo o mundo uma voz mais
forte para enfrentar os desafios da globalização. Sua
constituição teve o apoio da Organização
Internacional do Trabalho (OIT). "Isso é um indicativo
de que estamos reagindo à globalização. Os trabalhadores,
assim como os mercados, estão se unindo no mundo todo e redimensionando
as alianças internacionais em busca de benefícios conjuntos",
diz Juruna.
"Não tenho dúvidas de que, assim como em seus congêneres
no mundo, o sindicalismo brasileiro segue em busca da definição
das melhores estratégias para seu futuro", afirma Horn. "Mas
penso que ainda não conseguiu gerar um consenso quanto a essa
definição." Fonte: Carolina
Juliano, para o Valor Econômico