Congresso em Foco, 29 de dezembro de 2006
Senador quer reduzir número
de parlamentares em todo o país
Cortando na própria carne | Alvaro
Dias vai reapresentar propostas que reduzem em 21% o número
de deputados federais e estaduais e vereadores, e em um terço
o de senadores
Edson Sardinha
Em pleno clima de revolta popular com o reajuste salarial dos congressistas,
a proposta soa popular: reduzir em 21% o número de deputados
federais e estaduais e vereadores, e em um terço o de senadores.
Mas, em sete anos de tramitação, as quatro proposições
que tratam do assunto, apresentadas pelo senador Alvaro Dias (PSDB-PR),
não conseguiram sequer passar de uma comissão a outra.
Por causa disso, com o fim da atual legislatura, seguirão diretamente
para o arquivo.
Enquanto não consegue o apoio dos colegas, o senador pretende
aproveitar a pressão da opinião pública contra
o reajuste para reapresentar essas propostas no início de 2007. “De
nada vale termos tantos parlamentares no país se eles estão
desvalorizados, desmoralizados, desconsiderados pela sociedade. É melhor
reduzir, perder em quantidade, ganhar em qualidade e recuperar a credibilidade”,
defende o senador.
Corte pela raiz
Alvaro Dias quer reduzir de três para dois o número de
senadores por estado, baixando de 81 para 54 o número de cadeiras
no Senado. Na Câmara, os 513 deputados seriam reduzidos a 405.
Já nas assembléias legislativas, as vagas cairiam de
1.059 para 837, enquanto nas câmaras municipais os atuais 60.320
vereadores não passariam de 48 mil. “Eu terei que atualizar
esses projetos, porque os cálculos foram feitos com base na
população daquela época (em 1999)”, observa.
O número de cadeiras por estado é distribuído,
na Câmara dos Deputados, conforme a população de
cada unidade da federação. Entretanto, essa proporcionalidade é limitada
a um mínimo de oito deputados – casos, por exemplo, de
Roraima, Acre e Rondônia – e a um máximo de 70 deputados – caso único
de São Paulo.
O atual critério é questionado pelos políticos
dos estados mais populosos. Enquanto, numa ponta, Roraima tem um deputado
para cada 49 mil de seus habitantes, na outra, São Paulo aparece
com um representante para cada 571 mil habitantes. “O teto será 70,
que é exatamente o atual número de deputados em São
Paulo. Eles não terão mais parlamentares”, afirma Álvaro
Dias.
Vencedor do Prêmio Congresso em Foco como o melhor senador,
segundo os leitores deste site, o tucano diz que não há mais
clima para se discutir qualquer aumento salarial dos parlamentares. “A
imagem do Congresso nesse período é a pior possível.
Aliás, temos os piores índices de popularidade da história. É o
Congresso mais enxovalhado, comprometido pelos escândalos, contaminado
pela corrupção”, considera.
Críticas à oposição
Crítico implacável do governo Lula, o senador também
dispara contra os colegas da oposição, da qual é líder
hoje no Senado. Para o tucano, os oposicionistas falharam por não
ter organização, estratégia nem o “timing” necessários
para sair vitoriosa das urnas.
“ Acho que nós nos comunicamos mal, não só na campanha,
mas durante todo o mandato do presidente Lula. Eu proponho que se organize melhor,
que se profissionalize melhor a comunicação do partido para que
se abram espaços na mídia e a gente possa se comunicar melhor com
a sociedade”, avalia.
Seguindo o tucano, a história poderia ter sido outra se a oposição
tivesse tomado, por exemplo, a iniciativa de pedir o impeachment de
Lula no auge do escândalo do mensalão. “Nós
tínhamos razões de sobra para propor a instalação
de um processo de impeachment. Não posso assegurar que o impeachment
ocorreria, mas a oposição cumpriria o seu papel se defendesse
a instalação de um processo de impeachment naquela época”,
considera.
Natural de Quatá (SP), Alvaro Dias tem 62 anos. Formado em
História pela Universidade Estadual de Londrina (PR), em 1968
foi eleito vereador de Londrina, onde foi líder do então
MDB. Deputado estadual de 1971 a 1975, foi eleito deputado federal
em 1975, permanecendo no cargo até 1983. Governou o Paraná entre
1987 e 1991. Chegou ao Senado nas eleições de 1998 e
conseguiu a reeleição este ano. Atual líder da
oposição no Senado, foi reeleito em outubro para mais
oito anos de mandato.
Leia a íntegra da entrevista concedida pelo
senador ao Congresso em Foco:
Congresso em Foco – O senhor disse, durante a entrega
do Prêmio Congresso em Foco, que a discussão, neste
momento, não deveria ser sobre quanto os parlamentares devem
ganhar, mas quantos eles devem ser. Há deputados e senadores
demais no Brasil?
Senadores, deputados federais, estaduais e vereadores. Há uma
enorme distorção da proporcionalidade desde o pacote de
abril de 1977, que atendia aos interesses do autoritarismo. Alguns estados
têm, proporcionalmente, mais representantes do que outros. E a
representação popular deve ser autêntica e compatível
com o número de habitantes de cada unidade da federação.
O parâmetro para a definição do número de
parlamentares em cada unidade da federação é a população. É preciso
reduzir isso para que o poder legislativo seja mais enxuto, e, portanto,
mais econômico, ágil, eficiente e qualificado. Com isso,
além da economia, haveria um ganho de qualidade.
O senhor tem uma proposta nesse sentido. Como seria isso na
prática?
Eu apresentei há mais de sete anos, no início deste mandato,
três emendas à Constituição, uma referente à Câmara
dos Deputados, outra às assembléias e outra aos municípios,
e um projeto de lei complementar. O objetivo era reduzir cerca de 21%
da Câmara, em quatro eleições consecutivas. A redução
também seria semelhante nas assembléias e nas câmaras
de vereadores, reduzindo o número de parlamentares em todos os
estados com a exceção de São Paulo, porque esse
está já sub-representado, em função de sua
população, na Câmara dos Deputados. Eu terei que
atualizar esses projetos, porque os cálculos foram feitos com
base na população daquela época, e para incluir
também o Senado Federal. Eu quero propor que ocorra a redução
de um terço do Senado. Com a mudança nós teríamos
a eleição de um senador por estado a cada quatro anos.
Passaríamos a ter dois senadores por estado, como é nos
Estados Unidos, por exemplo.
O senhor vai reapresentar essas propostas?
Vou reapresentá-las no início da legislatura até porque
elas devem ser arquivadas, uma vez que não passaram por nenhuma
das comissões. Essas propostas ficaram enterradas. Eu vou atualizá-las.
De nada vale termos tantos parlamentares no país se eles estão
desvalorizados, desmoralizados, desconsiderados pela sociedade. É melhor
reduzir, perder em quantidade, ganhar em qualidade e recuperar a credibilidade.
Os paulistas reclamam que são subrepresentados na Câmara.
Na sua proposta, seriam mantidas as 70 vagas para os deputados federais
do estado?
O teto será 70, que é exatamente o atual número
de deputados em São Paulo. Eles não terão mais parlamentares.
Agora, a representação do estado é no Senado, e
não na Câmara. Na Câmara é a representação
da população. É por isso que não importa
o tamanho do estado, a quantidade de senadores é igual para todos
os estados. Roraima tem o mesmo número de senadores que tem São
Paulo.
O senhor tem apoios de parlamentares para essa proposta?
Da opinião pública. No parlamento, pouco. Há aqueles
que, no próprio parlamento, defendem. Há poucos dias mesmo
eu vi o senador Jefferson Péres defendendo a nossa iniciativa.
Nós temos que promover um reequilíbrio da representação
popular. Isso é essencial. O Ulysses Guimarães tentou fazer
isso na Constituinte de 1988, mas não conseguiu. Foi a única
vez em que ele deixou a presidência da Constituinte, ocupou a tribuna
para defender esse reequilíbrio da representação.
E não foi bem sucedido.
Mas não é preciso também reduzir o número
de assessores a que cada parlamentar tem direito hoje?
Isso é uma questão administrativa. Depende de quem assume
o comando da gestão. Eu acho que é possível reduzir
sim. Eu não posso interferir, mas é claro que sugerir é possível.
Na disputa à presidência do Senado, o PSDB vai
mesmo apoiar a candidatura de José Agripino?
Não há ainda uma decisão fechada. Isso ainda está sendo
avaliado. Se o Agripino for candidato realmente, deve contar com a nossa
solidariedade, mas isso ainda está sendo avaliado.
E existe possibilidade de o PSDB ter um candidato ao cargo?
Não. Eu particularmente tenho muito receio de que a tradição
seja desrespeitada, porque ela abre um precedente que pode se voltar
contra nós mesmos.
No caso, a disputa ficará mesmo entre o PMDB e o PFL?
Pela tradição, a maior bancada indica o presidente. Nós
só validamos a indicação do partido.
O ônus pela tentativa de aumento do salário recaiu
muito sobre a Câmara. Os senadores não foram poupados
disso? Por que se expuseram menos?
A pressão maior pelo salário se dá na Câmara.
O início do processo também. Está aí o motivo
de o desgaste ser maior lá. O Senado realmente é a Casa
revisora. O Senado deveria ter aguardado, não deveria ter se pronunciado,
deveria se resguardar, inclusive, para atuar como casa revisora.
O PSDB admite apoiar a reeleição de Renan Calheiros
caso o PMDB tenha a maioria no Senado na posse?
Não é que eu admita. Eu sou solidário ao José Agripino
pela qualificação do mandato que ele exerce, pela lealdade
dele como oposicionista, pelo brilho dele do parlamentar excepcional
que é. Mas há que se considerar que não cabe à oposição
promover nenhum tipo de aventura. É preciso avaliar se há condições
de enfrentamento. Se não houver, melhor respeitar a tradição
e deixar que o PMDB, tendo a maior bancada, indique. Mas isso tem que
ser avaliado pelo próprio José Agripino. E o que ele decidir
terá nossa solidariedade.
Como que deveria ser abordada essa questão do reajuste?
Eu creio que não é uma questão de mérito. É questão
de oportunidade. Nesse período, o Congresso não fez por
merecer um reajuste salarial. É claro que não se pode generalizar.
Mas a imagem do Congresso nesse período é a pior possível.
Aliás, temos os piores índices de popularidade da história
do Congresso. É o Congresso mais enxovalhado, comprometido pelos
escândalos, contaminado pela corrupção. Então
não é esse o momento de discutir salário, se é 0,1%
ou se é 91%. Não importa. Não é hora. Não
quero discutir quanto é justo receber um parlamentar. Acho que
temos de discutir essas questões, que dizem respeito à recuperação
da credibilidade. Quando o Congresso se afirmar melhor diante da opinião
pública, aí sim poderemos discutir a questão salarial.
E um dos quesitos que eu coloco é este: quantos devemos ser para
depois avaliar quanto merecemos receber.
Há uma espécie de divórcio entre a sociedade
e o parlamento hoje. O que o novo Congresso precisa fazer para se
reaproximar da sociedade?
Agindo com austeridade, cortando na própria carne, promovendo
a reforma estrutural que se exige. Nós trabalhamos a reforma do
Judiciário e não procuramos reformar a nossa própria
casa. A reforma política é fundamental também para
se instituir uma nova instituição pública no país,
mais respeitada, valorizada e acreditada pela população.
Numa autocrítica, quais foram os erros da oposição
nos últimos quatro anos?
A oposição cometeu muitos equívocos. O resultado
alcançado foi conseqüência muito mais do esforço
pessoal de cada opositor do que de estratégia e organização.
Faltou organização e estratégia à oposição.
Essa autocrítica nós temos que fazer e trabalhar no próximo
ano planejando a nossa ação, produzindo cenários
que possam permitir uma melhor repercussão dos nossos atos diante
da opinião pública.
Em que momento o senhor acha que isso ficou mais claro?
Acho que nós nos comunicamos mal, não só na campanha,
mas durante todo o mandato do presidente Lula. Eu proponho que se organize
melhor, que se profissionalize melhor a comunicação do
partido para que se abram espaços na mídia e a gente possa
se comunicar melhor com a sociedade.
O presidente Lula vai começar o mandato com a popularidade
em alta. Isso ocorre menos por mérito dele e mais por falta
de comunicação entre a sociedade e a oposição?
Exatamente. A oposição não teve a noção
de timing em determinados momentos. Eu defendi o impeachment do presidente
da República quando o seu desgaste chegou a ser significativo
diante de denúncias seriíssimas, com provas cabais de corrupção
no governo e participação direta e indireta do presidente,
sobretudo quando Duda Mendonça prestou depoimento. Nós
tínhamos razões de sobra para propor a instalação
de um processo de impeachment. Não posso assegurar que o impeachment
ocorreria, mas a oposição cumpriria o seu papel se defendesse
a instalação de um processo de impeachment naquela época.
Hoje, é evidente, esse assunto está superado, ninguém
fala mais nisso. Mas acho que devemos aprender a lição.
No Senado, em 2007, a tendência é que governo
e oposição baixem as armas?
No começo, embora seja continuidade, é um novo mandato.
Então, no início sempre há uma contemporização,
passa-se um voto de confiança e espera-se. Naturalmente nós
temos que continuar cumprindo o nosso dever. Acho que devemos ter competência
para distinguir o que é errado e o que é correto no governo.
Combater de forma implacável a corrupção, ser contundente
em relação a erros visíveis e ter grandeza para
apoiar e até aplaudir o governo quando ele estiver correto.
E, neste mandato, em que momento o senhor acha que o governo
acertou?
Há poucos dias, o presidente lançou uma medida que eu aplaudi,
quando manifestou a vontade política de conceder a trabalhadores
de baixa-renda a oportunidade da casa própria assumindo dois terços
das prestações com recursos do FGTS. Mas até agora
não houve implementação dessa medida. No momento
do anúncio eu aplaudi da tribuna e através da imprensa
a iniciativa do governo. Quando ocorre um fato como esse, nós
temos que apoiar. E depois cobrar a execução. Não
basta anúncio.
Nem no plano econômico o governo acertou?
No plano econômico, a meu ver, o governo é um desastre.
Consegue fazer o país crescer mais só do que o Haiti e
comemora. Nós estamos desperdiçando uma oportunidade preciosa
de crescimento porque a economia mundial viveu nesse período um ótimo
momento e nós temos de estabelecer parâmetros de comparação
com a realidade em que estamos vivendo e analisando o crescimento dos
outros países. A política econômica não permite
que o Brasil cresça. O país está amarrado, a estrutura
está superada. Daí a importância das reformas. O
fato de estarmos amarrados a estruturas esclerosadas é que impede
o país de crescer como os demais países emergentes crescem.
E o governo não tem como justificar esse estado de apatia da economia.
Nós estamos plantando para colher a médio prazo conseqüências
imprevisíveis. A ausência de investimentos em infra-estrutura,
por exemplo, sinaliza a possibilidade de um apagão logístico
a médio prazo. O país produzindo, vendendo e não
conseguindo entregar. É claro que a execução orçamentária é uma
lástima e o governo não conseguiu cria mecanismos que alavancassem
o crescimento econômico como a Argentina, o Chile e outros países.
O senhor foi um dos vencedores da primeira edição
do Prêmio Congresso em Foco. Qual a importância desse
tipo de premiação para a melhoria da atuação
parlamentar?
Eu acho fundamental que uma instituição com a credibilidade
do Congresso em Foco promova a valorização do Congresso
por parlamentares que procuraram dignificar o mandato. Para não
fazer da minha afirmação uma avaliação suspeita,
mas os parlamentares premiados se dedicaram – Pedro Simon, Heloisa
Helena, Suplicy, Jefferson Péres, Gabeira, Gustavo Fruet, José Eduardo
Cardozo. Todos aqueles que foram eleitos pelos jornalistas e depois pelos
internautas procuraram dignificar a função parlamentar.
Esse tipo de premiação trabalha contra a generalização
negativa, que é injusta e pouco inteligente porque desestimula.
Essa iniciativa estimula, porque combate a generalização
e distingue uns dos outros. Isso é fundamental. Na verdade, aqueles
que generalizam combatem a instituição e não o parlamentar.
O Congresso em Foco está na contramão dessa tentativa,
procurando valorizar a instituição em que pese o fato de
existirem parlamentares que à enxovalham. Não podemos,
de forma alguma, comprometer o processo democrático destruindo
uma instituição que é essencial para a democracia. É evidente
que para valorizar a instituição é preciso distinguir
e valorizar os bons parlamentares.